THE LIBRARY
OF
THE UNIVERSITY
OF CALIFÓRNIA
LOS ANGELES
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OBRAS
POÉTICAS E ORATÓRIAS
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OBRAS ^ '^
^t POÉTICAS E ORATÓRIAS
i^p. A. Corrêa
Garção 3
^
IMA INTKDDUCÇAO K NOTAS
j. A, DE AZEVEDO CASTRO
ROMA
TvrOGRArniA nos Irmãos Ckntknari
Via delle Coppelle, í^
1868
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A S. M.
O IMPERADOR D. PEDRO II
Senhor,
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^ Protecção concedida ás
?• lettrns no reinado de
?> V. M. I. é ííicto que nao
^ depende de averiguação ;
> está na consciência pu-
^ blica. Elle concorre com
^ tantos outros em abono
da solicitude, com que
^/^^^^^lí^ vos empcnhacs por tudo
quanto interessa o progresso do Brazil
c possa contribuir para o fazer hom-
'^.i'!^^
J!.
ii " ^
Y brear dignamente com as Nações civi-
t lisadas. t
* Nenhum commettimento tem sido %
cmprendido nesta vereda, que não en-
contre em V. M. I. o seu principal
f fautor e com encarecido louvor todos t
, .; . reconhecem que, onde quer que des- «j ^
ponte a scentelha do talento, está certo
de não perecer á mingua e de encon-
trar tão seguro conselho quão efficaz
auxilio. A popularidade de Augusto
dispensa entre nós a officiosa interfe-
rência de Mecenas.
Justiça será ainda accrescentar que
a amplitude dessa protecção se mede
por igual á elevação de um espirito *
aberto a todas as grandes ideias, ali-
mentado por sólidos estudos em va- i
rios ramos de conhecimentos huma- l',
nos, secundado além disso por uma .'-.
infatigável e assombrosa actividade,
que recorda a bella imagem de Shel- j^ij^í
ley, reproduzindo no seu Palias um
pensamento de Bacon :
Kings are like stars, they rise and set, they havc
The worship of the worid, but no repose.
Também não tem faltado a V. M.
a consideração devida a predicados,
que lhe reservão como testa coroada
%'4 i""-''*"
'»?
um lugar dos mais distinctos na his- ';
f toria do nosso tempo ; honrao-se os f
|H institutos scientificos do velho e novo ^•
l mundo de o contar em seu seio e nao jJ
'1' é isso mero cortejo alheio a homens da T
f sciencia senão pleno reconhecimento dos í
,. méritos de um confrade illustre. Gran- . \
'Is ^ 'f^
geastes entre elles uma reputação que
deve fazer o vosso orgulho e segura-
mente exalta o sentimento nacional.
Dedicando, pois, a V. M. I. esta
edição completa das obras de um dos
poetas, que no século passado maior
brilho imprimio ás lettras da Nação,
de que descendemos e a cujo influxo
não forão tão pouco extmnhos os nos-
sos primeiros poetas, não faço mais do
que prestar sincera e respeitosa homena-
gem ao monarcha, que com esclarecido
patriotismo c indefectivel devotamento
tem sabido cm um longo periodo reger
os destinos da pátria commum, dispen-
sando iguaes cuidados ao adiantamento
moral e ao bem estar material de seus
concidadãos.
De V. M. I.
suhãiío reverente c dedicado
José António de Azevedo Castro.
v.V?,.
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INTRODUCCAO.
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iNTi-;iM'i(.(;\k
y^^^ [•Tj" jONHECEM-SEJas Obras
de Pedro António Cor-
rêa Garção trez distin-
ctas edições.
A primeira , publicada em
Lisboa, 1778, seis annos depois da
morte do poeta, por seu irmão João
António Corrêa Garção, com o titulo
de Obras poéticas, contendo, porém,
^ igualmente escritos em prosa, Dis-
sertações e Orações, recitadas perante
a Arcádia ou alhures, traz a dedica-
tória ao Visconde de Villa Nova da
Cerveira, então Ministro do Reino. No
V^
Ú.
prologo allude o editor ;i tentativa feita J
^nm^^^^P^^
.*J#^^d*l.v.
para dá-la ao publico furtivamente e pede
desculpa « pela desordem e muitos er-
ros que nelhi descobrirão os intelH-
gentes, e que não foi possível com-
prehender na taboa das erratas. »
Em verdade nada menos de 370 emen-
das nella se contão. No magnifico mo-
numento erguido ás letras portugue-
zas pelo génio intelligente e perseve-
rante de Innocencio Francisco da Silva,
emitte elle a opinião que esta edição,
não obstante as suas deficiências e defei-
tos de todo o género, é ainda assim em
tudo preferível ás que posteriormente
se fizerão, porque alòm de poesias en-
cerra varias Dissertações e Orações, que
forão não sabe como nem porque omit-
tidas nas edições seguintes. Contem
o volume, afora as prosas referidas,
57 sonetos, 30 odes, 3 epistolas, i falia,
2 satyras, 3 mottes, 3 endechas, 2 di-
thyrambos, 2 cantigas, i romance hen-
decassyllabo e 2 comedias. ; X
I
— XVII
*
[il
I
A segunda edição foi impressa no
Rio de Janeiro em 1812 e consta de
dous tomos. Não tem dedicatória e o
editor alliviando a obra da parte em
prosa, aproveitou a taboa das erratas
da edição anterior, expurgando esta dos
erros na outra apontados. Conservou,
no entretanto, a mesma desordenada
distribuição das poesias; algumas alte-
rações, poucas e de somenos impor-
tância, introduzio no texto por conta
própria. No lugar competente das notas
direi em que consistirão.
Innoccncio não menciona esta edi-
ção, mas refere-se a uma publicada no
Rio de Janeiro em 1817.
É evidente o erro de data que facil-
mente se desfaz. A mesma referenci.i
ao numero de paginas dos dous volu-
mes, idêntico exactamente ao da edi-
ção de 1812, claramente o prova. Nem
haveria razão que explicasse essa pro-
ximidade de edições, quando entre a
'^^fe;=-i$l-^Ji/:-i^-s^
M
XVIII —
primeira e a de 1812, apezar de todo
o mérito do autor, medeiarão nada
menos de 34 annos. Sobreleva notar,
e este argumento me parece conclu-
dente, que no prologo da terceira e ul-
tima publicada em Lisboa no arino de
1825, pelos livreiros Martim & Irmão,
se diz ser conforme á de 181 2. Também
forão nesta supprimidas as prosas.
Suppunha o distincto bibliographo e
o declarou no excellente artigo, que a
respeito de Garção escreveo no seu Dic-
cionario, que muitas outras poesias este
deixara, que não forão impressas e se
extraviarão. Elle próprio affirma pos-
suir algumas inéditas, de que dera copia
a um descendente do poeta, que preten-
dia formar uma nova edição de suas
obras, mas que infelizmente nunca vie-
rão a lume. Fiz as maiores diligencias
*
a ver se conseguia obte-las. Forão todas ^1
baldadas. O martello do leiloeiro dis- ^
persára as preciosidades accumuladas, »1
ê
5í c^í.
XIX
sabe Deos á custa de que sacrifícios pelo
incansável escritor, e como pérolas des-
prendidas de valioso coUar correrão
pelo solo e desapparecerão.
Aquella opinião de Innocencio é aliás
partilhada por um notável homem de
lettras, de que com justa ufania se honra
Portugal. O Visconde de Almeida Gar-
ret em a nota á Ode O suicídio, publi-
cada pela prim.eira vez no Parnaso lu-
sitano assim se exprime: « Esta Ode
foi tirada de uma collecção de obras
manuscritas de Garção, que existio em
casa do Conde de Pombeiro ». (i ) Calou
o annotador as razões porque teria
deixado de opulentar o Parnaso com ou-
tras producções do eximio vate. Segu-
ramente não as colheo ás mãos. É o que
se pôde deprehender do laconismo da no-
ta, parecendo haver da poesia antes ras-
treado a origem do que lè-la tacteado.
(i) Obra cit., tomo 111, p.ig. 3:0.
"^í^^^è^^í^m^
U
..v.^í*J#!^^..v..
Também no dizer de José Maria da
Costa e Silva na livraria da casa do
Conde de Vimieiro tinhão existido
dous saccos contendo poesias de Gar-
ção, e entre ellas se achavão duas tra-
gedias originaes, Sophonisha e %_egu]o.
Innocencio, de quem tomamos a noti-
cia acha-a exagerada, sem comtudo con-
testar a existência de versos ainda não
impressos do poeta e memoria de ou-
tros, que de certo se perderão. Entre
estes cita uma satyra, accusada por Luiz
Raphael Soyé no prologo do seu poe-
ma, o Sonho, pag. 41, onde transcreve
o verso:
^
« Ao r.ibiJo furor Jo pedantismo »
confessando não lhe ter sido possível
descobrir mais cousa alguma de seme-
lhante peça. Provavelmente seria essa
que o erudito Snr Theophilo Braga
obsequiosamente me communxou ha-
ver visto em um manuscrito vendido
,><9 ;^5^ ^''^-,
em leilão á rua larga de S. Roque em
Lisboa no anno de 1883.
Autorisado competentemente a dar
cumprimento ás disposições de ultima
vontade de meu prezado amigo o D""
Agostinho Marques Perdigão Malheiro^
finado em 1881, eatre os copiosos ma-
nuscritos que legou ao Instituto histó-
rico e geographico do Rio de Janeiro e
forão outr'ora pertencentes d biblio-
theca paterna, deparei com um cujo
titulo aqui litteralmente transcrevo:
Coleção das milhares Poe\ias que não
correm ahinda impressas dos 'Puetas que
floresem presentemente em Portugal Juntas
pello cuidado de A CB USí em Lisboa ijój.
Folheando curiosamente o volume
que ao presente conta a respeitável
idade de cento e vinte annos, encon-
trei varias poesias inéditas do autor da
Cantata de Dido no meio de outras, que
a impressão já fizera conhecidas do pu-
blico. A orthographia nada tinha de re-
— XXII —
commandavel como acaba de ver-se do
titulo ; a cada passo lia-se ptietas, titt-
■vêis, ccase, dotice, epucha e outros quejan-
dos vocábulos, indicando tanto a pro-
funda ignorância grammatical como a
paixão poética do collector. Em todo o
caso é muito para louvar o paciente cui-
dado com que trasladou tão avultado
■numero de poesias, inclusive todo o
Theatro novo, com a declaração de ha-
-ver sido representado no theatro do
Bairro alto em 1766.
Esta preciosa descoberta suggerio-
me a ideia de publicar uma edição com-
pleta das producções do mais notável
dos fundadores da Arcádia, reunindo ás
conhecidas as inéditas do manuscrito
e arrecadando para o futuro livro as
dispersas em varias collecções de que
tinha noticia.
Sem demora puz mãos á obra. Aqui
•e alli com indicação segura fui col-
Jigindo as poesias estramalhadas e de
J^^-Mãk
l
cuja authenticidade não era licito du-
vidar. Servio-me de excellente bússola
o Diccionario hihliographico ; elle pró-
prio forneceo também o seu contin-
gente com o Soneto dedicado do Limo-
eiro a António Diniz e que o labo-
rioso collector, contra a opinião do
Snr Visconde de Correia Botelho, sup-
põe ter sido a ultima composição do
poeta, asseverando-me por seu turno
ultimamente o Snr Theophilo Braga que
o autor é o árcade José António Bri-
to, cujas obras inéditas estão na Torre
do Tombo.
Não me parecia, porém, bastante.
Sabendo pela divulgação que do facta
fizera o Snr Camillo Castello Branco
no seu Curso de litteratura porttigiceia,
achar-se elle de posse de vários ma-
nuscritos contendo poesias inéditas de
Garção procurei havê-los. Infelizmente
a rica livraria do eminente escritor ha-
via sido vendida em i88í. Pude com-
-IG^:
l<9 ' — =^-»%-
tudo obter o respectivo catalogo e lá
encontrei a pag. 73 na secção dos ma-
nuscritos sob n. 1865 a seguinte re-
ferencia :
« CoUecção de poesias portuguezas
de vários engenhos, deste e do presente
século juntas e recolhidas pelo secreta-
rio dos engenhos alheios, 3 tora. in 4, »
e em seguida a nota em itálico: Entre
muitas inéditas tem algumas de Corrêa
Garção.
Começou então uma verdadeira cam-
panha para a conquista deste novo Vel-
locino. Quantos se entrcgão a pesqui-
zas semelhantes conhecem as arduida-
des da empreza ; bem podem pois ima-
ginar a minha lida para deitar a mão no
almejado manuscrito, ou quando menos
para obter delle uma copia. Residente
no Rio de Janeiro todo o meu esforço
pessoal concentrava -se na correspon-
dência epistolar que n'aquelle intuito
entabolei para Lisboa; meio demorado,
— XXV —
tardio, provocando justas impaciências,
mas infelizmente único a que podia
recorrer. A minha viagem a Europa
em 1885 melhorou consideravelmente
as condições de investigação, em Lon-
dres achava -me mais perto do campo
das operações; eu próprio em ultimo
caso as dirigiria.
Assim em breve foi vencida a pri-
meira difficuldade, saber quem teria
sido o licitante do manuscrito da bi-
bliotheca de Castello Branco. Surgio,
porém, logo outra quiçá mais temerosa
e fatigante, a de conseguir abrisse o ac-
quirente mão delle. O bom do homem
supp07.-se na posse de um thesouro
magnifico e arrogante entrou a supputa-
lo a peso de ouro. Graças, entretanto,
a obsequiosa intervenção de estimáveis
amigos, a quem aproveito a occasião
para testemunhar o meu reconheci-
mento pela tfficacia de seu concurso,
pude encontrar-me com o primeiro vo-
<lJ t.
?.^^^M^_
lume dos trez arrolados no catalogo já
referido.
Também era esse o único, segundo
me foi asseverado, que continha compo-
sições de Garção. As inéditas todavia
não abundavão; com excepção de trez
sonetos e outras tantas orações tuJo o
mais constava das collecções impressas.
O que, porém, contribuia para dar a
meus olhos inapreciável valor ao ma-
nuscrito era o facto de haver sido todo
elle copiado e annotado pelo Cónego
da Sé de Coimbra, Manoel de Figuei-
redo, que em um prologo panegyrico
explica o modo como obtinha as pro-
ducções do poeta. Não me parece inop-
portuna a sua integral transcripção e
a incluo como se acha no alludido vo-
lume. Alguns trechos desse prologo fo-
* rào aliás insertos no Curso de litteratura
porhigueia do Snr Camillo Castello
Branco.
« Esta collecção de composições ora-
JH
^"^tf
torias e poéticas tem sido o trabalho
e cuidado de alguns annos. Corydon
tão digno entre nós de nome eterno,
como foi entre os Romanos, não sei
porque occulto mysterio era sobrama-
neira difficil em communicar os seus
escritos. Conservava-os como moeda
rara em si com summa avareza, espe-
cialmente depois que a critica indis-
creta se atreveo a riscar-lhe parte de
sua terceira bellissima oração. Não sof-
freo que uma penna atrevida e imper-
tinente desfigurasse suas excellentes
it'iias, depois que vencendo os impor-
tunos rogos da Corte, se resolveo a con-
sentir na impressão da maravilhosa in-
vectiva contra os traidores da pátria.
« E' certo que só a prevenção que
ainda dominava certos génios austeros
^. e atrabilarios podia achar que emen- ^
i, ; dar em uma tão inimitável composição. r}'
"i : « Nas mesmas emendas até se deixa ^r
Jl \ entrever que a mão que as fez era ?
I
— XXVIII
muito falta da politica que reina con-
forme a constituição e o governo dos
estados. O pastor teve a honrada con-
stância de frustrar antes a espectação
publica do que engana-la com partos
alheios.
« Os lugares notados e supprimidos,
que vão indicados na nota seguinte (i)
mostrão bem que a penna emendadora
conhecia muito fracamente a força dos
pensamentos exprimidos. Estes são os
desgostos que enfraquecem e desanimão
um espirito que desejando sacrificar tudo
pela pátria, sempre reserva a honra c
o entendimento. A Arcádia que ouvio
Corydon detendo o Alpheo com sua
melodia, chora hoje sem remédio a sua
perda.
« Portugal sentirá sempre não conhe-
(i) Ao sopé de cada uma das passagens rt- C,
spectivas da Oração VIII a p^g. jéz distribui as ^
niodific:!(ões da critica para mais fácil apreciação.
..^^r^A^?..>.
^Â
cer a fundo um pastor que tanto lustre
deo a seus amenos campos. As musas
lastimar-se-lião que os dissabores e as
angustias de animo suííbcassem um gé-
nio verdadeiramente poético.
« Amava o grande cothurno, e se
a Nação quizer contar a Horácio e So-
phodes entre seus poetas, não achará
outro mais digno que Corydon. A li-
ção e o génio produzem só de séculos
a séculos estes raros phenomenos. Suas
Odes serão o modelo do grande e do
sublime, e suas Orações sustentar-lhe-
hão dignamente um distincto lugar en-
tre os bons Gregos e Romanos, ou seja
para a pureza da phrase, ou para sua
natural energia e viril estylo. Milagre
raro unir-se o estro e transporte dos
poetas com a fncil e numerosa lingua-
gem dos oradores. O que é de Cory-
don é na ^'erdade admirável.
« A's diversas copias se deverão at-
tribuir alguns erros, comtudo em nada
D
-.v.?-^Ks
— XXX —
substanciaes. Deve advertir-se que sendo
as primeiras duas Orações transcriptas
dos seus próprios originaes se cuidou
muito em fazer conservar no traslado
a mesma ortographia. O autor não tinha
nella systema uniforme. O mesmo pro-
jecto de que nunca apparecessem era
publico, os fazia ter escritos com summa
negligencia; e de modo que foi neces-
sário ter grande uso de sua lettra para
advinha-los. Porém com trabalho tudo
se vence.
< Lê e medita ; goza os fructos dos
raçus innocentes roubos. Para agora
leres, foi necessário que mão domestica,
a quem nada se podia occultar, fosse
a mesma que generosamente infiel me
desse em summo recato algumas das
composições que aqui vão copiadas. »
JU Por aqui veriíica-se quão retrahido
hl seria o poeta em communicar as suas '
I producções. Essa reserva explica-se me- ;
^ Ihor, cuido, pelo resentimento prove- »'
— XXXI —
-s e>-
niente da critica, í^einis irritalnh vatum,
do que por natural disposição de es-
pirito. Não consta fosse de humor con-
centrado, antes a affabilidade de ma-
neiras, com que o descrevem alguns,
e o tom zombeteiro de certas poesias
nos fazem representar um Garção de
génio alegre e expansivo. Talvez se
deva attribuir esse retrahimento a outra
causa ; sabe-se que costumava polir ad
iingaem as suas composições, mas sem
a revelação do cónego, ignorava-se que
fosse máo calligrapho. Como certo per-
sonagem que dizia a respeito da intel-
ligencia de sua péssima lettra - em-
quanto escrevo Deos c eu, depois... só Deos
- elle próprio sem duvida se esquivaria
de divulgar aquillo, que lhe poderia
trazer enfadonha senão impossivel re-
visão.
Figueiredo recebendo da esposa de
Garção os originaes que ella firtivn-
mente lhe ministrava seria fiel na co-
■>K.
siv:v :..0..^;^P9£e^
— xxxir —
pia ? Interpretaria devidamente as ga-
ratujas do amigo, de que se desvanece
ter grande pratica ? A mesma pressa
com que provavelmente formaria os
traslados, não daria em resultado um
trabalho defeituoso ?
Todas essas conjecturas são admis-
síveis. Elle mesmo aliás nos previne
contra erros de copias, não suas, está
bem visto, mas de outrem. Declara-as
todavia em nada substanciaes. Esque-
ceo-se no emtanto de nos esclarecer
sobre as notas ou emendas, com que
ataviou varias poesias e de que em breve
me occuparei. Taes annotações affec-
tão a própria substancia de ceríos ver-
sos, modificando-lhes inteiramente o
sentido.
Avaro na divulgação das composi-
ções entre os amigos e admiradores de
seu génio, Garção o foi ainda mais
em dá-los a lume. Em vida apenas se
imprimirão, segundo Innocencio, as
.<^'%®^^-s.-
— XXXIII —
Odes denominadas Sncras, as quacs
com excepção i!a dedicada a St» Ubal-
do, que não apparece no manuscrito,
occupão nelle o primeiro lugar depois
das Orações. Aquellas mesmas Odes
entrarão de encambulhada com outros
versos de vários autores editados por
Francisco José Freire no voluminho
intitulado: Santos patronos contra as tem-
pestades de raios.
Poder-se-hia com melhor fundamento
attribuir a outros motivos, que não me-
ramente a avareza do poeta o seu af-
fastamento da imprensa. Porventura
carência de meios. A prolongada e
ruinosa demanda, de que fallão os
biographos, lh'os teria escasseado para
uma empreza, que n'aquelles tempos
deveria exigir elevada somma. Havia
além disso a Real Dv(e:^a Censória, sem
Ij, cuja permissão nenhuma obra podia
ser publicada. EUe sahira já uma vez
tão escalavrado da critica, que com
— XXXIV —
justo orgulho se revoltaria á ideia de
submetter o fructo de suas vigílias,
composições trabalhadas com tamanho
esmero e carinho, á rasoura manejada
por mãos ineptas e odientas.
Privada a posteridade da fortuna de
possuir uma edição revista pelo pró-
prio autor, adornada das louçanias de
que só elle seria capaz de revesti-la,
e reduzida a que poderião offerecer os
enthusiastas de um dos mais notáveis
mestres da poesia e da lingua portu-
gueza, servirá, espero, a singeleza do
intuito de attenuante á temeridade com
que me abalancei á presente. Os com-
petentes, confesso, melhor farião ; o
monumento que erigissem á memoria
do poeta, precedido de soberbo pórtico,
seria esculpido por fino e delicado bu-
ril que não pode manejar o rude ai- ^
vanel. ij
No estudo que o Snr Rebello da Silva r
dublicou no Panorama sobre Toetas da !;.
c;'.
Arcádia, depois de haver analysado com
grande largueza de vistas e superior sen-
timento poético n'aquelle seu próprio
estylo em que a sobriedade corre pa-
relhas com a elegância, os escritos de
Corydon Erymantheo, cuja lyra, « vi-
vird nos tempos, porque ninguém, igual
a elle soube nunca unir a pureza da
arte á elevação do sentimento, nem tra-
duzir em carmes mais viris o destino
sublime do homem, que a fortuna não
espanta, e só á mão de Deos se do-
bra » termina desta forma :
<c Uma edição expurgada dos crros"
que desfeião as que existem e augmen-
tada com o precioso pecúlio das obras
ainda não publicadas, seria um serviço
relevante ás lettras e um valioso do-
cumento para a historia delias. » (i)
Assim compulsando os inéditos a que
k (i) Panorama, vol. IX, i" da 3» serie, p.ig. 3 5 5.
■.^;
''^èl^^i;^^,^^/,^ :.^Wtt^
¥ . ■
— XXXVl —
-9 «-
me tenho referido, pensei em prestar
algum serviço ás lettras, sem desconhe-
cer, não preciso repeti-lo, resultaria a
sua relevância de outra penna que não
a mediocre, que a boa vontade servida
pelo acaso me collocou nas mãos. Esta
edição é completa porque comprehende
mais que tqdas as outras, embora nella
se não encontre tado quanto compoz o
poeta. Não poupei esforços, diligencias,
sacrifícios, importunações a amigos e
extranhos, elles que o digão, para conse-
guir mais, para conseguir tudo, mas foi
quanto pude alcançar. Contêm em defi-
nitiva, mais que as anteriores as seguin-
tes peças, inéditas ou recolhidas de pu-
blicações extranhas: 7 sonetos; 6 odes ;
1 epistola ; 5 orações.
Aqui caberia tocar em um fraco do
nosso Árcade. Elle pagou o tributo ao
seu tempo exercitando a veia no género
picaresco e nella escreveo alguns so-
netos. Faço-o tão somente para decla-
^o <^
rar que os exclui rigorosamente aíãn de
não macular o livro. Se o latim dans les
niots brave Yhonnêteté, com o portuguez
não succede ontro tanto; as mesmas
pinturas licenciosas exigem de pre-
ferencia o pincel de Lafontaine ou de
Montesquieu para que possão ser to-
leradas; a imagem envolta em ténue
gaze offende menos os sentidos do
que a expressão baixa e obscena; esta
repugna sempre ao bom gosto e d de-
licadeza.
Precedente ao prologo do manuscrito
em breve nota advertia o autor das
Noites de Insomnia aos futuros editores
dos versos de Garção, que tivessem em
conta as alterações nelles feitas pelo
poeta constantes d' aquelle volume, e
que não se achavão nas edições publi-
cadas posthumamente.
Esta advertência veio lançar-me em
grande perplexidade. Em verdade mui-
tas das poesias copiadas continhão no-
-<j,
/-^jf^yy
XXXVIII —
tas em baixo da pagina d guisa de emen-
das ao texto. Examinando-as, porém,
acuradamente verifiquei, ora que taes
notas se identificavão com as collec-
ções impressas, ora que a identidade
estava no mesmo texto. Procurei sahir
do embaraço, appelíando para o pa-
recer do muito competente e abalisado
escritor a quem pertencera outr'ora o
manuscrito. Na resposta com quê me
obsequiou e se encontrará no prefacio
das Notas, formulou clle varias con-
jecturas, que todavia não conduzião
a uma solução definitiva, e assim pa-
receo-me prudente alvitre respeitar o
texto das antigas edições e oflferecer
como Variantes as discrepâncias do ma-
nuscrito.
De posse do material accumulado
pelo modo como acabei de expor, pro-
curei confia-lo ao prelo e !isonjeio-me
em acreditar, que os amigos das boas
lettras não me levarão a mal, por ha-
ver para assim dizer vestido o nosso
poeta de roupagem moderna. Sahio um
livro garrido e duplamente attrahente.
Os bibliophilos tem este ponto de
commum com os devotos de Baccho ; em
finos e scintillantes crystaes mais deli-
ciosos parecem a estes os vinhos fa-
voritos. Também aquelles maiores en-
cantos achão nos autores predilectos
impressos em edições nitidas e elegan-
tes. Apresso-me, porém, em o declarar,
para que se fôr achado em culpa por
isso, recaia toda ella sobre o verdadeiro
delinquente, que a escolha dos ornatos
alguns dos quaes originaes e expres-
samente desenhados para esta obra, bem
como a das tintas é exclusivamente mi-
nha. A' illustre Nação do poeta pensei
prestar homenagem desfraldando no
vestíbulo das Obras as cores de sua glo-
riosa bandeira.
Passar da historia do livro para a
do autor pareceo-me complemento in-
c^
..^$-ãm^^^.^
— XL —
-4 ^
dispensável da presente Introducção. E'
certo que as edições anteriores forão
publicadas com esta lacuna, sobre sen-
sível notável principalmente na pri-
meira, devida aos esforços de quem
pelos próximos laços de parentesco
possuiria sem duvida indisputável com-
petência para preenchê-la. Por outro
lado não gozou Garção da fortuna de
encontrar como Johnson um dedicado
Boswell, cognominado um tanto ironi-
; camente por Macaulay o primeiro dos
biographos, apto para descrever as mais
insignificantes particularidades de sua
vida, ou ainda a de Goethe a deparar-
: lhe algum fiel Eckermann que solicito
: lhe registrasse as palestras, onde pro-
vavelmente se ouvirião as primicias d'a-
quellas composições, em que erão cele-
^ brados a calva do Padre António Del- ^
Jj i phim, os trages de Francisco Raymundo h
'. ; ou os gestos e compostura do bom : V
.*» : Mardel.
•^^^íí-^-
— XLI —
*
Accentúe muito embora o Cónego
Manoel de Figueiredo o retrahimento
de Corydon, elle teve uma data ; an-
terior aquella em que a critica muti-
lou varias passagens de sua Oitava
Oração é bem de crer, que nas galho-
feiras reuniões da Fonte Santa outra
cousa se fizesse alem de cochichar e
tomar chá. Se d' ahi não sahirão to-
dos os Sonetos, com certeza muitos, es-
pecialmente aquellcs em que se punha
ião repetidas vezes á mostra a calva
do Padre António, procederião dessa
origem. O tom o está claramente reve-
lando.
O que se sabe em summa da vida de
Garção é muito pouco. O próprio facto
capital de sua vida, a causa da prisão,
digão o que dicerèm, ainda parece con-
servar-se envolto nas sombras do mys-
terio. Neste ponto temos muito que
invejar aos Francezes, que do seu Mo-
liòre, por exemplo, conhecem até o nu-
/^
?m>'f^
— XLII —
mero e o nome dos criados, sem es-
quecer o da cosinheira, a quem lia as
suas inimitáveis comedias, a titulo de
ensaio, nem ainda ignorão a relação e
natureza das divi das com que se finou.
Consultei as fontes apontadas por In-
nocencio da Silva no artigo do Diccio-
nario e quasi nada mais achei que res-
pigar, (i) Fica pois sendo o excellente
estudo do bibliographo a principal base
para o rápido bosquejo da vida do des-
venturado poeta. Se porventura elle
vivesse no nosso tempo não passaría-
mos sem a sua autobiographia; per-
(l) Essas fontes for.ío :
i" O estado histórico que sobre os Poetas
da Arcádia publicou Rebello da Silva no vol. 9
do Panorama a pag. 330, 333, 5^6 e 355.
2° Os folhetins contendo o bosquejo bio-
graphico de GarçSo por seu bisneto Pedro Sto-
ckler Salema GarçJo impressos em os ns. $37
c $38 do jornal luipreusa e Lei.
% «TiV
mittindo-lhe os lazeres talvez apresen-
tasse ao publico curiosas Memorias. Em
falta do que se deseja, é preceito con-
tentarmo-nos com o que possuimos.
Contentem-se, pois, também os leitores
com o que lhes pode offerecer esta
minha compilação, sem outro fito mais
do que o de completar a obra e me
dispensem toda a sua indulgência.
Nasceo Pedro António Corrêa Gar-
ção na cidade de Lisboa, famoso berço
de assignalados talentos, aos 29 de abril
de 1724. Tão débil, porém, era de com-
pleição que, receiando-se por sua vida.
3° Um artigo de José Maria da Costa e
Silva publicado a pag. 3 5 j e seguintes, tomo 3°
do Ravialheíe,
Não omittirei tâo pouco o subsidio minis-
trado pelo Ciitso de lilteratura portuguesa do Snr
Camillo Castello Branco sobre o ponto contro-
vertido da causa da prisão do poeta. (Obra cit.,
t. 2°, pag. 54 a 38.)
I
i
— XLIV —
-4 C-
foi mister baptisa-lo em casa. Assim o
reza o respectivo assentamento nos li-
vros da freguezia de N.Sra doSoccorro,
onde residião seus pães, o cavalleiro
fidalgo da casa real, Felippe Corrêa da
Silva, official maior da Secretaria dos
Negócios Estrangeiros e D. Luiza Ma-
ria da Visitação d'Orgier Garção, se-
nhora como indicão esses nomes de
origem franceza, de quem o filho com
o appellido que devia tornar illustre,
parece haver herdado o scintillante es-
pirito peculiar áquella nação.
Não supponho comtudo que a debi-
lidade com que veio ao mundo, afTcc-
tasse prejudicialmente a snude do fu-
turo fundador da Arcádia. Não consta
lhe impo:£esse os mesmos sacrifícios que
converterão, por exemplo, o historiador
Prescott em um heroe de soffriraentos ji;
physicos, ou que o constrangesse a en- ;jj
1' cerrar, como o sábio Darwin, a vida ^
« dentro de férreas e inflexíveis linhas, V
^n'
1.1%
— XLV —
de que dependeria a sua duração, ver-
gados ambos ao peso de males lutando,
porém, energicamente para conservar
a existência que os achaques e enfer-
midades disputavão á sciencia.
Judiciosamente Goethe, e todavia era
elle próprio brilhante excepção tal, que
no dizer de um de seus biographos
a mesma morte respeitara a belleza
physica, fazia notar em suas Conver-
saç es a singularidade da natureza hu-
mana, a divertir-se em alojar os espíri-
tos elevados, os possantes génios dentro
de humildes envolucros; as grandes ca-
beças sustentadas por franzinos corpos
impressionavão aquella prodigiosa ima-
ginação acostumada a todas as opulên-
cias. Não é pois sem razão que o vulgo,
como formula para quejandas aprecia-
ções, costuma dizer que os grandes ho-
mens medem-se da arcada superciliar
para cima.
No emtanto se Garção não gozava
^nn..^.-}.^^m^'
èí
— XLVI —
. e-
de saúde precária e apenas ha noticia
de uma grave enfermidade sua, aquella
que valera os calorosos agradecimen-
tos ao Dr. Henriques de Sequeira no
Soneto XLVIII, a descripção que faz
do seu physico parece denunciar a do-
minante fraqueza da origem. A criança
rachitica tornou se um homemzinho
trigueiro senão pallido, verdadeiramente
uma má figura na sua mesma phrase,
apezar de com o vezo próprio dos ho-
mens baixos empertigar-se todo ao ca-
minhar.
Elle é o próprio que o manifesta na
Sátira I :
Com teus grandes canhões empertigado,
Inda que baixo e fasco, vais cuidando,
Que repario em ti, que toJos dizem.
Com o dedo mostrando a mi figura...
E' este com efieito o único retrato
que possuímos do poeta, incompleto
como bem se vê, não satisfazendo
— XLVII —
-<j e
toda a nossa legitima curiosidade. Cui-
dei muito em adornar este livro com
a physionomia do mallogrado vate,
mas todas as diligencias empregadas
neste sentido forão baldadas Em seu
tempo Daguerre ainda não havia ap-
parecido pedindo a collaboração da luz,
para fixa-la no vidro ou no papel. Ar-
tistas que podessem fazê-lo em pin-
tura a óleo não haverião de certo
muitos, e elle recuaria ante a despeza
que deveria ser grande, quando por
acaso lhe viesse á mente a ideia de
retratar-se. Talvez não fosse difficil
em época mais remota a algum hábil
pintor, ajudado pela reminiscência de
contemporâneos, imprimir na tela as
feições do poeta. Muitos retratos de
grandes escritores da França, M™*" de
Sevigné e Molière entre outros, são
como é sabido, pura fantasia : a au-
thenticidade incontestada de dous ou "^
trez salva todavia a verdade histórica. ,1
■*
CÍ
''^miQm^w
'^/^^m/g^"
*
6:
— XLVIII —
Destinado á magistradura cursou Gar-
ção os estudos chamados de humani-
dades nas aulas dos Jesuitas em Lis-
boa, aperfeiçoando-se no conhecimento
das linguas franceza, ingleza e italiana,
passando depois a matricular-se na fa-
culdade juridica da Universidade de
Coimbra. As margens do Mondego fo-
rão, como o confessa na Ode XXIV,
as primeiras inspiradoras de sua musa
e também o theatro dos primeiros amo-
res ; mas a frequência na Universidade
interrompeo por versatilidade de génio,
ou motivos outros que não são conhe-
cidos.
A supposição externada por um dos
biographos (i) attribuindo a retirada
ao fallecimento do pae que considera
prematuro, me parece destituída de fun-
(l) o Siir Pedro Stockler Saltfina Garçio no
folhetim da Imprensa e Lei n" 537 de 4 de ju-
nho de lil $5.
.-iX^ ^^\S?T^
damento razoável. Elle perecera por
occasião do terremoto de Lisboa em
i» de novembro de 1755, como se
canta no Soneto LIV, mas já a esse
tempo o casamento emancipara Gar-
ção do pátrio poder; cinco annos an-
tes desposara D. Maria Anna Xavier
Froes Mascarenhas de Sande Salema,
de illustre estirpe, e que lhe trouxera
em dote muitos bens da fortuna, en-
tre elles a propriedade do officio de
escrivão da receita da Meza do Con-
sulado geral da entrada e sahida da
Casa da índia.
Aquelle triste successo não se pode
pois dizer prematuro para Garção, que
contava então 51 annos de idade. Ava-
lia-se bem quão doloroso fora o golpe
vibrado pelo pavoroso desastre, mas a
experiência da vida já o devera ter
fj, bastante doutrinado para dispensar um
,. guia, que lhe servisse igualmente de
protector e amparo.
'^^m
— L —
Na Ode IX, dedicada ao Capitão de
mar e guerra Camará Manoel, onde o
poeta em primorosos versos faz a re-
senha de diversas profissões sociaes
para concluir :
Eu, porém, nada quero, nada estimo
Mais que a dourada lyra,
parece desanimado, attentando no di-
latado numero de annos a vencer, para
galgar os altos cargos da magistratura :
Honra quc chega
J.i quando as câs alvejJo
Na myrrada cabeça.
E' muito provável que essa longa
perspectiva, aguilhoado então de juve-
nil ambição, fosse causa senão pretexto
para o desviar da carreira, que indubi-
tavelmente saberia honrar, contribuindo
para formar o typo do antigo magis-
trado portuguez para quem Deos, a lei
^~^rt^\'^-;x^.^
K-1
à
e o rei constituião outros tantos sym-
bolos sacratissimos.
Desses incompletos estudos jurídicos
lhe viria naturalmente a confiança na
defesa de seus direitos contestados em
acção judicial, que lhe arrebatou a maior
parte dos bens. Ou o leguleio se toma-
ria de amores pela chicana e como tan-
tos consumiria grossas sommas em ali-
menta-la ? Nada se sabe a respeito, como
também ignora-se a causa do litigio.
O Snr. Rebello da Silva refere que o
poeta chegara a grande estado de pe-
núria, em virtude da perda de uma de-
manda e da consequente penhora, po-
dendo apenas escapar da execução a
propriedade rural no sitio denominado
Fonte Santa, (i)
Q.ue as necessidades erão extremas
e a miséria penetrara com a sua gélida
(l) Poetis da Arcádia, Panorama. Tomo IX,
, pa^, 332.
"^n^^^^i^^^
^.^i^Ú^^:^^.^
catadura na mansão do poeta, parece
não restar duvida. De trechos das mes-
mas poesias poder-se-hia compor um
poema de angustias e lamentos. Ora
são os credores que o perseguem, não
por sommas avultadas, mas por essas
pequenas importâncias, que os France-
zes denominão deites criardes, e das
quaes Rousseau tinha horror; contas
do logista, do alfaiate, do barbeiro, que
o fazem exclamar na Ode XVIII dedi-
cada ao Coronel Macbean :
Pode mais um credor que um elephante,
NJo ha tromba mais dura que uma feria,
E se queres vencer os Alexandres
Eugenios e Turennas
Nio busques grevas, murriões, pavezes,
Pôe-lhe diante o mercador c*o resto,
O alfaiate, o barbeiro ou um alcaide
Verá» como desmaiio.
Ora são os meirinhos que ferozes o
procurão no intento provável de alguma
.^^'^
'ã^'^'^-
— LIII
execução judicial e de quem elle, re-
lembrando-se das rabulices aprendidas
na aula de Direito, feliclta-se de eludir
contando ao amigo Dr Manoel Mon-
teiro:
Feliz, se consigo com dous rasgos
Da penna, que maneio tào ligeiro,
Escapar aos malsins que me pesquizJo.
Outro amigo, o Dr João Evangelista,,
que segundo a epigraphe do Ms.de 1767
á Epistola I, o convida'ra a ir ao Mi-
nho, onde tinha um tio que lhe que-
ria deixar um prazos, recebe a confiden-
cia dos apuros em que vivia Garção des-
criptos com resignada melancolia nes-
tes versos:
Mas de poeta, amigo, só me resta
Desastres e misérias ; fiUios rotos,
De valadio o tecto, a vinha calva.
Caseiros, architectos e criados
Mais duros que os catastas e Perillo.
nm^^mm^
/^j^^i
®
— LIV
O Nádegas que %'iste esfrangalhado,
A passapello vir da pobre aldeia ;
Porque lhe devo já uns tantos mezes,
Me ralha e me governa focinhudo.
Dize-lhe que sou doudo, que desprezo
Opulentas heranças ; que inflexível
Com semblante sereno e socegado,
Mio me cansa soffrer a mão pesada
Da fome e da penúria ; náo me espanta
A carregada nuvem da desgraça,
Que aos olhos me fuzila ha já dez annos.
Mas esta scena súbito se muda
O Chico mostra rotos os sapatos ;
Uma quer lenços, outra quer roupinhas ;
O Nádegas dinheiro para a ceia ;
A porta está batendo o alfaiate.
Este quadro de misérias e necessi-
dades não se pode suppor carregado
fí pela exageração poética; a verdade res-
^ sumbra da singeleza de suas mesmas
Ir cores. Não é de crer, porém, que sem-
6.
(sê ^ t
>.?,5íS^.Ç^
pre assim fosse; o poeta teria visto dias
felizes e serenos em que a sua musa
ora grave e magestosa, ora sarcástica e
picante, ora petulante e galhofeira, lhe
inspirava aquellas bellas odes, frisantes
satyras e elegantes sonetos, que não nos
fartamos de admirar, e como tudo o que
sahe da mão do génio conservão ainda
hoje o cunho da actualidade.
Não é possível no emtanto precisar
esse decennio calamitoso a que seallude
na Epistola II. Ella não traz data, como
não a tem nenhuma das composições
poéticas, bem diíTerente das em prosa,
determinadas pelo dia e anno do seu
apparecimento. Sabemos somente que
aos proventos do emprego de Escrivão
daMeza doConsulado, reunio o encargo
de redactor da Gaveta cie Lisboa de
22 de julho de 1760 a 8 de julho de 1762, „,
[■ seguramente de fraca retribuição, ofíe-
'i' recendo um e outro insufficientes reditos r
i» para manter-se. '-^
íí^ ^_S
""'^mmm^M^m^
i K^if^ '^■:i.
.^.^iéú^M^^-^''^
Seja, porém, como fôr a mão da des-
graça pesando sobre a sua existência
não lhe comprimira a imaginação, nem
suffocára os raptos do estro ; a musa
adejava livre, graciosa, ligeira, entor-
nando ondas de poesia em diversos gé-
neros, em variados metros, zombando
do mesmo infortúnio que tentava ani-
quila-la.
Assim em 1754 ouvimo-lo recitar na
Academia dos Occultos, o sisudo poema,
como o classifica o Snr Camillo Cas-
tello Branco, da Falia em que o Du-
que de Coimbra Infante D. Pedro rejei-
tara uma estatua; em 1757 vemo-lo
reunir-se a António Diniz da Cruz,
Theotonio Gomes de Carvalho e Ma-
noel Nicoláo Esteves Negrão para fun-
■darem a Arcádia Ulysiponense, onde to-
mou o nome de Corydon Erymantheo;
o periodo de 1757 a 1770 é preenchido
com as "Dissertações e Orações perante
a Arcádia ou outras assembléas; em ja-
(2fo (S t Cv ^
m
^^^Mê^'^
neiro de 1766 faz representar a sua pri-
meira comedia o Theatro Novo. Tudo
em summa indicava a actividade de um
espirito infatigável, e com taes disposi-
ções é fácil prever quão largamente
ainda teria de dotar cora os recursos
de seu génio as lettras pátrias, se re-
pentinamente não o detivessem na glo-
riosa carreira. Em a noite de 9 de
abril de 1771 foi preso na própria re-
sidência por virtude de um Aviso da
Secretaria do Reino expedido ao rege-
dor das justiças e conduzido á cadeia
da Corte, onde permaneceo no segredo
durante oito mezes inteiros.
Entrar em uma prisão é penetrar nai
trevas. Victor Hugo descrevendo nas
Choses vties a visita que fez á uma delias,
diz que ahi o ar não é mais ar, o dia
não é mais dia. Barrotes de ferro, ex-
clama o celebre escritor, tem portanto
algum poder sobre essas duas cousas
livres e divinas, o ar e a luz! «v
— LVIII —
-9 fr-
Aqui a escuridão do cárcere conden-
sada sobre a figura do desventurado
Garção se projecta sobre o mesmo
facto, que a elle o arrastara. Qual o seu
crime? Que desvario teria offuscado
aquella mente, que vemos tão judiciosa
em seus versos ? Que força teria im-
pellido fora do caminho do dever quem
tão formosos cânticos entoara á vir-
tude? Ninguém o soube até hoje di-
zer com certeza. Bracejão os biogra-
phos em um mar de conjecturas e hy-
potheses; cada qual conta a historia por
diverso modo, reportando-se á tradição
oral, ordinariamente defeituosa.
Comtudo o Snr Camillo Castello
Branco em duas estimáveis obras suas (i)
pretende assignalar a verdadeira causa
da prisão de Garção, tendo bebido a in-
(i) Curso de lill. porl., tomo a", pag. i8l
a 184, O perfil do Marque^ de "Pombal, pag. 147
a 153.
fl^^^^^^-T^,^
— LIX —
-9 -fr-
formação, segundo refere, em uma nota
do Cónego Manoel de Figueiredo no
seu commentario ao soneto, que elle
diz inédito, mas não é, e assim co-
meça :
Estavio as irez Graças penteando.
Essa nota deverá achar-se em outro
manuscrito, que não aquelle a que me
tenho referido, copiado pelo Cónego e
outr'ora existente na livraria do emé-
rito escritor. Neste nada encontrei so-
bre o assumpto. Quanto ao soneto é
o mesmo que recita Gaspar Picote na
scena XVI da AssembJéa e pode ser lido
a pag. 395 deste livro.
Sem faltar á consideração que me
merece tão respeitável autoridade, farei
patentes dentro em pouco as hesitações
em que ainda labora o meu espirito, e
conduzem não a contestar a fonte da
informação, mas a duvidar de sua au-
thenticidade. Por agora cabe-me expor
*
(ê
■^W5?M#^g3-^^
— LX —
as differentes versões colligidas por In-
nocencio cotejadas com a sua judiciosa
critica.
Assim temos em primeiro lugar Sane,
ou o autor das notas appensas á sua
traducção das Odes de Francisco Ma-
noel, o qual pretende que o Marquez
de Pombal irritado por causa de uns
artigos pubblicados na GaT^eta de Lisboa,
cujo redactor era então Garção, o man-
dara em castigo encerrar em um cala-
bouço. A suspensão desse periódico,
data, porém, de 1762 e não é crivei
que a cólera do grande ministro ficasse
sopitada durante nove annos para tão
serôdia explosir, quando era fácil ao seu
poderio a punição do temerário, logo
após a offensa ou o atrevimento.
Segue-se o Visconde de Almeida Gar-
ret com uma refutação substitutiva da
historia, que chegou ao seu conheci-
mento. « Contão, diz elle, que certo
Lovelace alfacinha da amizade de Gar-
&J<1^-
— LXI
ção, querenJo escrever a uma menina
ingleza a quem galanteava, pedira ao
poeta que lhe trasladasse para a lin-
gua da bella os seus lusos namorados
requebros. » A destinatária da carta
foi mostra-la ao pae e este ao Mar-
quez de Pombal, que por conhecimento
próprio ou denunciado da lettra, man-
dou prender o poeta. Esse, porém, foi
o pretexto, o verdadeiro motivo no pen-
sar do autor dís Viagens d minha terra,
está na famosa Falia do Duque de
Coimbra, que o Garção compozéra para
fustigar a vaidade com que o Marquez
se esculpira em bronze no pedestal do
Terreiro do Paço.
Semelhante opinião nada tem de ac-
ceitavel, e o provou Innocencio fazendo
ver, que a estatua só foi inaugurada e
descoberta em 6 de junho de 1775, de-
pois da morte de Garção. Elle suppunha
que a Falia seria de data muito mais
antiga. Hoje sabe-se com segurança,
u
H
— LXII —
ê
como já expendi, haver sido composta
para a Academia dos Occultos em 1754,
nada menos de vinte e um annos antes.
De outro género é a versão apre-
sentada pelo Commendador António
Joaquim de Mello. Em sua opinião o
Marquez de Pombal não olhava bem
o poeta, por ser parcial dos padres Con-
gregados e outros murmuradores do
seu ministério. Pretextou-se a prisão
com a traducção, que o poeta fez de
escritos de amores de uma filha do
brigadeiro inglez Elsden com um amigo
do poeta. Elsden era um ensemblador
ou marcineiro em Londres; com algu-
mas poucas luzes elementares de ma-
thematicas fizera de engenheiro em Por-
tugal, onde em 1775 andou dirigindo
a construcção do laboratório chimico,
museo e sala de physica experimental
pegados ao Collegio dos Jesuítas em
Coimbra.
Esta versão na apparencia diversa
— Lxm
approxima-se todavia da de Garret.
No fundo ha a mesma questão de
amor consubstanciada em uma cor-
respondência epistolar, cujo traductor
seria o poeta. Mão proveito lhe resulta-
ria do conhecimento de uma lingua, na
época em que Junius nella escrevia as
suas admiráveis Cartas e Goldsmith
publicava o seo bello poema The de-
sertei village.
A ultima versão ouvio-a o próprio
Innoccncio da boca de um neto do
poeta, José Maria Stokler Salema Gar-
ção, e é referida nos seguintes termos :
Garção habitava na sua casa da
Fonte Santa (a que está situada á di-
reita da mesma fonte) e possuia conti-
gua a ella outra, que alugara a um
coronel inglez, Macbean, ao serviço de
Portugal (o mesmo aquém são dirigidas
as Odes XVIII e XXI). Davão-se por
amigos e visitavão-se reciprocamente
com demostrações de muita estima; o
-^%l'#^í^^^
— LXIV —
-4 •-
coronel era viuvo e tinha em sua com-
panhia uma filha, moça formosa, porém,
de caracter inconsiderado e leviano e
que passava por extremada namora-
deira.
Entre muitas pessoas de boa socie-
dade que frequentavão a casa do poeta,
onde concorrião a miúdo os sócios da
Arcádia e outros eruditos e litteratos
d'aquelle tempo, havia um mancebo
peralta, que parece tinha por appeliido
Ávila, o qual não obstante ser casado
e ter filhos, entendeo que podia re-
questar a filha do inglez e o mais é
que encontrou nella as melhores dis-
posições para attendô-lo.
Quiz dirigir- lhe uma carta, porém,
como ignorasse a lingua da sua bella,
rogou a Garção com grandes instan-
cias que lh'a escrevesse ou traduzisse.
Teve o poeta a fragilidade de condes-
cender com os seus rogos, fazendo
a carta pedida ; porém o estouvado
OX-
— LXV —
amante em vez de copia-la por sua
lettra, pegou no próprio rascunho e
deo-o a um criado do coronel para
que o entregasse á ama.
E' mister accrescentar agora, inter-
rompe Innocencio, não porque o di-
cesse o neto, mas porque Domingos
Maximiano Torres (amigo de Garção)
o contara em antigos tempos a pessoa
que m' o transmittio, que a tal carta
havia por fim nada menos do que con-
vidar para a fuga a menina, cujo estado
de gravidez ia já sufficientemente adean-
tado! ..
O criado em vez de dar a carta á filha,
segundo ajustara, foi entrega-la ao co-
ronel. E' fácil de julgar como este fica-
ria ao reconhecer pela lettra da carta,
cuja era e o fim a que se destinava!...
Enfurecido correo immediatamente á
casa do primeiro ministro, a quem apre-
sentou a carta, e nella o corpo de de-
licto do desgraçado poeta. Nem tanto
^>/-%í^--^
— LXVI —
seria preciso para exacerbar o animo
do marquez, muito mais se existiào
já da parte deste razões de animadver-
são, que se tem querido suppor. A ordem
de prisão foi pois expedida paralogo(i).
Esta parece ser a tradição de fami-
lia. Delia não se affasta notavelmente
outro parente do poeta, o bisneto Pe-
dro Stockler Salema Garção no Bos-
quejo hiographico publicado em folhetins
da Imprensa e Lei. Encarecendo as qua-
lidades que compunhào o caracter do
avoengo, entre as quaes primava a
franqueza, fa-lo manifestar-se incom •
pativel « para servir junto de altas
personagens pela impossibilidade de
encobrir o seu juizo diante de um
acto injusto. » Tal resposta altiva de
Garção a suggestões para solicitar do
Marquez de Pombal um emprego na sua
("i) Dicc. bill. port., arf Pedro António Cor-
rêa Garção, toino VI, pag. J90.
'à
d
— . LXVII —
-^ e-
Secrctaria levada ao conhecimento deste,
seria a causa primaria do ódio, cuja
explosão viria ulteriormente provocar
a historia da carta escrita para satisfa-
zer alheio pedido.
Sem propósito de escurecer as pre-
conisadas qualidades, mas unicamente
por amor á verdade h'storica, recor-
darei para prova do sentimento do
poeta em relação á administração de
Pombal os altos encómios, que lhe
tece directamente na Epistola IV ou
por via allusiva na Oração VII. Uma
conversação na intimidade de ami-
gos não contrabalançaria seguramente
as blandicias proferidas em publico,
nas quaes se exaltava as qualidades
politicas do estadista.
A versão do Snr Camillo Castello
Branco consiste simplesmente em apre-
íj sentar o próprio Garção como o se-
ductor da filha do Coronel Macbean.
,►= Não se lhe instaurou processo, diz elle,
■' --vb^/ ^-^' \^y
*•
— Lxviir —
-4 e-
para evitar dous opprobrios o de Gar-
ção, chefe de familia, na idade de 49
annos e o da filha do queixoso, mu-
lher cuja deshonra ficaria occulta, se
o preso expirasse com o segredo do
motivo de sua prisão. Não temos a
certeza, accrescenta, de que a esposa
do poeta suspeitasse a causa da pri-
são; é, porém, certo que a desampa-»
rada senhora andou supplicante pelo
paço e pelas secretarias a pedir que
a deixassem ver seu marido, e conse-
guio do rei a promessa da liberdade.
Não deixa de ser sobremaneira singu-
lar que nenhum escritor contemporâneo
houvesse assignalado semelhante causa.
Maximiano Torres, citado como vi-
mos, na referencia de Innocencio á nar-
rativa do neto de Garção e apezar de
dissidente da Arcádia, não arrefecera a
estim.-! em que o tinha, na canção á Ami-
:(ade, que lhe dedicou apenas fez vaga
referencia ao facto nestes versos :
'^
'O
^%mã%-^
— LXIX —
Mas o destino avaro, que de tantos
Males opprime o triste peito humano
Sem se fartar de lagrimas e prantos ;
Urdindo lhe fatal e extremo dano
Nào consentio que o génio alto e facundo
Mais se elevasse a Apollo soberano (i).
Outro escritor de mérito que tambeni
floresceo n'aquella época (1745 -1795),
Francisco Dias Gomes, caracter aus-
tero e independente, extreme portantO'
da suspeita de parcialidade em favor
de um criminoso, fossem quaes fossem
os seus dotes litterarios, apreciando o
modo como havião sido tratados vários
engenhos portuguezes, assim se ex-
prime sobre o assumpto : « O Garção-
insigne restaurador da poesia portu-
gueza em nossos tempos acabou a
vida no fundo de uma prisão, moti-
(l) Versos de Alfeno Cynthio, Bacharel Do-
mingos Maximiano Torres, pag. 173 a 180.
\^
LXX —
vada por causa de si tão fútil, que é
vergonha expressa-la. » (i).
Aquelle soneto das Tre:(^ Graças trans-
ferido no Ctirso de litteratura, não é iné-
dito como já expuz. Dirão talvez que
isso pouco vale. Importa no entretanto
muito, a meu ver, para uma descoberta
que teria vindo lançar forte jacto de
luz sobre a questão. Não constitue
poesia singular a revelar os senti-
mentos Íntimos do autor. Na boca de
um dos galans da comedia Assembleia.
figura de bola apanhada no ar, em de-
safio ao talento do repentista. Nesses
versos pretende-se, é certo, desculpar a
(l) Obras poéticas mandadas publicar por or-
dem da Academia Real das Sciencias a beneficio
da viuva e orphâos do autor, Lisboa, 1799. Con-
virá talvez rectificar um equivoco do Diccionatio
bibltographico ; a Elegia consagradi .í morte de
Garção e a V e n.lo a VI e encontra-se de
pag. 72 a 7S.
'^
velhice namorada, mas sem nenhuma
allusão a algum dos personagens, ape-
nas aguda replica á exclamação de um
delles.
Não creio que Garção já entrante
nos seus 47 annos pretendesse descul-
par as escapadas da edade madurn. á se-
melhança de certo poeta inglez:
My liead is gray, niy blood is young
Red leaping in my veiíis ;
The spring doth stir my spirit yet
To seek the doistered violet,
The prlmrose in the lanes.
EUe antes supplicaria á deosa dos
amores como o Venusino, cujo enca-
necimento começara aos 42 annos, que
o deixasse em paz :
Parce, precor, precor !
Noa sum qualis eram bonce
Sub regno Cinaroe. Desine, dulcium
Mater soeva Cupidinum
Circa lustra decem flcctere mollibus
Jam durum imperiis
"^^^m^^-^^
— LXXII —
e inspirando-se no grande mestre pro-
curaria traduzir os mesmos sentimentos
nos seguintes versos da Ode XXXV
(inédita) que em nada destoão do ori-
ginal :
Que me deixes te peço, que me deixes.
Que para o duro peito,
Com trabalhos cruéis endurecido
Na sanguinosa pedra
As aligeras farpas n2o amoles.
Já n2o sou, já qual er.i.
Quando reinava a cândida Leucipe.
Passarão tão bons dias !
Kão queiras atear inútil flamma
Em pouca árida cinza.
Que os gelos de oito lustros esfriarão.
Dizia La Bruyère : « II n'y a pas de
plus grande difformité dans la nature
qu'un vieillard amoureux. » Sentença
severa, se o quizerem, mas justa. Gar-
ção não a teria certamente affrontado
entregando-se aos arrastamentos de uma
paixão, que a sua posição de pae defami-
lias transformaria em crime. A' exemplo
dos anciões de Homero, que do alto das
portas Scéas, comparáveis a melodiosas
cigarras, èoiy.ózz; tz-tívzogív^ se ex-
tasiavão diante da belleza de Helena,
em de vez de succumbir á tentação,
como elles faria igualmente votos pelo
affastamento immediato de quem po-
deria ser causa da ruina própria e da
dos filhos.
O alludido commento de Figueiredo
parece-me, pois, carecer de authentici-
dade. Em pontos de tamanha ponde-
ração a critica não se satisfaz com sim-
ples referencias, precisa remontar ás
fontes, proceder d analyse da limpha,
e decidir de sua pureza.
Se a historia se constituísse de me-
ras affirmações, se não fosse mister pre-
scrutar a raiz dos acontecimentos, exa-
minar os filamentos, seguir-lhe a direc-
ção, exigindo de cada autor a justifica-
ção de seu testemunho, instruir em
■^^/ ^^ V:
— LXXIV —
summa o processo que Taine denomina
provar as provas, não haveria certeza
possivel, ella seria despojada do seu ca-
racter essencial, faltaria á sua missão;
de sciencia converter-se-hia em seita,
formaria adeptos mas não teria crentes.
Não se diz que a versão explique de
qualquer modo o encarceramento simul-
tâneo de Lobo d' Ávila. No entretanto
é facto averiguado haver elle parti-
lhado o máo fado do poeta, e visto
igualmente fecharem-se e abrirem-se
as portas da mesma prisão. Outra ver-
são o faz figurar, como ficou dito, de
autor principal, e esse papel não é em
verdade repugnante ás qualidades peral-
tas, que lhe empresta. Em todo o caso,
entre ambos existio um vinculo, cuja na-
tureza e extensão conviria ficassem bem
determinadas. Talvez mesmo partindo
do mais obscuro se chegasse ao mais
illustre. Quantas vezes uma escusa e
sombria vereda nos não conduz á estrada
principal ! A claridade desferida ao des-
embocar nella, illuminaria aqui uma
vida inteira.
O que todavia parecerá difficil ad-
mittir, é a supposta ignorância da mu-
lher de Garção acerca do motivo da
prisão. Não faltarião de certo amigos
officiosos que lh'o revelassem. Quando
mesmo, porém, fosse aquelle feio de-
licto de que falia o Snr Camillo Cas-
tello Branco, as virtudes da matrona
portugueza mais se acendrarião pelo es-
quecimento da grave injuria commet-
tida contra o thoro conjugal. A ver-
dade é que a desditosa senhora andou
pelos paços reaes a solicitar a graça do
marido; a muito custo, depois de oito
mezes, conseguio fosse transferido do
segredo para a sala livre e, ainda per-
severando nos seus generosos esforços,
alcançou onze mezes mais tarde, a or-
dem de soltura. Era ella concebida nes-
tes termos :
s:j
v_^
líl^fe^"
Aviso para o Cardeal da Cunha
(( Ex"o E Rev»*o Senhor,
« Sua Magestade é servido que V.
Eminência mande soltar a Pedro An-
tónio Corrêa Garção e a Francisco
António Lobo d'Avila, que se achão
presos na cadêa da Corte por ordem
do mesmo Senhor ; assignando os so-
breditos presos um termo perante o
Corregedor do crime do bairro da rua
Nova, de sahirem da referida cadêa
para fora desta Corte, á qual não p >-
derão voltar emquanto Sua Magestade
não mandar o contrario.
« Taco, em lo de novembro de 1772.
« José de Seabra da Silva. »
A libertação trazia, pois, como clau-
sula adjecta a sabida para fora da Cor-
te, sem comtudo determinar-se o lugar
do exilio. A graça não era completa;
.i
..,^^^,^
a clcnicncia real julgara dever restrin-
gir-se ou fora quiçá desvirtuada na exe-
cução. Clausula deshumana e falsa, ex-
clama um biographo, em relação a um
moribundo que se achava nos últimos
momentos da agonia, contra a qual
protestou a viuva nos poucos annos
que lhe sobreviveo, tomando os céos
por testemunha de que o monarcha,
pelo que sempre tinha ouvido de sua
bocca, tal não havia ordenado.
Seja como fôr, não deixa comtudo de
causar extranhe/.a,attendendo-se ás mes-
mas condições da época, que tão grave
crime como o inculcado, tal que a O.,
L. j, tit. 23, punia com o degredo
para Africa, sendo entre pessoas de
qualidade, e com açoutes, baraço e
pregão nas em que taes penas cabião,
fosse purgado simplesmente com i anno
e 7 mezes de cadêa. A pena não estaria
de certo em proporção do delicto. Mais
uma falha na versão.
■o ^^'^, ^f: '^y "''
Á
— Lxxviir —
-» (r
Tarde, porém, chegou o alvará de
soltura. Os desgostos tanto como as
agruras do cárcere e enfermidades ha-
vião acabrunhado o infeliz poeta, nii-
nando-lhe a existência. Dir-se-hia que
só aguardava livrar o corpo, para que
o espirito por seu turno se libertasse
da misérrima prisão. Essa aura de li-
berdade pela qual anhelava, veio so-
mente como suave brisa acariciar-lhe
es últimos momentos e levar comsigo
a immortal essência. Sob as frias abo-
badas do Limoeiro, mudas testemu-
nhas do seu cruel soffrimento, e.xhalou
na tarde desse mesmo dia lo novem-
bro de 1772 o derradeiro alento, tendo
de idade 48 annos incompletos.
Não serião escassas á lutuosa scena
as cores próprias dos tristes succes-
sos ; a natureza do lugar revesti-las-hia
de um toque mais carregado. As ne-
gras muralhas sem echo para os quei-
xumes do prisioneiro, abafarião igual-
''mm^^mM^w
i •'i^' VrV"
— LXXIX —
-4 «>
mente os lamentos, que a sua morte
despertaria. Aguda e profunda, porém,
devera ser a dôr da desventurada viuva.
Essa mulher de poeta, que vemos cora-
josa e devotada figurar na ultima phase
de sua vida, importunando com justas
solicitações os ministros, tragando sabe
Deos que dissabores e contrariedades,
subindo alé o próprio Rei, bem se pode
imaginar atravez de quantas dificulda-
des e embaraços, é digna do mais en-
carecido louvor. EUa representa o que
ha de mais puro e elevado na socie-
dade conjugal, a dedicação na desgraça.
Queixas que por ventura podesse ter
do marido, tudo esqueceo,tudo perdo ou
para só lembrar-se que era desditoso e
corria-lhe o dever de o amparar.
Senhora de illustre nascimento nãa
teria seguramente poupado relações de
parentes e amigos para arranca-lo do-
cárcere; ella, porém, surge só e quando
todos parecem have-lo abandonado. É.
J)
^|-»^.,v.
— LXXX —
-9 fr-
uma verdadeira heroina do amor con-
jugal, emula d'aquella Arria, cujas vir-
tudes Plinio celebra accentuando que
entre as acções humanas unas tem mais
brilho, outras porém mais real grandeza
- alia clariora esse, alia majora. D. Maria
Anna de Salema Garção não é somenos
em qualidades á mulher de Peto, e a
historia do XVIII século registrará
aquelle modelo de esposa era suas mais
brilhantes paginas.
Que o poeta não era insensivel a ta-
manhas provas de affecto e interesse,
que mesmo do fundo da prisão a ima-
gem da devotada esposa occupava-lhe
o attribulado espirito, verifica-se do So-
neto LI que lhe dedicara. Nelle como
que parece haver acceitado a perda da
liberdade como expiação de culpa :
Menos chora terrenos bens perdidos ;
De pouco um peito grande se contenta ;
Antes quer ser honrado que ditoso.
(•]•■-
L
Se, porém, lata ou leve não julgou
opportuno informar-nos ; o véo do
mysterio que poderia haver so-erguido
ficou pesando sobre o facto.
Consta que D. Maria Anna, depois
da morte de Garção, desgostosa e ac-
cabrunhada, apenas como boa mãe con-
seguio dar destino aos filhos, se reco-
Iheo ao Convento de S'* Mónica, que era
o mais próximo da igreja de S. Mar-
tinho, onde fora sepultado o marido e
alH acabou os seus dias com exemplar
virtude, sendo no mesmo claustro o
seu jazigo.
Nenhuma distincção assignalou a se
pultura do vate geralmente conside-
rado por seus conterrâneos o segundo
Horácio portuguez e que, como observa
Innocencio, aos titulos de fidalgo da
Casa Real e Cavalleiro professo na
ordem de Christo, reunio outros de
mór valia sem duvida para a posteri-
dade, quaes forão os de fundador da
.10";
— LXXXM —
-S : €-
Arcádia e insigne restaurador da poe-
sia portugueza. Seus ossos tiverão a
mesma sorte que os do principe dos
poetas lusitanos : não se sabe onde
parão; dispersou-os ou confundio-os
com o de milhares de cadáveres a
demolição da igreja de S. Martinho
em 1835. A mão piedosa da esposa
ahi não estava mais para recolhê-los
á funerária urna, em a qual fosse es-
culpido o epitaphio composto pelo
D"" Vicente Pedro Nolasco, resumindo
o sentimento nacional :
Da AiCJilia lusa e membros que a illustráráo
Garção foi honra, foi cantor divino ;
H djs Musas que o berfo lhe enibalirAo
T<:ve do pátrio idioma o tom mais fino,
Sj delle as cinzas iCm valor íicáráo,
No pó envoltas de vulgar destino,
nt. Sempre serio no templo d.> Memoria )i^
m \ Seus escritos brazio de eterna gloria. |y
i
i : Mas Portugal se ainda não possue
como a França um Pantheon onde sejão
V
recolhidas as cinzas de seus grandes ho
rnens, ou, como a Inglaterra, uir,a ab-
badia de Westminster digna sepultura
de reis e de famosas notabilidades do
Império britannico não esquece toda-
via os filhos que o tem illustrado; posto
que tarde será remida a divida de gra-
tidão. Ainda não ha muito o mundo
admirou as festivas homenagens pres-
tadas por occasião do 3" centenário do
seu excellente épico, do grandíloquo
cantor de suas glorias. A essas demons-
tra;;ões solemnes nos associamos tam-
bém nós Brazileiros, enthusiastas por
tudo quanto é grande, nobre e gene-
roso. Tempo virá, podemos conta-lo,
em que duas nacionalidades irmãs se
unão de novo no mesmo pensamento
de honrar a memoria do génio, que exer-
citando-se em vários campos da poe-
sia, deixou em todos elles um padrão ^
imperecível. N
O lamentável final de Pedro Anto- «i
*
Ç^)
nio Corrêa Garção, quaesquer que se-
jão as suas faltas, qualquer que fosse
mesmo o seu crime, provoca a indi-
gnação contra a prepotência de que foi
victima. Nenhuma consideração a jus-
tifica, nenhum principio a absolve. A
serena luz do direito poderia illuminar
o juiz e o réo, o rubro clarão do des-
potismo destaca vivas em escuro funda
as figuras do algoz e da victima.
Felizes os que vivemos em uma
época em que o arrasamento das bas-
tilhas tornou impossível a reproducção
de igual facto. A conquista da liber-
dade garante hoje plenamente os direi-
tos do cidadão ; a espada da justiça
não está a soldo de nenhuma tyran-
nia e a divisa que brilha em sua ful-
gente lamina — lex omnibus una —
efficaz e indefectivelmente protege o
fraco contra o forte, o desvalido con-
tra o poderoso.
LoAdres, (Ui^cmhio iSSj.
'^^mmm^^jm^^'
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I',\Ki-i: I
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POEk^ÍIA
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vJ_yEM d; meus versos a Ição prociir.
Os farpões nunca vio de Amor insano,
Nem sabe quanto custa um vil engano
Traçado pela raJo da formosura.
Se o peito não tiver de rocha dura,
Fuja de ouvir contar tamanho damno,
Que a desabrida voz do desengano
O mais firme semblante desfigura.
Olhe, que ha de chorar, vendo patente
Em tSo funesta e lagrimosa sctna,
^>iV\.->^_^ O cadafalso infame e sanguinoso.
■• - '' Verá levado á morte um innocentc:
'■4r ' ' E condemnado a vergonhosa pen.i,
I O mais fiel amor, mais generoso.
l
A^f=!J=(.<V.
,y"=i'-^i^\
I
Éatã>^
A' Snr*D. Maria Joaquina
de Gusmão e Vasconcellos.
Lutando com mll sustos, milpezares,
Com desprezos, enganos e rigores,
A teo rosto gentil, olhos traidores,
Templos lhe consagrei, ergui-lhe altares.
Rociadas de lagrimas a mares.
DegollavSo as victimas Amores.
Ara cruel ! Suspiros, magoas, dores
Lançava em denso fumo aos mansos ares.
Chegou Marilia de mudar-te o dia ;
Tèas, secure, pj'ra, vasos, fogo
Tudo rompeste, tudo aos pés pizaste.
Triumphou, triumphou a tj-rannia;
Mas apezar do altivo desafogo
Illesa a fé, illeso o amor deixaste.
>
III.
Hm magnifica scena a fantasia,
Entre festões de estrellas radiantes,
Teus angélicos olhos triumphautes,
Gentil Marilia, me mostrou um dia.
O sol de teus cabellos se esparzia
Por columnas e frisos rutilantes;'
Aos pedestaes atados mil amantes,
Honesto riso suspirar fazia.
Movendo longas azas brandamente,
Voavão esperanças e desejos,
Co' as Graças abraçada?, c'os Amores;
Mas retinindo um silvo, de repente
A cortina cahio ; males sobejos !
Só magoas vi depois, sò vi temores.
■xít^
IV.
\_)s antigos poetas fabulando
Inspirados por deoses, se fingirão,
Com o Olympo sonharão e mentirão,
A falsos Numes torpes aras dando.
Enéas pio ao barathro levando
Ver Eliza outra vez lhe permittirâo;
E umas sombras, que ávidas o virão,
Memorarão o caso miserando.
Para honrar de seu canto a melodia.
Procurarão desta arte engrandecê-la
'> E quasi forâo tidos por divinos
ràr&\ Eu mais fama d.irei á poesia,
„_, Se um instante sonhar, Marilia bella.
Q.iie sio dos olhos teus meus versos dinos.
-y-r--
r^ l
'^À^-L
■n5-
h3
-^ími
r '^<%i--
V.
A' mesma Senhora.
V>ANTAR Marília ouvi tâo docemente,
Que o coração, prostrados os sentidos,
Imaginou, qne até pelos ouvidos,
Seus olhos o assaltavão de repente.
Entrava a doce voz tâo brandamente,
Quaes entrSo n'alma os olhos seus movidos.
Com formoso desdém, quando rendidos,
Piza desejos mil tyrannamente.
O poder milagroso da harmonia.
Que no peito em triumpho campeava, '
Na mão por palma os olhos seus trazia. ,
Eu, que ao carro fatal atado andava,
Se era vê-la, ou ouvi-la não sabia.
I - Sei que os novos grilhões não estranhava.
':J
m
M
M
!^
"ST
VI.
A' mesmo Senhora.
Se eu soubera, Marília, que vivia,
O doce Amor nos olhos teus formosof.
Em meus sublimes versos numerosos,
O dia de teus annos cantaria.
Qual brando Orpheo co'a força da harmonia,
Dos Íngremes outeiros pedregosos.
As altas faias, álamos frondosos,
Para ouvir-me cantar desprenderia.
Nâo cuides que vâs fabulas invento,
Se vendo os olhos teus, teu rosto amado.
Do peito sinto o coração fugir-me.
Antes, se nio me engana o pensamento,.--'**^/
Farei que o mundo todo namorado.
Qual fiquei de te ver, fique de ouvir-mv ' |^ ,
Q O Q O e '51 3 © s '^ s 3 s O O 0 e 0 0 0 s
VII.
V_>HEIOS de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem sahindo I
Foi-se o sol entre nuvens encobrindo.
Voltando para o mar os quatro Ethontes.
Caliio a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo ;
E engrossados os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes.
Com medonho estampido pavorosos,
Os longos ecos dos trovões soando,
A rezar nos pozemos temerosos.
Parou a chuva ; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos ;
Kão me atrevo a sahir, fico jogando.
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VllI.
OE, Beliza gentil, pudera crer-te
Exposto a todo o mal, todo o tormento.
Esperara, voando o pensamento,
Cora suspiros e lagrimas mover-te.
Ousado commetièra, emfira, render-te
Sem a pena temer do atrevimento.
Pois para ter desculpa o meu intento,
Bastava ser a causa sò querer-te.
Mas vivo táo cortado de desgosto,
De desprezos, traições e tyrannias.
Que sonho cuido ser quanto desejo.
E nem i luz de teu sereno rosto.
Com que meus tristes olhos alumias,
Posso crer que te vejo, se te vejo.
éie^lóilooiO ooo © a © o g a a a0Og)õ^3»-
O'
Si:
IX. i
i
/\0 som da Fonte-Saata, que corria
X'alva borda do tanque debruçado,
De cansados desejos, já cansado, |
O triste Corydon adormecia : i
Em doce sonho imaginando via j
De Beliza gentil o rosto amado, '
Que na tremula vèa retratado
Dos olhos cobiçosos lhe fugia.
Os torpes braços sem cessar movendo, ' '
Em vão aperta a limpida corrente,
Em vãj lhe está com lagrimas dizeido ;
(
Se folgas de que morra um innocentc ;
Porque foges de mim, nyrapha, sabendo, ;-^.
Que Amor me mata, quando estás presente?'- n
\»
m
X.
vJUAL a mans:\ novilha, qne innocente
Pelas pontas de louros enramada
A duro sacríficio vai puxada.
Sem temer a secure reluzente :
Sò conhece que morre, quando sente
O frio gume na cerviz cravada,
Então ; mas tarde já, desenganada.
Ao cèo se queixa da malvada gente !
Taes, Beliza cruel, a teus ouvidos
Voão meus rudes innocentes versos.
Sem merecer desprezos, nem rigores.
Quando os virem, porém, ensurdecidos.
Quando forem pisados e dispersos,
Debalde espalharão tristes clamores.
J".
„<<^ÍK2ZiahMuã
/^ Qes eQeeesoeooGOGgoo® gQ*-
—XI.
^■•M
A' Snr» D. Maria Caetana
de Souza Seyão.
/\.MOR, que mil ciladas me traçava
Lá dítráz de uma verde gelozia,
Com uns pequenos olhos me feria,
Com que os sentidos todos me assaltava.
Mal retinio a frecha, que voava,
Já roto o pobre coração sentia ;
E o sangue, que das vèas me corria.
Com lagrimas ardentes misturava.
Em vâo fugir procuro, em vão desejo
Arrancar da ferida os passadores ;
Cravados dentro n'alma me ficarão.
E desde então, que sempre os olhos vejo.
Esses olhos pequenos e traidores.
Que para me matar, me não matarão.
I. J_Íjl:Lli
A' Snr» D. Helena Felippa
Xavier Navarro.
^OMTIGO, LyJia, morão os Amores,
Morio as Graças, Lydia, na verdade,
Que no reino de Amor a liberdade
Sempre viveo sujeita a mil temores.
De teus formosos olhos vencedores,
Amor as armas tem na cUiridade;
Como hade voar livre uma vontade,
Por entre aljavas, arcos, passadores?
Ninguém solto se vè, se chega a ver-te ;
Por mais livre que traga o pensamento,
Hade amar-te, servirte e obedecer-te.
Kegar o captiveiro nio intento.
Pois inda que quizera n3o quererte,
Nunca livre me vira, nunca isento.
.i>
^•*J
;Diii;..-rv:;^v
I
Jl i I I I 111 I M I IJ
-u03^;MmjiSj0
XIII.
tíSPARGINDO dourados resplendores
De teus annos, angélica Maria,
Nasce o ditoso, o suspirado dia,
Dia das Graças, dia dos Amores.
Juncada a terra de orvalhadas flores
Em signal de prazer e de alegria,
Das frautas alternando a melodia
Travão choréas nymphas e pistores.
Pelas cop.cavas fragas retinindo
O brando som de versos sonorosos
Teu nome estão os montes repetindo.
E os satyros campestres cobiçosos
De ver os olhos teus, teu gesto lindo.
Se pendurâo dos álamos frondosos.
XIV.
Amigo Frei Joaquim, assim te eu veja
Vigário de Pondá ou Taprobana,
Assim voltes a barra Tagitana,
Qjie para seu cachopo te deseja.
Assim permitia o céo, assim proveja.
Que farto de charão e porcelana.
Tragas veste, calção de linha ousana,
Por solidéo na tola uma bandeja.
Assim Naire montado n'um camelo
Arrastando as qualdrapas pela ru.i,
Passeies por Lisboa a passapello.
Assim digas, assim por vida tua,
A quem sabes que adoro com desvelo,
Que est'alma dantes minha, .igora é sua.
:i iju_i_uj j-UJi
IS
XV.
Aos annos do Coronel de Artilheria
Frederico Weinholtz.
C^OM soquete, lanada e botafogo,
Armado vi Amor; tinha assestados
Em plataforma cera canhões dourados,
Com que ao mundo fazia um vivo fogo.
Ko serviço cruel, sem desafogo,
Fervião seos alígeros soldados,
As balas erào olhos magoados,
O estridor das peças vivo rogo.
Eu, que o golpe temi de tantos damnos,
Que é isto, ihes bradei, moços traidores r
Sorrindo me respondem os tyrannos :
Weinholtz, que ao gesto lindo, qu'aos ardores
De Filis se rendeo, hoje faz annos.
Tão bom dia festejão os Amores.
i6
XVI.
LOURO chá no bule fumegando
De Mandarins e Brahmenes cercado ;
Brilhante assucar em torrões cortadj ;
O leite na caneca branquejando.
Vermelhas brazas alvo pio tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado ;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando.
A ponto a meza está de enx.tropar-nos,
Só falta que tu queiras, meu Sarmenio,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.
Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
tiio pôde a longa noite enfastiar-n^s,
Antes tudo será contentamento.
'^^^^W^^W^-í^-^'W
•7
XVII.
UePOIS de at.ir o pobre barco Algido,
AlgiJo pescador do Tejo undoso,
Emquanto o bravo Noto procelloso
Revolve as negras ondas insoffrido :
Entre limosas lagcns recolhido,
De Dinamene o nome saudoso
Xa liza bóia de um chinchorro algoso
Suspirando entalhou co'anzol torcido.
Depois três vezes o beijou dizendo :
Q.uaes serenSo teus olhos meus pezires,
Teu nome o mar serene ; e ao mar o lança.
Súbito o céo azul se ficou vendo :
Desfaz-se a branca escuma pelos mares ;
Adormecem os ventos em bonança.
i8
XVIII,
na vasta scena do futuro
De trágico distitio a face accesa,
E de espectros cobrir a redondezi
O nebuloso céo, o polo escuro.
Rasgar-me o peito e coração figuro
Da torpe inveja a barbara fereza:
Da fome crua, esquálida pobreza
Em vâo fugir desejo, em vâo procuro.
Nada vale constância e sofFrimento ;
Monstros feros, Cerastes assanhando,
Paciência e valor põe a tormento.
O que mais é, que a vida prolongando,
Se ceva e nutre o meu entendimento
Do espectáculo feio e miserando.
XIX.
íN 'UMA sonora roda, que girando,
Desmancha de sens raios a figura,
Com delicada mão de neve pura
A linda Natarea vi fi.indo.
O linho humed-.-cer de quando em quando
Co'a doce boca de rubim procura ;
Mas Amor, que ciladas aventura
Em torno ao louro fio anda voando.
Pezados sobre as azas meus desejos,
O capitão ousado vão seguindo
Té que a molhar o fio se inclinasse.
Bradou .Amor; roub.írão-lhe mil beijos.
Vè o triste os ladrões ir já fugindo,
E p;de-nie que o furto lhe entregasse.
m^.^^.
^' '^ ip - e' >■'- -! ^-^ ^^J^'^ «?■ *^ V^K -T^ % V.<;; ,
Ao brilhante poder do santo fogo
De teus formosos olhos vencedores,
Que do suave Tyrse sâo senhores,
Se acolhe humilde, meu humilde rogo.
Que ampares, gentil Clori, peço e rogo.
Se podem commover-te meus clamores,
A quem chora da sorte os desfavores,
Sem que em lagrimas ache desafogo.
O generoso coração inclina
Do teu e nosso Tyrse, a que se dôa
Da mofina e misérrima pobreza ;
E qual Tyrse na cithara divina,
xi^ Teu lindo rosto angélico apregoa.
Cantarei de tua alma a gentileza.
XXI.
Ao Snr Theotonio Gomes de Carvalho,
sócio da Arcádia.
/\KTE meus olhos anda Amor voando,
■Não cruentos virotes espargindo;
Mas triste e magoado o rosto lindo,
Lagrimas crystallinas derramando.
Nâo ousado e soberbo, humilde e brando,
Esmola pede a tenra mão abrindo:
Se lhe digo que espere; alegre e rindo,
Me vai mil esperanças amostrando.
Metto a mão na algibeira, acho só versos.
De versos, me diz elle, quem se veste ?
Quem mata a crua fome com talentos '{
Bem sei que os fados tens achado adversos;
iMas pede a Theotonio que te empreste
' TJm dobrão de seis mil e quatrocentos.
/í^^^Siro -fOQ g e 0 0 0 o .i 0 Q Q O O
* .'V •
XXII.
Aos annos do Snr Tbeotonio Gomes
de Carvalho.
Oalve formoso dia, alegre dia !
Que os olhos viste abrir a Tyrse amado;
Sempre sejas feliz, abençoado.
Cheio de gloria, cheio de alegria.
A luz, que tuas horas alumia,
Mil vezes torne ao Tejo prateado;
E o roxo sol no carro seu dourado,
Atropelle os frisões da noite fria.
Formoso alegre dia; pois nos deste
Um limpo corafão, amparo, abrigo
Da espantosa, misérrima pobreza !
Que dadiva do céo nâj nos trouxeste !
Ah ! qne um amigo, e na desgraça amigo,
.^ão o pôde fazer a natureza.
M
XXIII.
Aos annos do mesmo Senhor.
INlão te direi que as Graças, qu' os Amore
Com suave prazer, doce alegria,
Salvando, caro Tyrse, o teu bom dia,
Grinaldas tecem de raimoias flores.
Não te direi, qu'as nymphas qu'os pastores,
Atroando a fragosa serrania.
Com singel.i, campestre melodia,
Cantio os annos teus, os teus louvores.
Com vozes mais sonoras e pungentes.
Na choça estão de Cor)don cantando,
A triste Mãi, os filhos inuocentes :
Kào ao som de áureas lyras modulando;
Mas com devotas lagrimas ardentes
Pela vida de Tjrse ao céo clamando.
-»C^e aeeeseee o 0; o ;ã
»4
XXIV.
Ao mesmo Senhor.
IN Ao louves, caro Tyrse, a rouca lyra,
Do rude Corydon, triste forçado,
Que á toste da galé aferrolhado.
Se deseja cantar, chora e suspira.
O lasso pensamento nunca tira
Do duro remo, do grilhão pezado :
Se se lembra do seu antigo estado,
Attonito e frenético delira.
O mar a cada instante lhe apresenta
Trágicas scenas de futuras mago.is.
Mergulhando entre as ondas a esperança.
E só tu, qual santelmo na tormenta,
Sereno torna o furor das aguas.
Lhe dás alegres mostras de bonança.
"^
li
¥
25
XXV.
Cor. X^AZE versos, meu Tvrse, u liiiJu Clar.i
Teus versos quer ouvir, teu doce canto.
Tyr, Mas que versos farei, que poss.io tanto,
Q.ue branda torne minha sorte avara ?
Cor. A luz dos ollios seus formosa e clara.
Foi quem u' alma te deo fatal quebra:ito.
Tyr. Sâo o doce veneno, sSo o encanto.
Com que Amor as c.ideias me prepara.
Cor. Teus ais magoados, teus fieis ardores,
Poderão abrandar tanta dureza:
Suspira, que bem ouve os teus clamores. ■>
Tyr. Se suspiros abrand.ío a beileza, ~-
Brandos espero ver, cheios de amores, V
Os olhos, em que vive esta alma preza. í
^Op 3 e 9 S 0 3 0 5 0 ;: O o |ra|
XXVI.
o Padre Francisco José Freire, da Con
N gregação do Oratório e sócio da
Arcádia, mandando-lhe pedir
tabaco hespanhol.
VJ^UAES as portas de Jano aferrolhadas,
Onde preza mugia a guerra dura,
O entupido nariz o embate atura,
Do teimoso vaivém das más pitadas.
As pretas sobrancelhas carregadas.
Com torvo gesto, feia catadura,
Sorvo e torno a sorver ; e a mão já fura.
Em vez de abrir as ventas desfloradas.
Debalde o marrafáo empurro e metto,
Alojado na brecha o mormo grosso,
V Com um rodeiro malho atocha o taco.
O remédio será corno ou espeto,
^
, 'Se me não mandas já por esse moço
• r^jBo, macio hespanhol louro tabaco.
h . ■
'^' k) XXVII.
i\| UMA galé Mourisca aferroUiaJo,
Ao som do rouco vento, que zunia.
Sobre o remo cruzando as mios dormia
O lasso Corydon pobre forçado.
Em agradáveis sonhos engolfado,
Cuidava o triste, que o grilhão rompia,
E que entre as ondas Lilia branda via
Talhar c' o branco peito o mar salgado.
De vê-la e de abraça-la cobiçoso,
Estremeceo, tentando levantar-se,
E os fuzis da cadca retinirão.
Acordou ao motim, e pezarOso,
Querendo á rude chusma lamentar-se,
Só mil suspiros, só mil ais lhe ouvirãí.
28
XXVIH.
calva do Padre António Delfim,
amigo do autor.
llRA alta a noite, a lua prateada
Já no sereno céo resplandecia ;
E a corrente do Tejo parecia,
De ferventes estreitas marchetada.
Então Canidia bella, destoucada,
Descalço o lindo pé, filtros urdia.
Em torno de uma loisa, que se abria
De medonhos espectros rodeada.
Regougavão no cume dos outeiros
Esfaimadas raposas; na floresta
Lhe respondiij mochos agoureiros.
Brama Canidia; e òs Lémures ligeiros
Unhar mandou do bom Delfim na testa,
f^P^fiuado cabello alguns milheiros.
^1
X
29
\J
XXIX.
Ao Padre Delfim.
r OI-SE embora o Delfim! Como ficamos?
Ah! tyranno Delfim que nos deixaste!
Comtigo o pr.izer nosso nos levaste,
Por ti afflictos sem cessar chamamos.
Em vão cansadas lagrimas choramos :
Desta pobre choupana te enfadaste?
Depois que a nossos olhos te negaste.
Nem comemos, nem rimos, nem dançamos.
Escura nos parece a luz do dia!
Da tribte noite os fúnebres horrores
. Inda fazem maior nossa agonia!
Tudo se nos mudou em dissabores !
Agua fervendo para nós é fria,
' f- O chá de três mil reis, c chá de dores. /
í*.
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3°
:>>
M
•4/
A' calva do mesmo.
/\,0 pellado Eliseo a rapazia
(Enxame de formigas inquietas)
Com apupos batenio-lhe palmeias,
Ergue-te, ó calvo, em chusma lhe dizia.
O pobre com a capa se cobria ;
E deitando a correr, as sapateias
No calcanhar tangiâo castanhetas.
Cujo som pelas ruas retinia.
Assim créca Eliseo, Delfim António,
Fugiste de entre nós a passapello?
Parece que foi cousa do demónio
(6
De cada vez te falta mais cabello:
Clérigo calvo, è clérigo bolonio;
^í\
XXXI.
Ao Padre Delfim.
INÃO se paga de versos a saudade,
Nem de relva se farta o manso gado;
O campo que do gelo foi crestado,
Não torna a rebentar co'a tempestade.
9
Se queres que te creião, se é verdade,
Q.ue este cirio te deve algum cuidatio,
Nâo estejas em casa encoquinhado ;
Foge, foge da misera cidade.
Estes campos te esperâo com mil flores,
A Fonte-Santa seus crystaes desata ;
Sem ti o nosso pranto se não sècca.
Desprezas o agazalho de pastores?
Pois se de apparecer aqui não trata,
Fazemos-lhe sequestro na rabeca.
M
32
XXXII.
.^
•ás»
Ao fogo que houve em Alcântara
n' um grande monte de tojo, alludindo
á calva do Padre Delfim.
1 OR entre crespas serras enrolado
Negro fumo, o clarSo se despargia
De um incêndio voraz, que á vista ardia
Do dono da fogueira descorado.
Soavão crebros golpes do machado,
Cora que a mestrança intrépida batia :
A pezada calceta retinia :
Estava irrmenso povo embasbacado.
Achicavào as bombas sequiosas :
Marcha em fileira a guerreira gente :
Nunca no céo se vio lua tâo alva !
Co reflexo das chammas luminosas,
?rilha do Tejo a túmida corrente ;
Qual brilha do Delfim ao sol a calva.
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É=
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M
m
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m
Ao Padre Delfim.
vJUEM vio o Padre António? Um clérigo .ilvo.
Olhos azues, as faces mui rosadas,
Castanhas as melenas estiradas,
E na brunida testa um pcnco calvo ?
Quem m'o trouxer aqui a são e salvo.
Certo não perderá suas passadas.
Na verdade, que ha horas minguadas !
E deixei-o fugir ? Sou um papalvo !
Vai tu, Manoel, pergunta a toda a gente.
Se conhecem um Padre rabugento,
Qiie gosta de viver alegremente ?
Anda, rapaz, ligeiro como um vento ;
Vai pregar um escrito a São Vicente,
/i*",''^ ' E põe outro na rua de S.io Bento.
"^
<^
i
XXXIV.
A' calva do nlesino.
V^_>OM a mão na rabiça, e co' aguilhada
O colono villão os bois picando,
Abre o comprido rego, a terra arando,
Que quer de louro trigo semeada.
Depois de grossas chuvas orvalhada.
Rebenta a verde canna levantando,
E no quente verão, do vento brando
Sussurra levemente meneada.
Entáo os encalmados segadores
Lançâo por terra os esquadrões viçosos
Da carnagem cruel nenhum se salva.
Assim andio demónios malfeitores.
Ceifando nas cabeças de tinhosos ;
Assim Delfim a tua se fez calva.
w
Ao Padre Delfim.
A/'' ApPARECEO o Padre António; estava
Escondido n'ura covo de gallinhis ;
Para caber metteo-se de gatinhas,
E nem que pinto fora assim piava.
£u. Quem ? O Padre António, que tocava
Diversos minuetes e modinhas,
Cuja calva era funções de ladainhas
Entre cinzentas c'roas alvejava '
M' Esse mesmo. Eu. Quem fez tão bom achado "í
\{ ' Certo ntravessador, que mui contente,
Entre capões o tinha pendurado.
Mis vio, que lha dizia toda a gentt: :
Como está manso pelos pés atado !
Se o soltarem, vai dar a São Vicente.
-, -;li !ii! ' ' .V ^^-^ -:^^\.c^.- híf^^^iiliV ú-
. >' ' 4 i-^ ^i X ^i H:_H H H H f< M H .M
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XXXVI.
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Ao Padre Delfim.
1 AMBEM me lembra a mim, que já tiveste
Mais cabello na calva luzidia;
E me lembro também, de qu'algum dia
De vir comnosco estar gosto fizeste:
Nem me esqueço de quando nos tangeste
(Por signal que cigarra parecia)
A rabeca, que a todos aturdia.
Até qui coitadinho endoudeceste.
Desgraçado Delfim ! Eras bom homem.
O mofico do moço deo-te olhado.
Foi o mesmo que verte lobishomera.
Agora andas cumprindo com teu fado ;
Só gostas de comer o que elles comem.
Depois de digerido e transmutado.
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Ite
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X\XVII.
A' calva do Padre Delfim.
i OR Cerastes e Gorgonas lançada,
Do mirrado Cassini á sombra fria,
Passa do lago Averno a gritaria.
Sobre as azas da noite reclinada.
Das veneráveis deosas avexada
Teme não rompa cedo o claro dia:
E acossada dos cães freme, assovia.
Tremendo a terra toda de assustada.
Silvando vaga assim de rua em rua,
E ao som medonho da infernal calceta,
Súbito quebra o somno mais profundo:
Vem buscar do Delfim a calva nuJ,
Para traçar o giro de um cometa
Q.ue lia de crestar a grenha a todo mundo.
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í!ít>
XXXVIII.
Ao Padre Delfim.
1kD.\ a vermelha Aurora somnolenta,
Os olhos esfregando, mal abria
A dourada manhã, e a luz do dia
Ko Tejo se encostava macilenta.
Das nuvens o theatro representa
íris formosa, qne fugir se via
Do socegado mar da Trafaria,
Triste final da próxima tormenta.
Quando três, quatro, seis e oito vezes
O inquieto Delfim por mim chamava,
Os lombos despegando-me do leito.
Fallou, tossio, tocou e em taes revezes,
Q.uando cuidei qne socegado estava,
Fez-me os versos fazer, qne tenho feito.
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XXXIX.
Ao Padre Delfim.
t/UAL saudosa mã;, que da ribeira
Bradando afflicta, em lagrimas banhada
Co amado filho, de quem era amada,
Vò da praia fugir a iiáo ligeira.
Tal nossa saudade verdadeira
De te não ver aqui desesperada,
Sente que da afHicção a alma cansad.i
EstA chegando á hora derradeira !
Tristes, mudos, affiictos e chorosos,
Uns para os outros, nem se quer olhamos
Q.ue longos são os dias invernosos !
E se ás vezes as trombas levantamos,
Pelo Padre Delfim, delle saudosos,
Uns aos outros a medo perguntamos.
40
k^
w
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I
XL.
Ao Padre Delfim.
lyJU' é delle o cabeção do Padre António ?
Onde tem o cbapéo, mais a bengala ?
Francisca, vè se podes apanha-la:
Fngir-nos se intentava, era bolouio.
Ora anda, rapariga do demónio ;
Espera, escuta se resona, ou falia.
Acordaste-lo ? Valha-te uma bala ;
Pois perdeo duas missas Santo António.
Deos te salve. Delfim, muito bons dias :
Queres chi ou café ? A Miss Rosa
Tem ordem de fazer-nos as fatias.
Q.uanto esta manhã fresca é deliciosa,
Quanto de inverno sâo as noites frias.
Para nós tua vista é saborosa.
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N N.
/\MIG0 Padre António, a Fonte-Santa
Sem ti nâo vale nada; descontentes
Convidados, amigos e parentes,
A. todos má tristeza nos quebranta.
A mim, pobre de mira ! Já me ataranta
Ouvir supplicas tão impertinentes.
Uns dizem, que virás ; outros, que mentes.
Que deixaste o bordão, que tezo canta.
Ora vem, bom Delfim, verás louraças,
Magotes e magotes de mulheres.
Umas assim assim, outras caraças.
Sege te mandarei, se sege queres ;
Nâo te peço senão, que agora fasas,
O que fizeste já n' outros prazeres.
'•m^^f^j) V
XLII.
Ao Padre Delfim.
/\MIG0, fallo serio, saudosos
Pelo nosso Delfim todos chamamos.
A's portas e janellas perguntamos.
Que feito foi de ti, de ti queixosos
Sempre os olhos trazemos lagrimosos
E crestaJos do pranto que choramos.
A's mangas sem cessar nos assoamos.
De cada vez nos vemos lEais ranhosos.
Nào desprezes. Delfim, o amor ardente
De teus velhos amigos, coitadinhos.
Que seta ti sol n^o achJo, que os aquente
Quaes pião pela máe os pintainhos.
Assim chama por ti toda esta gente.
Parentes, convidados e vizinhos.
45
'.■^
XLIII,
IN A. solitária praia a ruiva arê.i
Com a luz da manhã resplandecia;
De inquietas estrellas se cobria
O fundo pego, que sonoro ondca.
De branca espuma na cerúlea vè i
O gado de Protheo sulcos abria ;
Glauco da barca as redes desprendia
O lanço consagrado a Galatéa.
Mas suspendeo as chinxas assustado,
Vendo boiar do Tejo n'agua pura
O coral roxo, o murice dourado.
Ouve uma voz bradando : ,, Quem procura
Profanar este dia consagrado
Da engraçada Corina á formosura ? ,í
\/Í--^
<£í^
%
XLV.
llONTEM se foi d'aqui Nize formosa.
Nize nosso prazer, nossa alegria :
Tornou se em feia noite o claro dia ;
Cobrio-se o sol de sombra pavorosa.
Ate a clara fonte saudosa
Inconsoláveis lagrimas vertia :
E a tarde, que mil ditas promettia,
Oh! quão triste nos foi, quão amargosa!
Keste espanto fatal um desgraçado,
Que por Nize em amor todo se inflamma,
De Kize tão cruel assim se queixa :
Se o mundo todo fica tão mudado,
Quando foges de quem em vão te chama,
0\x não v.is, ou teus olhos c.i nos deix«-
- ' ^■^-■' •■■■
U:
XLVl.
Aos annos da Snr* D. Camilla.
UOZE vezes o sol com seus fulgores
De teus annos dourou, CamilU, o dia ;
E doze vezes cheios de alegria
Empennarão as settas os Amores.
Croada a primavera de mil flores,
Pelos campos aromas espargia,
O mesmo céo de estrellas se cobria :
Brilhavão da virtude os resplendores.
Jazem na fresca relva os armentios ;
E os pastores tocando nas avenas,
Modulão o teu claro nascimento.
Murmúrio brandamente os alvos rios.
Correm sonoras fontes mais serenas,
Tudo respira emfim contentamento.
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uj.j>Ai\vyMiifJL>^.'^iKyL'!yjJ^'..*y^
47
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XLVII.
A' uma senhora, a quem o autor
chamava sua mãe.
V_>OMIGO minha mãe brincando um dia.
A namorar c'os olhos me ensinava;
Mas Amor, que em seus olhos me esperava,
Com mil brilhantes farpas me feria.
De quando em quando mais formosa ria,
Porque incapaz do ensino me julgava;
Porém tanto a liçâo me .aproveitava,
Que suspirar por ella já sabia.
lím poucas horas aprendi a ama-la :
Ditoso se tal arte não soubera.
Mão me cus;ára a vida não logra-la.
Certo, que aprender menos melhor era ;
Pois não soubera agora deseja l.>,
'Nem de tão louco amor enlouquecera.
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Xi^^-i^^-;^'
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i.
i
55
?5
XLviir.
A Jeronymo Henriques de Sequeira.
UOUTOR Henriqaes, o Garção doente,
Vai-se achando peor, a febre atura ;
A face cada vez está mais dura.
Tratando mal de mim toda esta gente.
Cuido que vejo a fouce reluzente,
Na descarnada mào da morte escura
Ante 03 olhos girar, e a má figura
Bem certa de vencer, mostrar-me o dente.
Um bando de atrocíssimos peccados,
Rezenha estão fazendo em outra parte,
Terço de Tabareos mal encarados.
Q.ue poderei fazer senão chamar-te 'í
Teu nome, se me livras de cuidado,
Cantando espalharei por toda a parte.
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I
Ê
kl
II
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XLIX.
U
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1 RES vezes vi, M.irilia, de alva liia
Cheio de luz o rosto prateado,
Sem que dourasse o campo matizado
A linda aurora da preseiiya tua.
Então subindo X serra calva e nui.
De um Íngreme rochedo pendurado,
Os alhos alongando pelo prado,
Chamava, mas em vão, a morte crua.
.Mli commigo vinhão ter pastores.
Que meus suspiros fervidos ouvião,
Cortados do alarido dos clamores.
Tanto que a causa de meu mal sabi.ào.
Julgando sem remédio minhas dores,
Por não poder-me consolar, fiigiào.
È
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So
"^IgfçlJt^P
El
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0
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(jiaii
L.
Lacaios, mulher, filhos e criadas.
Todos clamando estão pelas fogueiras,
Quaes gritâo marafoaas regateiras,
Pela taxa, ou tributo alvoroçadas.
O cotão sacudindo, despejadas
Lhes mostro sem pataca, as algibeiras ;
Elias, que são ladinas e matreiras,
Trazem papel e pennas aparadas.
Que te escreva me pedem, que te peça
Para cabeças, ou barris dinheiro,
Q.ue o Luiz irá lá a toda a pressa.
Que remédio ! Despacho um caminheiro.
Pois temo, que me queimem a cabeça,
Ou me ponhão por masto no terreiro.
i
I
ííí-
I
fe
LI.
JA detrás cio cas.il vem resurgiiido
O Pedro e Frei Joaquim ; eis que da Fonte
Rebenta o bom Mardól no preto Kitlionte,
E c'o chapéo na mão se vem já rindo.
Na janella apparecc o rosto lindo,
Q.ue nâo é justo, amigo, que te conte ;
S.iltão os dois A terra alli defronte ;
.\s raparigas vão de cá sahindo.
laz Francisco Raymundo de barrete
Em trages de Confúcio ou de Mafoma,
Os gentis oUios baixa Aonia s:\nta.
O Pedro corre a mâo pelo topete,
Depois de cocliichar o chá se toma :
Eis-aqui o Long-Room da Fonte-Santa.
^^m^^nw^Ftwfmy^'--'^
INDA que abrindo a boca o mar irado
Os dentes mostre em borbotões de espuma ;
Ou nos abysmos rápido se suma ;
Ou caia das cstrellas despenhado :
Inda que o oceano denodado,
Co grão tridente dardejar presuma ,
E que o misero corpo me consuma,
De cerúleos delfins atassalhado :
Inda que Europa, com fragor estranho,
Suraergindo-se seja a campa minha,
Servindo-me os antípodas de lastro:
Qual impávido Séneca no banho,
Com os dedos fazendo tesourinha,
Repetirei a historia de Alemcastro.
Ur
LIII.
OK como tu. Amor, mandas e queres
Que admire de Tvrcea a formosura.
Igual á que me abraza chamma pura
Em seu peito iuvencivel accenderes :
Se em seus divinos olhos tu pudores
Claros signaes mostrar-me de ternura ;
Se em ve/ de ingrata ser, e ínr tão dura,
Q.ue benigna me attenda, emfi n vencjres ;
Então direi, Amor, que és poderoso.
Que te é d.-vida nossa idolatria,
E que podes ta^er-me venturoso :
Mas receio que Tyrcea ingrata,
Cedendo a meu destino rigoroso.
Destes si;spiros faça zombaria.
54
^.x
<Jí^
j-^-. i>j,.^
LIV.
Ao terremoto do i» de Novembro de 1755
Afortunado Enèa?, que sahiste
Da destruída Tróia, carregado
Com o pezo feliz do pae amado ;
E assim as leis do sangue bem cumpriste
Também ne;sa piedade resististe
Ao direito fatal do injusto fado :
Se viste o pátrio ninho destroçado,
Salvo, quem te deo ser, ditoso viste.
Os penates, os sócios transportaste
Ao Lacio porto, aonde achaste abrigo.
Onde um novo palladio coUocaste.
Eu provei mais cruel fado inimigo,
A pátria vi arder ; ta a salvaste ;
Mas eu perdi o pae, perdi o amigo.
ss
-''»'"~!»^^g!fctfc^'^
LV.
A sua mulher a Snr' D. Maria Anna Xavier {(|
de Sande e Salema.
/\0 som dos duros feires, que ;irrastava,
A lyra de ouro Corydon tangia,
De Mareia o doce nome rej-etia ;
Mas no meio do canto soluçava.
No rosto macerado, que enfiava,
O lagrimoso pranto reluzia ;
E nos olhos, que aos altos céos ergi'.i.i,
O pens.imcnto intrépido voava.
K.io se assombra de ventos insoffridos,
Nem com ousado lenho arar intenta
O polo do futuro nebuloso :
Menos chora terrenos bens perdidos :
De pouco um peito grande se contenta :
Antes quer ser honrado, que ditoso.
sf>
^>
LVI.
^UJOS Broutes eslão arregaçados
Batendo o rubro ferro, e retinindo
Os rijos malhos, vã D ao ar subindo
Estellantes coriscos enrolados.
Ao fuzilar dos golpes, pendurados
Apparecem mil elmos reluzindo ;
Na forja a labareda está zunindo,
Impellida dos folies engelhados.
Crystallino suor alaga a testa
Do coxo mestre ; a calma da officina
A' fre':ca viray.ão as azas cresta.
p»Kí),- r^^ Forjavão uma setta colubrina ;
A' vista dos bons olhos de Corina.
Sj/T'/ ^ |'< Eis entra Amor, e diz-lhes que n.ío prestí
57
A' morte de Félix Coutinho
CSPIRITO gentil do esposo .im.ido,
Q.ue sobre as azas de virtudes santas,
Muito acima dos astros te levantas,
Do misérrimo corpo desatado :
Ante o sólio de e.strellas recamado,
Já do grande Adonai o nome cantas ;
E do perpétuo dia não te espantas,
Que a nossos mortaes olhos é vedado ;
Se o p.irpureo semblante a nós volvendo
(Nova constellaç.^o resplandecente)
A terra, lá do cio, inJa est.is vendo;
r.i Não te canses de nosso an.or ardente,
f/fi^f- }]'i Q.ue este pranto, que ves estar correndo,
Q.ue viva cá sem ti, me não consente.
LVIII.
Contra José Basílio da Gama.
V,,/JJEM vem lá? quem nos honra? Este estudante,
Q.ue das Musas quer ter o magistério,
Aprendeo com varões do sacro império,
Porém se tolo foi, veio ignorante.
Examinado elle, é um pedante
Das Musas portuguezas vitupério.
Foi creado no cálido hemispherio,
Fidalgo pobre, cavalleiro andante.
Do alto monte que é aos céos visinho
Só elle o alado bruto enfreia e doma.
Faz castellos no ar de cedro e pinho.
í
^S^f^.^ o louro, quando quer, despreza e toma :
vv]v/' Arredem-se, senhores, dêem caminho,
Passe o senhor quaqui, que vem de Roma.
■^N
r
I LIX.
Contra um rancho satyrico
1 INTO fiJílgOj embiix.iJjr di Mancha,
Tu Monteiro roaz, que na baralha
Vales por espadilha da canalha
Q.ue a fama allieia com ferretes mancha ;
Padre Niceno, tu, patrão da-lancha,
Carregada de drogas da antigualha,
Que o Bandeirinha alvar á tôa espalha,
Potro que n'outro potro se escarrancha ;
Capitão Archimedes, tu zarolho,
Manoel de Souza que pareces Mendes
Que da recua aproveitas o re=.tolho ;
-,. Ulpiano venal ... tu bem me entendes . .
^S^f^^^ .■<^ Se para estas cousas tenho dedo e olho,
1VV>' ' ' Em peralvilhos jubilado tendes.
m**'
■'^.
^V,
)â^M
gj
LX.
1 U és Dircea filha do Tirreno,
Eu um dos filhos sou do pobre Alceste,
Mas nem por fado teu tal pai tiveste,
Nem eu por culpa minha sou pequeno :
Bem sei que te pretende o rico Alceno,
Mas se pelles e lãs mais finas veste,
TSo bem no amor o venço, q*ial cypreste
Excede no robusto ao brando feno.
Deixa vaidades da justiça alheias,
Nâo desprezes affectos e ternura,
F^ Por teres mais cabritos e colmeias.
Ttfòr \ ) JY ' Vè que a virtude própria em mim premeias,
E nelle só premeias a ventura.
;V'!5
LXI.
ÍNAO cobre v.istos campos o meu gaJo,
O maioral não sou d.i nossa ald.-ia,
Do meu traballio conio, mas Dircea
Ainda que sou pobre, vivo honrado.
Ko jogo da carreira c do cajado
Até o dextro Algano me receia,
Qual loura espiga de grãosinhos cl
Me alegra ver teu rosto delicado.
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62
LXII.
Ao Padre António de S. Jeronymo
Justiniano, Capellão do coro de N. Snr»
do Loreto da Nação italiana.
IVllSERO gandaeiro do Parnaso,
Que para alimentar teu pobre estylo
Das escorias tiraste do chirilo
Com que da ideia encheste o tosco vaso:
Apoilo faz de ti tâo pouco caso,
Que vendo que tu foste persegui-lo.
Podendo te mandar beber d' aquillo.
Mandou te desse fúria o seu Pégaso.
' Essa fúria que o Pindo te dispensa.
Bem se vê que é de besta; no proluxo
O dás a conhecer de uma obra extensa.
Deo-te Pégaso as aguas de repuxo,
Que Apoilo só se andasse de corrença,
E' que podia dar- te o seu influxo.
'^WW^'^'^^^"^^''^^
t^
te-
-^
/\MOR no; olhos da formosa Clara
Armado não d.' settas, de ternura
Cruéis vinganças, implacável jura
Guerra fatal aos corações declara.
Dos brandos tiros que d' alli dispara
Ninguém pod^, ninguém fugir procura
Q.ue do mesmo poder da formosura
Kenhum peito Je bronze se depara.
Seus lindos olhos c^m desJem movidos
Pis.ào desejos mil, rendem mil peitos,
Lanç.io por terra corações feridos.
Se esquivos causão \Xo cruéis cffeitos
Inda causão mais anciãs, mais gemidos
Quando se deixão ve- a amor sujeitos.
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64
b -
LXIV.
A António Diniz da Cruz.
V^/UIXZE vezes a .iiirora tem rompido
li accendi outras tantas a candêa.
Desde que prezo estou nesta cadea,
Sofirendo o qu; nenhum cá tem soffrido
De todo tr.igo o estômago perdido ;
Como frio o jantar, mal quente a cèa,
E este raisero ornato cuie me arrca,
De noute ó cama, de manhã vestido:
A um canto da bocj arrumo um dedo:
Subo os olhos ao tecto, ao chão os mando
Sem saber o que faço me arremedo:
Comigo mesmo estou philosophando :
Nego os mesmos princípios que concedo ;
Vc tu, meu bom Diniz, quil louco eu ando 1
T**
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ODES
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Aos fidalgos, que protegião o theatro
do Bairro Alto.
Siropht
N
Ao arábico incenso, ouro luzenti-,
Xeni pérolas do Ganges,
\iío tenlio que off'recer-vos reverente'
Malhas, arnezes, púnicos alfanges ;
Mns soberbas phalanges
Di: almos liymnos Dirceos, qu'immort;\cs tecem
Mil c'rôas á virtude, me obedecem.
f
S8
I
ilr
Antislrophe.
Fuja o profano vulgo, qual nos montes
O rebanho medroso,
Quando vè fuzilar nos horizontes
O farpado corisco p.ivoroso.
Ouve o trovão ruidoso,
Correndo pelo valle se derrama,
E em seu balido o pegureiro chama.
Epodo.
Nos mansos ares vejo
Ji sobre as azas lúcidas pezados
Meus fogosos Ethontes, que banhados
No doce, flavo Tejo,
Os freios de diamantes mastigavão
Quando as nymphas de rozas os c'roavâo.
69
Slrophc.
Esta, que afino cithara famoía,
Deo-m'a o cysiie do Ismcno;
Cujo canto em Elia victoriosa
Foi sempre ás -Musas mais qu'ao Pinjo ameno;
Com semblante sereno,
A mão nas áureas cordas me firmava.
E ás argivas canções me acostumava.
^4nlistrophe.
Assim digno n.e fez do levantado
Assumpto magfstoso,
A quem lioje me inspira a luz do fado,
Que em meus versos lhe erija altar glorioso
Brame o tempo invejoso,
A fouce morda, e ameace damnos;
Mas meus versos domin.io sobro os annos.
Epoilo.
r
Canto a illustre e clara
Descendência de heroes, que a lusa tcrr:
Ou na dourada paz, ou dura guerra
FizerSo mais preclara :
Cuja fama em relâmpagos diffuza.
Ainda fulmina os campos de Ampcluza.
Strophe.
O heróico e real sangue vos infiamma.
Que regou derramado,
Louros e palmas, que cultiva a fama,
Nos espantosos montes do Salado.
O bárbaro espantado
Deixa, fugindo á ultima ruina,
Arrazadas de luas a campina.
tAntistrophe.
Que eterna gloria! Immensa luz scintilla
Nas aras da memoria!
Alli Farrobo vejo, e vejo Arzila,
Destroçados despojos da victoria !
Da lusitana gloria
Escravas gemem, mostrâo de horror cheias,
Ceuta, Larache e Tanger, as cadeias.
Epodo.
Para fugir no Oriente
Do pátrio ninho impávida fugindo
Está sonoras velas desferindo
A brava lusa gente.
Arando o Gama vai sem temer Juno
Os inhospitos campos de Neptuno.
■'f > »^ J» ey-^-C?-»^J^ :y
•y^;
71
Sirophe.
De Alhuquerques, Almeidas, Castros fortes.
Que feitos não pregoa
A honrosa tradição, que espanta a morte,
Q.u'além dos tempos derradeiros vôa !
Ásia respeita em Gôa
O nome portuguez, luzes divinas,
Que humilde adora nas sagradas quinas.
Aulislrophe.
De tão honrados inclytos maiores
Vós, netos generosos.
Do fado das latalhas sois senhores;
Illustres cavalleiros victoriosos,
Espiritos briosos
Vos inspira o ardor que vos inflamma.
Té o grão templo conquistar da fama.
EpoJc.
Mas j.í do batel pobre
Sinto a quilha gemer; o débil lado
Dos ventos e das ondas açoutado
De alva espuma se cobre :
Remos não tem, não tem pharoes, que o rejaõ,
Debalde as velas contra o mar forcejão.
f
>iíi
íl^v.
Strophe.
Tempo, tempo virá, que as desp-ezadas
Musas do pátrio Tejo,
Por vossas mãos benignas levantadas
No porto vâo fugir, qu'inda nâo vejo:
Então, então sem pejo
Em grave scena adereçando a Historia,
MostrarSo quanto pôde o amor da gloria
Anlislrophe.
Calçando o humilde socco, ao feio vicio
A mascara rasgada,
Hâo de ensinar no cómico exercício.
Como verdade do alto céo mandada.
De rosas coroada
•SSs máximas dictando ao povo rude
Espalhe 05 claros raios da virtude.
Epodo.
O jugo vergonhoso,
Os cepos, em que jazem prisioneiras,
Como escravas das Musas estrangeiras.
Com animo brioso
DesejJo sacudir ; serão louvadas,
Dignas entio de vòs, por vòs honradas.
&m^^&^
Ao Ex"'" Conde de Oeiras
Sírophe.
T
U difficil virtude, dom celeste,
Q.ue meus hymnos governas,
Tu que, sereno o rosto,
De Scoevola pozeste a mão no fogo.
Que, invicta, não rece.i.is
De purpúreos tyrannos a presença,
Que Regulo mandaste.
Pelos cepos trocar a liberdade.
;:í^
•*"V«
't'
Antistrophe.
Tu me chamas aqui para em meus versos
Da venturosa Oeiras
Cantar a nova gloria
Do magnânimo Conde, o amor da pátria !
Se o raio luminoso
Por sobre elle brilhou com que tu mostras
A constante justiça,
O valor e a prudência, ouça meus versos.
Epodo.
NSo me instiga a lisonja; r.Jo invoco
As musas fabulosas,
O céo, o céo niMnspira: da verdade
Os trovões e relâmpagos me cercão.
O intrépido zelo
O florente commercio, a paz dourada,
Kâo silo cinzas de Tróia ou de Carthago.
itli
^^
vv^
7S
Slrophe.
Vinde, sonoros liymnos, sobre minha
Cithara ditosa,
Batei as brancas azas !
Fremão, caião de Alcides as columnas!
Pelos ethereos campos
Das que vos traz;m, rápidas carroças
Ouço gemer as rodas.
Dois luminosos circules abrindo!
Aníisirophe.
Q.ue mais fiel sibylla, que a experiência ?
Não falia, não responde.
Sem de profundo abysmo,
Evocarmos a sombra de Tirezias?
Testemunhas maiores
São de tuas acções, sábio ministro,
O throno defendido,
A pátria restaurada e nós felizes !
Epodo.
As nove ricas pérolas que brilhão
No coronal dourado,
Q.ue teu semblante plácido guarnecem,
Por premio te são dadas, não exemplo
Virtudes coroào,
E virtudes impávidas domara )
A cruenta discórdia, a vil cobiça.
i
76
Sirophe.
Mas negro fado que arbitro se julga
D'iniperios e cidades,
Temia erguer Lisboa,
Coroada de mil torres, a cabeça;
As artes e sciencias,
A' sombra de teu nome, receava
Da barbara ignorância
Os pesados grilhões despedaçarem.
Antislrophe.
Bramir jA via justamente atada
Em ferros vergonhosos
Co rosto descorado
A perversa doutrina abominável.
Nas cerúleas espadoas
Erguer o Tejo mil rompentes quilhas,
E respeitar Arcturo
As sagradas bandeiras lusitanas.
Epotlo.
Abrir o Grâo-Pará os fulos braços,
E em seus verdes cabellos
Roxos coraes, e aljôfares atando,
Nas douradas manilhas ler teu nome,
Co farpado tridente
Que ergue a ji livre mâo, lançsr por terra
Os nefandos altares da avareza.
Strophe.
As santas leis, magníficos projecto?,
O publico socego,
O reino venturoso,
Com cruéis olhos via o triste fado !
Occulta providencia
Cevar-lhe permittio em nosso sangui;
As áridas entranhas :
Não valerão incensos nem altares.
Antistrophe.
Já o fatal decreto a mão potente,
Justiceira, rubrica ;
Procellosos vapores
As convulsas cabeças levantarão ;
Dos cárceres terrenos
Abalarão indómitos os muros,
fi aos hórridos bramidos
Estremecco a miscra cidade!
Epoilo.
Estremeceo a serpe triumphadora.
Que, no real escudo,
Tantas vezes voou sobre as profanas
Despedaçadas luas agarenas !
Silvou espavorida
Nas escamosas azas mal segura
Tão mudada ficou a natureza !
l^s-
78
Strophe.
A pávida Lisboa desgrenhada
Era negra cinza envolta,
Vendo os reaes castellos
Cahirem-llie na fronte destroçados,
Em ti fixou os olhos.
Os olhos em ti poz, illustre conde!
Em ti que sacrificas
A' publica saúde teu cuidado.
Antistrophe..
Qual a casta Penélope, chegando
A' pátria saudosa,
O desejado Ulysses ,
Os traidores amigos não temia.
Da simulada tèa
Larga a tarefa, as lagrimas enxuga,
Assim, assim Lisboa
Em teus braços descansa, em ti confia.
Epodo.
Nos grandes p'rigos brilhâo almas grandes !
Tendaridas estreitas
Qjje, na força da negra tempestade
ApplacárJo o furor das bravas ondas :
O piedoso Enòas,
A poucas cinzas Tróia reduzida,
O pae salvou, amigos e penates.
79
Slrophe
Clamar ouvimos a infeliz cidade
Aos altos céos erguendo.
As mãos enfraquecidas;
Ainda os cchos ouvimos destas vozes:
« Se em tuas santas aras
« Puro incenso queimei, senhor, guardai
II O constante ministro
II O defensor do lusitano Augusto ! n
Anlislrophe
Assim aftlicta, assim a pátria illustre
Por ti ao céo clamava !
Os poios abalarão
Cum tremendo sussurro respondendo !
Desceo celeste cliamma,
Sobre os destroços dos cabidos templos ;
E, recobrada esperança,
Agoirou mil venturas de presagio.
Epodo.
Ainda guardadas tenho, excelso conde,
Em minha rica aljava
Mil refulgentes settas que podiao
Os olhos assombrar do torpe vulgo ;
Porem da mâo me arranca,
Mâo sei que forçi, a citliara soberba!
Mas qu.-m ha de calar a tua fama ?
PfW - •» ' ~Íi "^^ ♦«^. Ã^*. 7j * o1
r
8o
Strophe.
No Menalo, se ArcaJia nâo levaata
Em honra de teu nome
Uma soberba estatua
De rico jaspe, como tu mereces,
Seus hymnos te consagra,
E nelles viverá tui memoria,
Teu nome escreveremos
Em nossos corações, em nossos versos.
Antisírophe .
Uirceos hymnos que sobre as áureas lyras
Lançaes eternas luzes
E ao som de illustres nomes,
Espalhaes da virtude os resplendores,
Vós a lúbrica fouce,
Tiraes da mâo do tempo, e derramando
O volúvel relógio,
hores vos fareis da eternidade I
Epodo.
Nâo ergue a mâo cruenta a fria morte
Contra sonoros versos I
Em vâo levanta templos e columnas,
Quem da pátria os louvores nio merece;
Teu zelo incontrastavel
Tuas acções illustres cantaremos !
A macillenta inveja
As viboras cerúleas despedace !
III.
A' Snr» D. Maria Joaquina
de Gusmão e Vasconcellos
1 ELEIJEI, peleijei (e não sem gloria)
Nas barbaras, indómitas phalanges
Do forte domador de Immanos peitos
Insano amor potente.
A triuraphal carroça acompanhando,
Angélicos cabellos ennastrados
Com mirto e rosas ; de corado pejo
Os alvos rostos tintos :
.Mil garridas, mil cândidas Licores
Vencedor me jurar.io, me renderão
Do rizo e do prazer, no Capitólio
Humilde vassallagem.
Mas o tempo voou, agora manda
A nevada prudência, que amainando
As velas enfunadas, surja o lenho
Em socegado porto.
r?^
82
Larguemos pois altivos ardimentos
Os soberbos trophéos. Eia, larguemos
Arrastadas bandeiras, rotas armas,
Ilíacas escravas.
Aqui neste despido freixo annoso
Fique a sonora lyra pendurada.
Qual no templo suspende o naufraginte
Os húmidos vestidos.
Para ser mais solemne o sacrifício
Em vergonhoso cadafalso queime
Arrependida mão odes, sonetos ;
Espalhe o vento as cinzas.
Ondada crepitante labareda,
Entre serras de fumo lance aos ares
O solto sprito de meus versos tristes,
Q.u'em raio se converta.
Com medonho estridor desça inflammado,
Os fragosos outeiros abalando,
Assombre o peito de Marília ingrata,
Da pérfida Marilia.
c»~'a« i-»s»~;fí
v^
^ff;wg'^y«;w»;t7^
.^-
IV.
o ponche.
1 OIS torna o frio inverno sacudindo
Das estridentes azas gelo agudo,
As retalhadas mios, amável Lydia
Aqueçamos ao fogo.
Emquanto pelos montes, que branquejão
As crystallinas cís d'annosos troncos
Com os raios do sol estaõ brilliando,
Quaes brilhão de Marilia,
Da travessa Marilia, os ledos olhos,
A' chaminé um pouco nos sentemos :
J.i silvando entre ondad.is labaredas,
A secca lenha estala.
Conversemos, bebamos, murmuremos :
Comtigo as Graças vem, comigo Amores,
Que no varrido lar ao lume secção
As orvalhadas pennas ;
f
m
«4
Os froxos arcos bocejando largâo
E nas cruéis aljavas reclinados,
Porque vélaô de noite, somnolentos,
(Coitados!) adormecem.
Ferve o cheiroso ponche, que desterra
A pezada tristeza, os vãos temores.
Que deixa voar solto o pensamento
Kas azas da alegria.
Reluzindo ni meza os crystaes limpos,
Nos pedem que bebamos,. que brindemos;
Ora bebamos, Lydia ; deixa aos astros
O governo dos orbes.
Náo queiras triste penetrar a densa
Caliginosa névoa do futuro :
Nio percas um instante de teus dias :
Olha, que o tempo voa !
Volo com elle nossas esperanças,
Castellos sobre nuvens levantados '.
A mais pomposa scena da fortuna,
D'improviso se troca !
^>#^
v.^-
85
Apenas vi raiar um doce rizo,
Ko angélico semblante de Marilia,
Dos olhos me fugio o lindo gesto
Q.ue os olhos me levava.
Qual sonhado thesoiiro em negra cinza
Se tornou todo o meu contentamento :
Ah ! Marilia cruel ! que te custava
Trazer-me neste enajano ?
\'oai, feri, Amores, essa ingrata ;
Fazei-a suspirar por quem lhe fuja ;
Prove tormento igual a meu tormento :
Em vão, em vão se queixe.
Perdoa, Lydia, se blasphemo e grito.
Que ponche também faz di/er verdades
K Marilia formosa ; mas ingrata . . .
Creio que o tempo muda.
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^^Xí' ;«• 4 *<I c # f>Jr»
86
A' Virtude.
1_1GAD0 com aspérrimas algtmas
Ao rígido penedo ;
Com um agudo cravo de diamante
O peito traspassado ;
Convulso o rosto, e tinto em negro sangue.
Que brota da ferida,
As sonoras pancadas do martello,
Com que bate Vulcano
Nas cavernas do Cáucaso retnrabâo :
Porém constante e forte
N3o geme Prometheo ; antes accusa
A Júpiter de ingrato :
Innocente se julga; X força ímpia
NSo cede do tyranno.
Assim, assim, a misera pobreza,
A contraria fortuna
'jiS^t
wm^m'^^
v^
*•"-*''«;-'
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87
Deve immovel soffrer uma alma grande,
O' Sousa esclarecido !
Varra o credor soberbo a pobre casa
Co desabrido alcaide;
Dorme no duro chão tão descansado,
Como no leito brando,
O intrépido varão, que do destino
Prova os fataes revezes.
Co' a dourada carroça o molle eunucho
O pize ou atropelle.
Não lhe inveja a riqueza. Que outrem lavre
Nas ribeiras do Tejo
Cos malh.idoi bezerros longa terra.
Não lhe acorda a cobiça.
Vente embora do Sul; caliindo, açoite
Ao negro mar que brada,
O pluvial Arcturo ; a vara creste
Do podado bacelo
Espessa chuva de árida saraiva ,
Nada lhe abala o peito.
Enroscada no braço macilento
A venerosa serpe
Chegue ao seio cruel a triste inveja ;
E a pérfida mentira
í?Vv
^>s>»..j^'-^.^ y^^^^ry T^^^cLr/^
(^
Cos titubantes beiços o crimine,
Rirá no cadafalso.
Só dos delictos póJe o vil remorso
Mudar-lhe a cõr serena
Do tranquillo semblante : a mio potente
De quem o fez, sò teme.
Os homens nào receia, que a virtude
O coração lhe aaima ;
E a consciência sà, a fé intacta.
Os austeros costumes,
KAo fantásticas honras isto ensinão.
Assim dourão a morte
Os Uticenses, Régulos, os Marios.
Apezar do supulchro.
Sobre as azis dl tempo assim passáráo
As lethargicas ondas
Do rio somnolento. Assim c'roado
De gangeticas palmas,
O destemido Castro n'alta serra,
Q.ue templo foi de Cynthia,
Retirado vivia ; a mão invicta,
Terror e gloria d'Asia,
Os silvestres arbustos cultivava.
Subjugando a vaidade.
SW.»*
v^*
^'•^W
« Passe á gineta o timido guerreiro,
Q,ue com as armas limpas
Da batalha fiigio espavorido ;
Porque do sangue antigo
A arvore apresenta. Ainda que honrado
O desvalido mostre
As roxas cicatrizes das feridas
Que soffreo pela pátria,»
Dizia o grande Castro. O lisongeiro
Estudando o segredo
De agradecer desprezos, não se affaste
Da sala do ministro.
AUi dourando o sol os altos montes
Na madrugada veja ;
AUi o deixe a lua, que vermelha
No horizonte mettida,
Estende os froxos raios pelas ondas ;
Se com publica fraude
Ao miserável orphão a capcUa
Subnegar-lhc pretende.
Aspiro á boca o julgador iniquo,
Que aos ollios da justiça
Roubou a santa venda, que equilibra
Nas vendidas balanças
Tl^c'»-'V*_«Cv1í".'»'4*
90
Os dourados delictos. Soffra, e busque
A vergonhosa scena
Da súbita catastrophe o privado,
Que o rosto nâo conhece
Da clara fama, da iminortal memoria,
Da honra, e da virtude.
Mas qual Marpezia rocha, um peito forte
Káo roga, nâo se abate.
^^^M^:^;*
■i^
->%'
\^sy
91
VI.
A' Virtude.
O
CO\'STAKTE vario, que justo e firme
Da difRcil virtude segue os passos,
O pezado semblante do tyranno
Não teme, não estranha.
Veja ferver o chumbo, erguer as cruzes ;
Ouça afiar na pedra o curvo alfange ;
SofTra no potro aspérrima tortura ;
Não perde a còr do rosto.
Em severos costumes ensaiado
Preza mais a innocencia, do que a vid.''.,
Fiel á pátria, ao principe, aos amigos,
Acaba como vive.
Com pavoroso estrondo se desatem
Em vermelhos coriscos as estrellas;
Brote volcões a terra ; da ruiiia
Impávido não foge.
9»
Assim Mário subio ao Capitólio,
Entre águias e lictores conduzido.
Com aspecto sereno; inda que atadas
As roxas mãos era ferros.
Na presença de César e Conscriptos :
« Fui, disse, fui fiel a Galba e a Roma
Confesso o meo delic.o, se delicto
A' virtude se chama.
« As legiões romanas testemunhas
Poderão ser : vòs, Cônsules, Tribunos
A verdade dizei ; dizei se Mário
Foi amigo de Galba ?
« Patrícios e soldados do divino
Júlio, ás aras jurem se me virão
Sempre ao seu lado. Alli, alli Camurio
Alçou a mio traidora.
« Eu vi o triste velho d;scorado
A garganta offrecer ao duro golpe ;
E indo da pátria o nome repetindo
A grande alma fugir-lhe.
« Ci^ 1^ c^-^»»^^» :•»-:!»
s^;
Sí^
fh»^<
^*13,>,
És'
*\
93
ic O' César ! aqui tens de Mário Celso
O crime e a confissão : Romanos, Mário
Foi a Galba fiel ! Vamos aonde
Está o cadafalso. »
Acabou de fallar. Cônsules, Padres
Attonitos ficarão ; porém César
De tão rara constância namorado
Nos braços o recebe.
;^^-
íç?-
f**l9t
<i ^-J ^
, ■<> ■
1^ <*
94
VII.
Ao Snr Manoel Pereira de Faria,
sócio da Arcádia.
Vê, Silvio, como sacudindo o inverno
As negras azas, solta a grossa chuva ;
Cobre os outeiros das erguidas serras
Húmida névoa !
Na longa costa brada o mar irado
Sobre os cachopos ; borbotões de espuma
Erguera as ondas ; as cruéis cabeças
N'agua negrejio.
O frio Noto, rigido soprando
Dobra os ulmeiros, os curraes derruba ;
E o gado junto, pávido balando
Une os focinhos.
Cora duro frio Corydon tremendo,
A roxa face no çurrío esconde ;
Cos altos sòccos quebra a preza neve.
Corre á cabana.
t.^SJ;^ -^^ *'^
95
Alli ajunta de podadas vides
Os seccos molhos: a';soprando accende
Pobre fogueira, aonde as mãos aquenta
Cos rotos fillios.
Pulão nos olhos lagrimas, que enxuga
Na grossa manga, reprimindo forte
Acerbas dores, reflexões pezadas,
Tristes memorias!
Eis que zunindo furacões horríveis,
A porta arrancão dos moídos gonzos:
Corre assustado, d'um fuzil que o cega,
A' luz vermelha!
Vio espalhadas viboras de fogo:
Ouvio bramando, retumbar no valle
Os longos ecos do trovão, que abala
Os altos montes !
Vò-se partida do voraz corisco
A rica proa de um baixel britanno ;
Não lhe valendo cem canhões soberbos,
Que Nantes teme.
96
Rotas tremulão as reaes bandeiras;
Rompem as ondas o infeliz costado :
Inútil pranto, tristes ais levanta
A lassa gente.
Agora, dize, quem seguro vive,
Amado Silvio, da cruel Fortuna,
Se as altas torres, se as humildes choças
A morte piza ?
Os áureos tectos, dóricas coluronas,
Quadros antigos, marchetados leitos.
Servem de espectros, Gorgonas, Cerastes,
Na fatal hora !
%^
97
VIII.
Ao beato Bernardo, Marquez de Baden.
V^ VARÃO justo, que, Senhor, invoca
Teu Nome Santo, no deserto monte
Faz que rebente cryslallina fonte
Da árida penha.
No fundo valle sua voz despenha
Qn:il moUe cera, liquides outeiros ;
Sonoros ventos, hórridos chuveiros
Plácido enfreia.
Baden o diga, quando a nuvem feia
Vermelho raio com furor rasgando,
Nos negros ares vio girar silvando
Tremula chamma.
Por ti, Bernardo, triste povo chama,
E o fulminado frio corpo exangue,
Da dnra terra, tinto em roxo sangue.
Eis se levanta.
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;^^;5v^^e ^ ■»■
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98
Assim armado de virtude santa
Serenos tornas os infestos ares ;
Assim dominas insoflfridos mares,
Ávida morte.
Salve teu nome do vibrado corte
Desamparados míseros humanos,
Que do castigo merecidos damnos
Pallidos temem.
i
99
IX,
A S. Norberto, Bispo e Confessor.
Espíritos rebeUes, que as infensas
Aljavas fulminantes
Das feias legiões de nuvens densas
Armaes de accezas farpas crepitantes.
Fugi para as distantes
Incultas brenhas de ariJo deserto,
Fugi do nome santo de Norberto.
Dos estellantes átrios desce armado
De medonhos rugidos
O leão de Jiid.i : no escudo alçado
Relâmpagos fuzil.io despedidos
Dos arcos desferidos,
Q.ue sobre Saulo attonito lançár.io
Settas, que dentro n'alma lhe atroarão.
r
^
I
iir
Rota a névoa mortal, que lhe encobria
O throno niagestoso
Do Senhor das batalhas, que o seguia
(Astros trilhando o carro luminoso)
Conhece venturoso
A mão potente, a qual se toca os montes,
Abafa o crespo fumo os horizontes.
Tu, Norberto, outro Saulo foste, quando
Intrépido e valente,
O rápido ginete arremessando,
De improviso brandio a nuve ardente
Relâmpago estridente.
Que ao bruto, do trovão espavorido,
Deixou a poucas cinzas reduzido.
Cercada de pavor d' alma constante
Se humilha a fortaleza ;
Vò scintillar o lúcido semblante,
Q.ue adora consternada a natureza,
Quando a vingança acceza
Leva os cedros do Libano frondosos
Nas azas de coriscos espantosos.
^W^
Caliginosas trevas já rompia,
E ao claro tírmameiito,
De luz surcando pélagos, subia
No regaço da fé o pensamento,
Ouvindo o ciar.) accento.
Com que lhe falia o céo: c o mar irado
Tremeo do som terrível assustado.
Movido pois de nosso ardente rogo,
Desce, ò Norberto Santo,
Dissipa com teu nome tanto fogo.
Ouve nossos clamores, nosso pranto ;
H já que podes tanto,
Pede ao tremendo Deos, que enfreia os mares,
Que lance os máos espíritos destes ares.
f
A S. Thomaz de Aqnino,
Dontor e Confessor.
I
OE na eterna Sião, onde ditoso,
Era premio da victoria,
Te coroa o semblante luminoso,
O sol de immensa gloria,
Thomaz, inclyto Santo,
Voar a teus ouvidos nosso pranto,
Ao mundo os olhos imraortaes volvendo,
Attende a nossos damnos :
Olha os ventos irados, revolvendo,
Os negros Oceanos,
De indómitas procellas,
Que soltão em coriscos as estrellas.
.>^^
Qual sem pastor o pávido cordeiro,
Ouvindo ranger perto
Do cerval lobo o dente carniceiro ;
Assim do inferno aberto
As fauces horrorosas
Vemos arder em nuvens tenebrosas.
Acode-nos, Thomaz ; lembrete quando
A mão Omnipotente
No throno de mil raios fulminando
O gume reiulgente
Da abrazadora e^ipada
Sobre ti viste com pavor alçada.
A cândida innocencia, a fé constante
Nos braços te sustenta,
Emquanto a roxa flamma sibilante,
Que súbito rebenta,
Km torno te girava,
E de 1'raterno sauíiue rociava.
Do fumo arando um mar caliginoso
Os olhos mal abriste ;
Espectáculo feio e lastimoso
Da mísera irmã viste
Jazer despedaçados.
Os palpitantes membros fulminados.
As azas do Senhor, que te cobrirão,
Q.ue illeso te guardárSo,
Nâo de luzente malha te vestirio,
Mas de poder te armarão
Para invicto valer-nos :
Pois chamamos por ti, vem defender-nos.
XI
A S. Ubaldo,
protector da cidade de Eugubio,
Bispo e Confessor.
V^ÇAisDO o terrível Deos dos ex;rcitos,
Nas leves azas de aquilões túrbidos,
Sobre as altas cidades
Manda a procella horiisoua :
Se vingadora solta a mão rúbida
As estridentes accezas viboras,
E se o fragor dos montes
Freme no fundo pélago :
Ubaldo Santo, com rogos férvidos
Os Eugubinos te invocão pávidos ;
Cercando teus altares
Gemem, quaes pombas timidas :
A soccorrc-los voas intrépido,
E da virtude no pavez rigido
Fôt.i a farpada lança,
Foge c'o vento rápido.
^«■■'**I^". '«•'»■-
/«
io6
Assim te chama protector inclyto
A lusa gente ; correm as lagrimas.
Qual matatino orvalho
Banha os frondosos plátanos.
Vem soccorrer-nos : no árido cárcere
Os trovões prezos bramão indómitos ;
Tornem dourados dias,
Movão-te nossas supplicas.
IC7
XII.
Ao Snr Manuel Pereira de Faria,
sócio da Arcádia.
OE j.i ouviste, Silvio magnânimo,
A minha pobre, rústica cithara,
Poucos, mas novos versos.
Ouve com rosto plácido.
Ouve que aos versos, f.imosos titulos
Devem Encas, Deipliobo e Priamo ;
Deve Ulysses prudente
Deve Acliilles indómito.
O luso Gama nunca tão celebre
Fora no mundo, só porque impávido
Os mares não sulcados
Cortou c'os lenhos côncavos :
Camões, eterno com os Lusíadas
Pôde fazè-lo, senão incógnitos
Os varões Portuguezes
Jazeriâo no tumulo.
%^;^mí^
'Ay^
io8
Antes que as nossas, nos mares indicos
O férreo dente, molharão ancoras,
De quilhas europeas,
Cobertas de outras flâmulas :
Antes do Grego, d"outros exércitos
Burnidos elmos vio brilhar Pergamo :
Houve na phrygia Tróia
Outro Ajax, outro Stenelo.
Nem só Eliza, d'Enéas prófugo
Tingindo a espada no sangue tépido,
Trocou a doce vida
Por uma infâmia posthumi.
Nem só guizados os membros lividos
Do caro filho, com rancor bárbaro
Ao lascivo marido,
Progne ministrou pallida.
Em ac;ões grandes d'almas intrépidas
Forâo, é certo, férteis os séculos ;
Mas o negro silencio
Sepulta os nomes iuclytos :
109
Negro silencio, que os olhos hinguidos
Na vil preguiça fitando tímido
A lethargica lingua
Corta c'os dentes ávidos.
Cobre a virtude co'as azas lúbricas
O veloz tempo, logo que ao féretro
Cede o passo a lisonja
Rasgando a torpe mascara.
Com tardos passos calcando os túmulos
O esquecimento, da mão esquálida
Solta as confusas cinzas.
Que espallia o vento rápido.
Mas eu ingrato, Silvio magnânimo,
SofFrer podia, que o canto melico
Esquecido deixasse
O teu nome magnifico ?
De uma alma grande costumes cândidos.
Raras virtudes, génio pacifico,
Para serem eternos.
Não precisão de mármores:
r
Pôde um poeta ma!s do que o artífice,
Ou corte jaspe, ou cores liquidas.
Largue o pincel no panno
Dos monumentos públicos ;
Sempre com versos o furor delpliico
A nobre vida dos varões inclytos
Livra do vil contacto
Das mãos cruentas d'Atropos.
Dos torpes vícios és censor rigido;
Tu os fulminas com olhos plácidos,
E entre nuvens de fumo
Foge a tropa fanática.
Da triste inveja na testa pallida
Co' a forte planta pizas as viboras.
Bramindo, o negro cirio
Quebra a discórdia attonita.
Das mãos cobardes o metal fulgido.
Larga a cobiça : com grilhões ásperos
Algemada a soberba
Dobra o pescoço ríspido.
De ti fugindo caheni no pélago,
Onde a tristeza com pranto lúgubre
Cercada de remorsos,
Jamais enxuga as lagrimas
a <i.
XIII.
Aos annos do Coronel dartilhería
Frederico Weinholtz.
V>OM suaves caricias, brando, humilde,
Qual é por natureza,
Af tenras mãos erguendo, o rosto lindo
Era lagrimas banhado,
Ao rigoroso Tempo Amor pedia,
Q.ue dos duros revezes
Do braço inexorável preservasse ;
Q.ue de doces prazeres.
De glorias coroasse e de venturas
Este ditoso dia :
Ora em laços de goivos e amaranto,
A rispida melena
Ao desabrido velho entrança e prende,
Ora as aras lhe cinge
Com cheirosos coUares de mil flores :
Té que o rápido monstro
»«3
Avaro de ruínas e de estragos.
Sobcibo e receoso
D'alhcas tyrannias, c'um sorriso
Q.ue seu rancor disfarça,
Outorga cm fim a Amor quanto lhe pede.
Pela sanguinca fouce,
Que na mão lhe reluz, jura e promette,
Q.ue de Weinholtz aos annos.
As Parcas fi.irâo dourados dias,
Che'OS de immensa gloria.
De prósperos succcssos, de venturas.
Q.ue o gelado Danúbio,
Q.ue de berço Uie dar se desvanece.
Com a cerúlea fronte
!)■■ ajud-is espadanas guarnecida,
De sangue rociado
O indómito tridente, ao fulvo Tejo
Inda virá um diâ
Ávido de mais fama demanda-lo.
Apenas Amor ouve
Tão nlTavel resposta, as brancas azas
Três vezes despregando,
.\os ares se abalança ; mas o Tempo
Alçando a mão pezada.
« i_J^W'-'TO.^e. i> •» •ro.^'*;
^j:
Pelo cordão da aljava o suspendia;
E emquanto lhe tirava
Os dourados farpões, o cruel arco :
« Estas cruentas armas
« Impróprias são, lhe diz, da tua idade ;
« Para mim as reservo,
» Em premio das venturas, que prometto.
« Ao teu Weiíiholtz mimoso.
« Veremos se este braço também sabe
« Vibrando agudas settas,
« Domar os corações. Agora vòa,
« Em doce paz nos deixa ;
« Deixa gozar o mundo de descanso,
« Q.ue tu, cruel, nos roubas. »
Amor as leves plumas sacudindo,
Já livre do tyranno.
Batendo alegre as palmas, lhe dizia;
n Nâo cuides, cruel Tempo,
i> Que meu invicto braço desarmaste ;
II Mais poderosas armas, ^
« Mais forte passador tenho nos olhos,
■ No angélico semblante
« Da formosa Bivar : com elle posso
II A meu suave império
^^^,
.'<■
'I Apezar do destino, ver curvado
" O teu rispido collo :
II Então verei mil vezes sem receio
ic Tornar tào feliz dia ;
'( Verei contar Weinlioltz ditosos ânuos
<i Em prospero soceyo,
« Nos ternos braços da gentil consorte ■
Ao Tempo assim responde
Já sem teme-lo Amor ; e o veliio irado
K'um rigido penedo,
Que borda a ruiva praia de Caxias
Kompeo a curva fouce.
f
Ti <t
ii6
XIV.
A' Restanraç&o da Arcádia.
OOBERBO galeio, que o porto largas,
Aonde o férreo dente preza tinha
A cortadora proa, que rasgava
De um novo mar as ondas.
1
/ <»
'xr
Ao alto pego tornas nunca arado
Dos fracos lenhos, que no Tejo surgem :
Já ferve a brava chusma e se levanta
A nautic.i celeuma.
Das douradas antennas penduradas
As velas ji de purpura desfraldlo,
Q.D'aos frescos sopros de um feliz galerno.
Já concavas su3Surr.lo.
A tremula bandeira, que seguras.
Qual súbito relâmpago fuzila,
E nas azas dos ventos estendida
Mostra a fatal empreza.
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^^^%
o «J.-~*^<1
■^
De brano espuma borbotões rebentão
De um lado e outro l.ulo ; j.í boiando
Sobre as verdes espadoas de Neptuno
Demandas outros climas.
O santo Numen, que entalhado leva
Tua dourada magestosa popa,
Trazer-te nos promette a salvamento :
Nautrauios não receies.
Kão temas as inbospitas arca;
De infames costas, de Hypi;rboreos campos.
Pelas CydaJes, Bosphoros e Syrie;
Has de romper constante.
Se as Halcyoneas aves levantirem
Km seu queixoso pranto triste agouro ;
Não te assustes da nuvem carregada,
Q.ue os mares escurece.
f
Grasnando negras gralhas enfiadas
Sobre os topes ver.is buscar a terra,
K logo o eco negar-te a escura noite
Da feia tempestade
^í
ii8
Mas iiâo receies os fuzis vermelhos,
O ruidoso trovão, que pelas aguas
Em successivos brados estalando,
No fundo do mar sôa.
A destra mão que o leme te meneia
Fará, que avante passes, sem que amaines
O largo panno; em vão Noto sibila
Pela miúda enxárcia.
Os cabos passarás mais tormentosos.
Sem que as crespas correntes te atropellem
Ao pólo chegarás, aonde brilha
A luz da eterna Fama.
Em vão ronceiras, barbaras galeras,
Forçando os débeis remos, com que açoutão
O mar que lhe resiste e que as affronta,
Trabalhão por seguir-te.
Desarvoradas voltão, não se atrevem
A commetter o pélago que surcas :
Com damnados prognósticos agourão
Desastrado successo.
1^-»
'^A
Ora contão, que os mares infamaste
Com vergonhoso misero naufrágio;
Q.iie as fulminadas vergas rotas jazem
Nas Cerauiieas arcas.
Mas tu constante imp.ivido triuniphas;
E com louros no Múnalo cortados
Enramaste os riquisfinios pavezes,
A forte Isente c'rôas.
Se os meus votos escuta o eco benigno.
Os votos, que por ti no porto faço
Os olhos alongando pela esteira,
Que tu nas aguas abres,
Mão tornes a surgir em manso porto
Q.ue Lethes seja o seu famoso nome.
Q.ue os peitos amollece mais briosos,
Que ao sommo te convida.
r
NAo se nutre a virtude do descanso .
Árduas emprezas, rispidos trabalhos,
Em nobre coração de immortal gloria
Accendem claro lume ;
í^*>fs^
b „'
(<
v^
^^=isr<?'
o claro lume, que ap.-igar não podem,
Nem descarnada mão da triste inveja,
Nem a fouce cruel do voraz tempo ;
Não chega a tanto a morte.
\v.
Aos annos da Illm" e Ex"»" Snr' D. Leonor
de Almeida.
V^ERCADO estava Amor de mil Amores
As estridentes settas empennando,
De verde mirto e de cheirosas lloros,
Os arcos enramando.
Q.ual o brilhante gelo sacudia,
Das crespas azas sem cessar batendo,
E qual concerta a aljava, e n'agiia fria
Curvado se está vendo.
Pelos nodosos troncos dos loureiros
Os dourados farpões muitos provaváo ;
Outros, mais insoffridos e ligeiros.
Em bandos se espalhavâo.
HntAo Amor a doce voz alçando,
y')f Que só de ouvi la os montes estremecem,
*^ , Que velozes frecheiros convocando,
, - Que promptos llie obedecem.
';ff;w:ry^^'(^
'7
Com doce rizo, com celeste agrado,
Q.ue os ventos serenava, lhe dizia :
Hoje do céo nos traz o sol dourado
De Alcipe, o claro dia.
Foi hoje, foi que em seu gentil semblante
Amanheceo a luz da formosura;
Nunca tào bella a aurora e tâo brilante,
Rompeo a noite escura.
As lindas Graças, os fieis Amores,
As virtudes gentis do céo baixarão ;
1: cantando as acções dos seus maiore?,
O berço lhe embalAráo.
Nos olhos vencedores lhe infundirlo
O tyranno poder da gentileza;
Humanos corações logo sentirJo
A liberdade preza.
As castas Musas cheias d'alta gloria.
As áureas vozes derio tal doçura.
Que os louros nSo perderão da victori.i,
Faltando a formosura.
Crescem co' a idaJe os raios seus brilhantes
(Jlue a férvidos suspiros njo attendem,
Apezar de desejos anhelantes,
Q.u'eni seu altar se accendem.
Mas tempo inda virá, que os innoceutes
Olhos formosos seus a nós volvendo.
Os cruentos virotes reluzentes
Queira espalhar vencendo.
lintào a nosso império subjugados
Os míseros mortaes, arrastaremos
Os corações das pontas traspassados
Nas mãos lh'ofrr'eceremos.
Kmquanto a densa névoa do futuro
Nos rouba a luz de tão feliz instanti;,
Por mais que as azas mova o Tempo duro.
Intrépido e arrogante,
i)a illustre Alcipe bella, o claro dia,
M Pretendo assignalar com faustas glorias,
Í12- l-e nossos arcos o destino fia
r O louro das victorias.
•»-«>-••
C*3
:^^^^^
^'j*'^
Alague o mundo fino pranto ardente,
Voem suspiros, voem mil clamores ;
Chovâo por toda a parte de repente
Agudos passadores.
Rotos peitos a míseros humanos
Ao doce golpe entreguem manietados ;
Suspirem por seus olhos e seus annos,
Era lagrimas banhado.
D'Alcipe sò remédio seja
A chaga tSo mortal e tào gostosa,
E no seio cruel afogue a inveja
A serpe venenosa.
O cruel Tempo quebre a fouce dura;
E o sol girando os seus frizões ufanos,
Nos traga sempre cheios de ventura
O dia de seus annos.
is
XVI.
Á riqueza de mn Poeta.
íN|AS despidas paredes, que me abrigSo
No tormentoso inverno,
A passagem do Grânico não vejo
Em fina lâ tecida:
Nem mármores, nem porfidos luzentes
Nos alizares brilhão.
N3o tine do Japilo na parca meza
A rara porcelana :
O dourado saleiro não me cega
Cos trémulos reflexos:
De prata nâo se accendem mil bugias
Em tortas serpentinas.
Porém Virgílio, Sophoclcs, Homero,
O venuzino Horácio,
Sáo as ricas alfaias, que me adornâo
A sala magestosa,
C\
126
Os soberbos escudos, em que pinto
A geração illustre.
Elles fazem que Ansbcrto generoso
Seu amigo me chame;
Que o Souza marcial com puro estilo
Gracejando me escreva.
Guarde a terra avarenta nas entranhas
O ouro refulgente,
f) mineiro na roça afflicto cave
Cos sórdidos escravos :
Por ignotos sertões exponha a vida
Do bárbaro Tapuia
A setta venenosa, á veloz garra
Do tigre mosqneado.
Soffra na linha podre calmaria,
Relâmpagos e raios.
Para n'aldeia entrar acompanhado
De descalços trombetas.
De purpúreas araras, inquietos
Petulantes bugios,
Gaste pródiga a mSo, em poucas luas
O ganho de dois lustros ; 70
|. P.ira a vermelha cruz a brilhar no peito, "^
/ 1 Que os fardos encurvárSo. •*■ WO
No tegurio paterno não cabeuJo,
Palácios edifica
Al.istrado com pedras o caminho.
Do guindaste as roldanas
Co peso do venal escudo gcmcni,
Q.ue o pórtico remata.
listupiJo não sabe que apressada
A pallida doença
Atrás delle caminha : que já chega
Envolta em parda névoa,
A morte inexor.ivel, derramando
Co' a fria mão angustias ;
Que o leito de cruéis fantasmas cerca.
E que lhe arranca as chaves
Do guardado thcsouro ; que o reparte
Pelos rotos herdeiros.
E qual sangrado rio enfraquecido
Torna a gastar-se em sogas !
Com Ouro não se compra um nome dij
Da posthuma memoria.
C\
*^^^ *ey^'
^í^:^A
to^.
'd 'ff
13$
XVII.
Ao Padre António Delfim.
UELFIM, caro Delfim ! Com que lige ro
Lúbrico pè, a curta idade nossa
Kos vai atropellando ! Aa horas voào,
Os dias nâo socegâo !
Quaes horrisonos Euros insofiridos
Varrem da longa praia a ruiva arèa,
Que nas húmidas aias crespas ondas
Indómitas revolvem.
Assim o Tempo cegador co' a fouce
D'aqui, d'alli talhando a débil gente,
Lança no vasto golfSo do sepulchro
As pallidas espigas.
Em vao fuggindo da estrondosa guerra,
Se acaso tu, Delfim, calvo nâo fosses,
Co' a sonora navalha decotaras
Ondados fios de ouro.
-■^
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0^
12 '>
129
Em vâo a loba e sobrepelliz vest!:ido,
Mostrando do Lorèto no aho coro
Inchadas do pescoço as cordoveas,
Bradando salmeáras.
A morte, a fria morte, nunca falta;
Ou cedo, ou tarde chega: todos devem
Humilhar a cerviz: poltrões covardes,
Coléricos Achilles.
Com mão pezaJa abola, talha e rompe
Grevas, arnezes, malhas, bacinetes ;
Por baixo do fraldâo crava o buído
Estoque refulgente.
Soberba arraza com fragor horrínJo
As fundas cavas, os merlões erguidos,
Assolando cidades e províncias,
A toda a parte vòa.
Curvados anciões, moços esbeltos
Corta c'o mesmo gume: honras, thesouros,
Nao lho pegão no braço ; os altos tectos,
Pobres cabanas piza.
18
t
150
Debalde Gabilhon c'o
te em batalha
aldc enrola o
Os martyres topet
destro pente
ibellos ;
Mette em batalha juvenis ca
Debalde enrola o escaldado ferro
O frio branco gelo, que nSo tarda,
Súbito põi a marca da idade ;
li poncas alvas câs, o gesto mudão
Dos enfeitados cepos.
As brandas Lylias, as gentis Filenas,
Todas fogem de vê-lo ; todas fogem
Dos olhos sem pestana, regalados,
Das crespas sobrancelhas.
Os teimosos achaques, tristes dores,
Catastas sâo dos tntrevados membros
Froxos desejos morrem de garrote
Ás mãos da hypocondri.i.
Nio c preciso que venal propheta
Aponte com o dedo para a cinza :
Para velhos nâo ha melhor caveira,
Que o vidro de um espelho.
!
im-
m
'o VI? ,0
131
Só tu, Delfim, cansados aniios contas,
Sem signaes <ie velhice : inda nâo ouves
O tremendo pregão da eternidade,
A trombeta da morte.
Sobre o telhado teu não pousão estes
Pássaros agoureiros, cjue bradando
Com espantosos guinchos, annuncião
A derradeira aurora.
Nunca vellio serás : livre de brancis
A deserta cabeça callejida,
\ão SC deixa trilhar das leves rodas
Da carreta dos annos.
Sem olhar para a niéta d.i carreira,
D'Archimi.des no ponto se está rindo
Britanno capitão, que submergido
Em laudnnos do Douro,
Amarrando o timão, entrega a quilha
Aos rijos ventos, aos cavados mares ;
Não ouve as roucas vagas, que mugindo
Os pólos estremecem.
^"^ -*i X^ W^f i^if %■> *^*> ^S ,
Venha se quer a pallidi doença
A fria morte pela mão trazendo :
Nâo te espantes de fouces e relógios.
Nem de azas de morcego.
Apresenta-lhe a calva, que te mostre
Onde as brancas estão ? Carão lustroso.
Olhos azues, rosadas faces, alvos
Os crystallinos dentes,
São constantes signaes da fresca idade,
São de forças viris, taboleta ;
E provido colono, a, sábia morte
Não colhe fruto verde.
Triste de mim, que peco e já maduro,
Nos grizalhos monêtes do topete,
Nas carcomidas pérolas da boca,
Nas obstinadas rugas ;
Já vejo revoar os tristes mochos,
Que sâo da fatal hora miquelctes.
Cruel tristeza ! Mais cruéis memorias !
Perdidas efpjranças !
^ # 4^
135
Os filhos, ,1 mulher, tudo cá deixo,
Só levo na garganta atravessado
O venuzino Horácio, a calva tii.i,
A rainha das calvas.
^ ... i
XVIII.
Á morte de José Gonsalves de Moraes,
sócio da Arcádia.
OE em ricas urnas de ouro refulgente,
Árcades saudosos,
As frias cinzas de Leucacio FiJo
Com as lagrimas nossas
Nâo podemos guardar : em nossos versos,
Do Menalo nos troncos
Seu nome escreveremos, seu bom nome
Das Graças suspirado;
E das quebradas aguas deste monte.
Chorado e repetido,
Estremecem os pinhos, sacudidos
Dos ventos, que sibillâo.
O gado espantadiço se derrama
Pelos crestados campos
Ao longe estSo latindo roucamcnte
Q.uebr.nntados rafeiros;
^ : ti-
E em tão triste alarido nos parece,
Que das cortadas rochas
O 6co nos responde : Fido ! Fido !
Nas solitárias prai.is
Bradando o negro mar, Fido responde ;
Por Fido nós chamamos.
Aonde estão, Arcádia, os teus serenos
Afortunados dias ?
Q.uando vermelho o sol atrás da serra
O rosto de mil raios
Formoso levantando, por teus valles
Dourava alegremente.
As sonorosas folhas inquietas
D.1S faias levantadas ?
AUi, tocando a fistula divina,
Que os ventos escutavio,
De gado e de pastores rode-.do,
Senhor nos parecia
De nossos coraçõ.s, de nossos olhos,
Do Menalo, da Arcádia ?
Mas que fado cruel, tanta ventura
Das nossas mãos arranca ?
Que noite pavorosa está cobrindo
Os ares deste campo ?
!
'■ ■■■ ':
Que frio gelo prende as claras fontes
E corta a fresca relva ?
Foges, foges de nós, pastor amado ?
Nossas pobres cabanas.
Nossas frautas e nossos doces verso s,
A caso te aborrecem ?
Trocas do manso Tejo, que te escuta
As margens deleitosas,
Por ásperos sertões, por longos mares,
Por férvidas arèas,
Com que malignos climas te convidâo
E invejosos te chamâo ?
Ali ! triste Arcádia, triste e desgraçada !
Que detestáveis erros.
Contra o céo commetterâo os teus pastores ?
Que lugtibre destino
A tSo duro castigo te condemna ?
Sacrílegos erguemos
Com ímpia mâo as campas respeitadas
Dos defuntos maiores
Para ás feras lançar os brancos ossos,
Qu'em santa paz descansâo ?
As victimas divinas arrancamos
Dos sagrados altares ?
i. ^.
^3 '. O-^-J
»?
137
Ou que raio caliio sobre estes campos,
Que mais a ver não tornâo
O suave pastor, o claro Fido,
Que virão tantas vezes ?
Maldito seja aquelle, que primeiro
Fiou de curvos lenhos
Ávidas esperanças, sede infausta
De enganosas riquezas !
De mármore Marpezio, rijo bronze
Tinha o peito forjado,
Quem ruidosas velas desfraldando,
Fugio do manso porto.
Sem de Africo temer a rouca fúria,
Quando açoutando as ondas
Cos negros Aquilões forte contende !
As cruéis tempestades,
Hyades tristes, cahos tormentosos,
E o pego embravecido.
Ou intrépido, ou louco não temia !
Os mortaes atrevidos
Nada julgâo difiicil ! Entregamos
Nós mesmos os pescoços
A sanguinosa fouce, á mão pesada
Da morte inexorável!
-4^
f
^
138
Km soberbas columnas levantamos
MagniScos palácios:
Nem que a riqueza, a honra, ou a vanglori.i.
Com refulgente escudo
De rigido diamante, nos pudessem
Cobrir a fatal hora !
Escondem frias louzas igualmente
Os sceptros e os cajados !
Tudo deve acabar. O' claro Fido 1
Era eterno socego
Tua cinza descanse ; a terra estranha
Pesada te não seja :
Se lá no monte eterno a que voaste
Se escutão nossos versos,
Em nossos versos ouvirás teu nome,
Teu nome cantaremos.
Para honrarmos os versos, que cantamos.
Para honrarmos a Arcádia.
XIX.
V>ERCADO de pedreiros, de vorazes
Carpinteiros ladrões, ou cervaes lobos,
Que a bolsa me atassalhâo, que esfaimados
A feria nic apresentão ;
Q.uaes buídos punhaes, negros trabucos,
D'aqui, d'alli recrescem garatujas !
Assestados canhões, que poderiâo
Bater os Dardanellos !
Severo Rhadamanto, o sujo mestre
A postiça gadelha affasta e puxa ;
E os encovados olhos revirando
Alça o rol d.i madeira.
Debalde o rosto viro ; e do medonho
Espectro sanguinoso fugir tento ;
Que Scylla mais cruel, o rol d'arèa.,
O beque me descoze.
Sibilante petardo d'outra parte,
Co tijolo me quebrão os ouvidos !
Jornaes, carretos, cal, sâo mil pelouros.
Que silvão pelos ares.
Com a perna ferida, co'as fileiras
Da vanguarda já rotas e medrosas.
Nas andas inda mostra o grande Carlos,
Indómita constância 1
A vista de soberbos Castelhanos,
Com poucas tropas, cora bisonha gente.
Sustenta Lippe a ruiva e fresca margem
Do Tejo caudaloso !
Mas estes mesmos, o' Macbean amigo.
Se ante seus olhos vissem as carrancas
Dos leões carniceiros, que me cercío.
Voando fagiriào.
Tu mesmo co' a britanna artilheria.
Deixando botafo^os e espoletas,
E os dourados rabões esporeando,
O posto lhe largaras.
A ^à
P6de mais um credor que ura elepliante,
Nâo ha tromba mais dura, que uma foria ;
E se queres vencer os Alexaiidrcs,
Eugenios e Turennas,
Nâo busques grevas, murriões, pavezes,
Põe-Uie diante o mercador c'o resto,
O alfaiate, o barbeiro, ou um alcaide,
Verás como desmaião.
E se ainda vãos projectos conimetterem,
De cruentas victorias nunca fartos,
Dá-lhe o desenho de uma nova escada,
E dize-lhe, que a facão.
Eis-aqui como fico sem lograr-nie
Da boa companhia, que te cerca :
Tu, que escadas nâo fazes, passa alegre
A noite desabrida.
Em brilhantes crystaes a roxa espuma
Do suave licor do Rheno ou Douro,
Te apresente sorrindo o fuUo Same,
E tu vermelho bsbe :
^.-i-h ^'^i- — -h^^é^^
*
5 6
:«r'-t»'-.
i
142
Bebe a saúde da formosa Filis,
Do magnânimo Conde, a quem Neptuno
Namorado do seu valor, lhe entrega
O sceptro crystallino.
Os dois Weinholtz, que Marte tanto preza.
Da cova porçolana que retine,
Co'a boiante colher tirem o doce
Alrao fervido ponche.
E se do pobre Corydon vos p6de
Merecer compaixSo a triste historia,
Fazei-lhe uma saúde, que lhe sirva
Ao menos de epitaphio.
^
(?>-»
>■
(•3
XX.
Ao Snr Gaspar Pinheiro da Camera Manoel.
VjUANTOS, caro Pinheiro, noite e dia
Curvados sobre os livros
A triste vida gastâo na esperança
De uma vermelha borla,
D.i vara e da golilha ? Honra que chega.
Já quando as ci5s alvejío
N.i mirrada cabeça. Quantos morrem
Por frenéticas palmas
De cruentas victorias ? Descorado
No raso campo treme
Com frio susto á vista do inimigo
O misero soldado :
Co' a musica mistura dos batidos
Horrisonos tambores
Os últimos suspiros. Pelos ares
Pelouros assovi.ío :
#>■
.i 144 *)
Co tropel dos cavallos freme a terra
Do pó e crespo fumo
As enroladas nuvens escurece
O resplendor do dia :
Isto aos Carlos agrada, aos Fredericos,
Eugenios e Turennas !
Em frágil lenho entregue a longos mares,
O mercador avaro
Luta co' a morte : rasgão negros Austros
As prenhes nuvens : brilha
Entre a rouca saraiva, o retorcido
Crepitante corisco :
Estala a fraca verga, a rota vela
Ondeando sussurra :
E a fome de ouro, tudo fa» mais doce,
Que a livida pobreza!
Outro, cora o martello, os cadeados
Despedaça do cofre,
Q.ue do incansável pai o curvo arado
Tirou da dura terra :
Vai perdi-lo n'um dia, porque gosta
De brincar com três dados !
Aquelle sò se alegra, c se diverte
Co' as belgicas pinturas :
<3gí^-*. _í^ A^
MS
Sonha com Rapliael e Tici.uio.
Emquanto o astuto adelo
Na frágil taboa, com o dído mostra
A testa de Medusa.
Kste, n'alcantilada serra corre
O javali cerdoso ;
Os sabujos britannicos latindo
No fundo valle assustâo
A quieta pastora, que aturdida
Larga da mSo o fuso.
Outro, na rica nieza rodeado
De vorazes amigos,
lím brilliantes crystaes, e Douro e Rlieno
O roxo çumo bebe ;
Té que dos altos cumes dos outeiros
Caia a nocturna srmbra.
Eu, porém, nada quero, nada estimo
Mais que a dourada lyra :
Se os pastores do Menalo sagrado,
Se os loureiros d'Arcadia
Os meus versos escutâo, os meus versos
Me separílo do vulgo :
Na testa cingirei livre de inveja
D' iiera frondente c'ròa ;
:;;^-.-
^"^
'9
^
146
E cora lésbico plectro ou venuzino.
Ferindo as áureas cordas,
Arcádia cantarei : o pátrio Tejo
Attenda ao novo canto
Cora a verde cabeça goleando
Na urna recostado,
Se aqui chegar, que Rhadamanto pôde
Negar-me o nome eterno ?
i?>3'.
m^
"47
XXI.
Ao Snr Gaspar Pinheiro da Camera Manoel.
vJCE fácil é com lap^s e compasso,
Desenhar no pipel uma cidade,
De cavas e raerlões circumvallada,
Soberba, inaccessivel ;
Hxecutar, porém, a grande planta
li traballio de um rei, caro Pinheiro,
D' Ulysses, de Lveo, do pio Enéas,
Dido, Komilo e Remo.
Quando tu no alto pego ouves zunindo
Pela miuiia enxárcia, Africo ou Noto,
Que ferras todo o panno, que manobras
Impávido e prudente :
Se de longa experiência aconselhado
Não mnndafses constante, que valera
Ter no tanque de Cintra exposto ao vonto
Fragatas de cortiça ?
148
Todos, todos clamamos, que se observe,
O que dieta a razão e a natureza,
E as santas decisões, que nos promulg»
A catholica Roma.
Ninguém se julga bárbaro; mas vemos
Lançar fumo o punhal, em sangue tincto
Na mão do matador ; vemos roubados
Os sagrados altares !
Com damnada malicia, uns aos outros
Enganbar pretendemos : falso gesto
É o trunfo do jogo, da amizade
Hypocrita verdugo !
Na magnifica meza era crystaes ricos
Trasborda a loura espuma do suave
Vinho de Chypre : alegres convidados
Ao grande amigo brlndlo :
Levantâo as reciprocas saúdes,
Ternissimos coUoquios ; mas depressa
Esta scena se muda, e da discórdia
Rola o dourado pomo.
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149
Pelo arbítrio de Paris não se espera;
Kua a espada brilha e fere : corre
O sangue quente, e os copos em pedaços
Espalhados retinem.
Que mais faria o pérfido Argelino,
Se c'o estreito chaveco abalroara !
Talvez que ncUe adiasse mais clemência
A pobre humanidade.
Se na Hyrcania, ou no Cáucaso nascidos
Os homens fossem, n.ío seria estranha
A traição, o rancor, a triste inveja,
A rispida soberba.
E fora, pois já vio a antiga Roma
No tyranno espectáculo do circo,
Esfaimado le.^o lamber as plantas
Do amigo descorado.
O' amizade, o' dadiva celeste !
Enfadada de nós, de nós te ausentas
Abriste as brancas azas, que sonorar.
Nos ares te sustentâo :
•.íl'
150
Já sobes, já te elevas, já te es>:ondes.
Ora sereno o vôo, ora apressado.
Nos immensos espaços, onde girJo
Outros soes, outros mundos.
A luz do dia foge : fica a terra
A sen antigo cahos reduzida :
Mas, dentre as grossas trevas apalpando,
Eis se ergue o fingimento.
Os cândidos vestidos da amizade
Co' as negras mãos levanta aos torpes membros;
Nas fantásticas roupas disfarçado
Engana a cega gente.
Com estreitos abraços se recebem
Os fingidos amigos : filho chama
O tyranno tutor ao desfalcado
E misero pupillo.
E nesta tenra idade, fracas almns,
Almas era feios vicios atoladas.
Como podem guardar as leis austeras
Da pávida amizade?
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s»
É fácil ter de amigo o santo nome,
E sustenta-lo cora civil aspecto ;
Mas que ao chapéo o coração governe,
É Ethiope branco !
A lingua, que te salva, quando raia
No vermelho horizonte o sol dourado,
Antes que a sombri caia dos outeiros.
Te insultJ, ou te crimina.
Desgraçados rafeiros, que só mordem
Os pobres remendados j porém, vendo
Os olhos fuzilar do roaz lobo,
A cauda desenrolâo.
Kâo se encontrão Euryalos e Nizos,
Castor e Pollux, Pylades e Orestes ;
Nem para renascer a extincta raça
Esperes nova Pyrrha.
Mais fácil c que Cadmo resemeie
Os dentes do dragão, e que rebentem
Da terra depravada, enfurecidos
Armigeros guerreiros.
„ „_ 5;^ í^ í^r*5*3%
:^^jr*
152
XXII.
^»>OM que férvidos rogos imaginas.
Caro illustre Macbean, qu'o céo clemente
Cansa um poeta? Crê-me ; nâo lhe pede
Magníficos palácios.
De pouco se contenta ; nâo cobiça
Do fulvo Tejo arar as férteis margens.
Onde sonora freme a loura espiga
Dos Euros açoutada.
Os rufos touros, as malhadas vaccas
Dos campos transtaganos nâo deseja,
Nem indico marfim, ouro brilhante.
Nem pérolas do Ganges.
Afouto beba o mercador em taças
De esmeralda e saphyra o licor almo
De Chypre e de Falerno ; já qne os mares
Parece que governa.
l;l.l.l 1:1 1 11 ■iiiiiliiiilillliiliiiiii I i;i.i>
Impune trcz e quatro vezes rompa
Cad'anno o golfflo : desfraldando as velas
Impávido commetta infames costas,
Inhospitas arcas.
Não lhe invejo a fortuna ; pois me basta
Passar a curta vida retirado
Na Fonte-santa ao som da clara vèa,
Urdindo novos versos.
Divina Providencia, tu bem sabes
Q.uâo pouco te molestâo meus desejos:
Não quero mais que ver na frugal meza,
De filhos rodeada ;
Um limpo copo, com que nesta grande
Noite, só para mim prospero dia,
Possa alegre brindar aos faustos annos
Do heróico S. Vicente.
Com mais pouco se mata a crua fome :
Para fazer seu grande nome eterno,
Ou pobre, ou rico viva, tenho a lyra
Do cantor Je Venusa.
■ I I I I I I I I I I II
[ I I I i ■ I I I I I I I ■ I I I I 11 I I I I I I ii|i
4'^^^^* % i>t^ — -— —*■
•n^gJT^
Em quanto, ô Conde, as bellicas virtude
Que herdaste de teus inclytos maiores.
No regaço da paz jazem tranquillas,
Preparo os epinicios.
Tempo depois virá, que desferindo
Km áurea popa as lusitanas quinas,
Arrazadas as aguas de turbantes,
Te c'rôem mil yictorias.
De negro sangue as arm s rociadas,
Arrastados trarão ao luso throno
Os Mouros capitães ; nas duras costas
As roxas mios atadas.
Se as estreitas então me consentirem
Tuas acções cantar ; da fria morte
Verei luzir a fouce, satisfeito
Da gloria e da fortuna.
Illlillllil l:!!'!!!'!!!!!'! ■ l'l>l ■i|lll|lil|!| ■'iillll|!|ll>|l|ll lilllllllll
~Q'^£u^
XXII.
Aos annos
do Snr José Carlos Mardel.
Al
i-PENAS hoje a somnolenta aurora.
Entre as rosadas nuvens, que abafavâo
Da alcantilada serra os altos cutnes,
Mostrava a manliâ fresca:
Uma inquieta tropa de vendados.
Lindíssimos Amores, se alojava
Do fulvo Tejo na arenosa praia,
Que adorna a gril cidade.
Arnezes, malhas, grevas e loricas
Veste a saberba juvenil phalange.
Dos áureos elmos, com as torcidas plumas
Zephyro cmpcnna as azas.
156
Ao rouco som de horrisonos tambores.
Que n'ama e n'oiitra margem retinia,
A brava gente ferve, qual puxava
A rápida columna;
Qual marcando reductos e trincheiras,
Na ruiva arêa crava as áureas settas:
E qual levanta c'o alvião pesado
Merlões e plataformas.
Os tirantes de purpura atezando,
Outros arrastão sagres, falconetes.
Que em altas baterias assestados
AfTrontão todo o mundo.
Então Amor alçando a mâo tyranna.
Onde a farpada ponta fuzilava.
Manda jogar os férvidos morteiros.
E rompe nestas vozes:
« Esta alegre rezenha, companheiros,
A tio prospero dia é consagradi :
Hoje a Mardel gentil, as duras Parcas
Fi2o dourados annos.
'57
« As roxas balas, que nos ares silvío,
Das bombas as sonoras espoletas,
As ruidosas granadas fulminantes,
Tudo, seus annos louvâo.
« O bellico ruido aos mesmos astros
Ensina a repetir seu claro nome :
Os mesmos astros, quaes seus olhos brilhão,
ScintilhírJo com elle. »
Disse: e da terra súbito levanta
Dos hórridos canhões o negro fumo.
Qual EncclaJo montes sobre montes,
Ou nuvens sobre nuvens.
Mas eis que o cego nume a scena corre;
Nâo vi na liza arêa mais que o fumo
De míseras entranhas palpitantes,
De corações feridos.
Que abrazados queixumes, que soluços,
Oh! que doces suspiros, que soav.ío !
De maneataJas nj-mphas, que rendidas
Jazem no duro campo.
■hlll ■:■ lllll I i^l III I I ■;! I I I
|;iiiii'il I
158
As linhas, os ramaes, as colabrinas
Outra cousa n3o são mais que seus olhos.
Que seus olhos azues, alvo semblante,
Que seus louros cabellos.
Fugi, nymphas, fugi d'aquelle3 olhos,
Kelles afia Amor seus passadores:
Fugi, nymphas, fugi, que seus cabellos
São as vulcaneas redes.
M9
1 OIS sabes, que nas margens do Mondego,
Amor, que é grão poeta,
A cantar brandos versos me ensinava.
Quando prezo me tinha,
E victim.i chorosa, as aras cruas
Banhei c'o sangue quente
Do roto coração, das rotas veias,
Que abriâo seus virotc:s :
Nio estranhes, Senhora, que os furores
Do génio sibyllino
Me forci.'m a louvar o claro dia
De tens ditosos annos :
Ao santo templo da immortal memoria,
Sobre as azas da Fama
O desejo levar; quero que cliegue
Aos séculos futuros,
I I I I I I I I I I c : I I I I 1 I
i6o
Cercado de relâmpagos e raios,
Com que os vates fulminâo
Da inveja triste as assanhadas serpes.
Que em torno lhe sibilão
Do lívido semblante descorado,
Dos olhos furibundos.
As estofadas ondas somnolentas
Do Lethes vagaroso
Verão, passar mil vezes tâo bom dia
De estrellas coroado.
Virão, como hoje vem, a teus altares
Render devoto culto
Os miseros amantes desmaiados;
Em suas mãos trazendo
Inda quentes entranhas palpitantes,
E corações fumando.
Outros T)'rses e Elpinos namorados.
Outros Licidas Cintios,
Prostrados erguerão queixosos hymnos.
Rasgando os mansos ares
Com férvidos snspiros, com seu pranto.
Que tu, cruel, desprezas!
Sò não sei se haverá outra Silvandra,
E que vestal do templo.
i6i
No sonoro rebolo, o fatal gume
Afie da bipenne,
Com que desfecha os golpes nos solemnes.
Cruentos sacrifícios,
Quando a. gelada victima estremece,
E cerra os tristes olhos.
Hoje, porém, que t3o alegre dia
Com farta mâo derrama
As delicias, prazeres, e fortunas
Em toda a Fonte-Santa;
E nas espáduas do ligeiro Noto
As Graças e os Amores
Com sonoro sussurro andSo voando
A roda desta casa;
Deixa, gentil Senhora, que se raud;
A cithara soberba
Em avena campestre, e que te oflfreça
Humilde rendimento
De singela vontade e sios desejos ;
Uma pobre gallinha.
Um alvo ganso, que muito ha que adeja
Para voar tSo alto;
E co'as pennas das azas rutilantes,
No azul etliereo assento
iiiiiíi ■■ I 1 1 II ii:i ■ i 11 1 1 1 I I III III 11 11 11 li I liiiii'
l62
Escreverá de Arminda o doce nome :
Para ser entre os astros
De desejos, amores e suspiros,
O norte luminoso.
-i (VÍ I ■ lililllililllilll ill I ■ I I I I I I 1.1 lli i ■;■ III Klllllll
^-t
ti
.63
XXV.
^MQ.UANT0 o pobre Tvrse descansado
Da preguiça nos braços somnolentos,
Co'a boca meia aberta a sommo solto,
Ou ronca, ou se espreguiça :
Emquanto a torpe e vaga fantazia,
Lutando com cansados pesadelcs
Km verdes bancas pinta as louras marcas.
Lhe mostra o az de copas •
Emquanto atado ao duro e longo remo
Da galé, com que surca fundos pegos.
Os calejados hombros dobra ao duro
Arrebém de comitre :
Emquanto crê que a Fonte-Santa alegre,
Com sonoro ruido solta as aguas.
Só quando vc em seus quebrados olhos
Amor tremer com frio :
I III I I I i.i I ■ I I I I I
164
Emtanto o bravo Elpino, qual o fulvo
Famélico leão da gr2 Nonacria,
Atassalhando os pávidos rebanhos,
Traga famintos membros.
Assim vem, assim vè, assim subjuga
Rebeldes corações, que redazidos
A poucas cinzas, qual o débil fumo
Era crespas nuvens voào.
Debaixo já da planta vencedora,
Em frio sangue sajos palpitando
Abjurão de Mafonia, ou moUe Tyrse,
A immunda torpe seita.
Mas o pio Alexandre condoido
Da orphandade dis miseras captivas,
Kas ricas almofadas, barba a barba,
AfFavel as recebe.
Oh ! que doces, que lagrimas conteutss
Inundio negros olhos ! Que suaves.
Que férvidos suspiros retinindo,
Nâo voJo pelo tecto !
I i?i I ii i • 1 1 li 1 1 1 i 1 1 li I li II lii 1 1:1 i!riii:iiiiriiiii
4- ♦^^g^pj^^^^
165
Ah ! pobre Tyrse ! acode, que te pizSo ;
Que teus campos já roubão, talão, queimão
Armados esquadrões doutros Amores,
Amores invencíveis.
illli:! 1:1 I I I I I I I
• I I l-l I I I
i66
XXVI.
Traducção de uns versos inglezes feitos-
a um seu grande pintor.
\J DOURAR a manhã, do sol que nasce,
Derramar os reflexos ;
Pintar a sombra do cerrado bosque,
A rápida corrente ;
As cerúleas montanhas afTastadas
Mandar, que se levantem,
Co vermelho horizonte confundidas ;
Pela verde campina
O rebanho espalhar que anda pascendo ;
Dos rachados penedos
Fazer que desçSo caudalosos rios ;
Que a creaçào formosa
Brote debaixo desta mâo potente
E a grande tarefa,
Que s6 se atreve a descrever Sertório.
Mas quando sazonados
167
Apparecem os frutos de Pomona
A producçâo amavL'l
Do fértil anno ; então a natureza
Porque se vè venciJ.i,
Se mostra envergonhada: ó pincel raro,
Do que o sol mais fecundo
Co doce toque os pomos faz maduros :
Do paraiso pôde
A memoria acordar; dar-nos seus frutos
Sem segundo delicto.
■II I I iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
i68
XXVII.
i\|ÃO fabulosa têa de mentido
Gentílico hymeneo, illustres noivos.
Mas sagrada união d'um sacramento^
Vos prende e vos ajunta.
Com catholico rito abençoada
A ditosa alliança, nos promette
Dos Mellos, dos Koronhas e Menezes
Heróica descendência.
As illustres acções, que a Fama espalh»
Repetidas veremos. Torna, torna
A boa idade de ourol A boa idade
Do nome lusitano.
Nas respeitadas campas dos honrados
Vossos claros maiores subir vemos
As palmas e loureiros, que regados
Co sangue illustre forSo.
II i llllllllllilllllllllllllllll 11 i:!:!.-!:!;!
169
Dentre a copada rama se levanta
Estranho sim'.;lacro ! Reverbera
No lizo peito de aço o roxo Phebo,
Q.ne immensa luz espalha.
Levanta o forte braço a grande esp.id.i,
E da folha os relâmpagos assustão
As soberbas muralhas de Byzancio,
De Tangere e de ArziUa.
Mas que gentis gncrreiros vejo agora
Concorrer para ouvi-lo I Alli lhe ensina
O táctico systema ; alli lhe mostra
As avitas façanhas.
Cerrados esquadrões desbaratando
Entre nuvens de fumo as torpes luas.
Eclipsadas vacill.lo! No ar ondcão
As sacrosantas quinas.
Esta prole será, que a pátria espera
De t.ío ditoso thalamo, que as Musas
Já desejJo cantar; já lhe prepario
Alegres epinicios.
ilil I I I I I I
l2li!ISIItll:tlllllllllllllllIII
XXVIII.
À vida rústica.
V-/ MIL vezes feliz, o que encerr^fc
Entre baixas paredes
O tormentoso inverno alegre passa!
Que de um pequeno campo,
Que elle mesmo cnhiva, se alimenta
Apascentando as vaccas.
Que da raâo paternal somente herdou
Cos dourados novilhos.
Emqaanto sobre a terra se reclina
Dormindo descansado
Ao som das frescas aguas de um regsto,
Horrorosos cuidados
O nJo vem perturbar no brando somno.
A sórdida cobiça
Lhe nio faz conceber vastos prejectos.
Nio pensa, nio intenta
:i I I I I I I I J I I I I I I I II i I 1.1. 11 ■ i.iiiíiii!iiiil:lililllisilllllil
.:;13.P^^
Atravessar o c.ibo tormentoso,
Soffrer chuvas e ventos,
Ouvir roncar as denegridas ondas,
E ver na feia noite
lintre nuvens a lua ir escondendo
O macilento rosto ;
Por ir commerciar cos pardos Indos,
E Chinas engenhosos.
A sede insaciável de riquezas
Xâo faz que exponha a vida
Nos desertos sertões ás verdes cobras,
E aos remendados tigres.
Ah ! illustre Soeiro, doce amigo,
O ouro de que serve.
Se os annos vão correndo tão velozes?
Se a morte não consente,
Q.ne a enrugada e pallida velhice,
Com passos vagarosos
Nos venha coroar de niveas cãs?
O senhor opulento
Ao seu pobre vizinho encurte o campo,
Q.ue alegre cultivava;
Levantando soberbos edifícios,
Arranque as oliveiras.
■5-=^^
o cbopo que sustenta as roxas uvas,
Para ornar seus jardins
De estéril murta, de cheirosas plantas,
O campo, qne ondeava
Com as úteis e pallidas espigas.
Cubra de fresca sombra
Do espesso cedro, do frondoso louro;
Alegre vá passando
Ko seio das delicias e regalos.
Mas ah! que não adverte
Que as três filhas da noite, as impiís Parcas,
Gyrando os leves fusos.
Lhe acabão de fiar os curtos dias!
Que a morte inexorável
Se chega ao rico leito em que descansa,
Mostrando-lhe entre sombras
A macilenta mão com que lhe pega.
Já entre mil angustias,
Entre os frios suspiros, que derrama,
Acaba a tri&te vida.
Que intentava gozar por longos annos.
Sò tu, filha do céo.
Impávida virtude, não estranhas
O aspecto da morte.
•^Tíâ^^ir
XXIX.
/ilXDA que o eco sereno, o dia claro
Doce prazer inspire
Aos niiseros mort.ies, aos namorados ;
Pesada escura sombra
O coraçSo me cobre ; feias trevas
Onde a memoria pasma,
Mais longa a saudade representâo.
Nem sequer falsos sonhos
Com doce engano aquella luz me fingem,
Por quem sempre suspiro.
Vc;n, bella Mareia, vem, porque em teus olhos
Me trazes sol e dia,
Em teus formosos ollios me amanhece
A mais gentil aurora ;
Km teus formosos olhos vem os raios
Q.ue dourâo estes monttí ;
ilt ■ I I I 11 ■ I I I ■ I ■ I I I ■ I I I I I I I 1.1 III I I • III •'•i|i|i|<
'74
Que a. secca terra cobrem de mil flores,.
Que no meu peito acceniem
Doces desejos, doces esperanças,
Finissimos amores.
Mas já Favonio fresco brandamente.
Dos alamos as folhas
Cora seus sonoros sopros levantando,
A vinda me annuncia
Dos vencedores olos, por que espero.
Dos olhos por quem morro.
Ah ! que ji chega Mareia, socegai-vos.
Meus cansados desejos ;
Socegai, esperanças, que já vejo
Nascer o meu bom dia.
175
XXX.
A Horácio.
L/E grande nome bárbaro desejo,
Se o rico templo da triforme deosa
A poucas cinzas reduzindo espera
ímpia memoria !
E menos torpe, mencs detestável
Tâo feio crime, que imit.-!r Horácio
Q.uem triste fama nSo quer dar d saguas
Co precipício.
Ora sereno, como o sol dourado,
De alegres cores todo o mundo cobre.
Quando a cabeia de mil raios ergue
Detráz da serra.
Mas outras vezes rápido parece
Aquilão thracio, que nos céos batendo
As negras azas, terra e mar envolve
Espessa chuva.
Sempre sublime no Parnaso colhe
O digno louro, que lhe adorna a testa
Iismenso génio com ditosos voos
Pindaro alcança.
Ou cante a fresca nova primavera
Dos grossos freixos sacudindo o gelo,
Serena a lua, as Graças vem dansando
Com Cytherea;
Emquanto ardendo na árida officina
Ao sibilante fuzilar da forja,
Mostrâo os sujos amarellos rostos
Os rijos Bromes.
Ou j.i crimine da civil discórdia
As mãos vermelhas cora latino sangue,
Cala-se o povo, pallida tristeza
Muda os aspectos.
Ou branco cysne livre já da esthygia.
Sinta nascer-lhe rude pello, sinta
Ji, ji nos dedos, sinta já nos horobros
Cândidas pennas.
»JJ±*lÂllLVlllftlVt I I J_jjJI 1,1 I 1 I I I li' I t'i"i
Sobre as cidades vòa, j.i descobre
Do tormentoso Bosphoro bramindo
Parthos e Scytlias, hvperboreos campos,
Libycas Syrtes.
Ou já de Augusto mostra o valor nobre
Lavar de Crasso a vergonbosa infâmia,
Q.ue o vestal fogo, Roma, Capitólio,
Tinha esquecido.
i< Eu vi inteiros nossos estandartes,
As armas limpas, centuriões romanos
Co'as mãos atadas (Regulo dizia)
Vi em Carth.xgo ! »
O' grande Horácio, sempre grande e forte
Sempre sublime, rápido te eleva !
A nossos ollios súbito se esconde
Kntre as cstrellas.
■"^3^^5^
XXXI.
UORMES, Jerusalém ? Acorda, acorda,
Que chega a tua luz : o sol divino
As trevas dissipando, já scintill'-i.
Já em ti nasce.
Opaca e negra sombra te cubria ;
A gloria do Senhor brilhantes luzes
Derrama sobre ti, sobre teu povo :
Acorda, acorda.
Estende a vista por teus largos campos,
Vè, vè a immensa gente, que te cerca :
Todos o grande instante suspiravâo.
Todos o esperâo.
Olha as fortes nações, que vem buscando
O resplendor, que espalhas : denso fumo
O incenso de Sabi ardendo exhala
Em teus altares.
■ ti ■('•IH .i<|i.|jl!> tjlitllill sei ?i|rti|l|i|
II 1 1,1 1 III
Ouro e myrrha, monarchas humilhados
Já cora pródiga mâo alli te offerecem ;
Os olhos baixos, curvos os joelhos,
Teu templo adorâo.
Abertas tuas portas já recebera
Dos mais remotos climas os tributos;
Já os rebanhos de cedar alvejâo
Nas altas serras.
Tudo porém se cala. Q.ue profundo,
Respeitoso silencio ! Vem, já chega
O Príncipe da Paz, Deos admirável.
Filho do Eterno.
Ur;ia Virgem pario : Fez-se Deos Homem
Do tronco de Jessé rebenta a vara.
Lá desce sobre a rama abrindo as azas
Mystica Pomba.
]X vem o Salvador annunciado
Por divinos oráculos ; abaixáo
Já no Líbano os ramos incorruptos
Os altos cedros.
Densa nuvem de incenso em Saron sobe
O cume do Carmelo âmbar respira :
Já ferve a branca escuma, que rebenta
De áridas penhas.
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XXXII.
o Suicidío.
f\OMPA-SE embora do estellante assento
A rnachina lustrosa ;
Conspire-se em meu darano a terra toJ.i,
E a fortuna perversa ;
Mil duras portas de pesado ferro
Sobre mim se aferrolhem ;
E agrilhoado ao carro do triunipho
Me leve algun tyranno :
A negra fome, a sórdida penúria
VSo-me escoltando os passos :
Sobre deserta inhabitada praia
Me ponha a tyrannia ;
Agudos dentes de raivosas feras
Contra mim se apparelhem :
Risonho, alegre, intrépido, constante
Me ha de ver o Universo.
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Emquanto em mil pedaços se despenhe,
E me afogue em ruínas.
Lá sae, lá corre de ignorado mundo
Un espectro medonho
Mas agradável á romana gente
E ao Bretanno inâexibil ;
Dos heroes divindade ; eis o Suicidio
O refugio dos sábios.
Sanguinoso punhal na raâo sustenta,
O escudo da desgraça
Com que se oppõe á tyrannia infame,
A inveja e á soberba.
Sobre montões de desmembrados corpos.
Sobre abatidas águias.
Em tristes restos de estandartes rotos
Entre exiinctos soldados.
Que em vâo a pátria libertar procurào
Das mãos da tyrannia,
Lá vejo estar cora intrépido semblante
O magnânimo Bruto,
Q.ue nos sanguíneos campos de Felipps
Fica vencido e roto ;
Mas que um tríumpho mais altivo e nobre
Já de si mesmo alcança,
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Com que as corrc-iitus rispiJas suppl, nr.a
Do dictador soberbo.
Porque Roma nJo sirva, a Ccsar mat.i ;
Com o mesmo duro ferro,
Porque a César não sirva, expira Bruto.
Eis como a liberdade
Do tyranuo e da morte, Bruto alcança
Nos campos de Felipps.
H o génio tutelar de infeliz pátria,
Hm Utica expirante.
Porque ao duro Pompeo nílo sirva, morre.
As fachas despedaça,
Q,ue as feridas tap3o do sagrado peito ;
Nunca é Catão mais forte !
No quente banho Séneca expirando
Vence o pérfido Nero.
Doce refugio de fatal desgraça,
liu te abraço contente ;
Tu és o meu escudo impenetrável
Contra enipennaJas settas.
Que a indigência c a penúria em vão dispar.ão.
Todos podem a vida
Tirar ao homem na mesquinha terra ;
Ninijuem lhe tira a morte.
XXXIII.
A uns annos de lima Senhora ingleza.
xAMADA lyra minha, se algum dia
Cobiçosa de fama
As estridentes velas desfraldaste,
E no ceruleo gol fio
Por sibilantes Notos açoitada
Impávida sordiste :
Se desejas que aos séculos vindouros
Livr2 da negra inveja.
Tua gloria immortal chegue triuraphante
D'astros mil c' roada :
Cantemos de Marilia o nascimento,
Da formosa Marilia
Que as cândidas virtudes abrigando
No peito generoso,
Do angélico semblante os resplendores
Inda faz mais brilhantes.
IH5
Em Scus olhos gentis a formosura
Os corações pisando
Despedaça de Amor as cruas sjttas,
Subjuga o fatal Nume.
Diz-se que um dia o Tamaze soberbo
Ao fulvo pátrio Tejo
Accusou de roubar-lhe a illustre gloria
De ver em suas margens
Raiar os lindos olhos de Marilia
K dar-Ihe o claro berço
Em Britannica term. Exasperado
Vociferando vinha
O rio, e t.ío queixoso que trez vezes
Traçando furibundo
O farpado tridente crystallino
Com o dourado conto
Bateo na lusa areia ; desmaiadas
As Tágides mergulhão
As limosas cabeças n'alta veia ;
Porém alegres surdem,
Vindo surcar ns agujs a áurea concha
Q.ue férvidos tirav.io
Prate.idos delfins, onde Marilia
Com engr.içado rosto
^TurimnnTTnnrTTiniTirrtrgiLgJiigcrjnn
g;jiajis.i!iiiiii!K
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Que os mares acendia, serenava
Dos rios a contenda.
Ambos por sua Thetis o juravâo.
Ambos em s^us altares
Depozerio humildes os tridentes,
E em fausta branca pedra
Contentes e ditosos, assignalão
O dia de seus annos.
XXXIV.
Ao SS. Natal.
Espirito celeste, que pesndo
Em seis brilhantes azas
A prophetica iingua de Isaías
Cuma braza do altar purificaste,
Acende em minhas vozes
Aquelle som terrível que de ouvi-lo
Estremecem os montes e as cidades.
Em profundo silencio somergida
Ouça a terra mens hymnos,
Ouçâo-me os céos, e cantarei o grande
O Santo nome do Senhor, do Forte,
Do Justo c desejado
Do Principe da paz, Fillio do Eterno
Pae do suspirado século futuro.
Alçai os tristes olhos
Vós filhas de Sião, das alvas testas
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A cinza sacudi ; com tnão devota
Lançai no casto fogo
O incenso de Sabá ; puras chammas
Ardâo no livre cume do Carmello.
Uma Virgem pari o, fezse Deos Homem,
O Salvador já chega ;
Do tronco de José rebenta a vara
Kas incorruptas folhas ; já se sente
O espirito divino
E na sagrada rama já descansa
Entre nuvens de luz, mystica pomba.
Os montes debruçados já distillão
De leite e mel correntes.
Os valles já se encurváo, já levantâo
Suas longas planícies ; já verdejio
Os Íngremes penedos,
Âmbar Saron respira, já se encobre
Entre nuvens de aromas abrazados.
Chega o dia do Eterno
Chove dos cèos o Justo, abre-se a terra
E brota o Salvador: a paz estende
O ramo de oliveira
Sobre a face do mundo, e o mundo desce
Pela máo da innocencia, a sá justiça.
««'••'Ofillllfiilll I » « I > 1 III 111 Ijl I • ! l l_
Os montes de Israel e os altos ramos
Alegres estenderão
De flores e de pomos carregados.
Os cedros já no Líbano se humilhão,
Os ventos se calarão,
As insoífridas ondas sussurrando
Não brada o negro mar na ruiva praia.
Vem divino Infante, vem que a terra
Ja se abrio, já te offVece
Suspirando por ti, já sem trabalho
Do cansado cultor seus doces frutos,
Tenras mimosas flores
Já nascem para ti nas toscas grutas
Q.ue as cerúleas serpentes habitavâo.
Entre as áridas penhas
Já ferve a branca escuma, e já rebentão
Com doce murmúrio as limpas fontes.
Aos ares se levantão
As verdes cannas, os delgados juncos
Que ao fresco som do zephiro sibilâo.
Com o cordeiro que a doce relva corta
O cerval lobo pasce,
Os indomáveis ursos misturados
Cos domados bezerros juntamente
190
Na clara areia bebem
Do quieto leão simples pastora
A corada melena entrança e ata.
O innocente menino namorado
Das inconstantes cores,
Que as mosqueadas conchas reluzentes
Da víbora matisío, sem receio,
Co a fraca raio apalpa
E nos delicados membros enroscada
Lhe quer lamber a planta a serpe amiga.
Vem ò divino Infante
O throno de David por ti espera.
Vem as gentes julgar, já sõa a terra
Com o tropel fogoso
De teus rijos cavallos, das carroças
Que tem nas rodas de Aquilão as azas.
A dura guerra de armas carregada
Ji foge espavorida,
Com medonho tropel pisa a campanha
Tocando a férrea malha, o liso escuJo
No fundo valle sôa.
Os tambores, os pifanos não chamão
Cerrados esquadrões para a campanha.
No deserto uma voz esti bradando
Com ella o Jordão cKim.i.
Que vem Deos, que vem Deos, as fragoas dizem,
Deos, Deos no monte as arvores repetem
Que Deos ao mundo dt-sce ;
Co a força da alegria estremecendo
Os pinheiros do Menalo respondem
sTHmrmt
XXXV.
J_/EPOIS de largo tempo, Amor, me veres
O pé dos cepos livre,
No regaço da paz dormir quieto
Me moves nova guerra ?
Q,ae me deixes te peço, que me deixes,
Que para o duro peito.
Com trabalhos cruéis endurecido
Ka sanguinosa pedra,
As alígeras farpas nâo amoles.
Já não sou, já qual era,
Quando reinava a cândida Leucipe.
Passarão tão bons di«s I
Não queiras atear inútil flaroma
£m pouca árida cinza.
Que os gelos de oito lustres esfriarão.
Desprega as leves pennas.
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Vai-te cruel. Acode onde te chamão
Os fervidos suspiros,
Os brandos rogos de gentis mancebos.
De Tirse na cabana
Molle altar acharás. Ali devoto
Arábicos incensos
Queima com farta mão; da roxa pyra
Vagando o crespo fumo,
Entre festões de mil cheirosas flores
Lambe o travado colmo.
XXXVI.
vVUE bem fizeste tu, caro Macedo,
Q.aando com valoroso animo forte
Fugiste ao mundo que eu julguei ser cedo.
Se te seguisse a ti da mesma sorte
Agora me acharia socegado,
Sem medo ter do inferno nem da morte.
O povo portuguez vira assolado
Arrazada Lisboa populosa
Sem ter fazendas em que ter cuidado.
Sabiste na manhã clara e formosa
H por isso chegaste antes da noite ;
G.istei na cama a tarde preguiçosa ;
'iiio tenho quem me guie, nem m'acoitc.
Apanhou-me no meio da jornada
O furibundo golpe deste açoite.
EPISTOLAS
á^
^i
OE á sombra dos loureiros sempre verdes,
Que nascem junto ás aguas de Aganipe,
Inda, amigo, te encostas socegado ;
Se das soltas correntes que do cume
Do frondoso Parnaso estão cahindo
Por entre frias e musgosas pedras,
Sem nunca te fartares, ainda bebes:
Se as graciosas Musas te rodeSo ;
Encosta a curva lyra sobre o peito.
As áureas cordas fere, escreve a Olino:
Se a rima, como escravo, te traz prezo,
Perdida a liberdade, ao duro cepo;
Quebra as fortes cadèas; náo é justo
Que o continuo zum-zum do consoante.
Que o ouvido agita só, a alma nâo,
Esfrie o fogo, que na idéa nasce.
'N.\o busques pensamentos exquisitos
Em denegridas nuvens embrulhados;
ísMo tragas, não, metaphoras violentas,
Imitando esse corvo do Mondego,
Que entre os cysnes do Tejo anda gr.isnanJo;
Usa da pura língua portugueza,
Que aprendido já tens no bom Ferreira,
No Camões immortal, em Souza e Barros:
Em grego nâo me escrevas, nem latim.
Dá-me conta da tua larga vida:
Desejo que me digas se inda preza
No pensamento trnzes a cachopa;
Se com trez companheiros n'uma banca
De panno verde ornada o whist jogas ;
Se ouves fallar francez, e se inda lavra
O mal, de que hoje tantos adoecem.
Fallo d'quella praga desastrada
Dos enfermos poetas, que não querem
Os remédios tomar para sararem.
Conta-me em que exercícios vás gastando
O tempo, que li tens ; se ao som do rio
Compões os brandos versos, com qn' arrancas
Do cume das montanhas levantadas
Os arreigados cedros para ouvir-te.
Eu, amigo, depois que te deixei,
Triste vejo na<:cer e pôr-se o sol;
Os mais dos dias passo em minha casa
Sentado n'um banquinho e recostado
N'uma despida banca ; poucos livros,
Algum papel, com pennas e tinteiro,
É quanto só me adorna o estreito quarto
Alguns amigos tenho, mas distantes ;
Kem cavallos, nem seges á boléa
Tenho para tão longe ir visita-los :
Temo de sahir fora... Ah ! não te engano.
Temo de sahir fora. Desta banda
Me empurra o aguadeiro, e dcst'outra
Me atropella a Saloia c'o seu macho ;
Um vem .í redca solta no rabio.
Outro corre no coche á desfilada ;
Para esta parte fujo ; eis que de cima
Sobre mim vem a suja caldeirada ;
Os confusos, os vagos pregoeiros,
Os ouvidos me atroâo com seus gritos ;
Um « Quem as llores merca» Outro os polvilhos,
lintão eu cl comigo vou dizendo :
« De que servem polvilhos a um poeta,
a Se a um filho de Apollo o verde louro
i( H o melhor adorno, é todo o fruto ? »
Desta sorte n.io posso, caro amigo,
Kovidades contar-te c.i da Corte.
Pois que te contarei? Eu sei somente
Q.ue entrão náos pela barra e sahem nsos
Com as velas inchadas; sei que corre
Para o cerúleo mar o louro Tejo;
De Lisboa e das cortes estrangeiras
Nâo saberei dizer-te cousa alguma,
Que o tempo todo gasto em ler Virgílio
No raea pobre, mas certo domicilio.
Ao Snr Dr João Evangelista.
Q.
[JJAL sórdido pedreiro, que doente
De um hospital jazeo no leito pobre,
Q.uando torna d'alli convalescido,
Mais esbelto, pellado e macilento,
Em casa não acerta com a trolha,
Picareta e colher tudo lhe falta.
Assim depois de tantos negros dias,
F noites longas, mais que as de Lamego,
Em fúnebres ideias mal g.istadas.
Com pennas e papel não sei !iaver-nie.
Q.uero grasnarem verso, mas n.lo posso;
Dos olhos me fugio o santo lume,
Q.ue me guiava ao cume do Parnaso.
Por fátuo me tivera, se a fortuna,
Em cambio da alegria que me rouba,
Me desse dois rabões com três lacaios.
Brilhantes, rendas finas e veiludos,
Que becas são de tolos e casquilhos.
Mas de poeta, amigo, .só me resta
Desastres e misérias; filhos rotos.
De valadio o tecto, a viaha calva,
Caseiros, architectos e criados
Mais duros que as catástas de Perillo.
K neste bom estado me provocas
A cantar, e tanger na doce lyra.
Que ha de lazer um cysne desazado,
Um cansado rocim, que já nào chega
A meta desejada, sem mil vezes
Cahir, dando aos ilhaes na liza arôa?
Mas se pragas me rogas, que mais queres
Q.ue ver Heitor dos férvidos cavallos.
Do colérico Achilles arrastado,
Tingindo a dura terra o negro sangue?
Supponho que a metaphora percebes.
O Nádegas, que viste esfrangalhado
A passapello vir da pobre aldeia ;
Porque lhe devo já uns tantos mezes,
Mc ralha, e me governa focinhudo;
Co rabo agazalliado, já capeia
As aias, as rascòas da cozinha.
Eu delle me recato, só me falta
Lucroclâ vir a ser deste Tarquinio.
Acror.i te ris tvi ; e Manoel Gomes
O nariz encrespando, te pergunta
Q.ue fabubs s,ío estas? Nio lhe expliques
O sentido nioml; deixa-o confuso:
Não convém que criados tudo saibão.
Dize lhe q ie sou doudo, que desprezo
Opulentas heranças; que intl.-xivcl
Com semblante sereno e socegado,
Não me cansa soffrer a mão pezadi
Da fome e da penúria; não me espanta
A carregada nuvem da desgraça,
Que aos olhos me fuzila ha já dez annoí.
Nem sonln com perdizes, nem lampreias;
Com mui pouco se calão mens desejos.
A males sempre affcitn, nio se accende
Na torpe fantasia a luz brilhante
De fartas mentirosas esperanças.
Nem com legados, quintas, bcneticios,
Promessas e presentes, pôde um velho
O curvo an7ol cevar, para pescar-me.
O peixe j.i sangrado desconfia.
Se vè surdir a isca á tona d'agua.
Ku que o trapo mordi, e que ind.i tenho
.\s cicatrizes da farpada pont.i.
Nunca mais cahirei em esparrellas.
Antes quero jizer na estreita lapa, ■
Que embrulhado ficar era negras redes.
Mas para que poeta nâo me chames.
Quero o ponto explicar-te ; atiento escuta.
Naquelles priscos tempos que fallavào
Os animaes, as arvores, as pedras,
O cerval lobo, a cálida rapoza.
Em juizo accusava e lhe pedia
Restituição do furto que fizera:
Um mono petulante, mas sizudo,
Hra o juiz, que as partes escut.iva;
K lançando a sentença, disse ao lobo :
« Não julgo que te falta o que tu pedis;
n Porém creio, ó raposa, que roubaste
(c O que negas com tanta subtileza, s
Esta f.ibula, amigo, nos ensina,
Que quem mente por génio e por costume.
Quando diz a verdade, nJo é crido.
Agora applica o conto; e lá coratigo
Pesa bem as razões, as vâs promessas
Com que um astuto velho marralheiro
(A ti que leste Tácito e Commines)
Tc fc/c estar quieto e allucinido.
(^^<CÍfe <?^as«
Tir.indo-te por arte de berliques
Do nariz cascavéis, fitas da bocc-i.
O Prazo de Valdeste são os filtros
Co:n que esta Circe torna em leões fulvos
y.w. sedeudos porcos grunliidores
Do sábio Grego os fortes companlieiros.
Q_>;e em falsas apparencias embebidos,
K;Urão nos pa;os da famosa bruxa.
Kio julgues tâo boçal este moleque.
Que saia da senzala por missanga.
Ao Miniio passarei, se tu quizeres,
Xos altos tectos, onde já brilharão
Preciosos rubius a agazalhar-rae ;
H sem mais esperança, que o desejo
De ver-te, de tratar-te e de passarmos
Bocejando a miúdo as frias noites
Do enregelado inverno, que já chega;
Á roda da fogueira aqueceremos
As engelliadas mãos: d'e:'.tre o brazido.
Saltando as rebordas, que na deveza
O Domingos colheo inda orvalhadas.
Alli te contarei como em Lisboa
Se dourão os carrinhos sem dinheiro;
Como tufa o José, como o Lourenço,
Que Duque foi no pateo e Conde em Cintra,
Agora se vai pôr a chapeleiro;
E a pallida infeliz Sebastiana
Condemnada a torcer negras prezilhas:
E se disto me ouvires, te enfadasses,
Tangendo a doce lyra em brando verso,
Mil hymnos cantaria á tna Laura,
Á tua Catharina, Dnlcinéa,
Por quem vences Chiraeras e Gigantes;
E tomando no lar um carvão liso,
Te pintara o retrato na parede
Daquelles olhos onde tu suspiras,
Por quem vives e morres de saudade.
Q.ue fácil é sonhar felicidades!
Tu jA rico me crês: eu já supponho,
Agora que te escrevo, e que te fjllo.
Mas esta scena súbito se muda;
O Chico mostra rotos os sapatos:
Uma quer lenços, outra quer roupinhas;
O Nádegas dinheiro para a ceia ;
Á porta está batendo o alfaiate.
Se alguém aos cães lançou os pátrios ossos.
Se foi traidor A pátria, se é falsario,
Seja lançado a filhos e credores.
^3)fe^H^
III.
JjE iiSo te enjò.is de comer sem pompn
Em toalhas do Minho, em pobre meza,
Onde nâo tine a rica poryolana,
Kem cansa os olhos tremulo reflexo
De burnida colher, de refulgente
ISritannico saleiro, caro amigo,
S.ibio, illustre Sarmento ; ou nSo te assusta
O suspeito convite de um poeta
Afteito a Jura fome, a duro frio,
Cujo humilde tugúrio Noto açouta,
V. Africo ihe arrepia as leves telhas,
Hoje póJcs cear na Fontc-S.mta :
Melhor quj o Falerno, o roxo sumo
Por sórdidos Galegos trasfegado,
Ka fértil margem do cerúleo Douro
Alegres beberemos. Na cozinha
'^^""^M
Estala a secca lenha, brilha o fogo,
O negro bicho, cu negro cozinheiro,
Enroscado no esp.to fica assando
Um lombo corpnlento. Agora deixa
As serias reflexões, as esperanças
Da branca vara, da soberba toga,
Das rascõas vizinhas, lumes fátuos,
Que observas com teu longo telescópio.
A desabrida noite nos convida
A que juntos passemos poucas horas
Em doce trato, em doce companhia :
Teremos bons parceiros, cartas nov:."!,
E em ruivos castiçaes de pexisbeque
Arderão duas cândidas bugias.
Já na meza fumega o precioso
Katural elixir do rico Oriente,
O bom chá quotidiano, mais pedido,
Que o páo de cada dia, nesta casa.
Fora uma cJ lancemos ; que nio falta
Quem farte o moUe ventre cora g.irofos
Para da burra ver entre os ferrolhis
Pendentes barambazes das aranhas.
Nio me namorão fartos testamentos.
Opulentas heranças ; a meus filhos
Basta só que lhes deixe para exemplo
A nobre tradição, de que descendem
De um pae, que detestou a vil lisonja
Sem humilhar-se ao cheiro do despacho
Q.ue abiio novo caminho para o Pindo;
Que leo, e que estudou; e que aprendia
Ao menos a zombar da má fortuna;
Q.ue illustres bons amigos o buscavão,
Como allivio da barbara tortura
De cOAiversar com Getas e Tapuyas.
IV.
Ao Ex"' Snr Conde de Oeiras, Secretario
do Estado.
OE em teus constantes liombros firmemente
O sólio portuguez feliz descansa;
Se a forte mào nos olhos da justiça
Ata a sagrada venda ; se repartes
Co as ilustres acções o justo premio,
Cos vicios detestáveis o castigo ;
Se ditas as leis santas que segurio
O publico socego, se c'o exemplo
Promoves a virtude, peccaria,
Carvalho excelso, a distrahir com versos.
De t.lo nobre tarefa o teu cuidado.
Porém, senhor, é jnno que a verdade,
Que abertos acha sempre os teus ouvidos
Uma vez te entreienha c'os louvores
Que todos te votamos ; Mazarino
Richelieu ou Colbert, em quanto vivos
^
A pátria levantarão, nem por isso
Oeixou o cego vulgo do iiicrepa-los ;
Foi preciso que ;i morte lhe escrevesse
\.i fria campa os claros elogios.
Porém tu, entre nòs vivo e presente
Mereces e consegues que te louvem.
Louvamos-te, senhor, porque repulsas
A lisonja infiel, o dolo infame,
A tyranna soberha, a vil preguiça,
Louvamos-te, senhor, porque levantas
A destroçada pátria das minas,
Porque a fazes melhor, porque a despert.is
Do bárbaro lethargo d.i indolência.
O commercio florente que diriges
E que as forças augmentas, nos promette
Uma nova ventura não sonhada
Dos antigos errados interesses
Com malicia somente combinados :
Rompendo as feias sombras da mentira,
Vem raiando a verdade, o negro rosto
Tapa com as mãos o engano, e despojado
Do cre.iito sophistico bramindo
Vae fugindo de nós, e de teu nrme :
Assim depois da feia tempestade
4
4
Q.ue os mares agitara, que encobrira
A clara luz do sol com pardas nuvens.
Torna a brilhar o dia mais sereno
Mais alegre e formoso, e no afastado
Inda escuro horisonte ir-se escondendo
As voragens observa o navegante.
Nem sempre o pátrio Tejo como escravo
Ha de sofrer as quilhas estrangeiras
Que as auríferas veias lhe sangravâo
Que as forças lhe abatião, que soberbos
Não exigiSo cambio, mas tributo.
N^m sempre os nossos campos escalvados
Hão de incultos jazer ; o curvo arado
Já rasga a fértil terra, em novos sulcos
A mâo do lavrador lança a semente.
Ji ondeio nos montes mais agrestes
As compridas varas, pelos valles
Pascem ao som da frauta dos pastores
Os brancos e castanhos armentios :
Emquanto guarda as cabras petulante
A simples pastorinha, do forcado
A nilo tingida U tira cantando.
A sombra do teu nome as boas artes
O luso reino a povoar acodem.
''r.r
lilUs, senhor, farão menos preciso
O inútil luxo, dantes animado
Pela f.ilsa tenção de exiranha gente.
A gloria, o bem commnni, os interesses
Da já feliz naçío com teu amparo
A infallivel systema reduzidos
Isova gloria recebem : Minho e Douro
'Q.ue os roxos frutos de Lyeo produzem
'Guardío nos altos choupos enredados
As vides retorcidas, sem que vejão
Colher a alheia mão os doces frutos.
I.OHgo tempo opprimido e manietado
Pela inércia infvliz no rico leito
Jazeo o Grão Pará ; o céo guardado
Tinlia só para ti que lhe rompesses
As pesadas algemas, logo ouvimos
Abrir os fortes braços, revolvendo
O corpo entorpecido e fora d'agua
Alegre sacudir as câs de prata :
Logo as limosas mios aos céos erguendn
Com lagrimas banhando o rosto aftlicto
Ao sempre eterno Autor da natureza
Que te guarde, lhe roga, que te guarde
Porque o jugo cruel da hypocrisia
iK^f-í
-.1
.i
^
^
Com heróico valor despedaçaste.
►"Y 1 Para os fragmentos olha, e curva mostra
Âtrellada cerviz ; vê-se a cobiça
Que precárias doutrinas lhe ensinava
Attonita bramir; tapa os ouvidos
E os sempre abertos olhos (nío cansada)
Mas já vencida, fecha. Mal resiste
Aos fulminantes raios da verdade
Com qne tu lhe appareces, com que mostras
Do sacro Vaticano a lei divina,
Do luso throno o resplendor sagrado.
Envergonhada já, da negra bocca
Entre espumas de sangue, mil blasphemias
Fanática vomita, e descorada
Ao fraco peito as viboras da inveja
Enroscadas no braço convulsivo
Applica, e aos remorsos comdemnada
Do falso rito quebra as torpes aras.
Já reconhece justo o zelo santo
Dos sagrados pastores que b.-nignos
Tantas vezes em vão pios clamárlo.
Appareceste, já o negro espectro
Da infame rebeldia, que impaciente
Lhe atormenta a memoria c'os delictos.
Cos iiifar.ies delictos revoltosos
Q.ue lio clemente rei os bons desígnios
Contentar intentarão, que insolentes
lUudindo as leis santas pretendião
Ingratos sacudir o doce jugo.
Emfim. senhor, tu llie acudiste
Com paternal amor, do cipiiveiro
As opprimijas almas libertaste ,
Ao pedestal da estatua de teu nome
Pendentes fiquem os grilhões quebrados.
Mas, que súbito medo, discorrendo
IVlas veias o sangue me congela !
Palj-ita o coração, a voz nào chega
As scccas fauces ! Vejo, não me engano,
Pelas praias vagar do pátrio Tejo
Um espectro cruel de monstro horrendo !
No medonho semblante lhe sibilão
Kntre chammis azues negras serpentes;
Os cibos coruscantes, convulsivos
A toda a parte vira ; a curva fouce
Da morte traz na mão com sangue tinta
Trez vezes a cabeça sacudindo.
Sobre a areia soitou negro chuveiro
De víboras raivosas, que silvando
^'
Ora estendem a cauda, ora se enroscáo
Lá das lingnas farpadas sacudindo
Colérico veneno, inficionavio
Os ares de Lisboa. Es tu Discórdia
Pela horrível traição estás chamando,
Mordendo os negros beiços, louca brada
Pela fúria cruel, té que do inferno
Com medonho ruido se quebrarão
As férreas portas ; negro, espesso fumo
Té a lua subio, em que revolvem
Raivosos furacões, negros coriscos ;
Sahio o negro monstro com dous rostos
Mas, cobarde outra vez quer retirar-se.
Nío pôde porque os passos Uie impediào
A má hypocrisia, a triste inveja,
A vil cobiça, a rispida soberba.
Alli bramindo, alli funesta liga
Allucinada jurio ; já preparão
Instrumentos mortaes, o ferro e o fogo
Nas fracas mios lhe brilha tristemente
Com que a pátria assolar pretende o inferno ;
Correm traidores pérfidos, que infames
O régio sangue com furor derraraáo,
A pátria clama, clamio as virtudes
• \
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217
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Do grande e justo rei, cLiniâo favores
Pelos mesmos ingratos recebidos;
Mas e:n vão clamào, os cruéis nio ouvem.
O céo, o céo ouvia do afflicto Remo
O justo pranto, manda que o soccorras
Tu, que nasceste para ser dos vicios
Aspérrimo censor, tu lhe acodlste
Carvalho excelso, pae dos Portuguezes,
Com a prompta justiça, acauteKida.
Os duros ferros mordem furiosos
Já os monstros cruéis, a consciência
De sou próprio remorso atravessada
Em vSo lhe dita os meios fraudulentos
De negar o delicto commettido.
Jurâo, blasphenião, té que convencidos
Cheios de confusão e de vergonha
Com as vidas no infame cadafalso
Vão purgar a sacrílega maldade.
Assim a pátria salvas, assim quebras
Da vil ingrati.'âo as duras armas :
Assim conservas fcxrte e justiceiro
Da santa paz as aras venturosas
Em que jurar teu nome já pod.-mos.
Se coroas tem o céo para as virtudes.
r.
28
iR^^^^iis^-g^x^t^^^iigdsyiiM^^
"Ai
Mas, que faustos, senhor, que monumentos
,,^ A teu nome erguerá o reino luso
TJ Se quizer transmittir toda a ventura
Dos nossos dias aos vindouros dias !
Que versos, ou que mármores, que esiatuas
Contar-lhe poderão as leis sagradas
Com que os vícios domaste ! Os feios vicios
Que fúrias são do Averno atropellados
Das leis com que os fulminas, de raivosos
A dura terra mordem ; a aleivosia
Rasgando a torpe mascara se esconde
E o teimoso litigio da discórdia
Apaga a feia chamma ; emfim de Themis
A teu lado se adora a santa imagem,
A balança fiel tu lhe equilibras.
Na mJo lhe pões o refulgente estoque ;
Tu fazes que se tema e se respeite
Sem que seja de nós aborrecida.
A virtude promoves, a virtude
Com que a cerviz a todos nos ensinas
Com que nos mandas desejar a gloria,
Aquella gloria, que na boa idade
Das antigas façanhas portuguezas.
Os Castros ensinou e os Albuqnerques
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í^
A expor a doce vida pela fjiua,
Q.ue adornou teus illustres ascendentes
Das heróicas virtudes que hoje vumos
Traiismigradas em ti, ou excedidas ;
Das que forças te dão para susteres
O formidável peso dos negócios
Q.ue o grande rei te entrega, que resolve
Pelas mesmas virtudes regulado;
Que eterno te farão nos nossos peitos.
Sem que a torpe lisonja se misture
Cos públicos louvores que to damos
Cos grandes elogios que mereces.
V.
Fallã do infante D. Pedro, Duque de
Coimbra, aos Portuguezes, que-
rendo-lbe levantar uma estatua
pelo seu bom governo, o que elle
não consentio.
i\ÃO, lusit.ino povo, eu nâo consinto
Que estatua ao meu nome se dedique :
O amor da pátria, o zelo da justiça.
Não sede de mandar, ou de vangloria,
Me fez tomar as rédeas do governo :
Se fui clemente, justiceiro ou pio,
Obrei o que devia. Ê mui pesada
A sujeiçio do sceptro ; e quem domina
Não tem a seu arbitrio as leis sagradas :
Fiel executor deve cumpri-las ;
Mas náo póJe altera-las. E o throno
Cadeira da justiça : quem se assenta
Em tão alto lagar, fica sujeito
A mais severa lei : perde a vontade ;
Qualquer descuido chega a ser eoorme,
Detestável, sacrílego delicio !
Quando no liorizonte o sol espalha
Sobre a face da terra a luz do dia,
Kinguem a admira, todos a conhecem ;
Mas se eclipsado acaso se perturba,
Nesse instante infeliz todos se assustão ;
Todos o observão, todos o receiJo.
Logo se premiei sempre a virtude.
Se os vícios castiguei, nada mereço.
H n3o queirais, vassallos generosos,
L'sonjeiros tentar minha constância.
Honrosa estatua pretendendo erguer me,
Porque bem vos regi ; pois eu não devo
Condescender comvosco ; infamaria
Da alta virtude as máximas constantes,
Com que austero emprendi do régio throno
O accesso defender aos vícios torpes.
Se delle afugentei sempre a mentira,
A lisonja infiel, o astuto engano ;
Mio queirais offuscar minha memoria,
Provocando-me a coUocar no sólio
Um injurioso exemplo da vaidade.
Um padrão da lisonja. A fama íllustre
Deve durar na tradição intacta,
Sem a nota de frágil. Fora imprópria
t!(li^-r~:tP^9^^W^'W^-l*^' '
A gloria que me dais, se nessa estatua
Descobrissem os séculos futuros
As maculas horrendas da vangloria.
Vós mesmos, vossos filhos, vossos netos,
De tâo clara doutrina convencidos.
Ou do tempo melhor aconselhados,
A mesma estatua, que quereis attentos,
Agradecidos hoje levantar-me,
Amanhã se veria derribada
Em pedaços jazer : com páos e pedras
Os olhos lhe tirarem ; que a fortuna
Ligada co' a inveja e co' a soberba
Nâo deixa durar muito os elogios.
Porém se vós, illustres Portuguezes,
Desejais conservar meu nome eterno ;
Não é preciso o mármore soberbo,
Bastame a tradição de pais a filhos.
Com fiel saudade transmittida.
Este o jaspe, este o bronze, em que pretendo
O meu nome esculpir : chegue aos vindouros
Sem perder o caracter, que o fez grande :
Lembre-se o benemérito do premio ;
Recorde se o culpado do castigo ;
Todo o Reino do publico descanso,
m
i^
223
l'-.m tlarcnte commercio em paz segura :
Mas Iiaja quem se lembre deste caso,
E quem diga, que rejeitei modest.)
As honras de uma e. tatua; e que est.is lioiirns
Quem chega com justiça a merec^--!as,
Também sabe atrever-se a despreza-las.
Acabou de fallar ; e os circumstantes,
Immoveis e calados, pareciào
Outras tantas estatuas dedicadas
A regência feliz do sábio Infante.
Á feliz acciamação do Snr Rei D. José I
de gloriosa memoria.
Romance he n de c as y l l a b o .
^UBI, senhor, ao throno lusitano
A restaurar a perda de un monarcha,
Que chora Portugal, para que seji
AUivio da saudade a semelhança.
Acceitai os obséquios da leald.id<;,
Qiie o Reino vos tributa e vos consagra,
E em recíprocos votos a ventura
lllumine de amor a nobre chamma.
Arda nos corações, que a augusta ideia
Das heróicas virtudes nos abrazi,
Debuxando o prototypo dos cultos
A imagem da justiça, que se exalta.
^.
ã
225
AccI.ima, Lysia, o numc;i respeitaJo,
(J.ue a regia successâo o sceptro chama
Oução medrosas nos remotos climas
O augusto nome, as nações estranhas.
As'a rica, theatro Jas victorias.
Que o luso esforço consjgrou á Fama,
N.is ribeiras do Ganges fertili. a
Para novas conquistas, novas palm/s.
X.is entranhas da America opulenta.
Ao brilhante metal, delphica chanima,
Para diademas vos formar eternos
Vivifique em preciosas abur.dancias.
Na barbara região da Africa adusta
Temerosa a ousadia mauritana
Veja eciipsar as luas dos turbantes,
A ruina que o Tejo l!ie prepara.
Os echos bastar.ão do vosso nome.
Para que Europa toda attenta e sabia.
Na construcçã ) do estático socego
De Portug.-.l respeite as allianças.
226
Moderem os impulsos da piedade
D IS justas leis a execução sagrad^i,
Sem que a justiça ao mérito se negue.
Sem que o delicto indómito se faça.
Ka disciplina militar se ensaia
O luso braço que empunhando a espiJj,
Será nobre terror dos inimigos,
Será da pátria invicta segurança.
Na protecção das letras felizmente
De vosso influxo a erudição renasça.
Os Virgil ios, os TuUios se descubrâo.
Que atégora Lisboa occulta avara.
Doutas máximas, ethicas doutrinas,
Ministros sejão das acções preclaras.
Que entre os mysterios da razào de estado.
Hão de mover ns bellicas campanhas.
Emfim, senhor, a gloria portugueza,
Que Europa admira, que respeita a Ásia,
Torna a brilhar nos ambtos do mundo.
Donde o sol morr.', aonde a ai:rora raia.
i^i^íá^^^-^^íoH^^èi^^^ããt^
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B
227
Vivei feliz, e governai glorioso,
Do mundo espanto, admiração da pátria,
Ostentem para assombro do futuro
li ouro Icmis, os pérfidos estatuas.
Vivei, reinae, o tempo vos respiite
Ou absorto ou rendido, enujuanto a fama
No templo da memoria vos desenlia
Eternos bustos, inclvtis medaliias.
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o poeta.
— ' CoRYI
■«ORYDON, CoryJon, que negro fado,
Q.ue frenezi te obriga a ser poeta ?
Q.U'j esperas J^' teus versos ? Ainda esperas
Pelos antigos séculos dourados,
Quando achavJo Mecenas bons engenhos ?
Não 5abes que das Musas portuguezas
Foi sempre urn Iiospital o Capitólio ?
Viste já, qu-' seis urcos arrastassem
]ím douradas berlindas um poeta ?
Não escreve Lusíadas quem janta
Km toalhas de Flandres ; quem estuda
V.rA camarins fjrrados de damasco.
Qua::to mais que estes versos qu'assoalhas
São trovas, de que os doudos escarnecem ;
Sem que lhes valha o titulo estrondoso
Com que talvez pretendes baptiz.-.-los :
Odes lhes chamas lu ? EUes muriEUrâo
yiio sei de que palavras. Outro dia
Me disse Fábio o douto, o longo Fábio,
Que diStes bolos o chavão iiâo tinhas ;
Que no alaaide fatiaste, e nos bugios.
Nos descalços trombetas, termos chulos,
H vedados a melicos cantores.
Pois um Matuzio, o fallador Matuzio,
Que inda mais livros leo de quantos teve
Ptolomeo, e conserva o Vaticano,
Nesta mesma bigorna IA de longe
Co' a pezada cabeça te martella:
Que fúria te tentou com tal alcaide ?
Antes tribuno, ou já lictor dice.sses,
E se sabes francez sergetit, seria
Enfeitar o teu cepo mais i moda :
Mas tu não faltas? calas-te ? que dizes?*.
— «Que hei de dizer, Calfurnio ! Que já cedo
Como Horácio aos prestígios de Canidia,
Que as màos te dou a ti, e aos bons letrados
Lycurgos e Ulpianos de palavras,
Com que me altegas, com que me intimidas.
Que alegre borrarei o nome de ode
Dos versos meus, que por desastre virão :
233
Feliz eu, se consigo com Joiís rasgos
Da penna, que maneio tio ligeiro,
Escapar aos malsins que me pesquizão. »
— (í K não fora melhor oue te deixasses.
De uma arte desgraçada, que os prudentes
Já calvos Salomões, Padres conscriptos
Aborrecem, desp.-ezâo e condemnão ?
Almotacel que queiras ser de um bairro,
Hxcluido serás sendo poeta.
Antes de ti se diga, que perdeste
O dote da mulher, o pão dos filhos,
Porque Gelonio teve quatro d' honras.
Antes de ti se diga, que roubaste
Ao pobre caminhante dez cruzados ;
Q.ue violaste as vestaes ; que em vão juraste ;
Que CS bruxo, delator, que és um falsario :
Tudo o tempo consome, tudo esquece,
Tudo dourão riquezas; mas poeta!
K fúria sem remédio, c cio dannado,
Todos o apupão, todos o apedrejão !
Tu andas pelas ruas mui contente
Com teus grandes canhões empertigado,
InJa que baixo e fusco, vais cuidando
Que reparão em ti, que todos dizem,
IS .^Ts. ^i\* ^^^ ^N, ' ^*s. ^1^ •'T^ "T- •-^*^ «^í -^« vf-^ .-^ ?i
Com o dedo mostrando a má figura :
« Eis o grande poeta, que nos tronxe
A galante invenção de versos sólios,
O contagio das odes, que atrevido
Quer extirpar a seita dos sonetos. »
Mas quanto, Corydon, quanto te enganas !
E certo que te apoiítlo ; mas bradando :
c Lá vai o novo Horácio autor da ode
Varra o credor soberbo a pobre casa
Co desabrido alcaide. » Circumspectos
Embicando no varra, e mais no alcaide
Põe as máos na cabeça. Clamão que odes
Nunca viráo com termos t.ío rasteiros ;
Pensamentos que forão condemnados
Nos rústicos escólios de Lucilio ! »
— <: Basta, Calfurnio meu, ante os juizes,
Que tâo boa sentença profer'râo,
Quizera retractar me ; e te prometto,
De abjarar o estylo que seguia.
Buscarei novas pbrases, novos termos,
A língua fatiarei de Palaiuhos ;
As minhas trovas, meus humildes versos.
Eu te juro, que nunca mais lhes falte
O sonoro ^âo ^ão dos consoantes.
2)5
Magestosas ideias sybilliiias,
H outros taes atavios, com que arreiâo
Suas composições esses bons mestres.
Mas tu que tens a dita de pizares
O pórtico sagrado de outra Athenas ;
Que és estudante, e foste preservado
Da culpa original da pobre Arcádia,
Descendente do AdJo do grande monte,
Que larga as cãs de prata no Mondego ;
Por ancião famoso e conhecido.
Vai, e por mim o oráculo consulta,
Pergunta se também o Venuzino
Clara estrella polar, o velho Horácio,
Errou na opin.ío desses Cuj.icios,
Quando chamou sem pejo dentro em Roma
Ante a face de Augusto, em suas odes
Garridos espadões, a mil eunuchos ;
Ao bom Afio chamou vil usurário.
Ao Mevio fedorento '■ mastim a outro,
Tíruxa a Canidia ; se varou em terra
Seu baixel alteroso, quando dice
De un máo liberto, pródigo e soberbo,
Q:ie fora do verdugo c'o a^urrague
'Kjas cosias fusliç^ado ale incharem
J^~^f^ "N "^^^ "T- 't' n-~ "T- «T- -T^ -T" -T" "^ "^T*"*\
t/ío gritador porteiro as cordoveijs
"Do vermelho pescoço que suíiv.t.
Nâo te fallo na velha deihcnesta.
Que os falsos arrebiques l':e cahião
Velo verde semblante âeicorado.
Como o vermelho barro >io alto monte
Bm laivos se derrama, quando a chuva
Principia a correr em enxurrada... »
— « Repara, Corydon, que nessas odes
As palavras que allegis são latinas. »
— « Logo pôde em latim dizer-se preço,
Porteiro em portugiiez é conJenniado !
Ora, Calfurnio, vai-te ; em paz me deixa.
Que nem me lembro já de taes doutores
Qual o grande rafeiro, que seguindo
O dono vai, sem reparar nos fracos,
Insolentes cachorros da cidade.
Que ora lhe ladrão, ora lh'os açulâo.
Mal lhe volta o focinho arreganhado,
E o lizo agudo dente que branqueja.
Qual a foDce da morte, os intimida.
Justo, poiém, será que tu lhes digas.
Que varra cada qual sua testada ;
Que assas borbulhas tem para coçar se ;
_^ ^ ^^__„ , il[;
257
Q.ue seus venos não leio, que nâo leiío
Klles os versos meus, oJcs, ou trovas;
Não lhes quebro os ouvidos, não os canso
Co' a importuna li^ão dos meus poemas :
X' Arcádia os leio ; alguns de seus pastoras,
A quera verde hera cinge e adorna a fronte,
Tejo não tem de L-Ios, c approva los.
!j.ue se guirdem de mim, porque se pCyO
Ao campeão de Apúlia a longi espada.
Com que fendia as costas dos Romanos,
Nem a maldita fama bolorenta
De seus celebres nomes esquecidos,
lilesa deixarei ; serio cantados,
K fibula do povo em toda a idade. »
lk
■é^_ -A-^k^ ^-í" 4'-^- •>_-^^k_=^— ^ •('
'^\
258
Sobre a imitação dos antigos.
IN Ao posso, amável Conde, sujeitar-me
A que ás cegas se imitem os antigos ;
Quero dizer, aquelles Portuguezes,
A que hoje chamamos quinhentistas:
O bom Sá, bom Ferreira, o bom Bernardes,
Forâo grandes poetas ; qualquer delles
Foi discreto, e foi sábio ; emfim as Musas
Lhe embalarão o berço, e lhe cobrirão
Com morta, e cora loureiro a sepultura.
Mas nem por isso os pobres escaparão
A culpa original ; tem suas faltas.
Tem seus altos e baixos, tem sedeiros,
Onde dá c'os focinhos um pedante,
Que vá por onde fôr, ha da segui-los,
Que ha de furtar-lhe tudo quanto dizem ;
F. seji bom, ou máo, isso que imporia ?
M ______ .___ nf.-
r 1 é' r r-i
íf?rTC;-'í:p.^ .jp^ ..TíÃ^i-sírpTji^çr^Ciírp'
O ponto cs'.á que o digi algum d'aquelles
Que Craesbceck imprimio : a maior teima !
As Graças são mucliachas, sSo rizonhas.
São fáceis, são suaves : elles querem
A força pôr-lhe brancas e bigodes,
K nãj lh'os sabem pôr : que é o que eu digo ?
Imit.io o peior ; mas não imitão
Os versos mais canoros e correntes,
A sizuda dicção, a phrase pura ;
Aquelle attico sal, que não conhece
Q.ueni nunca vio o pórtico de Athenas
Sequer em caixas ópticas pintado ;
Isto é, Anacreonte traduzido,
Aristophanes, Sophocles e Sapho :
Sem que fique de fora o bom Homero,
1'. outros, em quem poder não teve a morte.
Para imitares tu, senlior, os feitos
De teus claros maiores, necessitas
De calças c gibão V Se hoje sahissís
Com jaqucte e golilha, quem seria
Tão serio, e tão sizudo, que pudesse
Conter o rizo 5 Nada te valera
Rtsponder-lhe gritando, « que imitavas
Os distinctos avós, que dos Noronhas
•^fv" fc-fs» w^ v*^ .^N. H
240
A prosápia exaltarão generosa
Nos séculos passados. » Todos sabem
Que o valor nJo consiste nos vestidos.
Antes seguem as modas. A virtude
Assiste com socego inalterável
Nos grandes corações. Ora esta regra
Corre a nivel d'altura do Parnaso.
Imite-se a pureza dos antigos,
Mas sem escravidão, cora gosto livre,
Com polida dicção, com phrase nova,
Q.ue a fez, ou .idoptou a nos'a idade.
Ao tempo estão sujeitas as palavras ;
Umas se fazem velhas, outras nascem :
Assim vemos a fértil primavera,
Encher de folhas ao robusto tronco,
A quem despio o inverno desabrido.
Mud3o-se os tempos, mudâo-se os costumes
Camões dizia imtgo, eu inimigo;
O ponto está que ambos expliquemos
Aquillo que pensamos. A energia
Do discurso e da phrase nâo consiste
No feitio das vozes, mas na força :
Salvo, conforme aos gárrulos trovistas.
Que nâo te chamío justo, sem chamar-te
■m '■ m
v-.;^
■i^í^^í^-:^^!^:-:'-
i.^.^^>V>
1
J41
Ou robusto, ou augusio : inda que sabio
Detestas a lisonja. O raro Apelles
Rubens e Rapliael, inimitáveis
■Não se fizerão pela còc das tintas ;
A mistura elegante os fez eternos.
Quem não percebe bem este segredo,
Cuida que em dizer viór tem dito tudo:
Que muito, se n.io ha discernimento,
li reina a afTectação ! Vejo pedantes
Trepados em cadeiras, descompondo
Os mais honrados cidadios de Athenas,
Sem raz.^o, nem vergonha : e vejo gente
Prudente e sabia embasbacar nos gestos
Do mono petulante! Muito pôde
A opinião, a teima ou o capricho !
K o pedantismo pôde mais que tudo.
Pois arrasta a raz.io, piza a verdade ;
K em sabendo servir-se da lisonja,
Vôa por esses ares, sobe ao cume.
Onde a vaidosa ideia ergueo o templo
Da fantástica fama. Alli se abraça
A soberba e a vaidade co' a preguiça.
Vive a ignorância alli, dalll pretende
Dictar as leis ao mundo. M.ts que digo?
5í
m^
Que furor atrevido me arrebata ?
Que demónio me inspira allegorias.
Sem permissão do tribunal censório
Dos criticos modernos ? Nâo é moda
Um estro nobre, tudo está mudado :
Ha pragmática nova, estreitas regras,
Que obriga a jejuarmos, poesia
Tem longa quarentena ; e não me espanta
Ver poetas mirrados, se a abstinência
Das clausuras fugio para o Parnaso.
Os nobres Portuguezes, christSos velhos,
Acaso são gentios, como forão
Pindaro, Homero, Sophodes, Virgilio,
Para inventarem cousas inauditas ?
Fabulas novas ? Bastão as pinturas
De quatro bagatellas : uma fonte.
Um bosque, ura rio, um campo, ura arvoredo.
Um rebanho de cabras, dous pastores
Com cajado e snrrão ; uma pastora.
Que se está vendo n'agua : ha melhor cousa ?
Quem pôde fazer mais ? Que nos importa
Que o verso seja frouxo ou deslocado,
Sem gramraatica a phrase. sem pureza,
E sem graça a dicção ; oa emfím tudo
'■'■l^«-r-=;r.Tr^-írr'^'^'.;rT"r-'>^'...^^^í.rrTr^'^7r.-5--i-^
■*«f
Sem connexão, sem ordem, sem juizo ?
O caso está que lembrem as pedrinhas
Lá no fundo do rio, sem que esqueça
A gaita do pastor, nem os abraços
Da simples pastorinha : e que as palavras
Sejão humildes, velhas e caducas
Sequer de quando em quando. Ah! senhor Coude!
Se isto é ser bom poeta, bom poeta
Eu o prometto ser era pouco tempo.
Mas tu, senhor, bem sabes quanto custa
Ser fidalgo da casa do deos louro :
Não se compra a dispensa com dinheiro.
Nem vale ter o pai no Desembargo ;
Mas é preciso grande génio, longo
E escolhido estudo; ouvir a todos,
Seguir a poucos ; conversar c'os mortos,
Quero dizer, c'os livros todo o dia,
E toda a noite : alli se faça branco
O cabello que foi ou preto, ou louro.
'^
-7^*
I.
V_yS brilhantes trançados enastrando
Com verde mirto, com cheirosas flores,
Kos lindos olhos vivo rutilando
O doce lume
Do cego Nume,
Alvas donzellas,
A quem vos ama,
Da crespa rama.
Que Bassareo
Ao mundo deo.
•^í
"i
f^^ir.
Co' as brancas mãos no copo crystallino
Lançai ligeiras
Loiíro Falerno, rúbido Sabino ;
Eia, voai.
Deitai, deitai ;
Gró gró, ti t.i,
Que cheio está.
Ora brindemos
tM:
m^ _ -^ .^.- .^ , _ ,— • »|-^
DITHYRAMBOS
V
m8
As gentis Graças, castos Amores :
Ko mar lancemos
Rixas, tristezas, magoas, temores.
Mas de coradas nuvens, afumados
Vejo em torno girar os negros montes :
Cândida espuma
De purpúreas fontes
Ferve, e se enleia
Ka crespa veia.
Com que o ribeiro
Cone ligeiro.
Por entre as aveleiras buliçosas
Das balsas espinhosas,
Mil capripedos satyros auritos,
E mil Faunos brincões.
Já vem saltando,
A tetra c'o ruidoso pé trilhando.
Sincinnas choreia?,
B'stonidas feias
Formão bradando :
Evoó, Saboé,
'>-^>->^-^5í^í'T^:
249
^■^ /J'*.
Amores inspira,
O' doce Leneo,
Amores bebamos,
Do peito lancemos
Os sustos, temores,
Xos copos já temos
As Graçis, Amores,
Evoé,
O' padre Lyeo.
Saboé,
Evan Basçareo.
As ferulas protervas coriscando,
Entre as cervinas peMes maculosas
Derramão brilhantes
Tremulas estrellas,
Sobre as soltas bellas
Fulguricrinantes
Tranças pampi;iosas
Das thyrsigeras Thyadas raivosas.
Corycio escutando
O phrygio clamor.
Está ululanío
Com triste fragor.
tl-N
ajo
Sobre o prado amero
Tremilhicando o pávido Sileno,
Do ebrifestivo copo que trasborda
Pela micaute borda
Deixa entornar, cora rubicundo rosto,
O cheiroso rubi, o quente mosto :
Encrespou o nariz, e sacudindo
Os húmidos bigodes, ficou rindo.
Evoé,
O' padre Lyeo.
Saboé,
Evan Bassareo.
Com Tyrso potente,
Era carro luzente
De tigres puxado,
Dourando este dia,
Desterra o cuidado,
E traze alegria.
Evoé,
O' Padre Lyeo.
Saboé,
Evaa Bassireo.
í<-'^-^>>^k^^'^
Os copos brilhantes
O bom nictileo
Em brindes retinem,
E amor adejando
Co' as azas rorantes.
Se está mergulliando
Era ondas brilhantes.
Evoé,
O' Padre Lyeo.
Saboc,
Evan Bassareo.
i
1
Ao Snr António Diniz da Cruz e Silva,
sócio da Arcádia.
OACCHO, Elpino, cantemos, dá-me o bromio
Oh ! que bem que elle sõa ! Eu toco ; canta
Baccho, Baccho, evoé.
Mas que fazes? Kão ouves? Olha, escuta
O estrépito sonoro
Da confusa Thymele.
Kão saltas? NJo te alegras,? Olha, escuta.
Baccho, Baccho, evoé.
^*
Os olhos tens chorosos ; somnolento,
Estúpido o semblante, rubicundas
E quentes as orelhas ;
O nariz frio ; os braços pendurados.
Cambaleias? Tu cahes ? Elpino, cahes ?
Ah ! J.i sei ; os symptomas bem conheço,
Opprime-te a ambrozia :
Kada-te o coração no licor forte.
Que corre em catadupas pelas veias.
H> A '^l:\r:lÍ^^^J^
V>fcy$<lfr,
'' '^
Dcce Padre L3eo, acode, acode
Acode ao teu Elpino :
Bacclio, Baccho, evoé.
Vtm, vem, ó ditln-rambo, se as alegres
Crepitantes lenèas te não prendem;
Se afogado do fumo dos legumes,
Os olhos esfregando as ventas torces ;
Vem, vem, qu'eu te prometto
(Por esta taça o juro)
Devoto celebrar as anthesterias :
Vem, vem Baccho, evoé.
Mas, que ouço ! Escuta, Elpino :
Ouço ao longe ranger os parafusos
Dos cheirosos lagares !
Descendo pelas roscas grita a vara ;
Bom signal, evoé.
Vejo, por entre chuvas de bagaço.
Um vulto pelos ares vir batendo
Compridas azas ; mas não tem cabeç.i,
KJo tem pés, nâo tem mios :
Ah ! já na terra pouza :
'4
•*u
í
a$4
Vamos Elplno ver ; um odre, um odre I
Es tu Baccho, evoé.
Elpino, toma, bebe
O valente elixir, que nos restaura
Das passadas fadigas,
Que aquenta os frios membros.
Que faz vermelho o velho descorado,
Que alegra a mocidade.
Que o somno concilia :
Elpino, toma bebe,
Baccho, Baccho, evoé.
<!>
MOTES E GLOSAS
M.
iARfE, faie-tc la moda,
H Icus temores desterra,
Que os soldados desta era
Tr.i^ciii por moda uma roca.
Se queres ser namorado
Da moça mais presumida,
Deixa de paizano a vida,
Senta praça de soldado.
Traze chapéo cerceado,
Kspadada a testa toda,
Casaca com pouca roda,
Nunca dinheiro comtigo ;
Pois é moda tnl castigo ;
Marte, fa\e-te da moda.
5 3
2;8
Kão temas a reluzente
Sanguinosa espada fria ;
O pilouro, que assovia,
E que mata de repents :
Kem petardo, que e;trideute
A' dura porta se aferra :
Busca o desprezo da guerri
Com torvo irado sembiai-.te,
Faze-te forte, chibante,
E léus Umores desterra.
Com retorcidas bigodes
Os antigos Cassiílctes,
Sem rabichos, nem topetes
Trczandavâo mais que bodes.
Marte, da moda bem podes
A roca brandindo fera
Mostrar, que náo foi nem era
Gente de tanto valor
Para batalhas raellior,
Que os soldados desta era.
J^À^
2Í9
InJa que a roca se poi.ha
Como caroclia .-.os poltrões,
Hoje seiscentos Koidões
Kão tem da roca vergonha.
Empestados desta ronlia,
Que trouxe moda tão louca,
Fazendo aos rapazes coca
Era trajes de Cruz-diabo,
Nos mostrão por moda o r.^bo,
Tracem por »:olt H»iii roccit.
Di
'E que me serve o querer-te,
Nem tão pouco idolatrar-te ?
Sujeitar-me a teus preceitos,
E vir outrem a lograr-te ?
De que me servem gemiJos
Ao céo vímente espalhados ?
Se a meus rogos magoados
Cerras, Marília, os ouvidos ?
Se mil extremos perdidos,
Perdidos só por mover-te
Chegão, cruel, a ofTender-te.
Se nada emfim me desculpa,
Antes, o qucrer-te é culpa.
De que inc serve o querer-te ?
261
De que me serve ? Que vale,
Que o pranto meu pezaroso,
Qual ribeiro caudaloso
As duras penhas abale?
Grite, murmure ou me cale,
Kada chega a magoar-te.
Quem c que pôde abrandar-te?
Se para, ingrata, tnover-te,
Dt: nada serve o querer-te.
Nem ião pouco idclatrar-te.
Cuidei que viver atado
Ao grilhão da tyrannia,
Em compaixão trocaria
Tão estranho desagrado.
Vejo-me desenganado ;
Vejo em lagrimas desfeitos
Meus olhos, que tão sujeitos
Teu duro império rendeo ;
Nada, Marili;-,, valeo
Sujeltar-me a teus preceitos.
Mas é tal o roeu torm.-nto,
Que heide com gosto soffrè-lo ;
Pois imaginir perde-lo
Inda é maior sentimento.
Nâo, Marília, o pensamento
Káo sabe deixar de amar-te;
Antes escolhe enconrrar-te
Sempre ingrata, sempre esquiva,
Que ver-te emfim conipassiv.i,
E vir outrem a lograr te.
■f^^^Mí^ÊMSpW
III.
Tudo faz o Padre António.
A negra melancolia
Com os olhos no cliSo postos,
Suspiros, pranto, desgostos
Sobre os mortaes diffundia :
Q.iu.-.do a rizonl; a alegria
Apparece a tempo idóneo,
E como o branJo Favonio
Dissipa a nuvem do pranto ;
M.-is tornar em doce canto
TiiJo fa^ o P.iJrí ^-iiiíoiUo.
Tn fazes, Delfim sonoro,
.Mudar em consolações
As penosas aftlicçôes
Com o instrumento canoro :
Fazes que do Piudo O côro
264
Por ti deixe o lago Aonio ;
Fazes descer do Telonio,
Por te ouvir o deos luzente,
E tu fazes.... Finalmente
Tudo fa^ o 'Padre António.
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CANTIGAS
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30
Wg95Sii''>ÍSimSS%sM:
L/O campo de Rio frio
J.i vier.io os soldados,
Trazem corações Je bronze
Km dura guerra ensaiados.
I"eroze3 c carniceiros,
ArrastAo duros canhões,
Ameaçando ruinas,
Incêndios, roubos, traições.
Cora pifaros e tambores
Nos atroão os ouvidos :
Os fundos valles, os montes
Gemem do estrondo feridos.
'.>♦.. ♦..♦»>7 %
268
As bandeiras de Cupido
Desampararão traidores,
De linhas e baterias,
Se espantarão os Amores.
De improviso se levantão
As brancas azas abrindo ;
Ora nos ares suspensos.
Ora ás estrellas subindo.
As settas, que lhe cahirão
Ficão no campo pizadas,
Rotos os sonoros arcos,
As vendas despedaçadas.
Successo t.ío lastimoso
Andio as moças carpindo ;
Soltos os louros cabellos,
Descorado o rosto lindo.
269
Nas curvas margens do Tejo,
Que lambe a crespa corrente,
Para onde fugio Amor
PerguntSo tristes á gente.
Pelos ásperos outeiros,
Com seu pranto rociados,
Umas bradão por Cupido,
Outras praguejão soldados.
A seus fervidos gemidos,
O pobre nâo lhe responde ;
Antes com pânico medo
Até das moças se esconde.
Teme, que ate nos paizanos,
Galharda gente mimosa !
Se ateie o fogo voraz
Da feia guerra estrondosa.
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^N-N^í» -^-^ ^* *^»^^p "^I ' •- ' * -f- *f- -*- --f — í* "í" ^li^ "^ ^^^T~
Nunca mais com brando rogo,
Com recíprocos suspiros,
Sujeitará corações
A seus laços, a seus tiros.
Fugio Amor, escondeo-se,
Levou comsigo a alegria :
Murcharão se as lindas flores,
Apagou-se a luz do dia.
Mas quem quízer saber onJe
Escondido Amor está,
Venha ver de Lylia os olhos,
As frechas de .^mor verá.
Ah ! fecha, Lylia, teus olhos,
Nío deixes sahir Amor,
Emquanto ouvires das armas
O desabiido fragor.
'f^.j*í,9.
"^^ V ^'i- ^-?'r ^^? ■ * ' " '~- ^r -^ -i- -1- ■f^^<-é'- -p'F?^:\'
Kspera que a paz dourada
Tomando ao collo os Amores,
Com os cocares dos elmos
Empennera seus passadores.
Deixa, que ardidos ginetes
Rompendo os campos talados,
Em vez de bellicos Sagres,
Arrastem curvos arados.
Ent.io á sombra dos ramos,
Q.UC estende o carvalho annoso,
A casta pomba arrulando
Chamará o fido esposo.
Então co' a frauta sonora
Modulando em desafio,
O teu nome ensinarei
As mansas aguas do rio.
'^Y* r*';--
i^l* ', ,,;:;;, „, ,,, ,, ,;, ,;
'■!tí*''T^;-
^-^Tl
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• v-».-». ♦-♦.^
^jpytpipyyyytpyy -t»-
Tf^-^
II.
Cuidava que Briolanja
Era branda, como bella,
Cuidava que era marmanja,
Mais tenra do que vitella.
Mas, ai, ai, ai,
EUa é cem vezes,
E cem mil vezes
Muito mais dura,
Que onça esfaimada,
Loba malvada,
Que na espessura
DegoUa as rezes.
N. -1, ^ .;. -!-^-!- -!- 4;^-!;-!' -'::-J- -!- -!- -l- -!- -t- -^^4- -J;-'-í- -J- ^- ^
.„ ^.^ ...^ ..>,>.. ^.......^....^ ^^^
li
•f^=
\
Ao Divino Espirito Santo no anno
em que sérvio de Imperador um filho
do 111""' e Exm» Snr
D. José de Alencastro.
Alrao Espirito divino,
Deste império protector,
Inílamma os devotos peitos,
De que foste Creador.
Tu Paraclyto te chamas ;
Fonte viva e sempiterna ;
Incêndio de caridade ;
H dedo da mão paterna.
Do estellante Empyreo desce.
Nas azas de Serafins :
Anjos, thronos te acompanhem,
Potestades, Cherubins.
?" V ,:; '['■ i: 'ii,:, '1
'?,•»'♦ .♦.♦.^' *
; i
274
Já com vozes incessantes
Três vezes Santo te accIamSo
E de tua immensa gloria
A magestade proclamão.
Abrão-se as portas do céo.
Enche de luzes a terra,
Os rebeldes inimigos
Longe de nós os desterra !
Venhão em nosso socorro
As Celestes legiões,
Para a tremenda batalha
Arraa-nos os corações.
Mil coriscos vomitando
Caia o dragáo furibundo,
Que accezas fauces abrindo
Deseja tragar o mundo.
-— A?í-
275
Derrotadas as catervas
Do c.iliginoso baiuio,
Hm nossas roxas bandeiras
A victoria está brilhando.
Sobre a dourada coroa
Do devoto imperador.
Vemos fuzilar os raios
De teu divino esplendor.
Kmquanto de nossos olhos
Teu lume santo fõr guia.
Confessarão os infernos
Deste império a soberania.
De dourada paz gozando
Cantaremos teus louvore-;,
Dissipando as densas trevas
O ruido dos tambores.
?^.'^MIl::,:!;'l'l!':
;V.,. ♦:♦.•. ^
.,^.^..^í...>.i.,^,<..%.^^.;.^.^.-:.f.,íA;.,t>,XCiti^tTtfl^tíè
:;. :;:„;:,:::::::!:;;:, :;:,;:„:,',::,:;i^'!
■-'/riJ^i
^^?:pí^?:j?^{r5{í^íj?^?r|:
.^^^j^.^jf..
7M-
276
Em triumpho campeando
Cantaremos a victoria,
Té ver de Sião os muros
Cobertos de immensa gloria.
Seguindo tuas bandeiras
Em teu serviço alistados,
Foliões e imperador
Somos de Christo soldados.
Armados do lume teu.
Rutilante escudo forte !
Esperaremos constantes
A curva fouce d.i morte.
Se nossos votos te agradâo,
Se escutas nossos clamores.
Sobre a casa d'Alencastro
ChovJo os teus resplendores.
^r'*",*',*'' -■
■/•
l'^ dsdidkcj^^bdbdb;^;^:;^;
y^^-^^^^,j,-j>^-^,j.
Katrc cândidas virtudes
Com illustre IieroicidaJe,
Esmalta os brazões do sangue
Magnânima caridade.
Qual o pelicano terno,
Q.ue o peito de ouro rasgando
Está c'o sangue das veias
Os filhos alimentando;
Assim a grande alma illustre
Em celeste amor acceza,
O coração rasgará
Para acudir á pobreza.
Nos sólios da eternidade,
Que occulta tanto mysterio,
A desejío ver c'roada
Os vassallos deste império.
Ç~JJ'I II I liill ' MPl I llllii
^íA.* ♦ ^
' 111 il ll^^
T-í-^í-^í^z^i^srsEíZS^Ezr
ENDECHAS
1^;
Mg
P.islora. vJUE.M amor não tem,
XSo tem coração,
De branda atTeiíão
Alma se mantém.
P.islor. Mas quem amor tem
Serve á crneldaJe,
E Ja liberdade,
Mão conhece o bem.
Piísíora. De dois corações
Reciprocas dores
Dos gentis Amores
SSo arco, e farpões.
'Pastor
36
O lindo volver
D'iins olhos rendidos,
Em peitos feridos
Derrama o pra/er.
k4
»4i
'Pastora. Deseja dizer
Balando o cordeiro
No valle, no outeiro.
Que sabe querer.
Pastor. O pego do mar
A praia nas fragas,
Quebrando mil vagas
A vem abraçar.
Pastora. Q.ue bom fora Amor
Se fora leal ;
Mas é grande mal.
Que seja traidor.
Tastor. Se em amor nio ha
Singelas tenções ;
De enganos, traições
Quem nâo fugirá ?
'Pastora. Bem posso mostr.ir
Quem te ama fiel.
Tastor. De quem é cruel.
Que devo esperar ?
283
TJstora. Se me amas, pastor,
Sou fida pastora.
Pastor. Sc não es traidora.
Já creio em Amor.
^mhos. Que doce prazer
Káo sente quem ama.
Pastora, Tâo suave chamma
Dci.\emo-la arder.
II.
Em mil agonias
Cercado de abrolhos
As noites, os dias
Me deixào Licor*.
Depois que teus olhos
Os meus captivárâo,
E me sujeitarão
A tanto rigor.
Se tratas assim
Com tal tyrannia,
Q.aem por ti se inílamma
A quem te nâo ama;
Que mais lhe faria
O teu desamor ?
.vQSq\^
4*
■*■■*-
Y
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THEATRO NOVO f
DRAMA. T
-f-s-
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-^^•^j
Aprigio Fafes,
Aldonsã
f
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À.
Actores.
, suas filhas
Branca
Arthur Bigodes, mineiro e compadre de Aprigio.
Jofre Gavino, musico e mestre de AlJonsa. -^
Inigo, actcr. I
Braz, Licenciado. y
Monsieur Arnaldo, architecto. 1
Doutor Gil Leinel, poeta. T
A>
r .:.
4v
T
mm
fk
Vale mais a fortun.i, que a sciencia :
O coração presago é o piloto
Com que se arroja ao mar quem Deos ajuJ.u
Ha delgado chatim, que mal entende
Que dous e três sio cinco, e sempre ganha,
Ou no contrato lance, ou na commenda :
E quantos vemos nós com guarda-livros,
Com seiscentos caixeiros zigues-zigues
Dar c'os bodes na arêa, e nas esquinas
O bom nome servir-lhes de epitaphio !
Mas deixando preâmbulos, approvo
A idéa do theatro; é bom projecto,
O ponto só consiste em desbancarmos
O da rua do Conde e Bairro Alto.
Aprigio.
Senhor Arthur Bigodes, meu compadre,
Quem tem tfio bom amigo, não duvida
De abalançar se á mais custosa emprez.i ;
Este meu tal e qual pouco bestunto,
O trago prenhe sempre e recheiaJo
De soberbas i.ió.is ; mas nia tinhi
C;ilor bastante na myrrada bols.i.
-^
«^k)ímí®.'^-
4
k
V
Para o br.iço chegar a executa-las.
O céo bem sabe, quantas vezes, quantas,
Vociferando, disse : Em hora infausta,
Por longos mares, d'cntre nós fugindo.
Se ausentou meu compadre Arthur Bigodes
Coração de Alexandre, farto amigo,
Pé de boi portnguez ; mal empregado
Nos desertos sertões dessas Arábias,
Entre gente boçal, entre bugios !
Arthur.
Manso, fiel amigo, essas lisonjas,
Carapuça nAo sâo desta cabeça.
Sou amigo e compadre ; isto me basta ;
Faço o que devo. Vamos .idl.inte.
Aprigio.
Tanto que a frota veio, uma alma nova
Senti pular no peito ; a fantasia
Entrou a erguer palácios e castellos :
Vi dragos, serpes vi : quando sonhava,
Vologeso e Catío me appareciâo
Com punhaes e cadúas : acordava
■)>y
Aturdido Jc caixas e trom! etas :
Estes e oiitroí projjctos me inspirarão
A iiléa de um tlieatro : cu sempre tive
Bom dedo para a cousa ; fiz marmotas
Varias famas vesti, e Cniz-Jiabos
Para os cirios do Cabo e d'Atalaia.
Arthur.
O diuhvjiro está prompto ; agjra falta
Q.uem nos arme a charola.
Aprigio.
Caro amigo,
A teu aibitrio entrego, e deixo tudo.
Arthur.
A mini, Aprigio? Fora; nSo sou desse
Q.UC emprestando dinheiro com usura,
Dão mil regras depois de economia
Ao pobre padecente, que corrido,
Como cão com funil atado ao rabo,
Vai ladrando e fug:ndo á surriada.
'Y
Aprigio,
Sempre graça tiveste : apaUvraJos
Alguns siijiitos tenho iutelligentes,
Architecto, poeta, bons actores,
Um musico chapado ; e para damas
As minhas duas filhas, Branca e AUonsa ;
Ambas filhas de peixe, ambas formosas.
4-
Arthur.
Pois isso é ouro sobre azul ; que o povo
Ou dorme, ou ri, se vè uma tapuia
ArrancanJo suspiros emprestados,
Torcer os vesgos olhos, e mostrar-nos,
Abrindo a negra boca, que é cerrada.
Eu empresto o dinheiro ; mas declaro,
Que isto se entende emquauto as dimas forem
Engraçadas, formosas, e bem feitas ;
Q.ne para vir gasta-lo com serpentes
Kão o ganhei, passando tantos dias
Por duros morros, por incultas fragas,
Talvez comendo carne de macacos.
•^^m.
f-
•iir
Aprigio.
Basta, compadre, basta ; as minhas filhas
Muito bem sabes como são galantes ;
AlJonsa lia de fazer primeira dama ;
Branca, a segunda : tu verás pendentes
De seus travessos olhos todo o povo :
Tantos os corações, tantas as Troias,
Km amoroso incêndio chammejando.
Tu mesmo, meu compadre, sem remédio,
Apezar dessas cãs, embaraçado
H.is de scntir-te na vukanea rede.
Arthur.
Eu não sou tilo sizudo, nem tão velho,
Q.ue viva por demais; emfim, sou homem;
Nem tive nunca coração de pedra ;
K pouco bastará para movcr-me;
Muito mais as paixões, que docemente
Os ânimos revolvem.
V
Aprigio.
Ora vou-me
Chamar a nossa gente, para vermos
■^^
!3
r.taíéê— >^-
■ô\
Em que alturas estamos : entretanto
Te chamo as raparigas. Branca ! Branca !
J ç. Aldonsa! Venliâo cá. Adeos, compadre. (Vai-se)
SCENA III.
ALDONSA, BRANCA e ARTHUR.
Arthur.
Como formosa vens, Aldonsa bella !
«[ Em teus olhos fuzila a luz dos astros :
^ Ao menos deste mundo cá de dentro,
És tu o claro sol, tu és a aurora.
Oh ! quanto filha minha ; (sim, que filha
Bem te posso chamar) oh ! quanto sinto
Q.ue os annos me roubassem todo o lustre
Da fresca mocidade ! Q.ue os invernos,
Nesta gelada estriga convertessem
A brilhante madeixa; que algum dia.
Dourados caracóe; por estes hombros
Ao zephiro entregava ! Oh I se eu pudesse
Banbar-me no JordJo, e remoçando
-i~ Dar-te um gentil mancebo por marido !
303
Aldonsa. t^-
T
Sempre biincamlo vem o meu padrinho. M
*!
Branca. Sj^-
T
Senhor Artliur Bigodes, como passa ? jV
>5>
Arthur.
Mui bem, senliora Branca. Ouves, Aldonsa ?
Hu não brinco, antes fallo bera deveras.
Branca.
Pois a mana, senhor, essa não zomba :
Noite e dia conversa em seu padrinho;
Nío fall.i n'outra cousa, quantas vezes
Se á porta batem, vai correndo á porta ;
E porque dá com outro, do semblante
A cõr lhe amarellecc, e recuando
Sobrcsalt.id.i, diz que não é ellc. I
i
Arthur. j
Quão feliz, minha Branc.i, e quão ditoso.
Se isso verdade fôr.i, me julgara ! ^:j1,-_
luda porém Aldonsa m'o nâo dice
í
+
304
Para tão fácil ser, que me arreganhe.
Que dizes, bella Aldcnsa : aquillo é certo ?
' Aldonsa.
A mana não te eng,ina, nem te mente :
.1 Mas se te adoro, deverei dizè-lo ?
Arthur.
Deveras, deveras, que essa innocente
Suave inclinação em nada ofTende
A modéstia, o decoro : inda que custi
A' moça mais amante o confessa-lo.
Posto que honesto fim lh'o approve e doure.
Aldonsa.
Pois vive descansado que te quero.
Branca.
Eu dou-lhe os parabéns, senhor Bigadcs.
Arthur.
Eu rs acceito, Branca. Minha Aldonsa,
Q,ue nunca me enganei com os teus olhos,
Agora o chego a v^r ; iielles ao longe,
Muito ha que descobri um hrarnlo gesto.
Que n'alma me bulia ; mis atado
Ao pezado trambolho de meus aiinos,
Lutando afílicto com setenta invernos,
Por mais que ardiâo férvidos desejos,
Capazes de animar a fria pedra,
Tiritando com medo, enregelava :
Porque um homem qu'é serio e qu'é prudente.
Antes se humilha a parecer covarde,
Que levar na bochecha uma apupada
Destas rascoas de hoje, presumidas,
Qiie buscâo Tamerlões, imperadores,
Franchinotes, casquilhos e poetas.
Para ao depois berrarem com ciúmes.
Sem achar cabeções com que os subjuguem.
Tu és, Aldonsa, a excepção da regra.
Amável, linda, cândida, innocente ;
Qual rosa pudibunda em manhã fresca.
Que da rústica mão do jardineiro
Djixa talhar o pé, deix.i colher-se.
»
Y, Aldonsa.
I Tào estranWos, tâo grandes elogios
V Não chego a merecer ; antes conhe;o,
A- Que a maior parte da fortuna é minha.
]■ Uma pobre donzalla, sem mais dote,
Que seu singelo amor, em nossos dias
Mui pouco, ou nada vale : sem riqueza
Quem soffre a formosura ? Sãos costumes,
Honrado sangue, angélico semblante,
Não namorão os noivos deste tempo.
Branca.
Miior favor te faz o teu padrinho.
Aldonsa.
Assim, mana, o confesso, asim lh'o digo.
SCENA IV.
APRIGIO, JOFRi:, INIGO, e os mesmos.
4-
Aprigio.
^Aqui trago, compadre, estes senhores.
Ambos um non plus ullra do theairo ;
'f
¥
T
São músicos, actores, dansariíios,
Grandes poetas ; tudo ao mesmo tempo :
Sâo dous tomos de r.ir.i miscelânea. M
Em ambos quiz mostrar a natureza, ^^ L,.
Q.ue sabia fazer uma obra prima. * *
O Senhor Jofre, qunnJo as árias cant.» i^
As almas arripia ; calda os vento-;. ^
Pois o mancebo cá, o meu In'go !
Este vivo bemol, este magano.
Nos lances amorosos é um pasmo !
Arthur. í.
Ambos, bem me paretem: gentis nirços!
'*
Jofre. !
Sou antigo cri.ulo desta casa, ]
E mestre da senhora D. Aldonsa ;
Por tão honrado titulo me julgo
Merecedor de grandes elogios.
Arthur.
Logo o mestre sahio o mais esbelto ? ',
;o8
^X'
-^
Inigo.
Eu nSo posso allegar antiguidades ;
Mas vou também na folha. Venturoso,
Se de applauso e favor me vejo digno,
Apezar de n.ío ter merecimento.
Arthur.
Ambos discretos sío.
Aprigio.
Mais que discretos !
Sío os melhores Ciceros da Corte,
Capazes de pregar ! Aqui o amigo,
Um drama já compoz. Logo o veremos.
Inigo.
Dize-me, Branca, que AfFonsinho é este?
Branca.
Ê padrinho da mana.
Arthur.
O Senhor Jofre,
Quanto tempo ha q.i'ensina nesta casa?
309 m 1
Aprigio.
Jofre.
Ha já três aiinos, pouco mais ou menos.
Arthur.
Com que três annos ha, que nest» casa j
Tem entrada o senhor !
w
Ai ! meu compadre, .
Tu cuidas qu' inda tâo alarves somos,
Como no tempo em que d'aqui te foste ?
Já li vão os biocos Portuguezes,
Mourisca usança, bárbaro ciúme,
Q.ue uma pobre mulher aferrolhava,
Q.uaes se guardão frenéticos orates :
Ha gente mais feliz 1 Outros costumes
Adoptou a naçSo, abrio os olhos.
Arthur.
Eu cuido que os tapou.
Branca.
Que rabujento !
-^^•
-*-
'^^i^
Jofre.
Adeos, senhor Aprigio.
1 Aldonsa.
Y Jofre
Espera, Jofre.
Que espere! Para que?
Aprigio.
I Para tratarmos
1 Deste novo theatro.
Jofre,
Que theatro ?
Com este pregador, mandas chamar-me
Para ouvir a missão de um Carioca ?
Arthur.
Olhem lá se se dóe da matadura.
Inigo.
Nio desesperes, Jofre ; tem prudência.
1 1 Í!
l
SCENA V.
GIL c os mesm s.
Gil.
Senhor Aprigio Hafcs, aqui venho
Cumprir as suos ordens.
Aprigio.
Ciro amigo,
Homero Portuguez, Pindaro nosso,
|.i cá te suspirava. Vem comtigo
As Musas, vem as Graças.
t
k
V
Gil.
Basta, b..s:a ;
\.io estamos nós autros os poetas
A tartos elogios costumados :
Os mesmos que nos pedem um soneto
Para render a d.ima desdenhosa.
-^
^^m-
mw^^
Ou os aniios louvar de uma abbaJessa,
Depois de ter campado por discreto
A' custa de um poeta, sera vergonha,
T
j», Jurão que sâo uns doudos os poetas.
i
it SCENA VI,
BRAZ, ãConsíeur ARNALDO e os ditos.
Braz.
Amigo Aprigio Fafes, aqui trago
Monsieur Arnaldo, pratico architecto :
O Pozzi, Paradossi e Bibiena
Traz alli no emicraneo, a perspectiva
Na pineal lhe vellica com tal força,
Q.ue era cada pulsação da traca-arteria,
Um theatro magnifico levanta.
Aprigio.
Viva, viva, senhor Arnaldo. Agora
Q.ue estamos todos juntos, comecemos
A nossa conferencia : venha a banca.
Vossès nâo ouvem ? TragJo m»is cadeiras
5 ..- ^. -,í,^,T/;r|-
f
I!
ií
Arthur. Ij
"4
Q.uero que a par de mim se assente AUonsa.
Branca (para Inígo') ,
Queres qu'eu fique cú da outra banda? T
Jofre. i
Parabém, parabém, senhora Aldonsa. f
Aldonsa. ]
Se tu souberas, Jofre
Jofre. t
Bem entendo. 1
T • '*
Inigo. I
Que te parece. Branca, o Tupinamba ?
Branca. |
Velho e relho.
1
Aprigio.
Sentemo-nos, senhores •
Que grave tribunal! Que magestoso 1 r
40
•á:*
"ã-
gm^^
3«4
Mal sabe o mundo agora, que pendente
Deste conclave está o seu destino.
Oh ! quanto, amada pátria, quanto devss
T
h A t-u bom cidadão Aprigio Fafes,
j Suando e tressuando por salvar-te
Do pélago profundo da ignorância,
Onde pobre jazias, atolada
Entre péssimos dramas corriqueiros!
Deste cano real lioje te saco,
Qual saca o gandaeiro um prego torto
D'entre os cliicbelos velhos da enxurradi.
Gil.
Senhor Aprigio Fafes, isto é tarde,
E eu tenho que fazer. Vamos ao ponto.
Aprigio.
Sim, senhor, sim, senhor: o caso é este
E bem o sabeis vós, ha quanto tempo
Que eu desejo fundar um bom theatro ;
Agora que a fortuna me dep.ira
Feliz occasiáo de executa-lo
Com o favor, alli, de meu compadre.
ti
i
É preciso ajuntar a sarabanda,
Repartir os papeis, escollier obra,
As vistas iJear e celebrarmos
Com solemne escritura este contrato.
Senhor Aprigio Pafes, o theatro
Depende, mais que tudo, do poeta.
Q.ue fazem bastidores e instrumentos.
Sem dramas regulares ? Uma boa
E perfeita tragedia, inda despida
Da magnifica pompa do apparato,
Tem mais graça e mais força i]'um máo drama
No tlicatro de Reggio ou de Veneza,
Com soberbas tramóias recitado.
Jofre.
Amigo Gil Leineli ninguém te nega
O constante poder da poesia :
Mas quem ha de soffrer Catio ou Dido
Do grande Metastasio, repetido
Entre velhas cortinas, sem orchestra ?
f
t
Gil. f^
i
?
Ni
t
^-
Aprigio.
Kada, nada, senhores ; desse modo
Aqui nos amanhece : todos juntos
Nâo podemos fallar : irá votando,
Por turno cada qual, quando lhe toque.
Continua, meu Gil ; dize o que entendas.
Gil.
Errado vai, quem julga que o theatro
Só para divertir o povo rude,
Dos antigos poetas foi achado.
Coaj mais alto desígnio, Athenas, Roma,
E outras cidades mil, o receberão.
Pôde nelle ensinar-se i mocidade
Guardar as santas leis, a fé devida
A cara pátria, ao principe, aos amigos.
Pôde nelle mostrar-se quanto é feio
O pallido semblante da cobiça.
Da avareza infeliz, da triste inveja ;
Mas para recolher tJo grande fruto,
É necessário, Aprigio, que o poeti
Em sizuda dicçSo, em phrase nobre,
Com sonoroso verso torneado,
(5% ;
irri
Exponha ao povo fábulas sublimes,
Tragedias ou comedias regulares.
D'aqui venho a tirar, que no theatro
Não devemos soffrer drama imperfeito,
Cuja graça consiste na doçura
D'afeminada musica moderna,
Na remendada phrase de mil vozes
Barbaras, ou guindadas, ou rasteiras.
Longe, longe de nós esta mania :
Restauremos o portuguez theatro.
Desagravando a casta lingua nossa,
Dos aleives, que sem razão lhe assacâo.
Aprigio.
Viva o Doutor Leinel, Doutor das gentes !
Q.Mem me dera qu'o bom Goldoni ouvisse
Como ronca um poeta de Lisboa!
Agora f.illa, Br.iz Licenciado.
i
Braz.
Eu que posso dizer í Q.ue me parece
Muito mal tudo quanto aqui se dice.
Que proveito tiramos em metter-nos
^-
j'»
k
V
No principio em camiza de onze varas ?
Tragedia é cousa que ninguém atura :
Quem ao theatro vem, vera divertir-se,
Quer rir e não chorar ; lá vai o tempo
De lagrimas comprar ás carpideiras.
Não faltão boas operas, comedias.
Em francez, italiano, em outras linguas,
Que pôde traduzir qualquer pessoa,
Com enredo mais cómico ; que o povo,
Sò se agrada de lances sobre lances.
Quem isto não fizer jamais espere
Que o povo diga bravo, e dê palmadas.
Ê o voto que doa.
Aprigio.
Optimamente.
Arnaldo, agora vota.
4-
Arnaldo.
Meus senhores.
Venho ajustar o preço do theatro.
Com dramas não me metto : os bastidores
E só o que me toca. Porem digo.
;i9
Aldonsa.
Kegro gosto ! Quem póJe divertir se
Co' a pavorosa scena de iim fligello?
4
Que regular tragedia nas Italias
Muito ha que S2 não usa : que a mudança
De vistas sobre vistas, as tramóia-.
Mares, incêndios, Jragos e batalhas,
São cousas de que o povo se namora.
Já eu fiz era theatro trovoadas,
Com raios e relâmpagos tão próprios;
Qne as dimas desmaiavão : era um gosto
Ver a gente fiigir dos camarotes ♦,
Espantada, br.idar misericórdia. |
t
k
Y
Branca.
Bom architecto ! Magico parece.
Aprigio.
C.»lai-vos, filhas. Vote agora Inigo.
Inigo. I
I
Muito dizer podia, pois que tenho -J)'—
Experiência bastante de theatros ;
-^-TT-
I
4'
Actor de profissão, isto me basta :
E também, senhor Gil, o louro Apollo,
■è" De comigo tratar nào se envergonha.
4- Mas por nâo demorar a conferencia,
V
'. Em branco assignarei. Estou por tuJo.
V
Arthnr.
O cão é Mouro.
Apriglo.
Inigo, desabafa ;
Dize quanto souberes : falia, falia.
És a columna do theatro novo .
Inigo.
Pois se devo faltar, digo, senhores,
Que o theatro sem dansa pouco vale ;
Muito menos sem musica. Podia
Quem a gloria qnizesse de primeiro,
Pôr no theatro as operas cantadas
Na lingua portugueza. Eu aqui trago
Uma por mim composta neste gosto.
É a perda de Tróia : vc-se Enéas
4-
csTà) J"
321
Aprigio.
Tem vários duos, árias, cavatinas.
Eu cuido que desbanco a Metastazio.
Branca.
Agora sigo-me eu.
Aprigio.
Espera, Branca.
Perdoa, amigo Jofre, que a memoria
Principia a faltar-mc : preterido
f5
Sallir c'o pai ás costas : vai Ascanio J\\^
Com os caros penates abraçado : *
Arde a cidade: cahem as altas torres: ,
Embarca a gente phrygia : muitos annos £j,v?j
Por inbospito mar andâo vagando, t
Até que surgem no distante Lacio, Vr
Onde Encas a Turno tira a vida, A
£ casa com Lavinia.
Y
Bravo ! Bravo ! 1
Inigo. j
-x-
322
•1 Por engano fi;aste, e bem podias
I Pe.lir a tua vez. Perdoa e falia.
i Jofre.
(y. Em tal não reparei : eu sou sincero,
Y
Digo o que entendo, e cnido qu'o theatro
Sem musica e sem dansa, nada vale.
Ha cousa mais formosa que a ligeira,
I Calada pantomima, cujos gestos,
* Sem auxilio das vozes, representâo
Recônditas paixões, mudos suspiros,
<iue entende o coraçílo, ouvem os olhos ?
Que melhor espectáculo, que os leves
Grandes saltos mortaes ? Que ver nos ares
Bater c"os calcanhares oi;o vezes,
Torcer o corpo e revirar os braços í
Mas nunca votarei em que façamos
Opera em portuguez toda cantada :
Para tanto não è a lingua nossa :
Algumas árias, duos, recitados
Se podem tolerar; o mais em prosa:
P.ira o theatro nòs nâo temes versos.
-^-
32}
Aprigio.
Falias como um Catão. Que dizes, I
Branca.
Hu sou de parecer, que só se f.ii;ão
As portuguezas operas impressas:
Encantos cie Mcdca, Precipícios
'De Phaelottlc, Alecrim e Mangcrona.
Km outras nunca achei g-lauíaria.
Aprigio.
Esse voto era digno de r;iais annos.
A ti, amigo Artliur, que te parece ?
Arthur.
Que podem parecer me taes loucuias?
l.stou touto de ouvir estes senlmres !
Parece-me que estou entre Paulistas
Que arrotando coiigonia, me aturdia»
('o'a fabulosa illustre descendência
De seus ciai os avós, que de cá forAo
Em jaleco e ceroulas. Mas pergunto :
.'\3 comedias de Calderon, Mureto,
-A-
324
t
Y
Candâmo e Salazir, isso não presta?
Tem bichos, meus senhores ? Tanta gente,
Imperadores, reis, infantes, duques,
Os condes e os marquezes, qa'as ouvião
Com gosto e com prazer, erâo uns asnos ?
Só estes meus senhores tem juizo ?
Que Colombos e Gamas denodados,
Para achar novos climas, novos mares !
Pois digo-vos que sò se a minha Aldonsa
Fôr de contrario voto, o meu dinheiro
Servirá para as barbaras idéas,
De que prenhes trazeis essas cabeças.
Aprigio.
Aldonsa, minha AlJoiísa, que uos dizes ?
Aldonsa.
Eu digo, que me louvo no t;u voto.
Gil.
Falia, formosa Aldonsa, tu bem sabes
Quie; sâo as leis e r.'gris do theatro.
52S
ti
%
Aldonsa.
Não acceito a lisonja, porc;n digo,
Q.u'emfi.n approvo quanto tu votajte.
Aprigio.
Hu que tenho dois votos, digo o mesmo.
Arthur .
Acabou-se a questão, vivamos toJos.
Aprigio.
Agora, amigo Gil, que obra faremos ?
Gil.
hu tenho vários dramas traduzidos,
De Sophocles, d'EiiripiJes, Terêncio.
Aprigio.
Nida de grego, nada; fora, fora:
Sempre te ouvi dizer, quj elles não tinha:
Os lances amorosos de que gosta
O povo portuguez.
4'
-^•-\#'
-*-
326
Gil.
* Tragedia do Ferreira ?
Queres a Castro,
Aprigio.
Deos me livre !
Amigo Gil Leinel, eu desejava
Um drama teu. Conheço nesses olhos
A suave t ernura de teus verses.
í Gil.
Pois, amigo, encetemos o theatro
Com a minha Iphygenia.
Aprigio.
Bello nome I
Isso è que eu chamo titulo arrogante ;
E qne em vermelh:s letras, nas esquinas
Ha de pescar curiosos a cardumes,
Repartâo-se os papeis; vamos « isso.
Gil.
Iphygenia será Aldonsa bella.
^"'IjÍs)
Aldonsa.
t extenso o papel?
Gil.
Não, é pequeno.
T
o tenhor Jofre s^ j i Achilles: seja.... -1^
Arthur. A
V
1-spere; tenha mão, senhor poeta ;
Veja como reparte essas garrochas,
O primeiro galan a mim me toca.
Gil.
Não pôde ser gaUn, ha de ser barbas.
Arthur.
Ku barbas! Eu que empresto o meu dinheiro !
Gil.
1'^ que tem o dinh-jiro co' a figura ?
Um velho nunca pôde ser mancebo ?
Arthur.
Senhor poeta Gil, f.iça-me graçi,
V. ponha-se na rua. (^Lev.jntuo-se iodos)
Aprigio.
Artbur... amigo...
Onde está a prndencia desses anncs?
í? Arthnr.
k
-^
Quaes annos ! ^inles que lodo es mi dama :
Aldonsa, não a largo. Tenho dito.
Jofre.
Qne tal, senhora Aldonsa?
Aldonsa.
Escuta, Jofre.
Branca.
Senhor Arthur Bigodes, não se engrile ;
Será o que quizer. Quer ser Achilles í
Braz.
Arnaldo amigo, vamo-nos safando,
Que isto não pár.i aqui.
Arnaldo.
É gente douda. {Fâo-se os Jous)
}29
ti'
TODOS, menos os ilous.
Aprigio.
O' paz, serena pa,: ! Que nos Jeixasle,
E abrindo as brancas azas te sumiste !
Inspira-rae palavras, com que possa
O velho socegar incarniçado.
Amigo Arlhur Bigodes, que me perdes !
Arthur.
Q.ucria o Doutor Gil, esse barbicas,
Poeta bordalengo, dcfraudar-me
D'ametade de mim ! Fora c'o tallio !
Inigo.
Jofre amigo, despcJe-te cie Aldonsa.
42
SCENA VII. ^
~t^
ei
Gil.
Amigo Aprigio Fafes, eu attendo
•f Ao respeito devido a tua casa ;
r(K Por isso nâo respondo a taes injurias.
A Arthur.
T
I Adeos, senhor poeta; faça versos
A's moças do seu bairro; não se meta
L A Padre Cura de outra freguezia.
i" Gil.
Penhor Arthur Bigodes, fallaremos, (Faí-í«).
SCENA VIII.
Os mesmos, menos GIL.
Jofre,
Adeos, ingrata Aldonsa.
Aldonsa.
Ouve-me, Jofre.
Jofre.
Nào venho do Brazil. Eu cá sou pobre.
Branca.
A mana não tem culpa ; crê-me Jofre.
Arthur.
Senhor mestre de solfa, vá-se embora,
Que esta menina toma agora estado,
E vai senhora ser da sua casa.
Inigo.
Branca, o mineiro cuida que esta casa
E senzala ou possilga de crioulos.
Branca.
Assim convém, assim melhor se encrava.
Aprigio.
Amigo Arthnr, as noivas ii.ío costumío
Os mestre, despedir: levão comsigo
Cravo, livros de solfa. O mestre attento
Vai logo no outro dia visita-la.
'IZ^
*
i-f
5J2
►jl»
Arthnr,
Se fôr a minha casa, híi d; parti-lo.
Jofre.
Sim, barbas lhe deo Maio. Adeos, Aprigio.
(Fai-se.)
SCENA X.
Os mesmos, menos JOFRE.
Aldonsa.
Infausta sede de ouro, a quanto obrigas
A cara liberdade! O puro aíFecto
A duro captiveiro hoje condemnas!
Arthnr.
Amigo Aprigio Fafes, de theatro
Bem te podes deixar: nssis nos bastio
Os theatros, que temos em Lisboa.
Kem tudo ha de ser operas ou comedia.
353
\ín caso com AlJonsa, e doto Branca ;
O noivo, lá o busca; pois conheces
Os bonifrates de chapéo pequeno.
De rabicho e casacas estiradas,
De que gostão as moças deste tempo.
Aprigio.
Alli Inigo está, que para genro
Deseja de compra-lo a mesma Thetis.
Inigo.
Q.ue ventura maior! Branca, que dizes:
i
i
t
1
Branca,
liem sabes o que posso responder-te,
Sc de antigos extremos n.To te esqueces.
Aprigio.
Inda o fado nío quer, inda não chega
A época feliz e suspirada,
De lançar do theatro alheias Musas,
De restaurar a sceua portugueza.
■^
^^^
K
gí^z^ ^-^-
334
l
t
ir
Vós manes de Ferreira e de Miranda,
E tn, ò Gil Vicente, a quem as graças
Embalarão o berço, e te gravarão
Na honrada campa o nome de Terêncio;
Esperai, esperai, quMnda vingados
E soltos, vos vereis do esquecimento,
Illustres Portuguezes, no theatro
iSío negueis lugar ás vossas Masas :
Elias, não as alheias, publicarão
De vossos bons avós os grandes feitos,
Q.ue eternos soarão em seus escritcs :
E podeis esperar paga tão nobre,
Se detestando parecer ingrato.
Lhe defenderdes o paterno ninho,
E quizerdes com honra agazalha-las.
■*-
(?) G, "S).
^^^_,,r4^vfgl^cíí?j!}^.,^
ly
ASSEMBLÉA OU PARTIDA
DRAMA.
^--.-
í ''
iH 111
Actores.
Braz Carril.
D. Urraca Azevia, sua mulher.
Jofre 1
D. Dulce > filhos dos ditos.
D. Branca )
Jacob Bilhostre.
Gaspar Picote.
Gil Fustote, compadre de Braz Carril.
Doutor Muconio, medico.
D. Mafalda, sua filha.
Florestão, escudeiro de Bra^ Carril.
Lourença, criada do mesmo.
L'm alcaide.
Um escrivão.
Dous gallegos.
Prostaiicas.
Jogadores e convidados.
D.imas convidadas,
duadrilheiros.
.^ ícena representa a casa de Braz Carril.
l£.- — .i
Xe
^t^
m
'â
,?• / - --
"^^í
\tí'
SCENA I.
BRAZ CARRIL e GIL FUSTOTE.
Braz.
Entendes, Gil Fustote, o que te digo ?
Gil.
Entendo, entendo : dizes que p.irlida
Hoje em casa terás, ou assemblca.
Amigo Braz Carril, estas galhofas,
l-intares e merendas, sAo o fruto
Da reloucada teima de fidalga
Com qne tua mulher sagaz te enloixa,
C)u te embrulha na rede era que perucas.
Compaixiío grande, compaixão me deves.
Partidas ! Assemblca ! Que mania 1
^^
él
3A Pr3^^
J40
,fò-
*
Braz.
E charaars tu mania, Gil Fustote,
O viver, como vive a gente seria
Hoje em Lisboa ? Grandes e pequenos
Todos querem gozar das s3s delicias,
Do suave prazer da companhia.
Gil.
Sem esses bons prazeres e delicias,
Nossos avós e nossos pais viverão
Fartos, alegres, ricos, e contentes.
Braz.
Ora já que trazião retorcidos
Os grizalhos bigodis ; estirada
A esquálida guedelha ; no pescoço
Crespas golilhas ; gorra na cabeça ;
As calças retalhadas e pantufos;
Káo tragas tu casaca e cabelleira,
Nem ates com fivelis os sapatos.
MudJo - se os tempos, mndao • se os costumes
Nio vês no frio inverno ao tronco annoso
Cahir-ll.e as murchas câs, e quando torna
A fresca primavera, verdejarem
Cobertos de mil folhas novos ramos ?
Assim as modas são, assim os usos :
K devemo-nos todos sujeitar-nos
A tJo perpetuas leis da natureza.
Gil.
Amigo, amigo, est.ii perdido... doudo...
Braz.
Com os olhos abertos.
Gil.
Não t'o invejo.
Nem quero governar a casa alheia :
Fica - te em paz com tuas assembléas,
Podes sem mim fazer a synagoga.
Braz.
Caro Fustote, espera que n.io posso...
Gil.
l^u n.lo cauto, nem sou arreborrinho ;
Pouco gosto de ch.i, menos de jogo ;
Falta cá não farei. Adeos, amisro.
1í
t
*
Braz.
Espera, espera, podes divertir-te.
Ouvindo duas árias, temos doce,
E doce delicado, se quizeres.
Gil.
Não caio nesse anzo!.
Braz.
Espera, escuta.
Meu Gil Fustote,
Gil.
Dize, que mais queres ?
Braz.
Eu queria pedir-te algum dinheiro.
Porque estou sem real : olha em que dia !
Gil.
Pois a perpetua lei da natureza,
Qiie murcha as folhas, e que traz partidas,
Não dá também dinheiro para o gasto ?
34 5
-V]
Braz.
Amigo Gil Fustote, cu pouco peço ;
Dá-me, sequer seis mil e quatrocentos :
Acode-me; e conforme o nosso ajuste
Sete e duzentos lançarás na conta.
Gil.
Seis mil e quatrocentos! Q.uem m'o5 dera!
Nio me pagão tio bem os teus foreiros ;
K a divida vai j.l de fóz em fora.
Braz.
Oito mil reis porás.
Gil.
Isso é perder-te.
Braz.
Q.ual perder-me !
Gil.
Amigo, eu não podia ;
Mas vejo o grande aperto... Toma... escuta
—ti; -^-
5-)4
"fe— í
Eu chamo a Deos dos ecos por testemunha
Sem juro te levar, sem interesse
De tão forçosa vexação remir-te ;
E ^ue o pouco que mandas qu' accrescente
A nossa conta, é dado e nâo por força.
Sim de livre vontade. Adeos, amigo,
Que vou vestir-me e logo torno. {Fai-sc.)
SCENA II.
BRAZ (ílí«iíi//í).
Braz.
Tenho
Para sequilhos, chá, café e cartas,
Falta só para luzes. Que remédio !
Recorro ao coscorrinho da senhora
Que è fonte limpa. D. Urraca.. Urraca (c<i«/a«io).
•j •s
[ t
c/ SC ENA III. «^■
Y BRAZ e URRACA. 'é>
* Urraca.
Assim se ch.ima, Braz, uma fidalga ?
Braz.
Perdoa, filha, que hoje nâo me lembro
Nem de Excellencias, nem de Senhorias.
Mandando á via estou a náo ronceira
Com vento escasso e com estofas aguas.
Urraca.
O rato sempre foge para a palha ;
E preto velho n.io aprende lingua.
Braz.
Que vens a dizer nisso ? Q.ue me esqutço
De etiquetas, mesuras, ceremonias,
E mais ritos e leis da fidalguia.
Com que queres Urraca ser tratada ?
.(^ J3 "^J
\/ I»" — ■ ~- ^^i- • — i c ^ — / «- <?» ^ r-' vi; ív vT"^
I
t
Ou entendes, que meus [Togenitores ^
Descendem de outro Adão, e que nâo forSo i
Por seus honrados feitos estimados, j.
Bons vassallos fieis e servidores ? é
^ Urraca.
Tem bem que ver Carris com Azevias,
Por linha masculina descendentes
De principes, de reis, imperadores,
E que até nos colchetes dos costados
Tera mitras, e roquetes !
Braz.
Basta ! basta ! (fa-
^endo-lhe muitas corte-las)
Senhora, Excellentissima senhora,
D. Urraca Azevia !... Mas, menina.
Vamos ao caso : falta para a noite
Dous arráteis de velas... Eu nâo posso...
Urraca.
Queres, já sei, pregar-me esse callote.
Braz.
Nio é callote ; que pagar prometto
■w
Urraca.
Quando tiverem dentes as gallinhas ; V
Mas para que conheças que não falto J>^
Quando é preciso, mandarei busca-los. '
Braz.
Onde mezas não ha, nâo ha c.ideiras,
Colheres, castiçaes, pratos, bandejas :
Querer dar assembléas e partidas,
H nadar sem bexigas.
Urraca.
.Mas com lábia
Tudo se vence, tudo se consegue ;
Porque a gente ordinária agazalliadi
Com uma tal lhaneza, facilmente
Dei.xa cardar a lã. Anda o dinheiro
Pelas mãos de villòes contra vontade ;
li como galgo em trela cobiçoso
De entrar nas algibeiras de fidalgos,
Para brilhar com pompa e luzimento,
Km ricas mezas, em custosas galas.
i) y
348
,kP
Braz
Ah ! Vossa Senhoria ou Excelleiícia,
E perdida entre nós : que s2 doutrina,
Q.ue politicas máximas de Estado,
Cahindo não lhe estáo por entre os dedos 'i
Que florente nSo fora o vasto Império
Dos fulas Amazonas, se o regera
Tão gentil coração, alma tão nobre \
Urraca.
Só me julga capaz de mandar gente
Tão çúfara e boçal ? Negros, Tapuias ?
Agradeço-te, Braz, o bom conceito
Q.ue tu fazes de mira : bem me conheces.
Se fosse outra qualquer, dessas que campão
Por letradas, que gostão de ouvir versos,
Q.ue os repetem, que os faz.-m, se lh'os fazen..
Dessas...
A A -:
ít^i 549
h SCENA IV.
V Um Gallego com uma teiga o os mesmos.
Gallego.
Aqui, senhor, manJa meu amo
Senhor Jacob Bilhostre, o que se pede.
Vera oito castiçaes : diz que tesoura
li traste que nâo t.-m, menos de prata ;
Q.ue virá a seus p<js, como lhe ordena,
Q.ue sempre estimará poder servi-lo.
Braz.
Vai-te, dize ao senhor [acob Bilhostre,
Que tudo recebi, que fica entregue.
iVai-se o Galho o)
SCENA V.
BRAZ e URRACA.
Braz.
Vejamos q e taes sâo. Olá ! Soberbos !
Q.ue scci.1, minha Urraca ! Estás contente ?
■í 3 50 ^|->
i^
I Urraca. ''
y Nunca vi castiçaes ? Tu imaginas -^
^ Que em berço de cortiça me embalarão ? *^
' Que nasci n'um curral ? *
'f ^
Braz.
Não digo tanto ;
Mas olha, são magníficos e novos.
Urraca.
Na verdade são bons, mal empregados
Hm casa, onde bastava uma candeia ;
E talvez, que nem essa ella teria.
Quando cebo vendia ao Remulares
Na fétida baiúca... Mas o tempo...
SCENA VI.
Outro Gallego com teiga e os mesmos.
Gallego.
Aqui manda o senhor Gaspar Picote
Assncareiro, buUe e cafeteira
Com três dúzias de chicaras e pires.
'IV ■•"•' '■•'•■
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55'
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Q.ae sente nío ter mais ; e fica promptc
Para a vossas mercòs servir em tudo. 1
1
Urraca (irada e furiosa). k
Mercê, a mim mercO ? mercê, maroto ;
Atrevido, insolente, vai-te embora,
Tu não sabes fallar ? Dize a teu amo
Que te raanie ensinar : logo pareces
Criado do villão...
Braz.
Urraca, Urraca...
Urraca.
Tolo, tolo! E pretendes que tolere
Semelliante dizer? Foras tu outro
E souberas melhor desaggravar-me.
Mas tenho quem nas veias lhe circule
O síngue generoso de Azevias,
Q.'.ie vingar saberá tamanha oíTensa. (Vai-sc).
s/fr'
Gallego.
A senhora está douda ? Coitadinha }
Braz.
Vai-te, rapaz, adeos ; vai-te depressa,
NJo te venha pregar alguma surra.
Gallego.
A mim ! senhor, porque ?
Braz.
•A. SCENA VII. '^■
A GALLEGO e BRAZ CARRIL. A
Safa-te, foge.
(^ Vai- se o Gallego").
^;-V-
5S3 ^
l SCENA VIII. I
i T
■^ JOFRR, URRACA, FLORESTÃO (.om «m^i /íjok^j) V-
LOURENÇA e BRAZ.
Jofre.
Maroto... patifão... viUão... gallego...
Atrevido... insolente... {Correndo lodo o thcUrr").
Braz.
Olá, que c isto ?
Jofre, não ouves? Onde vais?... Esper.'.
{Correndo atras de Ji"frc).
Jofre.
Este vi'lão ruim, ladrão, patile...
Urraca.
Mata ! tíUio, m:ita ! A ferro e fogo
Assolarão teus inclytos maiores
Tetuão, Azaniôr, Tangere, Arzilia,
45
^:-^T
c.---t'
Florestão.
Mate, fidalgo, mate esse giHego !
Seja David do sórdido Golias.
Braz (íi Jofré),
Tem mão, tem mão.
Jofre.
Senhor, deixe-me.
Urraca.
Mata ! meu filho, mata !
Florestão.
Morra, mate.
Braz {ctifitJado).
A quem, a quem ?
Jofre.
VilUo ..
Urraca.
I-ilho...
Mata !
■•t
355
-"">-^'^
Florestão.
Fidalgo...
Lourença,
Mnte !...
Braz (jiegíi-lhe no hraçd).
Tem mao, ol.i ! Jofre, que f.\r.cs ?
Lourença {dando ivi Jofre)
Com a pá de varrer nesta batalha
A forneira serei de Aljubarrota.
Braz (dd-!he)
Kão ouves, maroi.ío ? Anda patife !
Urraca.
Vill.lo...
Florestão.
Fidalgo...
Urraca.
Assim se trata um filho
Descendente de heroes?
"ii'
FlorestãO (susUnão a Brai).
Fidalgo...
Lourença.
Dalgo.
Florestão.
Vossa Excellencia, Vossa Senhoria...
SCENA IX.
JACOB e os ditos.
Jacob.
A partida por entremez começa ?
Senhora D. Urraca... Amigo, amigo.
Braz.
Senhor Moiisieur Bilhostre, este magano...
Urraca.
Senhor Bilhostre, um filho meu... Fidalgo,
Descendente do grande Lancerote
Q.ue a Barbarõxa arrancava as barbas,
Q.iie arrastou pelos sórdidos cabellos
;,^b l.-' - _ I-'.
.)l
Solimões, Mustafás e Mafamedes
^'f.'
r
J, Kâo devera seu pai injuria-lo, J,,
<À. 1-; na minha presença. ,Á.
t t
Braz.
Mas que injuria ?
Urraca.
Kão c injuria dar-llic bofetadas ?
Alma fidalga de meu pai, que gozas
Xo empyreo ao menos do lugar de du^piL',
Como nâo desces a vingar tamanha,
Tão desmedida afíVonta ?
Jacob.
NSo, senhora,
O castigo de um pai não é injuria.
Mas senhores, o dia do partida,
Um tão solcmne dia, não c dia
De arruidos, de rixas e disputas.
\'.m Londres, em Pariz, Parma e Veneza,
Kstes bons dias são em todo o mundo
Ao prazer e socego dedicados.
^ 3S8 Lp
Y . . t
'i Solto, e mil farpas de ouro desptdindo, V
■A- Anda voando Amor nas asserabléas, X
Jf £ qual sonora abelha em lindas flores, JL,
t Bebe o suave néctar nos formosos, Y
.-;, E triumphantes olhos das Madamas, •
Cora que ferozes corações abranda
D'bomens, os mais austeros e sizudos.
Braz.
Muito bem me parece. Pazes, pazes.
Leva a teiga dahi ; ouves, Lourença ?
Urraca.
Que perdestes, meu Jofre ?
Jofre (^apalpando-se).
Uma arrecada,
Q.ue me cahio da orelha : e tenho sangue.
Braz.
Uma orelha ?
Florestão.
NSo, senhor, um brinco.
Urraca.
Busca, Lourença.
Lourença (^brincando e cantando).
Um... dois... três, e argolinha {parando)
Hi-la.., não... finca pó de pampolinha.
Florestão.
lii-la, fidalgo. Alviçaras, fidalga.
Braz.
O r.-i está bem, senhora, vá vestir-se :
Vai tu, Lourença, vai limpar a prata;
E tu vai, Florestão, comprar o doce.
Urraca (^faicndo-lhc uma maura').
Com licença, senhor (vai-se).
Jacob.
Minha senhora.
Jofre.
Q,uem íia de penteat-me, se vais fora ?
Florestão.
Se me manda seu pai.
Braz.
Xào, nâo, primeiro
O podes pentear.
Florestão.
Vamos, fidalgo.
Jofre.
Vamosde pressa, Florestão, que é tarde. ( Fã o-íf)
SCENA X.
JACOB BILHOSTRE e BRAZ CARRIL.
Jacob.
Hoje, senhor Carril, vinha mais cedo
Para metter em ordem de batalha
As mezas e cadeiras ; todos falláo
Em partida, assembléa ; poucos sabem
As regras da importante symetria,
'é. . "'
Com que se deve preparar a sala,
J. Que serve para ura acto tâo vistoso ;
tk, Porém vejo que tudo está já prompto,
I Tudo no seu lugar.
* Braz.
Falta-me a cera,
Acabou-se o dinheiro.
Jacob.
Eu pouco trago ;
Bastará um quartinho ?
Braz.
Basta, basta ;
Eu lhe mando já vir as raparigas.
Jacob.
-Muito bom cravo.
Braz.
E do Doutor Muconio,
D'aquelle coripheo da Medicina.
46
li;
t
i.
éi
*
Jacob.
EUe vera cá ?
Braz. ^
Espero que nâo falte.
Jacob.
Sua filha virá ?
Braz.
Foi convidada.
Jacob.
Venha cora Deos.
Braz.
Eu cuido que me chamâo.
SCENA XI.
JACOB, BR.AZ, DULCE e BRANCA.
Dulce.
Vá depressa, meu pai, que é lá preciso.
•■•V ' A, /,'—.,,-/.•■■«
■' '4 ■ ' Sff "^x'' "'' í^^-»
3M 1^
Braz. ■"
X
Que falta IA? 4'
Dulce. Y
M, Dijiheiro para assucar. (^Vai-sc '2f,r^). .'j.
Branca.
Boa tarde, senhor Jacob Bilhostre.
Jacob.
Senhora D. Branca, boa tarde.
.Minha Dulce, meu' bem, minha senhora.
Dulce.
A Pedro donde vem fallar gallego ?
Jacob.
Do coração, do coração rebenta
O vesuvio do fervidos suspiros,
Com que humilde, captiva a liberdad.-,
Anse esses lindos olhos ajoelha.
Dulce.
Não me falle em latim, que não entendei.
=^^
--t^
364
Jacob.
Entendes, bella Dulce, bem me entendes,
Estas as phrases sáo, com que se explica
Uma alma tão discreta que te adora.
Dulce.
O bem que representa ! Logo mostra
Que a filha do Doutor soube ensaia-lo.
Jacob.
A filha do Doutor ?
Dulce.
D. Mafalda.
Jacob.
Se eu, Branca, lhe fallei...
Branca.
Eu, que me importa !
Jacob.
Escuta, minha Dulce..
o Dulce.
Jj É mui formosa !
Jacob.
Aqui de comprimento...
Dulce.
Mui discreta.
Jacob.
Se fui á sua casa...
Dulce.
Q.UÍ bem canta !
Branca.
Dansa muito mellior !
Jacob.
Porém, senhoras...
Dulce.
Tem bom dote.
;!l
I
366
Jacob.
Mas eu...
Branca.
O pai é rico...
Jacob.
Escuta, minha Dulce...
Dulce.
Eu n.ío sou sua.
Da formosa Mafalda é sò vassallo,
Esse perdido coraç.io infame ;
Tudo, tudo já sei,
Jacob.
É tudo engano.
Se, Dulce, quebrantei a fé jurada,
Nunca mais a meus olhos esclareça
O vivo e gentil lume, que amanhece
Era teu semblante angélico ; troando
Em vermelhos coriscos se converta.
Caia, fulmine, assombre, desfeaace,
'^
367
■' Alma, vida, sentidos, pensamentos,
X li o fido coração onde tu reinas
X Deixe a teus pés de lagrimas banhado
A
^ Entre pizadas cinzas palpitando.
Dulce.
Uranc.i, nío lhe resisto.
Branca.
Hu me estremeço.
Jacob.
Uulce, minha senhora, Dulce amada,
Ah ! não fujas, escuta, ouvc-me, espera,
Ao menos me permitte o disafogo
Daquclla mão beijir por despedida,
A cujo aceno o mesmo Amor se humiliia.
1-; que de Amor o arco retorcido,
linristadas as frechas estridentes.
Mirou ao fraco peito que anhelava
De teus soberbos olhos ser ferido.
Hem me viste cahir, Dulce, bem viste
Do roto coração o sangue quente
Fumegando brotar, e em crespos rios
Alagar a campanha que pizavas,
Os míseros despojos arrastando.
Dulce.
Oh ! que fracas nós somos ! Pois nos rende,
Nos encanta e captiva a liberdade,
O doce som d'umas sonoras vozes,
Q,ue raras vezes, mana, percebemos.
Branca.
As que de versos gostão, não resistem
A buena-dicha d'um poeta amante.
Jacob.
Dulce, formosa Dulce ! Dulce ingrat.i.
Se minhas tristes queixas n.to entendes,
Entende, entende as lagrimas que choro.
Olha, vê c*os teus olhos, cm meus olhos
Brilhar o vivo fogo, com que abrazas
Uma alma, que sò vive de querer-te.
Dulce.
Branca, nSo posso... Morro.
íf
'"^^y^s ■'
369
Branca.
Choras, DuIcí: ?
Dulce.
Basta, basta, Jacob, emfim venceste.
De tao fiel rendida vassallagcni,
N.io quero desprezar o sacrifício ;
Mas ouve a dura lei, se me promettes
Observa-la com animo constante.
Jacob.
Pela luz dos teus olhos o prometto.
Dulce.
Vj o que dizes ; nunca mais .'i casa
Tornarás de Mafalda.
Jacob.
Assim o juro.
Dulce, minha senhora.
SCENA XII.
GASPAR PICOTE e os mesmos.
Picote.
Boa tarde,
Senhora D. Dulce : minha Branca,
Boa tarde, ou bons dias, pois já vejo
Q.ue vâo amanhecendo nesta casa
Os polidos costumes estrangeiros.
Graças a Deos, que temos assembléa.
Que já temos partida, que podemos
Sem pejo conversar, que rir podemos
Sem receio dos olhos assustados,
Com que a senhora D. Urraca altiva,
Inda mais que ciosa, pretendia
Espantar os lindissimos Amores,
Que em torno do seu rosto andio vo.^ndo.
Branca.
Isto é comedia, Duke ; trazem ambos
Os papeis estudados.
Dulce.
Branca.
Imagina, senhor Gaspar Picote,
Que isto c casa de baile ? Ind.i não sabe
Que pessoas de nossa qualidade....
Picote.
]íi vejo, são lie pedra, s.io de bronze :
E em vez de alvos, de crystallinos peitos.
Trazem arnezes d'aço e diamante.
Onde debalde rompe Amor as setta";.
Branca.
Xâo o diga zombando, pode crc-lo.
Picote.
.Santas Páscoas ; mas isto de partida,
H a feira da Gualva, onde se escolhe :
Logo virão pelouros, branda cera.
Que com mui pouco lume se derrete.
Dulce.
Lé com Ic, cré com cié.
^^
a^^
/3i
4
^^..
i:^
---j^
Picote.
Amor é cego,
E nunca soube ler genealogias.
Dize, Branca, vira D. Mafalda ?
Branca.
Virá, logo virá, perfiJo, ingrato.
Dulce.
Tu choras, Branca í
Branca.
Choro, Dulce, choro
O negro fado, a minha desventura,
Q.ue a querer me forçou com tanto extremo
Um perjuro, traidor, pérfido, ingrato.
Picote.
Um perjuro, traidor, pérfido, ingrato,
Palavras são de Amor, e de quem ama ;
Mas tâo grande senhora, e tio fidalga
NJo pode ter amor, amar nâo deve,
Q.ue desta vil p.iixâo nasceo izenta.
E dois milhões de avós, que nâo fariío,
Se sonhassem que a neta namorada
Maculava a prosápia generosa,
Acolhendo os suspiros de um amante.
Que ao certo nâo se sabe se descende
De Abel, ou de Caim. Mellior me fora
Remar n'uma galé ; qual outro Orestes
Das veneráveis fúrias avexado
Me vira cm toda a parte perseguido
De finados heroes, sombras illustres.
Jacob.
Caro amigo Picote, basta, basta ;
Estes arrufos sâo de namorados.
Mas hoje não é dia,...
SCENA XIII.
JOFRE e os ditos.
Jofre.
Meus senhores
Meu Jacob, meu Gaspar, caros amigos...
Mas, pára carruagem ; foi á porta....
Será D. Mafalda... Com licença.
Vou abaixo busca-la, e dar-lhe o braço.
Picote.
Perdoa, minha Branca.
Branca.
Alii vem Mafalda,
E não vais recebê-la ?
Picote.
Uâo, senhora.
SCENA XIV.
JOFRE, MAFALDA, URRACA e os ditos.
Mafalda.
Não pude vir mais cedo, senhor Jofre.
Jofre.
Quando a aurora apparece, sempre c cedo.
Eu aqui venho já co'a minha dama.
Urraca.
Minha linda Mafalda, quanto estimo
Que venhas divertir-te e divertir-nos.
Braz.
O Doutor não virá ?
Mafalda.
Teve recado
Para ir a uma junta, mas vem logo.
SCENA XV.
GIL FUSTOTE, LOUREXÇA, BRAZ
e l-LORESTÃO.
Gil.
Ora vejamos isto de assemblca
Em que vem a parar.
Braz.
Que te parece,
i
t
^ Amigo Gil Fustote ? Nào te agrada
X Tâo sincera alegria ?
A Gil.
Agrada, agrada.
Braz.
Nâo ha maior prazer que a companhia.
Gil.
Té o lavar dos cestos é vindima.
Braz.
Lourença ! FlorestSo ! Venhâo cá todos,
Tragão cadeiras, tragão cartas, luzes.
Lourença.
Trarei os castiçaes, ou candieiro ?
Braz.
O candieiro, tola. Velas, vólas.
Lourença.
Sem castiçaes ?
_(?Ç ,ii S) °o
;;| _JJ' %
<1 !>
4-
T Lourença
Braz.
Corn castiçaes. Q.ue burra
Temos sepulcro. (Vcíi-se). '
Florestão.
Cuido que c charola. {Vai-sc).
SCENA XVI.
V^\7., J.\COB, G.\SPAR PICOTE, JOFRK,
GIL FUSTOTH, MAFALDA, DULCE,
BRA\CA e URRACA.
Braz,
Eia, scnliores, vamos, comecemos
.A tamosa partida, haja fandango,
.\legr;a, briíiquemo";, alegria ;
l"òra uma câ se l.iuce, fallem, fallcm.
Minhas senhora,,-;, dancem, cantem, ri.ío;
£ — 5K^
i
*
Fora, fora daqui as ceremonias. 7
Allons, sentar, sentar sem precedências, , ^
Venha chá, venha doce, venhâo cartas, ••
Joguem, e ralhem, gritem, descomponha
O parceiro ao parceiro, é desafogo, •
Que foi sempre a quem perde concedido.
Senhor Bilhostre, a boa poesia
Apezar de Platão e de seiscentos.
Que nunca o lerão, seu lugar merece :
Venha mote... lá vai, IA vai, ouçamos.
Jacob.
Amigo Braz Carril, a poesia
Káo c 'adufe, gaita, nem viola,
Que tanja cada qual quando lhe agrada ;
Logo, logo será.
Picote.
Ao cravo, ao cravo.
As senhoras cantando nos inspirio
Versos das Musas e de Apollo dignos.
Jofre.
A sc:ihora Mafalda principie.
,ír-
~~^ ' *-*:^'.
Já pezados nas azas os Amores
Hstao co' a boca aberta para ouvi-la
E os estrondosos ventos enclaustrando
Eolo amarra o odre, porque teme
Que tSo doces angélicos accentos
Varrendo os mansos ares lhe desmanchem.
Mafalda.
Isso, com pouco mais, era um soneto.
Dulce.
E dos da moda.
Picote.
O prologo é já grande.
Vamos, que o tempo vòa.
Braz.
É certo, é certo;
Senhores, attençao : fallem calados.
Vá, sente-se, senhora Mafaldinha.
Mas espere... a cantata de Dido ha de
Ser recitada. Seja cm pé. Ouçamos.
*
'i) Wj
'^S).
(^^
\
t
Mafalda.
Inda mais essa ?
T Braz.
^ Faltâo bastidores;
Cuidarei no tbeatro pouco a pouco.
Mafalda (recitando).
CANTATA
Já no roxo oriente branqueando
As prenhes vélas da troiana frota
Entre as vagas azues do mar dourado
Sobre as azas dos ventos se escondião.
A misérrima Dido
Pelos paços reaes vaga ullulando,
Cos turvos olhos inda em vio procura
O fugitivo Enéas.
Só ermas ruas, só desertas praças
A recente Carthago lhe apresenta :
Com medonho fragor na praia tiúa
Fremem de noite as solitárias ondas ;
^'•^'tí-
a^l
íE
J82
E nas douradas grimpas
Das cupolas soberbas
Pião nocturnas agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro
Attonita imagina
Q.ue mil vezes ouvio as frias cinzas
Do defunto Sichêo com débeis vozts,
Suspirando chamar : Elisa, Elisa.
D'Orco aos tremendos Numens
Sacrifícios prepara ;
Mas vio esmorecida
Em torno dos thuricremos altares
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética delira;
Pallido o rosto lindo.
A madeixa subtil desentrançada ;
Já com tremulo pé entra sem tino
Mo ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouvio enternecida
Magoados suspiros, brandas queixas.
383
AUi as cruéis Parcas lhe mostrarão
As ilíacas roupas, que pendentes
Do thalamo dourado descobrião
O lustroso pavèz, a teucra espada.
Com a convulsa mio súbito arranca
A lamina fulgente da bainha,
E sobre o duro ferro penetrante
Arroja o tenro crystallino peito :
1{ em borbotões de espuma murmurando
O quente sangue da ferida salta :
De roxas espadanas rociadas
Tremem da sala as dóricas columnas.
Três vezes tenta erguer-se.
Três vezes desmaiada sobre o leito
O corpo revolvendo, ao eco levanta
Os niacer.idos olhos.
Depois attenta na lustrosa malha
Do prófugo Dardanio,
Hstas ultimas vozes repetia,
li os lastimosos lúgubres acce.itos
Pelas áureas abobadas voando
Longo tempo depois gemer se ouvir3o :
1^
^
Doces despojos
Tão bem logrados
Dos olhos meus,
Hmquanto os fados,
Emquanto Deos
O consentião.
Da triste Dido
A alma acceitai.
Destes cuidados
Me libertai.
Dido infelice
Assas viveo ;
D'alta Carthago
O muro ergueo :
Agora núa,
Já de Charonte,
A sombra sua
Na barca feia,
De Phlegetonte,
A negra veia
Surcando vai.
■!*-
•i -'" I
V
Braz.
1
J,
í
Bravo ! bravo !
Dulce.
Que viva !
i
t
1
Jacob.
Bravo !
Branca.
Urraca.
líxcellente cantata !
Picote.
Bclla, iiobro !
Jacob.
A musica c sublime !
Jofre.
A poesia
Não c menos suave, c na verdade
Pôde calçar o trágico cothurno.
Viva !
?..••• 1
t
Mafalda .
^
K do
senhor
Bilhostre.
Branca.
Viva !
Dulce.
viva !
É do
senhor
Bilhostre ?
Jacob.
Sim
Dulce.
senhora
Fc-la
para .a
senhora ?
Jacob.
Não,
Mafalda.
senhora.
Nío,
minha
Duke.
Dulce.
Basta, j.
percebo.
I'.
é i>
3^7
Braz.
i
Seguem-so versos, c.iniem os poetas
Com plectro de marfim em lyras de ouro. J\
Jofre. .
l.á vai.
Braz.
Tu o piimeiro ?
Urraca.
Tu poeta ?
..(.^'jS* ®) '^.
Jofre {recitando).
SONETO
(C)-
fi-
Nâo menti, nSo, se disse, qu' os Amores
Estavão no ar suspensos, esperando
Q.ue tua voz divina modulando
Aplacasse dos ventos os furores :
Ergue, Mafalda, os olhos vencedores,
Vê-los-has por aqui andar voando,
E os retorcidos arcos affrouxando
Lar^ ' teni as mãos os passadores.
Nâo vês o fulvo Tejo c' o tridente
Os caval^os azues- estar detendo
As levantadas ondas reprimindo ?
■Se isto sente Mafalda quem não sente,
Que nâo sentirei eu, ouvindo e vendo
Tua angélica voz, teu rosto lindo ?
' y -' 4^
<i
Mafalda.
Bello, sublime !
Jacob.
Viva.
Braz.
Bravo I bravo !
Picote.
Que viva ! senhor Jofre.
Jofre.
Basta ! basta !
Urraca.
Tu poeta, meu Jofre ? Coitadinho !
Picote.
K que máo é, senhora, ser poeta ?
Urraca.
De frenezi tSo louco imaginava
Q.ue só pobres, viUões, adoecião ;
"^^ 39° ■^4.'^
i ;
■ !
I E teus grandes avós, qu' erâo illustres, !
'^- Sabião de cavallos, não de livros. "fl»
^ Bilhostre. i
Seriâo excellentes alveitares.
X
*
Dulce.
Poetas, nunca achei nos nobiliários.
Antes Mouro, ou Judeo.
Branca.
Dulce, estás douda ?
Jacob.
Que ha de ser, se eu compuz o recitado !
Braz.
Victor sério, senhores ; versos, versos.
Dulce.
Q.aeres que todos só de versos gostem,
H perverter as leis da natureza.
39'
Jacob (recitando).
E perverter as leis d.i natureza
SONETO
Se tuas longas aza.; JcspreganJo
De negras louras plumas estofadas
Atrás das leves horas apressadas
O bom dia qu'ispero vem voando:
Como te estás, ó tempo, demorando
Nestas só de desgosto prolongadas :
|á que vierão tio acceleradas,
Co' a mesma pressa deixas ir passand..
Mas eu cuido que á soena lastimosa
De meus males te deixa suspendido,
Ou perdes só comigo a ligeireza.
Ah ! foge de tragedia tâo pasmosa,
dv.e mostrar-te uma vez enternecido
/;' pcricrícr as leis ihi natureza.
■•-.^0 U
592
Viva !
Dulce.
Picote.
Bonito !
Braz.
Deo-me c'os pés n' alma !
Urraca.
Nem o soneto os tem, nem tu Amores.
Braz.
O soneto tem pés, amor eu tenho.
Urraca.
Insolente, traidor, tu imaginas
Que ter um velho amor, nSo ó tontice ?
59 5
Picote (recilando).
Que ler uni velho amor, não é tontice.
SONETO
Estavão as três Graças penteando
O cabello subtil de Amor um dia,
Qual c' o iiiarfim assyrio lh'os abria.
Outras andâo mil gommas preparando.
Amor, como rapaz, de quando em quando,
Co' a dourada cabeça lhe fugia ;
Poràm vê qu' Eufrosina se sorria,
Porque Aglauro lhe está as cãs tirando.
O menino pasmado vê no espelho
Por entre os anneis de ouro reluzente
Branquejar a saraiva da velhice :
Suspira, e diz ; Oh ! Saiba a cega gente,
Q.ue Amor nascendo moço se faz velho,
Que ter um velho amor, não c tontice.
"V
394
.!^
Urraca.
Senhor Picote, viva muitos annos !
^ liravo ! Picote, viva ! bom soneto.
Branca.
Viva ! senhor Picote. Ha de escrevè-lo.
Picote.
Tal não farei, por certo.
Braz.
Eu também quero
Mostrar o meu talento. Venha mote.
Urraca.
Q.ue fazes, Braz, que fazes ?
Braz.
Versos, versos ;
Porque também levei palmatoadas,
Aprendi, estudei ; e no meu tempo
Soube mui bem svntaxe.
'»:''
Braz. A
.'í.'
SCENA XVII.
MUCOXIO e os ditos.
Mticonio.
Boas noite?.
Criado, meus senhores e senhoras.
Jofre.
Senhor Doutor Muconio.
Muconio.
Senhor Jofre.
Mas que vejo ! senhores. Fujío !... fuj.\o !...
Foge ! Mafalda, fujío ! fiijão todos !
Braz.
De que havemos fugir ?
Dulce.
Ai que eu desni.iio.
W1 596, ,^
*
Branca.
Que é ?
Urraca.
Que será !
Muconio.
Fujamos !„,
Jacob.
De quem ?
Muconio.
Fujâo
Fujâo, fujâo, senhores ! Estão cegos ?
N3o tem visto, nâo tem inda observado
No senhor Jofre os tétricos symptomas
Da endémica, epidemica estrangeira
Pestífera Uthal enfermidade,
Que grassando em Lisboa, insulta, ataca
A pobre, dcbil mocidade estulta?
Braz.
É peste, meu Doutor ? "*
\ :^ '•^- :f;.
^Í> 397 í^
Jacob.
Está zombando,
Senhor Muconio ?
Picote.
Brar.ca, ser.á ópio ?
Muconio.
Não zombo, nSo, senhores, fallo serio.
Ê um forte contigio de chicotes,
De tranças e de arrochos no cachaço,
De que andâo enfeitados os casqui lhos.
Jacob.
Eu não disse, senhores, que era brinco ?
'r.-
y Muconio. 1"
, Sim, senhor, peste ; y'
V E peste a mais cruel que tenho visto. T
Urraca. ;
■:;■; *
Deos nos livre, Doutor !
'■•■•■"'A A-V'
^^: 398 ,l;_5
'••■^i
Muconio.
V É bom brinco, Bilhostre, é mal, é peste,
J^ E a plica polonica doença, ,^
' Q,ue asjira como no Norte, e em vários climas '
■;'■; Os Polacos e Sarmatas transforma ^
Em medonhos espectros e fantasmas.
Transforma cá no nosso continente
Os mancebos gentis em bonifrates.
Braz.
Q.'je nova, que recôndita sciencia !
Já tinha repara 'o na grossura
Deste immenso cHcote de meu filho ;
Mas cuidei que era moda.
Muconio.
Boa moda !
Jofre.
E boa lograçio. Doutor Muconio.
Muconio.
Que é boa lograçâo ? Fujâo ! fujamos !...
• ' \ .>• ■
399
Braz.
•A.
Espere, meu Doutor, diga primeiro.
J\, I:m que pára eite mal, em que consiste ?
Muconio.
Consiste na disforme, va. medonha.
Espantosa grossura dos cabellos,
Que scirrhosos, talvez lignificados,
Se grudão e se empastão um com outro :
Ejta massa fatal, ou côdea espessa^
A cutânea excreç.^o embaraçando.
Os hvimores estagna excrementicios,
Sc intlatr.ra.to, se coagulão nas minutas
Scriferarias glândulas represos.
Jofre.
Q.ue se segue d'ahi r
Muconio.
O que se segue ?
Mais alta que a coiumiia tle Traj.ino,
Uma agulha, ou pyramide disforme
De esquallidos cabellos, sobre a testa
^4 ^°° kp
Dos enfermos estúpidos erguida,
Lhe carrega a moUeira com tal pezo,
i
jv Q.ue convulsos os olhos retorcidos, -,•
A ^ , A
I Ou abertos em hórridos espasmos, |
Si trabalhão, se cansão, se enfraquecem, J,
Donde veio o contagio das lunetas.
Que tantos Polyphemos de um só olho
Encrespando o nariz, mettem á cara.
Braz.
Forte doença I
Branca.
Triste enfermidade !
Jofre.
Chiraeras, petas, logravões, mentiras.
Braz.
Calte, insolente ! Diga, meu Muconio.
Muconio.
A disforme pasmosa intumcsciencia
Atacando estas glândulas que disse.
Eque por lociçfio são conglobadas.
As conglomera tanto, e tanto as iini-',
due a estranha mole, túrgida grandeza
Nos inchados pescoços apparece,
Apezar de dez varas de gravata,
Que amortalha os focinhos espantados.
Urraca.
Coitado do meu Jofre !
Braz.
Eu b.m di/ia.
Vendo que não bastava meia peça
De cambraia, de cassa, ou nui>selina
Para duas gravatas. .Meu Muconio,
Falia, dize-nos tudo quanto sabes.
Muconio.
Quanto sei, meus senhores, s.ào incríveis
Deste tremendo mal, deste contagio
Os enormes e mágicos portentos,
Peiores que os thessalicos prestígios,
Com que Circe tornou os companheiros
SI
k
Do sábio Grego era javalis cerdosos.
Alevedado o túmido fermento, A
Q.ue as glândulas, em&m, apinhoadas «jj*
Em tamanhas escrófulas acabáo, f
Q.ue em seus doutos escritos nos attestão
Banivenio e Boneto, que cortarão
Alporcas de sessenta, e trinta libras.
Picote.
Ópio, carapetão.
Braz.
Bravo ! Muconio.
Muconio.
Leiilo, senhores, leiao, náo se riào,
Ouçio : In momento lemporis do eivferrao
Incha o pescoço ; os tabidos bracinhos
Sc myrrâo e se encolhem, e parecem
De boneco de massa : mal campeio
As entanguidas pernas marasmadas,
E dos luidos pés cascos vidrentos
T
O tnrso e metatarso edcmatoso
i Só consenti n.is unhas as fivellas.
'^ Finalmente, senhor, degenerando
I'' A massa dos humores pelas pravas
Estranhas qualidades, que lhe adquire
A errada nutriçSo em todo o corpo ;
Os liorrendos estragos se propagão
Da triste, da fatal metamorphose,
Q.UC os enfermos e miscros casquilhos
Em peraltas ridículos transforma.
Braz.
Tem razão, tem razilo, agora atino
N.i caus.i, e na moléstia, e já me lembro
De vários manequins empanturrados,
Que passei.to as ruas de Lisboa
Pallidos, paralvticos, convulsos,
Q.uasi sempre c'os beiços ruminando,
Q.ue trazem j.i safados de lan;bc-!os.
Jofre.
Tal não creia, senhor, ó zombaria.
404
"<r-;
Braz.
Calte, tolo, asneirâo. Senhor Muconio,
Quero sào o rapaz, ahi lh'o entrego,
E se manda que faça qaarentena,
Ko telhado o porei, nâo nos empeste
Com seus malignos e raortaes vapores.
Muconio.
O mal ainda parece incipiente,
Remédio lhe daremos ; mas primeiro
Intento dissecar este cabetlo ;
K valente tortulho, enorme trança !.
Urraca.
Meu Jofre, tem constância, tem paciência.
Jofre.
Senhora, que é mentira.
Muconio.
Qual mentira !
Braz.
Chiton, tolo, chiton.
Jacob.
E cae no logro !
Picote.
Forte pateta ; come bem as petas !
Braz.
Fiorestâo ! Florestâo !
Florestão.
Senhor.
Braz.
Depressa,
Desmancha esse rabicho, essa serpente.
Jofre.
Hei de ficar, senhor, esgadelhado ?
Braz.
Sim, senhor, sim, senhor. Senhor Mucor.io,
Faça quanto quizer, talhe, retalhe.
Purgue, sangre, tosquie, desenrole....
Muconio.
1 ■ •>.
Y Olhem lá, meus senhores, se me engano I y
V Lignificada a pútrida matéria V
1 Já vera apparecendo. Vejâo, vejâo ]
~)f. Que tassalho de pio!... É caso horrendo! ;^
' Braz.
Pois que vai, minha Urraca, que me dizes,
Em que se torna o sangue de Azevias ?
Urraca.
Que posso responder ? Estou pasmada !
Jacob.
E forte surra !
Picote.
Lograçâo completa.
Muconio.
Que tal c o caroço do lobinho ?
Coitado do rapaz 1
40?
Braz.
Deite isso fora.
A Muconio.
t
I isada, naja, senhor, Jeve guardar-se,
Kstes são os cabellos com que s.íra
De tâo damiiado cilo a mordedura.
Agora vamos receitar, escute :
Este villoso, esquálido chumaço
Scirrhoso, laparão, túrgido edema
De tun;entes cabellos empastados,
Crestado, secco, estitico, myrrado,
Pela má rotação do sangue podre,
E total discrazi.- dos humores
Ácidos, corrosivos, virulentos.
Adquire a secca e tabida dureza,
Q.'je do secco cação a rija pelle ;
Para estendê-lo, para amacia-lo
Deve ungir-se com 1'alsamo asinino,
E para o ver elástico e fle.xivel
Duas vezes ao dia, nove dias,
Ha de baté-Io. e muito bem sova-lo.
Com este mesmo arrocho, taco ou toco.
■o.
li .•-■
'4 408 ',-^
li remédio excellente, é approvado, "
Que descobri nos priscos cartapacios JL
De Philon, Serapiâo, dos Apollonios. »*.
A
Jacob.
Nâo está mào o récipe, Mucoaio !
Jofre.
Basta, basta de judiar comigo.
Braz.
Callas-te ou queres, Jofre, que te cure ?
Approvo esse remédio ; mís, Muconio,
Onde acharei o bálsamo asinino ?
Muconio.
A previdente madre natureza
Não cria sem antídoto o veneno.
No mesmíssimo corpo dos enfermos.
Bem atrás das orelhas, deposita
Este forte elixir em ténues vasos,
Oa delgados folliculos, que cheios
Do sueco burrical, sendo espremidos.
409
Talha, embota as partículas do sangue,
K o deixa circular sem embaraço.
Braz.
Mas diga-me, Doutor, como se espreme ?
Muconio.
Puchar-lhe muito bem pelas orelhas.
Picote.
K bom o tal remédio ?
Braz.
Quer que o faça ?
Jacob.
Peior, peior.
Urraca.
Coitado do meu Jofre !
Muconio.
Não, senhor, inda n.lo, e depois disto
K preciso cortar-lhe aquclla trunfa,
Para a fauce messoria ficar livre,
E a coronária região sem pezo. A-
Desembaraçada, os liquiJos rolantes »{■•
Deixará permear pelos seus vasos ; '
Banhos, emborcações e cataplasmas, ^^
Além de outros remédios, facilmente
A força vencerão destas medonhas
Tão enroscadas áspides da Lybia ;
E se com todos se pratica o mesmo,
A florente Lisboa vereis limpa
De caraças ou frentes de Medusa ;
Praga, ou nuvem de estultos gafanhotos,
De tarecos rabões, melhor diria :
De rabudos bachis, de enormes caudas.
Braz.
Estou, Doutor, attonito ; e ji vejo
Quanto sabe, quem sabe a Medicina.
Muconio.
Agora ouçamos Juas árias novas.
A - . . .
411 h. -^
SCENA XVIII.
í
LOURENÇA, FLORESTÃO e os dito^. '
Lourença.
Senhor I senhor !
Florestão.
Senhor !
Braz.
Temos mais peste r
Florestão.
Peior, senhor, pcior !
Braz.
Dize, que é isso ■'
Lourença.
Peior, senhor, peior !
ST''
4"
Braz.
É fogo em casa ?
Florestão.
Peior, peior, senhor !
Lourença.
Minha senhora !
Dulce.
Morreo o papagaio ? Dize, dize ?
Florestão.
Peior, muito peior ! Batera á porta.
Braz.
Vai ver quem é.
Florestão.
Peior !
Braz.
Vai ver, Lourença.
Lourença.
Peior, muito peior !
Florestão.
Peior que tudo
Braz.
Falia.... dize.... quem é ?
Florestão.
Peior ! Alcaides,
Escrivães, e diabos quadrilheiros.
Urraca.
Ai ! mofina de mini !
Branca.
Tremo.
Dulce.
Desmaio.
Bilbostre.
Ronda talvez será.
Braz.
A ronda ?... a ronda ?...
- ' ■*. > "■
"> Florestão.
Y É o poder do mundo com espadas,
Y Com chuços, alanternas, até cuido
' Q.ue trazem o carrasco e mais a forca.
Bilbostre.
Que será ?
Picote.
Que ha de ser ?
Bilbostre.
Commigo nada.
Picote.
Menos commigo,
Braz.
Se será commigo ?...
Abre-lhe, Florestão, abre-lhe a porta.
#
4 «4 j'^p
SCENA XIX.
A MEIRIKHO, ESCRIVÃO, Q.UADR1LHE1ROS
e os ditos.
Meirinho.
Eu, senhor Braz Carril, venho mandaJo.
Escrivão.
Somos mandados, manda-nos quem pôde.
Braz.
Pois são (e tanto phariseo) mui mal mandados.
Meirinho.
A parte requereo : fomos mandados.
Escrivão.
K parte rija.
Meirinho.
Nâo se dobra a nada.
4 l6
Braz.
Mas, que querem de mim, senhor meirinho ?
Meirinho.
Este mandado.
Braz.
Irra ! Mais mandado !
Vem mandado o meirinho, e vem mandado
O escrivão, os esbirros vem mandados,
G sobre isto ainda vem mais um mandado t
Urraca.
A casa d'um fidalgo quadrilheiros ?
Meirinho.
Somos mandados.
Escrivão.
Seja, ou náo Adalgo,
Qjiem deve, paga ; porém eu, senhora.
Ao senhor Braz Carril, bem o conheço,
E que fosse fidalgo não sabia :
Nomea-lo por tal agora o ouço.
tíJ [>>
ii'
Urraca.
Y A gente baixa não conhece a nobre. "'^
i Escrivão. 'Ç
K nobre ?.... Pôde ser.
Urraca.
Meia tigella.
Escrivão.
Isso é louça quebradiç.i.
Urraca.
lí prata fina.
Meirinho.
Vamos, vamos, senhor, este mandado,
Senhor Carril.
Braz.
K que mandado é esse ?
Escrivão.
Nove centos mil reis, que o senhor deve
A Martinho Uaimon.
ffjj 418
Meirinho.
É estrangeiro.
Braz.
É ura ladrão laJino : bem conheço.
O capataz de quantos berlinguetes
Nos vem aqui vender gatos por lebres.
Nabos eni saccos ; cascavéis, pandeiros,
Gaitinhas, berimbáos, quinquilharias ;
Qae promptos a fiar tentâo a gente,
E depois de empolgar rapaces unhas,
Fervem as citações, fervem penhoras.
Meirinho.
Isso nâo c do caso, esta sentença....
Braz.
E como hei de pagar essa quantia ?
Venhio cá outro dia ; hoje nâo posso.
Escrivão.
Então, senhor Carril, dè-nos licença.
♦-
Braz.
Licença, para que ?
•^r=p:-T^9-^l
iã'-
7
■Tl-
i
Escrivão.
Para fazermos
Penhora no que acharmos.
Meirinho.
Ou ir prezo.
Urraca.
Ir prezo meu marido ?
Escrivão.
Não se assuste :
Talvez, senhora, qu' haja nesta c»?a
O valor da sentença e mais das custas ;
A nossa diligencia, isso cá fica.
Miiconjo.
O cravo é meu, custou-nie o meu dinheiro.
Bilhostre.
S.io meus os castiçacs, senhor C.irrança.
Picote.
As chicaras siio minhas (para o e!cri:'ão'), e protesto,
Senhor André Garrote, que s.io minhas.
^
Meirinho.
Nós, senhores, fazemos a penhora,
Depois requererão.
Muconto.
Essa está boa !
Bilhostre.
É forte chasco !
Picote.
Adeos, chicaras, bulle.
Fustote.
Como te vai, amigo, co' a partida ?
E divertida emfim, c uso, é moda.
Braz.
Té o lavar dos cestos é vindima.
Meu querido Jacob, Picote amigo,
Doutor Muconio, amigo, caro amigo :
Generoso Fustote, «Ima d'um principe,
Acudi-me, livrai-me, bons amigos ;
E que acç2o mais illustre, mais honrada.
l — l^J — íe
Q_v.e Acudir um amigo a outro amigo ?
A amizade tiel, e verdaJeira
E dadíiva do cio, e do céo digna,
E dos Inimanos o maior tliesoiiro ;
E fonte donde mana a lioiira, a fama,
Que os míseros mortaos transforma em deoses
Prilhaudo estão no eco Castor e Pollux ;
E no sagrado templo da memoria
Nizo, Euryalo, Pylades, Orestes.
Haverá coração, haverá peito
Tanto de áspero e rígido diamante,
Que nâo estale, ao menos se enterneça,
Vendo do caro amigo miserável
A consorte fiel desamparada.
Os innocentes fillios sem abrigo,
E nas mesquinhas mãos da fome horrenda,
Da triste desnudez e da vergonha
Expostos a desprezos e ludíbrios?
Sois meus amigos ? Que fazeis, amigos ?
Gil.
Es tu Tullio, meu Rraz? Eu não sou néscio :
Kão me quero perder, não tenho em casa
L-
Partidas, assembléas : bem me basta
O que perdi comtigo, e tu gastaste
Em golodices, secias, pataratas.
Q.jera muito nâo tiver, que gaste pouco :
Deixe-se de partidas, d'assembléas,
Brilhar nSo queira á custa dos amigos.
Que inhumano !
Dulce.
Urraca.
Que baixo, vil !
Branca.
Infame 1
Dulce.
Jacob, caro Jacob ! Da triste Dulce
Os suspiros e lagrimas ardentes,
A fé imraaculada, amor sincero,
Se alguma cousa podem raerecer-te,
Nâo me deixes Jacob ; e se por minhas.
Estas sentidas vozes niio te movem
::--«r
1
6
7 Mova-te o grande e triste desamparo
J, De uma casta donzella, bem nascida.
T Jacob.
] Dulce, minlia senliora, minha gloria,
'' Não le assustes, não chores, nâo te afflijas,
Quanto sou, quanto valho, quanto posso,
Tudo ao teu descanso sacrifico.
Branca.
Acaso esperas, dize, que te peça ?
Picote.
N.lo, Branca, n:lo, senhora ; espero...
Branca.
Esperas ?
Picote.
Q.ue me deixem fallar. Senhor Carranca,
Vou buscar o dinheiro.
Muconio.
Espera, espera :
Amigo Braz Carril, não sou de pedra,
y
^•••(y
?
7 Nem sou tigre, homem sou, os homens amo,
.^ De ter humano coração me prezo. I
,1^ Descansa, pagaremos o qne deves :
I Darás Dulce a Jacob, Branca a Picote,
lofre case co'a rainha Mafaldinha,
E todos três o escote pagaremos.
Braz.
Que dizes, D. Urraca ?
Urraca.
Paciência..,.
Perdoem meus avós, mas a desgraça....
Braz.
Casem, casem ; Muconio, estais contente ?
Bilhostre.
Minha Dulce, meu bem !
Dalce.
Ciro Bilhostre \
M.
42S
>;-^^
Picote.
Brtnca, minha esperança, que ventura !
Branca.
Q.ue ventura, Gaspar, meu doce emprego !
Lourença.
H nós, meu Florestâo, não nos casamos ?
Florestão.
K porque nâo, Lourença, sendo grátis 'i
Muconio.
Senhor André G.irrote, em minha casa
O espero d'aqui a meia hora :
Para pagar maiid.tdo e diligencia,
Tenho não sò dinheiro, mas bigodes.
Braz.
Q.ue generoso exemplo de amizade,
De nobres corações, de honrados peitos !
Mas neste raro exemplo se nâo fie
Quem se er:ipe!'a no mar de dcsperdicios.
■*•— fc- Ce — 5f-
,C"--
Guarde-se da súbita procella
'D'alcaides e credores, que santelmos
Nem em todos os topes apparecem ;
E Bilhostres, Muconios e Picotes
São dífficeis de achar. Batei as palmas.
15
PARTE iri
^^^'^ii*^:
'«-rA^-íi^-c)*^-^:
díssertaç(3es.
DISSERTAÇÃO PRIMEIRA
sol re o caracter da trugcJia proj'omio ser inalienável
regra delia, ndo se dever ensaitgueníar o thea-
Iro e tio desempenho de cujo dratna devem rei-
nar o terror e a compaixão, para que assiii;
com esta represenlaçio se purguem os estec-
ladores destas c outras scmelhaníes paixões (1).
Nuc puoros coram impulo HoJua tiudjut.
Il(.u*i., Ars. root. V. Ks.-,.
Nobilíssimos, sapientissimos e amantíssimos
Senhores,
Se assim como a vossa compaixão prosegue
no desígnio de instruir-rac, pôde desculpar os
meus erros a vossa indulgência; perderei o medo
(i) Recitada na conferencia da Arcádia lusi-
tana no dia 26 de agosto 1757.
As composições que se seguem, diz Innocen-
cio, são muito louvadas por F. M. Trigoso na
sua Memoria sobre a ^ícadia pela liberdade e
eloquência de seu estylo.
45
«
4i2
de fallar diante de vós, sem me ensaiar no estudo
das mais solidas doutrinas. Mas quem me ha
de persuadir, que exercendo funcções do meu
destino, e levado da honra de obedecer-vos, não
desperdice aquelle tempo, que podia aproveitar
em ouvir as vossas lições ? Que systema, ou
que questão posso discutir na vossa presença, sem
que vos enfastie ouvir o que já sabeis ; ou talvez
o que refutais ? De que a te, ou de que sciencia
poderei combinar uma regra de que vós, melhor
do que eu, não conheçais profundamente toda a
sua extensão? Assim é, senhores ; porém vós
quando me chamastes para membro desta socie-
dade, concebestes outra idéa mais illustre. Qui-
zestes ser úteis á pátria: e um projecto tio ge-
neroso não se pôde praticar sem com efifeito en-
^ ^'J sinardes os vossos compatriotas.
fk" Affortunado fui eu, se fui um dos que pri-
,-\ meiro vos deveo esta piedade: e seria ingrato se
1A( olhando para vòs, como para mestres, tivesse pejo
W) de mostrar a minha insuficiência. Capacitado pois
desta verdade, e não podendo resistir a tão for-
Pi
d
th
^D raosa reflexão, discorrerei em um ponto, que en-
^JA
í
I*
^^ÍL*!:*-.
433
tre toJos os da Poética foi sempre para mim o
mais difficnltoso.
Seguindo a Demétrio Phalereo, ou a Neopto-
lomeo de Faros e certamente a Aristóteles, esta-
beleceo Horácio a inalterável regra de que na
tragedia se não devia ensanguentar o theatro, isto
é, que as feridas, os tormentos, e as mortes, qr.e
são inseparáveis do caracter deste poema, se não
deviáo expor á vista dos espectadores ; mas sim
fia-las de uma facunda narração, ainda que o
mesmo Horácio parece que forneceo as armas
aos fautores da opinião contraria, lembrando-lhcs
que com menos efficacia persuade o que se conta,
do que aquillo de que os olhos se informão per
si mesmos (i).
Quem observar com circumspecção as trage-
dias antigas, achará, que esta regra foi quasi sen- -c '»s
pre religiosamente guardada. ,,
Ainda entre os modernos ha poucos documen- '^
tos que possão contesta-la. Os Francezes a rece- w' '?*
berão, a adoptarão, c a defendem com a pra-
i
(i) HoRAT., Voct., vers. i8o. ^líí lí>
55
( n J»
;*-tô
'^4
4}4
tica, e com a doutrina. Nós temos a gloria de
que a nossa Castro (i) seja um exemplo de que
nâo a ignoramos, e de que a seguimos. Os In-
glezes, iiaçâo em que mais se descobre os gé-
nios dos republicanos antigos (2), e que no orbe
litterario fazem uma grande figura ; os Inglezes,
digo eu, são os que menos respeitarão esta lei,
infringindo-a reiteradas vezes de que é triste tes-
temunha o seu Catão e de que talvez os fez gos-
tar aquelle ódio, com que sacrificão á sua pre-
tendida liberdade uma testa coroada.
É verdade que á primeira vista parece es-
tranho que um poema, que nasceo nos braços d.i
alegria e da festividade, exija de sua natureza
uma peripécia sanguinolenta ; e ainda mais ex-
traordinário, que sendo do seu caracter as mor-
tes, as feridas, e os tormentos, hajâo de frustar
^ r[, aos olhos estas imagens funestas e horrorosas ;
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parecendo que uma vez que ellas nâo sejâo o
(i) Doutor António Ferreira.
^ (j) Regrs et exactos Tyrannos densum humeris
hibit aure vulgus.
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43S
principal obji;;to da scena tragic.i. penierá grande
parte da sua força e da sua efficacia este poema.
Antes de desatar esta duvida, é preciso desco-
brirmos a razão por que sejão as catastrophes fu-
nestas essenciaes da traged ia, lembrando-nos, de
que este drama, segundo a sua natureza, é, como
disse um grande liomcm, o throno das paixões,
em que conforme Aristóteles, devem reinar o
terror e a compaixão, para que assim nos purgue
destas e outras semelhantes (i). Ora se os es-
pectadores sahirem alegres com nma peripécia af-
fortunada, perderão sem duvida toda a ternura e
semente de Constança (digamo-lo assim) que o
poeta lhe-; tiver inspirado, pondo-lhes em movi-
mento o terror e a compaixão. Deste principio
nasce a justiça cotu que são criticados aquelles
m.ios poetas, que ordinariamente acabão as suas
tragedias com uma catastrophe ditosa, e atro-
pelando não só a regra, mas a razão, em que ella
se funda.
Ainda que seja esta a natureza da tragedia,
(i) Le Hossu, Toem. Epij., T. II, p.-ig. 19^.
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4J6
nio é ella tão austeramente rigorosa, que baja
de expor aos olhos de todos o que a humanidade
nSo poderia so£frer sem indignação, e que a po-
licia pede que se occulce, ainda que se conte ;
com tanto que ella seja eficazmente o fim a
que se dirige, isto é, a mover o terror e a com-
paixão. Para o poeta chegar a este fim nào é
preciso que Medéa diante do povo despedace os
filhos ; que Atreo preparasse a nefanda cèa ; que
Progne se converta em ave, ou Cadmo em ser-
pente. Tudo o que assim se dispõe no theatro fica
incrível, desgosta os ouvintes, e não persuade;
hista que eloquente narração o exponha aos nos-
sos ouvidos com eloquência, que chegue ao co-
ração ; as figuras, as imagens (n'uma palavra),
a verdadeira poesia, um estylo pathetico, sem
que os olhos se perturbem com os espectáculos
horrorosos.
Persuadidos assim de que para mover o ter-
ror e a compaixão, não é preciso derramar o san-
gue no theatrOj fica menos difficultoso o conhe-
cimento, e a contemplação desta doutrina, pois
coasegue assim a tragedia o purgar-nos di se-
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Í^^-3-^--
melliantes paixões pelo meio o mais suave e o
mais decoroso.
Assim se mistura o útil com o deleitoso ; as-
sim foge o poeta de fazer inverosimil a sua ac-
íão, ou de dever mais a habilidade dos actores
á disposição das scenas e tramóias, do que á boa
economia da fabula e enérgica força dos seus
versos.
Falta-nos examinar se com tudo persuade mais
o que se vè, do que aquiUo, que se ouve, como
lembra Horácio, e se a narração basta para mo-
ver as paixões, quanto exige a natureza da tra-
gedia. É esta uma duvida, que certamente me
abria o campo para uma larga dissertação, se a J (i
angustia do tempo, e o respeito da Arcádia não f^n
acudissem á pobreza do meu discurso. *A f*
Não saberei negar de que mais individual- ^' ju
mente ficarei capacitado do que eu testemunhar C^i
com os meus olhos, do que aquillo, que simples- jy
mente ouvir ; mas esta vantagem, que seria pre
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cisa para eu dispor de qualquer successo em um ^p ^
tribunal, não é necessário qae assim seja no thea- ^ ^
Iro; ainda que bem conheço que a differença, que r-p jj
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ha entre a poesia dramática, e exageratica, consiste
em que aquella obra, e esta conta. No theatro não
só escuto o que se diz, mas vejo o que se faz. Na
epopeia não vejo o qne se faz; ouço o que se diz.
Devemos não perder de vista o hm da trage-
dia, para mover o terror e a compaixão. Se por
exemplo me propõe o poeta a desgraça de QiJipo,
consiste a força desta persuasão em mostrar-me
um homem, que inviolavelmente commette um
parricidio, matando a seu pai Laio ; um inces-
tuoso adultério, casando com sua mãi Jocasta ;
usurpa um reino, irrita a divina justiça ; e de-
pois com teimosa curiosidade procura indagar a
origem de tantos males, até que chegando a conhe-
cer-se réo dos mais abomináveis delictos, homi-
cida de seu pai, incestuoso com sua mãi. pai e
irmão de seus filhos, desesperado, com as snas
próprias mãos tira a si mesmo os olhos.
Abre-me a scena, mostrando-me a mocidade
de Thebas diante do altar prophetico de Ismeno:
o summo sacerdote sacrificando ; na cidade não
se ouvem senão prantos e suspiros ; uma vio-
lenta piste devora aquelles miseráveis. Consulta-
■<-^''1í(Z^/^'
439
se o or.iculo, vem a resposta, descobrem-se al-
guns indicies, exige o eco, que o delicio origi-
r.al se expie com a morte do delinquente. E em-
quanto se ex.imina quem c o desgraçado, quantas
vezes me assusto, receando não seja aquelle mesmo
homem que eu vi, como pai da pitria, chorar com
os innoccntes, jurar-Uie, que não deixará de soli-
citar o remédio daquella calamidade, ainda que
seja á custa da sua vida ; um homem, que dis-
solveo o enigma da Hsphinge : finalmente um rei
clemente. Chega o reconhecimento, vejo que este
mesmo Oídipo é o culpado. Quanto me compa-
deço!
Affirmo-vos, senhores, que nunca li esta trage-
dia de Sophocles, que não chorasse, quando vejo
o miserável rei com os innoccntes filhinhos, ora
l.izendo imprecações, ora clior.mdo sobre elles la-
grimas de sangue, e neste triste desamparo deixar
a nuillier, a casa e o reino : ao mesmo tempo
ouço a noticia de que Jocasta se matou. Ha mais
terror! Ha mais compa'xão! Eis-aqui como a tra-
gedia consegue seu fim, sem me fazer inverosímil
a sua f.>bula.
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Pelo contrario, se eu visse este mesmo CE4ifo
metter os dedos pelos olhos atè arranca-los, ou
duvidaria do mesmo que estava vendo, ou a difi-
culdade, com que o actor executasse este passo, me
provocaria o riso. Por isso Horácio manda, que
se passe por detrás da scena, o que não deve ap-
parecer no theatro. Aristóteles diz, que isto è que
se chama golpes de mestre, porque é preciso que
a fabula seja composta de modo, que quem nâo
faz mais do que ouvir as coisas que succedem,
ainda, que as veja, trema comtudo, quando lh'as
contarem, e sinta o mesmo terror, e a mesma
compaixão, que se não pôde deixar de sentir,
- quando se ouve a tragedia de CEdipo (i).
'^\ Ficando pelo que toca i razão relativa d'esta
regra, em que provado assim o que me atrevi a
propor-vos, devo examinar se a autoridade de Aris-
^^ (^ toteles, em que se fundou Horácio, padece no
ir 0^ texto alguma duvida, ou se tem sido contestada,
i, ^2 E certo que muitos e grandes homens tem iii-
Qfí\ji) terpretado mal as palavras do pbilosopho tirando
w^ —
^ W) (O Arist., Poet., ca,i. 14.
m^^^>^^ ^
d'elUs a errada consequência de que o theatro
se deve ensanguentar, para bem se mover o ter-
ror e a compaixão. O maior trágico de Franç-i
Mr. Corneille no exame do seu Horácio diz: « se
é uma regra não ensanguentar o theatro, nâo é cer- a-Í^
tamente do tempo de Aristóteles, que nos ensina
que para mover efficazmente são precisos grandes
desgostos, feridas e mortes em espectáculo. »
Vários traductores d'esta inestimável obra,
quero dizer, da Poética de Aristóteles, traduzem
o texto no mesmo sentido mortes in aperto Jac-
tam (i) ; porém outros, a quem abona o sábio
Dacier, mortes evidentes e certas; pretendendo que
debaixo desta expressão geral comprehenda Aris-
tóteles as duas espécies de mortes que succedem
na tragedia, as que se não vòm, e as que se vêm ,
porque uma personagem pôde vir acabar de mor- S^ (^i
rer no theatro, conuanto que nelle nâo tenha ^
sido ferida. -t '^
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Vejamos, senhores, se repetindo-vos o texto, ,.j<
conforme a traducçSo de Dacier, se coraprehende
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(i) Alexandre P.ie;io Florentino. pi
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melhor esta verdade, ou se a traducçao franceza
quadra melhor cora o seu contexto (i). Além
destas duas partes da fabula, que pertencem á ma-
téria, ha também uma terceira, que eu chamo
paixão: já se tem explicado o reconhecimento e
a peripécia. Chamo paixão uma acçSo, que destroe
alguma personagem, ou que causa violentas dores,
como sào as mortes evidentes e certas ; os tor-
mentos, as feridas, e todas as outras cousas se-
melhantes (2).
A palavra paixão, de que se serve aqui Aristó-
teles, não significa uma paixão, que se move na
alma por este, ou aqnelle respeito ; mas sim no
sentido, em que ella significa padecimento, como
quando dizemos (se é que se pôde explicar uma
cousa profana com os mysterios da nossa reli-
gião) a 'Paixão de Chrislo. Nesta significação se
entende este termo: e para que esta paixão se
ache em uma tragedia, não é preciso que as fe-
ridas, as mortes, e os tormentos se exponhão no
(i) Dacier traducçâo de Arist., cap. XI, not. 14.
(2) Arist., Poet., cap. XI.
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*2.J*4.»-
■.•::''* -itV-tC'^»^^^-
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tlieatro ; bast.i que o auditório fique certo que
esta, ou aqiiella personagem, vai padecer infal-
livelmente aquella morte, aquelle tormento, e que
depois com energia e com facúndia outra perso-
nagem lhe conte este lastimoso caso, ajudando-o
a compadecer-se com as reflexões, lamentações, e,
se preciso é, com as lagrimas, como diz Horácio:
Que se o poeta quiser que chore o espectador, lia de
elle chorar primeiro.
Aqui me lembra advertir, que esta paixão é tanto
do caracter da tragedia, que pôde haver fabula
simples, isto sem peripécia, ou reconhecimento,
como é o c/^/a.v de Sophocles, a Hcctiha de Kuripi-
des : mas lulo pnde haver nenhuma sem paixão,
pois sem ella, como já vimos, é impossível mover
o terror e a compaixão, que o o fim da tragedia.
Daqui se infere ir.contestavelmente, que o pliilo-
sopho estabelece esta regra. Nãoé verosimil que um
homem, que apoiou toda a sua doutrina na pra-
tica dos antigos, concebesse a idéa de fundar um
systema que lhe é contrario (i). O mesmo ^ja\
(i) Hedelin in Praxi Theatrica.
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444
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de Sopbocles, cora que os fautores da opinião con-
traria se tem allucinado, não se mata no thea-
tro, como elles pretendem ; mas bem se percebe
que esta fatalidade se passa em um bosque vizi-
nho : assim se escutão os clamores de Agamem-
non(i);assim se ouve gritar Clytemnestra, quando
é ferida por Orestes (i); e os mais exemplos, que
vós sabeis, e que eu julgo supérfluo repetir.
Finalmente, senhores, nâo deixaria de ser cul-
pável a rainha aífoiteza, se eu me atrevesse a dis-
cutir mais uma matéria, em que devia só cônsul-
tar-vos. Basta que eu mostre o desejo que tenho
de instruir-rae, e que vos proteste sinceramente
que não me dedico aos trabalhos académicos, com
outra esperança mais, do que com a idéa que tenho
concebido, de que correndo por vossa conta a di-
recção dos meus estudos, algum dia saberei imitar-
vos; e que então poderei sem pejo faltar na vossa
presença, e concorrer para a utilidade publica,
para o credito do reino e para gloria da Arcádia.
(i) Agamen. de Eschil.
(2) Sophoc.
--i|f M c~. M .^
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DISSERTAÇÃO SEGUNDA ^
iohrc o viesiiio caracter da IragcJia e utilidades
resultantes na sua perfeita composição (\).
iiimum auditoris ajunto,
r., Ars. Poot., yers. 100.
Nobilíssimos, sapientissimos e amantissiinos
Senhores,
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Como estou seriamente persuadido de que vós /ia
nSo sõ soffreis, mas em certo modo approvais o
meu trabalho com o projecto, certamente, de pro-
movè-lo, e de adiantar-me assim em matérias de
litteratur.i ; torno a fallar na vossa presença ;
torno a mostrar quinto necessito das vossas li-
(i) Recitada na Conferencia da Arcádia lusi-
tana no dia 30 de setembro di 1757.
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ções ; torno a implorar a vossa indulgência (i).
E já que no congresso passado tratei a regra, que
serve de limite á força com que a tragedia move
nos nossos ânimos o terror e compaixão, sem lar-
gar de mâo o prumo, procurarei sondar este ma-
ravilhoso pélago, mostrando quanto é necessário
que a tragedia mova as paixões para conseguir o
fim a que se dirige: qual é este fim, e se elle
de sua natureza é capaz de concorrer para a boa
policia de uma republica.
Horácio conhecendo profundamente a razão, a
força, e os admiráveis effeitos deste activo fil-
tro da poesia, propõe na sua Poética a regra nSo
só para a tragedia, mas para todos os poemas ;
advertiiido-nos que não basta que elles sejão ador-
nados de bellezas, mas que é preciso também que
4C
. r 'í • o poeta mova nos corações dos ouvintes as pai-
xões que lhe parecer, ou que exigir a naturez i
.<(( da sua composição.
« -a
jj ' -j (1) Ille per exientum fanem mihi posse videi ur
M 7 Ire poeta ; meum qui pectus inanitcr angit
" Irritai, mulcet fahis terrorihus impUt
•^ _2^ OiCagnus til et modo me Thcbis, modo ponit Ather.is.
Este mesmo grande critico escrevendo a Augus-
to, lhe dizia : <c Q.ue para elle sò era bom poeta
o que possuindo bem a difficil arte de mover as
paixões lhe commovia o coração com poéticos
fingimentos; ora irritando-o, ora aplacando-o, ^'-ía.
e finalmente enchendo-lhe o peito de terror, e de
espanto : bem como um magico, que o transpor-
tasse uma vez a Thebas, outra a Athenas. »
Para conhecermos nós quanto esta regra não
só é relativa á tragedia, mas que incontestavel-
mente quadra com a sua natureza, e é como alma
de todas as suas forças, será preciso trazermos
.í memoria a definição deste poema (i). « A tra-
gedia é pois a imitação de uma acção grave, in- ^ i
teira, e que tem uma justa grandeza, cujo estylo ^v
c agradavelmente temperado ; mas difTerentemente À' •/
em todas as suas partes; e que sem o soccorro ^ í?
da narração pelo meio do terror e da compaixão, V;
acaba de purgar em nós este género de paixões, ^ ll
e todas as outras semelhantes (2). » w''''^
(1) Arist., Poet., cap. 6, pag. mihi 72.
(2) BoiLEAU, Poel., Cant. 5. ti
' ^-'^■^.
i
448
É preciso que a tragedia mova as paixões, e
nisto se conforma com os mais poemas. Deve
especialmente mover o terror, e a compaixão aqui
se affasta delles, e deve purgar-nos destas, e de
outras paixões semelhantes : assim os excede; as-
sim fica útil; assim è maravilhosa (i).
Quanto é preciso para mover as paixões, ó
escusado que o examine, pois julgo que qualquer
de vós trará continnamente nas mios as melho-
res Poéticas, as Rhetoricas de Aristóteles, de Lon-
gino, de Demétrio Phalereo, de Cicero, e de Quin-
tiliano, alem dos modernos, que excellentemente
tem tratado esta matéria. Agora bastará que veja-
mos qual é o melhor caminho de mover o terror
e a compaixão.
É certo que estas duas paixões nascem da sor-
preza (2). E isto é a admiraçio que nos causa
um successo inesperado, que quando menos o cui-
damos, então nos assasta e nos arrebata. Esta é a
4 Ao
yj ^
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\ ^ qualidade de tudo qnanto é sublime e admirável ;
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^ 41 (O Le Bossu, Trait. du Põem. Epiq., chap. 9.
i w3 (zS AmsT., í>o</., 9.
x-^r-^iríí'^'^*
J
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pois no que assim vemos succeJer, achamos sem-
pre um caracter maior do que nas revoluções que
vem, quando nós as esperamos (i). Se um ho-
mem nunca tivesse visto a luz do dia, que esp.uito
lhe não causaria ver sahir do horizonte um globo
luminoso, que estendendo os seus raios pela super-
fície da terra, cobria tudo de cores e de clari-
dade? Mas para que a sorpreza cause este bom
effeito na tragedia, é preciso que as causas nas-
ção umas das outras contra a nossa esperança (2) :
não basta que os incidentes sejâo puramente for-
tuitos (3) ; mas é preciso que o poeta com boa eco-
nomia disponha de tal forma a sua fabula, que os
episódios, ou os incidentes, nascendo uns dos ou- .T
tros, conduzâo a pessoa fatal do drama ao re- ,
conhecimento; que deste reconhecimento nasça a
peripécia ; que a peripécia mostre a protogneste
em uma catastrophe desditosa, contra o que pro-
mettião as circumstancias, e ideava a esperança
M
1>
4
j>
(i) Arist., Poel., 9.
(2) Ibi.
(5) Pacier, Not., 26. -^
57 1
• ^-tSTG a i» " ff.--»
4$o
1f
Li
dos espectadores : então é infallivel a compaixão,
e também é natural o terror ; então me compa-
deço; então me assusto; então me transporto fora
de mim mesmo.
Aqui vemos que o maior segredo deste me-
thodo de mover as paixões, consiste na sorpreza,
que nos causa um successo tirado dos incidentes
nascidos uns dos outros, e que nos permettiâo o
contrario. E porque esta circumstancia falta nos
casos puramente fortuitos, por isso a sorpreza,
que procede delles, não chega a mover em nós
estas paixões com a actividade que pede a na-
tureza da tragedia, falta-lhe a qualidade de ma-
ravilhosos.
Com effeito nada tem disso um naufrágio, a
cahida de uma casa e outros desastres semelhan-
tes : é verdade que então nos compadecemos, mas
nesta compaixão não tomamos maior parte do que
aquella, a que simplesmente nos obriga a humani-
d.ide (i). Mas nos incidentes que nascem uns dos
outros, a idéa do espectador movida, e cheia do
(i) Dacier, Not., 27, A Toet. de Arist., cap. 9.
K^ M <L «^.
■^^ ^.7..^.
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r^^-
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4JI
objecto, vè juntamente a causa e fim d' aquelle
horroroso successo ; e desta duplicada vista se-
guem iiifallivelmeiite a sorpreza e as paixões : e por
isso ha tanto de maravilhoso na Sagrada Escrip-
tura, onde sào tSo frequentes os successos extra-
ordinários produzidos sempre de incidentes, que
nascem uns dos outros contra a expectação dos
leitores.
Para o poeta conseguir o efFeito que se propoz
pelo meio do movimento das paixões, deve ter
diante dos olhos duas cousas ( i ) : uma é o meio de
as fazer receber dos seus ouvintes, ou leitores ,
e outra é fazer-lhes effectivamente sentir. Em-
quanto ú primeira, ò preciso que disponha os âni-
mos p.ira lhes embutir as paixões; emquanto \
segunda, deve não misturar paixões incompatí-
veis (2). Com eíTeito para transportarmos uma :r*»"
cousa, é preciso primeiro tira-la de onde estava .^ ' J
para a levarmos para onde a queremos põr : «s- ■ '«
^*
(i)Le Rossu, Trait. da Poevi. Epiq., cap
pas^e 261.
(2) Idem, ibi. ""0
» »í_
"^ -ti
45*
sim devemos com tal progresso conduzir os in-
cidentes da tragedia, que pouco a pouco vâo cres-
cendo os embaraços ; e quando o espectador está
ji como abalado, esperando algum grande suc-
cesso, então é que o poeta se deve aproveitar
desse instante para soltar os diques do terror e
da compaixão.
Por estar fora desta regra, critica o Padre Le
Bossu o Ajax das Melamorphoses, pois Ovidio fa-
zendo comparecer este capitão na presença de uns
juizes, que estavão em perfeita tranquillidade, prin-
cipia o requerimento pelas figuras as mais vio-
lentas, e as mais patheticas (i). O que em lugar
de inclinar os ânimos ao partido que pretendia
Ajax, o dá a conhecer por um homem colérico,
^ /» desarrazoado, e que está fora de si mesmo; carac-
' •»' ' ter certamente mais próprio para ser aborrecido.
^^
do que para persuadir.
^, ^ Ainda que esta doutrina seja mais própria para
^ _ a epopeia, e outros poemas, no que toca á pri-
meira parte, comtudo eu me lembrei delia, para
CA
» ft (O L^ Bossu já citado.
^'tT--^
que advertíssemos, que ainda que a sorpreza é a
origem do maravilhoso, e que é da natureza da
tr.igedi.i, nJo devemos comtudo dispor uma con-
textura de incidentes falsissimos, e da repente,
sem que, nem para que, amontoarmos incidentes
lastimosos e funestos (i) ; mas que devemos tira-
los uns dos outros, com tal graduação que in-
sensivelmente se vâo dispondo os ânimos dos ou-
vintes para receber aquillo mesmo que nâo accei-
t.irâo, se dependesse de seu arbitrio a sorte do
protagonista.
Em quanto á segunda parte, todos sabem que
o amor, e o ódio não podem estar juntos, e que
assim mesmo seria impossível que a reinarem em
uma dama diversas e incompatíveis paixões, além
de cahirmos na Polymithia, ou perdermos a uni- ÍA rZ,
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d.ide da acção, seria difficultoso que uma paixão ' 'jw
repugnasse ao effeito da outra, e que por este
(i) BoiLEAU, PoeL, Cant. 3.
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modo se nos não fizesse impraticável o mover os Ô -
ânimos. V
Alguns espíritos fracos não sendo senhores de ' » O
'?í
454
uma fértil imaginaçio, tem cabido em outto de-
feito mais ridículo e mais estranho ; quero dizer,
procurão mover o terror e a compaixão pelo meio
das tramóias e decorações, ou de incidentes mon-
struosos ; por isso diz Aristóteles, que nascer o
terror e a compaixão da contextura dos inciden-
tes é o melhor, e que a isto é que se chama
golpe de mestre (i). Eschylo cahio naquelle de-
feito nas suas Eumenides, nâo excitando o terror
e a compaixão mais do que com o espectáculo.
Todos sabem a historia do seu terrivel coro das
fúrias, e os nocivos effcitos que produzio no se.i
auditório. H notável o parallelo que faz Uacicr
deste drama com o (Édipo de Sophocles. Quandi>
nòs (diz elle) lemos hoje as Eumenidrs de Eschy/o
^ ' A não nos sentimos muito peneirados ; porque o que
•■ "» • havia de terrivel neste dram/i, nascia da decora-
' ' Ô f"" • """^ quando lemos o CEdipo, não podemos dei-
ff, .
J-» -.^ xar de tremer, e de sentir os mesmos movimentos de
^ /'*--' tfrror e de compaixão, que sentião aquelles, que a
*^. , vião representar no theatro.
* «
s:
(i) AmsT., Poel., cap. 1 1, pag. mihi 211.
^á
455
Desprezando estas reflexões, e estas solidas dou-
trinas, tinha o máo gosto adoptado o peior sys-
tema : dragões, mágicos, navios, incêndios, bata-
lha?, naufrágios, cárceres, patíbulos, demónios e
espectros, erSo os milagres do theatro. Ha bem Qj^
pouco que uma corte polida fazia as suas delicias
de semelhantes espectáculos. E Metastasio, não ob-
stante alguns destes defeitos, teria, se quizesse,
uma estatua no Capitólio. E para sentir, que um
homem como este, excellente poeta, tenha innu-
meraveis vezes infringido as mais irrefragaveis leis
da tragedia.
Outro defeito ha, que não 6 menos impio :
com effeito, n.ão só n.ão move, mas ó ridículo. \
Deste género sSo as transformações, as serpen-
tes, e outras puerilidades semelhantes, de que deve
abster-se um bom poeta, c de que nJo pôde gos-
tar um discreto espectador.
Também devemos notar, que para mover o ter-
ror e a compaixão não c conveniente, como
entenderão muitos, escolher para assumpto das
tragedias os niartyrios, quero dizer, os marty-
rcs nâo devem ser heróes de semelhantes poe- ^
, P
• -<» « ' -.A * \:- 1} > -.
456
mas (i). Aristóteles diz, que a pessoa fatal da tra-
gedia nâo deve ser nem um homem muito máo, nem
muito bom ; porque se virmos padecer um grande
infortúnio a um homem muito bom, este espectá-
culo mais nos moverá á indignação do que á ter-
ror e á piedade, e se fôr um homem muito máo,
isto é, um Ímpio, um facinoroso, também a sua
desgraça nSo fará em nós este efFeito, pois c certo
que o terror e a compaixão são paixões que nas-
cem promptamente das desgraças dos nossos se-
melhantes. Logo quem se ha de compadecer, ou
atemorizar de ver em um patibulo un famoso mal-
feitor, uma peste da republica ?
O amor próprio é base de todas as paixões, e
por isso o martyrio do homem santo, e que nos
é superior em virtudes, causa-nos horror, mas
nunca compaixão, ou piedade; pois o horror as
affugenta nestes casos tâo fortemente, que ou ficâo
supitas, ou desapparecem. Corneille é de opi-
nião contraria, talvez por ter dado ao publico o
scu Polyc-icto antes de ter lido Aristóteles apoiado
(i) Arist., 'Poet., cap. 13.
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457
em Menturno, que na sua Poética decide que a
Paixão de Nosso Senhor Jesus Christo pôde ser
matéria de tragedia.
Tudo isto é necessário para que a tragedia
chegue ao desejado fim a que se dirige, isto para
que consiga o purgar em nós o terror e a com-
paixão, e todas as outras semelhantes paixões.
Platão, que lhe não attribuio tão útil efficacia, a
banio da sua republica ; e muitos pretendem que
este effeito não seja mais do que uma chimera,
trabalhando por mostrar, que a tragedia em vez
de purgar-nos das paixões, as suscita, e as pro-
move. Porem estas accusações, como são fundadas
em sOphisma, não podem vencer a força da ra-
zão, e da verdade.
É certo que á primeira vista parece impos-
sível que a tragedia haja de purgar-nos das pai-
xões, que ella mesma influe nos nossos corações;
mas em reparando em Dacier, como se deve en-
tender este termo de purgar as paixões, conhece-
remos a razão.
Os Académicos, e os Estóicos dizem : Lançar
fora as paixões ; desarreiga-las da alma; isto é su-
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4S8
perior às forças da tragedia ; isío não fa^ ella. Mas
os Peripateticos persuadidos que o excesso das pai-
xões é qae as faz viciosas, e que sendo reguladas,
são nteis, e ainda necessárias, entendem por pur-
gar as paixões, reduzi-las a uma justa moderação.
Eis-aqai o fim da tragedia, eis-aqui o que ella
é capaz de fazer ; e não é pouco.
A tragedia move em nós o terror e a compai-
xão, expondo-nos no theatro as desgraças dos nos-
sos semelhantes , desgraças, qae merecerão por
culpas involuntárias. Assim nos familiariza com
estes infortúnios ; assim nos ensina não temò-los,
ou tolera-los com paciência, e com constância.
O imperador Marco Aurélio é da opinião de
Aristóteles ; diz : « Que as tragedias forío pri-
meiro introduzidas para fazer lembrar aos bo-
lhes advertir, que devem necessariamente succe-
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.f ^ . raens dos accidentes que succedem na vida ; para
^ ^ der ; e para lhes ensinar que as mesmas cousas,
/' O Í>í6 os divertem na scena, lhes não devem parecer
i^ fl insupportaveis no theatro do mnndo » (i).
ilj ( i) Marc. Aur. art. 6. n. livr. das TJe/e.v.
*á
459
NSo só a tragedia purga, como temos visto,
o terror e a compaixão, também modera todas as
outras paixões : obriga-nos a que examinemos a
causa das desgraças que nos representa : e conhe-
cendo nós qual foi a paixão, que, por exemplo,
precipitou CEdipo em semelliantes desesperações,
c impossível que não cuidemos muito em nos
abstermos de uma temerária e cega curiosidade,
pois unia vez que se leia aquelle excellente dra-
ma, facilmente se conhece, que estas duas pai-
xões, mais do que o incesto e do que o parrici-
dio, forão a causa da desgraça de Uí.iipo. Desta
sorte ó que uma fabula trágica, com o disfarce
das allegorias, nos imprime na alma as proveito-
sas máximas da Ethica , assim nos forma para a
sociedade; assim nos dispõe para a virtude ; assim
nos ensina a obrarmos grandes acções ; a ser útil
.1 pátria, e á republica. Os heróes de Athenas, de
Thebas e de Koma talvez que sejio discípulos da
tragedia.
E com efieito que frutos não colheria uma
republica, se nos theatros se ensinassem as vir-
tudes, e as grandes acções? Bem sei que na nossa
í
4
+ ^
*íi
460
religião ha melhores cadeiras e escolas da Ethica.
Os pregadores evangélicos incontestavelmente fa-
rão sempre melhor progresso ; mas a depravação
"•^r dos costumes e dos caprichos dos homens, obsta
não poucas vezes a este santo projecto.
Um homem da corte raras vezes vai ouvir os
pregadores, sem a prevenção de que elles háo de
censurar-lhe o seu procedimento; e este pejo com
que olhão para elles, como para seus inimigos,
ou ao menos como para juizes severos, embaraça
notavelmente a persuasão.
Aos theatros concorre todo o mundo com a
idéa de que só vai divertir-se, e recrear-se. H se
*i il ° poeta tem a feliz arte de obrigar a que os es-
fm f^ pectadores se transportem com o movimento das
^ /> paixões, e neste transporte lhes inspira uma ma-
, ^' xima de boa Ethica, o triumpho é infallivel. As-
^-_ y' sim para um menino enfermo beber o remédio
«^ " se lhe costuma banhar com o mel a circumfe-
^ rcncia do copo. Os bons generaes usão muitas
^ n:
vezes de estratagemas. Não quero dizer nisto, que
_. se levantem theatros e que se desamparem os pul-
^- ^ pitos : hajâo umas, e outras aulas. Dev.i-se a
461
todas a boa educação da mocidade; a reforma
dos costumes ; as máximas da virtude ; o aborre-
cimento dos vicios ; o amor da pátria ; e gloria
da nação. ■^
Não c meu intento defender as tragedias ir-
regulares e monstruosas, aquellas em que sò reina
uma paixSo criminosa ; aquellas que ensinão o
adultério, a aleivosia e que atacâo vigorosamente
a castidade, que pintâo os Césares, os Brutos, os
Enéas, não como homens, mas como mancebos
affeminados e impertinentes amadores. Esta for-
midável peste, que depressa se derrama nâo só
pela corte, mas pela cidade ; esta tragedia ainda
que tem mais fautores, é certamente a que deve ) ,*
subir a sentença de PlatSo, a censura dos San- *>^
A- A
tos Padres, e a condemnaçâo dos Concílios. ^c— v
Te í*
íJâo me atrevo a cansar mais a vossa pacien- _i^ ww
cia : com argumentos t.ío triviaes acabareis de r^ . ^
conhecer a debilidade do meu discurso ; e per- J^ /^
mitta o nosso numen tutelar, que nâo desespe- <*
reis do meu adiantamento, que eu da minha parte, ^O Õ
para vos descobrir a sinceridade, com que me " 4^
sacrifico aos trabalhos académicos, vos confesso, çp f^
46»
que para obedecer-vcs me tenho feito plagiário,
nào fazendo nos meus discursos mais do que trans-
crever aquelles poucos autores, que a má for-
tuna, que me persegue, me não pôde arrancar
das mãos.
i
ir
DISSERTAÇÃO TERCEIRA r^
íobrc ser o principal preceito para formar um bom
poeta procurar c seguir somente a imitação Aos
melhores autores da aiitiguiJaJe (1).
jo vcrbum vcri o curabia roJdeie Hdu
Interpre,... .
lIoKAT., Al». l'oet.. V. 135.
Preclarissimos, amantissimos e sapientissimos i
Senhores, *,].:
Se assim como vós, 6 Árcades, desejais for- A' 'A
mar em mim um membro digno de tio illustre .r- ■>*
sociedade, quizcssc a fortuna dar a mão a meus
(i) lU-citada na Conferencia da Arcádia lusi-
tana no dia 7 de novembro de 1757.
Autorisado por Innocencio emendei proveito
para preceito na surania desta dissertaçSo. (Vide
"Diec. "Bihl,, art. GarçJo, pag. 391.)
^a
464
desejos, ajudando-me, ao menos, com a tranquil-
lidade, de qoe necessita quem escreve, poderia eu
de algum modo desempenhar vossa generosa elei-
ção, e assentar-me menos envergonhado em um
ÇÇ Ingâr, que por sorte do escrutinio tocava a um
de nossos melhores, e mais distinctos sócios. Sub-
stituir as vezes de um homem sábio, eloquente
e erudito, as vezes de um Elplno 1Z>onacriense {i),
não é pezo com que possSo meus hombros. Para
commetter tâo árdua empreza, necessitava de mais
brilhantes armas. Longo estado, profunda erudi-
ção, um vasto conhecimento dos autores mais
versados e de melhores tempos, uma natural ele-
gância e delicada pureza de linguagem, são pre-
dicados e talentos que não descubro em mim, e
os que sò me podião desculpar a confiança, com
que me sacrifiquei a tão di£Bcil empenho. A glo-
ria de obedecer-vos é a única, e feliz circumstan-
cia que me anima, e me promette a indulgência,
de que me fazia talvez indigno meu atrevimento.
Se não satisfaço, ao menos obedeço.
i
(i) O Sr. António Diniz da Cruz e Silva.
Entre as solidas máximas, com que Horácio
pretende formar iim bom poeta, não c, como vós
sabeis, menos importante a imitação. Kào fallo
da imitação da natureza, mas da imitação dos bons
autores, daquella imitação, á qual deve a Arcádia
sua grande reputação, e não pequena parte do-í
honrados elogios com que foi recebida de nossos
mais prudentes e doutos patricios, e que ha dj
espalhar seu nome pelas nações estrangeiras, liste
foi em todos os séculos e será em todas as id.>-
des o maior segredo de tão divina arte.
Os Gregos e os Latinos, que dia e noite não
devemos largar das mãos, estes soberbos origi-
naes, são a única fonte de que manão boas odes,
boas tragedias, e excellentes epopeias.
Este é o verdadeiro génio, a que o vulgo chama
veia poética e os doutos cnthusiasiiio.
Muito pode o espirito humano! Mas nunca terá
força para subir tão alto, se não fòr pela estrada
que trilharão os antigos poetas e oradores. Entre
nós, depois que acabarão os bons dias da poesia
portugucza, poucos forão os que penetrarão seme-
lhante mystcrio, de que são miseráveis testenr.:-
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nhãs as obras dos seiscentistas. Guardava o céo
para a Arcádia a honra e a vaidade de erguer esta
bandeira, e levar comsigo seus compatriotas. Hoje
todos desejão imitar os antigos, todos estudâo pe-
los Gregos, pelos Latinos e pelos nossos bons au-
tores : mas fugindo de Scylla, quantos vàrâo em
Charybdes?
Querem ser imitadores e nâo passâo de uns
humildes plagiários.
Para evitar tão depravado extremo, nos re-
commenda Horácio o modo, com que devem ser
imitados os antigos ; e ainda que neste lugar esta-
beleça outras regras para conseguirmos tio de-
sejado fim, a mim me pareceo, olhando para o vi-
cio mais commum, que devia escolher para as-
sumpto as poucas, mas importantes palavras, com
que tSo grande critico nos ensina a imitar, e nos
mostra o perigo, de que devemos fugir.
Muitos, querendo imitar Virgílio, fazem um.-i
m.d traducçio desta, ou daquella imagem de t:lo
grande poeta ; e escravos de snas palavras, não
passáo de traductores. Não imitão, roubão e des-
pedação as obras alheias: desfigurão o que lhes
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46^
agrndou, como se tomassem por emprc?a fazer-nos
aborrecer o que admiramos. Disto acha-se que eii-
fermâo tartos, quantas sSo as obras, que todos os
dias apparecem cheias de lugares dos poetas, não
imitados, mas servilmente traduzidos. É tio forte
a prtoccupação, de que nascem tão lastimosas des-
ordens que muitos com vaidade e com soberba
apontão, e mostrão os pensamentos, ou iJéas, que
roubarão, ou traduzirão.
Esta epidemia, que talvez reinava no tempo
de Horácio, Ibe deo razão para advertir aos poe-
tas dos vicios, de que devião fugir, quando qui-
zessem imitar, recommendando-lhes, que não tra-
duzissem palavra por palavra, como um fiel in-
terprete: r.ssim explicão este lugar os melhores
commentadorcs da sua Poética. E não sei com
que razão o tr.iductor portugiiez trabalha por mos-
trar, que Horácio nestas palavras d.i regras para
as traducçõcs. Julgo que a ninguém deixará de
parecer obvio e natural o sentido do texto, tâo
livre de amphibologia.
Todos sabem que Horácio, ainda quando pa-
rece passar de umas para otltras cousas, guarda
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4^8
o melhor methodo, e conserva o fio da sua dou-
trina. Dom, que nâo podia faltar em um tâo grande
lyrico acostumado ás digressões, que parecendo-
y^JL lhe alheias do assumpto, nascem delle, e o dei-
xio mais brilhante, magestoso e sublime,
Nao falta quem compare os poetas com os na-
vegantes. A agulha, que lhes mostra os rumos,
é a estrella que os guia, e leva a salvamento :
sem ella serião mais frequentes os naufrágios, e
nSo poucas vezes os que demandassem remotas
praias, nâo voltariâo com a feliz noticia de no-
vos continentes. O poeta, que não seguir aos an-
I 'igos, perderá de todo o norte, e não poderá já-
*^T/g mais alcançar aquella força, energia e magestade,
/• vv com que nos retratão o formoso e angélico sem-
*4'r> blante da natureza.
Devemos imitar e seguir os antigos : assim no-
lo ensina Horácio, no-lo dieta a razão, e o cou-
^ fessa todo o mundo litterario. Mas esta doutrina.
.,ci
^ / , este bom conselho, devemos abraça-lo, e segui-lo
2 S <!« modo, que mais pareça que o rejeitamos, isto
5^ ^ c, imitando, e não traduzindo. Os poetas, devem
^ i sor imitados nas f.bulas, nas imagens, nos pen-
469
samentos, no estylo ; mas quem imita, deve fazer
seu o que imita ; se imito a fabula, devo conser-
var a acção, ou alma da fabula ; mas devo variar
de forma os episódios, que pareça outra nova t ^'^^
minha : se imito as pinturas, não devo no meu
poema introduzir um Polyphemo ; mas do painel
deste gigante posso tirar as cores para um Ada-
mastor : se imito o estylo, não devo servir-me
das palavras dos antigos, mas achar na lingua-
gem portugueza termos equivalentes, enérgicos e
magestosos, sem torcer as phrases, nem adoptar
barharismos.
Olhando para a pratica dos Latinos e bons j
modernos, achamos religiosamente guardados estes j "
preceitos. Assim imita Virgílio a Homero na sua '^^
Eneida; assim imita a Theocrito na sua Bucólica.
• fft
Assim imitou Camões a Virgílio; António Fer- vi. ^
reira a Horácio ; Sophocles a Theocrito ; Bion a r\i.
Mosco. Todos conhecem o original que achou ^"
Ovídio em Huripedcs para formar a soberba pin- ^
tura do carro de Phaetonte ; nos conselhos com ç p Ò
que o pai encaminhou a resoluçSo do filho do *■ "^
cuidado com que se assusta, e da paternal mise- p f^
^
ricordia, com qne prantèa a desgraça do atrevido
mancebo. Quando em idade mais adulta observa-
mos mais attentamente estes formosos astros da
poesia, se nâo fosse irrefragavel a chronologia,
se nâo constasse da historia, poderiamos duvidar
d: quem era o original ; assim como tem hayido
quem ponha em problema, qual das duas nações
merece a primazia.
Se fallasse com homens menos instruídos, can-
sar»me-hia em confrontar as copias com os ori-
ginaes, os Latinos com os Gregos , os Portu-
guezes com uns e outros. Mas na presença de
Arcides nâo me atrevo a mostrar como cabedal
meu o que tem feito trivial a inundação de Poé-
ticas e Rhetoricas, que já cansâo o espirito mais
o"/"» ávido de erudição, e mais cobiçoso de sciencia.
iTí Pa
..'^' Nâo pareça qne levado desta doutrina, quero
^ dizer, do muito que Horácio e todos os bons cri-
-^ ticos recommendâo a imitação dos antigos, tiro
por consequência, que o poeta nâo deve dar uni
passo livre, e que nâo pôde adornar seus poemas
'^ t. com pinturas, de que nâo conheça originaes. Bem
<1
^ * será que nâo chegue a perdè-los de vista; mas
seguindo este rumo, pôde l.irgar as velas á su.i
fantasia, e voar ate descobrir novos mundos. Fe-
liz aquelle que não só imita, mas excede ao seu
original. Virgílio não poucas vezes cortou esta
palma, excedendo na concepção e energia a abun-
dância do poeta que imitava. Nas poucas palavras
deste hemestichio Jovis onínia plena, abrangeo as
circumstancias, com que Aracto descreve a om-
nipotência: outras vezes applicando e vestindo de
mais formosas cures a imagem que imitava, como
neste; verso- :
m
Olli dura quies óculos et ferrus nrgct
Somnus in aeiernam cl.iudioilur Inmhia nocleiíi,
nos quaes accrescentou magcstade á magestade
de Homero. Algumas vezes servindo-se dos orado-
res gregos, dava a seus pensamentos a luz e
pompa da poesia, como nestes versos :
Aut Juriis Ceei meus ejjera neqiiid inausuiii
Ant inlentatum scellerisve dolive fuisset :
que os críticos conhecem ser imitação de outra
J-
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semelhante sentença de Demosthenes, ou de Es
chinês.
Esta generosa liberdade concede Horácio aos
poetas, e tanto se não envergonha, que se jacta
de havê-la tomado, quando fallando dos imitado-
res servis, disse de si mesmo :
O' imilatores scrvum ptcus, ul mihi s.ipe
'Bilem, s.cfe jocum vesiri niovere íumultus
Libera per vacuuni posui vestigia priíiceps,
Non aliena meo prcssi pede ; qui sibi fidit
'Dum regit exanien.
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Solto de tâo pezada escravidão, imita o mesmo
Horácio o lyrico grego, sendo em muitos lu-
gares conhecidamente superior a Pindaro. Quan-
tas vezes a simples mudança de uma palavra afor-
mosèa um verso, de forma que parece nâo só
outro, mas fica na verdade melhor. E bem co-
nhecido o verso de Enripedes, que se lè em So-
phocles, sem mais differença que a de um vocá-
bulo ; mas tio diflferente, que nada tem Sophocles
que restituir a Euripedes, nem Euripedes que pe-
dir a Sophocles.
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473
Eis-aqui o que nâo penetrão a maior parte
dos nossos poetas, pois adorío com tal supersti-
ção seus antigos originaes, que querendo imita-
los, não tem valor para mudar uma syllaba,
quanto mais uma palavra.
Sobem pela estrada, que pizarão nossos bons
poetas; seguem as pizadas dos Latinos e dos Gre-
gos, mas tão cobardes e medrosos, que tarde, ou
nunca chegarão aonde elles subirão. Semelhan-
tes ao desgraçado caminhante, que em uma te-
nebrosa noite piza o caminho tão carregado de
■iusto, que finalmente tropeça, cahe, e se precipita.
O poeta é senhor da matéria de que trata :
se a invenção c toda sua, pôde forraa-la como
lhe parecer ; se a pedio emprestada a algum
dos antigos poetas, deve, quanto lhe fôr possí-
vel, reduzi-la a tão nova figura, que pareça ou-
tra, e que fique sendo sempre a mesma.
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ORAÇÃO PRIMEIRA
ím que ic Intima c pcrsiiii.le aos ^Árcades se inlc-
resscm cm cumprir as leis i!a Arcádia que crão
cmpcuhar-sc com todo o esforço nu restaura-
fào da eloquência e antiga poesia portuguesa (l).
Kobilissimos e sapieiuissimos Árcades,
Se a opuU-ncia di matéria pôde fertilizar a
idéa do orador, se lhe pôde dar força, energia
€ elegância para mover, para arrebatar, e para
persuadir, certo estou eu, ó Árcades, de que hoje
poderei com minha oraçio dominar vossos âni-
mos, ganhar vossa attenvão e benevolência.
Sois Árcades, sois Portuguezes. Falia comvos-
co um compatriota, e não pretende mais, do que
(i) Recitada na Conferencia da Arcádia lusitana
■no dia 8 de maio de 1758.
478
obrigar-vos a cumprir o que dispõe as leis da
Arcádia : o que exige a vossa honra, e o que se
deve á gloria da nação, do estado e do príncipe.
Já vejo que todos estais suspensos, e que tal-
vez nâo falta quem diga : que homem é este, que
sempre excogita para assumpto das suas orações
objectos fantásticos ? Que nos accusa de crimes,
que nós nâo commettemos, e que devendo apren-
der comnosco a orar, tem degenerado cm decla-
mador? Mas também eu, ó Árcades, vos pergun-
to : e se este declamador vos narrar factos in-
contestáveis, se produzir documentos authenticos,
se tratar de uma matéria per si mesma grande,
magnifica e capaz de levantar a reputação da Ar-
cádia, chamar-me-heis orador ?
Confessareis que tenho aprendido comvosco ?
Qiie vos imito 1 E que mereço ser admiitido a
fallar em vossa presença? Pois, Árcades, hoje nâo
qiiero senão mostrar-vos, que o pacifico e pros-
pero reinado do nosso clementíssimo soberano
está clamando, que cumpramos o que proniet-
temos ; quero dizer, que séria e inalteravelmente
nos appliqnemos com todas as nossas forças ao
.,*.í^^'-^fe»-® ,„„ „^|j,^,„
-jiiiii,ijiij
-♦♦- ■•«- ♦♦- ■♦♦• •♦♦• ••
479
honrado trabalho do restniirarmos a eloquência e
poesia portugueza. Som a fundação de uma Ar-
cádia feria impraticável o magnifico projecto de
restaurar estas duas divinas artes, artes em que
se apoia a duração da sociedade ; de que depende,
a memoria dos homens illustres ; e não poucas
vezes, a conservação da republica ; isto reconhe-
cerão os MeJicis, as Christinas, os Pedros Gran-
des, Luiz XIV, e D. João o V.
Que importa que entre uma congregação de
homens, ou bárbaros, ou ignorantes, haja um Ho-
mero, ou um Demosthenes ? Isto fará que re-
ligiosamente se guarde a pureza da linguagem,
a energia da dicção, ou verosimilidade de pensa-
mentos ? Persupdo-me que este homem será obri-
gado a calar-se, a esconder as suas obras, e a
suspirar no seu gabinete, emquanto o resto da
nação prostituo o credito de todos, divulgando
escritos de que os estrangeiros ou zombem, ou
se conipadeção.
Corre o tempo ; atoia-se a epidemia ; despre-
zão-se os bons autores ; não valo o exemplo d.i
antiguidade ; apaga-se a memoria da arte ; e fi-
i|Hi"""«l||l'i||li' I|n||l' l|l"ir""il||l'l|| ; 1- '
"''■'«^«í^íg^
nalmente se transforma o génio da nação. Se no
fim desta época apparecesse uma alma capaz de
atalhar o damno, acha já com tantas forças o
inimigo, que ainda que adquira a honra de ata-
ca-lo, raras vezes colhe os louros do triumpho.
Sâo tâo frequentes, e talvez tâo domésticos os
exemplos, que nâo devo respeita-los. Prouvera
Deos, ó Árcades, que ainda hoje em Portugal não
avultassem mais as ruinas deste geral destroço,
do que as miseráveis reliquias da restituída Lis-
boa. Sò uma academia, uma sociedade de homens
sábios, zelosos do bem, e da honra da sua pá-
tria, é o Alexandre qne pôde cortar este nó gor-
diano, é o Achilles de que pende a expugnação
de Tróia.
Vós mesmos, senhores, conhecestes a força desta
máxima; vòs a adoptastes; e vós a tendes feliz-
mente praticado. Mas não reparais, senhores, que
esta erapreza é trabalho de um rei sábio, de um
rei grande ? Nós podíamos soflfrer sobre nossos
hombros pezo tão formidável ? Mão, senhores :
a outro se deve a restauração da eloquência e
da poesia. Um soberano, que Deos creou para
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481
pai de seus vassallos ; um príncipe, que nós ama-
mos, e que nos ama ; um rei tão grande, que
não necessita de conquistas para fazer respeitado
seu augusto nome ; um génio clementissimo,
amante da paz e das sciencias : este foi o novo
astro, que influio tão gloriosa revolução no Por-
tugal litterario.
O' paz, santissiina paz, dom celestial : tu que
alTugentas os vicios, que conservas a religião,
que produzes a abundância, que defendes a hones-
tidade, que animas as artes e sciencias : ó paz,
a ti, santíssima paz, devemos o felicíssimo rei-
nado do amabilissimo Augusto portuguez : tu no-
lo conservas, tu fazes gozar da publica tranquil-
lidade, de que necessitão as sciencias e as artes.
Não vos pareça, ó Árcades, que um soberano
só protege as academias: mandou-lbe passar um
Alvará, e uma Provisão Régia. Talvez que esta
protecção nâo seja a mais efficaz. Enche de vai-
dade os membros da Academia; e honrados com
titulo, adormecem, desprez.ío a gloria, que só ad-
quirem com o trabalho, esquece-se a instituição,
e se se ajuntão, não se colhe de suas assembléas
61
■e.-^í^y^ttv gi
482
mais fruto do que o apparato. A verdadeira pro-
tecção consiste na tranquillidade publica, na paz
e na abundância.
Agora provar-vos-hei, ó Árcades, que deve-
mos esta venturosa situação á sabedoria do nosso
augustissimo soberano. Mostrarei que restaurou,
ou para melhor dizer, que fundou o commercio:
aquelle admirável apoio da monarchia, de que
pendem as forças da nação, a magnificência do
príncipe, e a reputação do estado: aquelle nego-
cio fundado na boa fé, e na verdade ; aquelle,
que liourão as leis , aquelle, que tem feito glo-
riosas, e florentes tantas monarchias. Deverei pro-
var, que este grande rei para sustentar o novo
commercio lhe franqueou os meios de formarem
tão importantes fundos ; que concedeo privilégios,
e que lhe deo navios.
Vós não sabeis, ó Árcades, para que se fun-
dou um tribunal de commercio. Qpem ignora a
severidade com que se prohibirão os contraban-
dos? E a magnificência com que se fundarão fa-
bricas '< Pois a que se dirigia todo este apparato !
Que desejava o coração deste amabilissimo prin-
r"iii"iii 'riii'"iii ;i
48,
cipe? Não era a nossa traiiqiiilli Jade, a publica
abundância e a segurança do estado ? E se fal-
tasse este apoio ás artes, e ás sciencias, quem
poderia restabelecê-las ? Qual seria o Alcides, que
vencesse este traballio ? Se ura piincipe impru-
dente, ou ambicioso, desejasse as províncias
alheias ; se para devasta-las, ou para possui-las
levantasse numerosos exércitos, lançasse pezados
tributos, fizesse innumernveis reclutas : se nos
estrugisse a artilberia : se nos incommodassem os
quartéis ; se nos algemassem os inimigos, quem
estudaria? Quaes serião nossos versos? Que força
teria a eloquência portugucza ?
Sem revolvermos muitos livros, fitando a nossa
contemplação unicamente na historia das letras,
acharemos com facilidade, que os bons séculos
nascerão nos braços da paz ; dur.irào, em quanto
durou a tranquillidade publica; e acabarão, tanto
que se arvorou o estandarte da guerra. Grécia,
Roma, Itália, França e Portu^'al ainda nos olVe-
recem em seus anuaes incontestáveis exemplos
dt-sta verdade. Quem fez cnmuidecer a lingua de
Cícero, senão quem destruio a paz, aquclla mesma
484
paz, que talvez se devia em grande parte à elo-
quência do orador. Finalmente, para que me canso
em amplificar o que vós sabeis, e uma matéria,
que para ser grande e magestosa, não necessita
nem dos adornos, nem dos auxílios da Rhetorica.
Mas, ò Árcades, se nós conhecemos esta ver-
dade, se nâo somos tão ingratos, que neguemos
este beneficio, para que nos esquecemos da nossa
obrigação? Q.ue esperamos? Que nos acobarda?
Q.ue nos prende? Não deixemos, senhores, não dei-
xemos passar inutilmente um tempo tão precioso:
agora, agora é que devemos honrar-nos de sermos
Árcades, de cumprirmos o que devemos a um prín-
cipe tão digno de ser honrado. É, Árcades, ú
tempo de lhe pagarmos tanto beneficio; nâo como
nós devemos, mas como nós podemos. Trabalhe-
mos seriamente em adiantar os progressos de tão
illnstres faculdades. Façamos tão glorioso, quanto
é feliz o século de D. José o I.
Aqui deveria eu propor-vos o methodo de con-
seguirmos esta empreza, e de verificarmos tão
soberbas esperanças ; mas eu fallo com Árcades,
fallo comvosco, que bem sabeis qual é a estrada,
485
<5ue devemos seguir par.i adiantar o progresso de
tão illustre sociedade.
Frequentar as asseniblc^s é sem duvida a pri-
meira pedra deste sumptuoso edifício; mas fre-
quentar sem methodo, e sem proveito, é deixar
a m.icliina sem alicerces. Qual sei i, ou qual de-
via ser este methodo, é matéria para que não
bastão as minhas forças. Depende de que todos
nos ajuntemos, Je que cada um com ingenuidade
firopouha o seu arbítrio, de que se tome a mais
prudente resolução ; e de que se observe cons-
tante e religiosamente o sj^stema, que sahir ap-
provado.
Mas para que me canso, ò Árcades ? Quem
dá ouvidos á oração do presidente? Ou quem 1'ie
■deo autoridade para deliberar? Basta fazer um
discurso em louvor da Academia; ou para melhor
dizer, basta engana-la com detestáveis lisonjas ;
não é este negocio tão sincero, que inereça mais
ponderação, do que sofirer um papel em prosa,
que sempre é fastidioso ; e muitos são de pare-
cer que se devem supprimir, pois não servem de
mais do que de f.izer compridas as lições.
.MM. I I Mi< !tu» iiIImIIi ilSJi Il'>.;ll HtuSl
Ah ! senhores, que violento furor, que ira, que
indignação me nSo possue, quando me lembro, que
estes pensamentos nascem entre homens sábios, en-
tre nós, entre Árcades ! Queremos restaurar a elo-
quência, e nâo podemos soffrer que se exercite !
Bastará ler Cícero, duintiliano e Aristóteles para
se formar um orador ? Sabe os nomes dos tropos,
e das figuras, sabe o que é exórdio, e pôde orar ?
E Cicero tremia, porque lhe faltava o exercício.
Perdoai, ó Árcades, esta liberdade, que é filha
do zelo, com que amo a vossa reputaçSo, e o
credito da nossa Arcádia: se quizerdes refrear o
meu atrevimento, vede que ó sincero e justo cum-
prir o que promettestes de ser útil á nação, fa-
zendo honra á pátria. A venturosa paz é o prin-
cipal, digno objecto ; pois nos conserva nosso
clementissimo rei. e por elle nos vem as felicida-
des de que gozamos, a tranqnillidade pública, os
presentes e futuros interesses para esta monar-
chia : tudo, Árcades, tudo isto argae, e vos obriga,
porque assim o promettestes ; e quem nJo dirá
não serdes obrigados a cumprir vossa palavra }
Disse.
ORAÇÃO SEGUNDA
íni que se ilccLinia contra a faliu de npplicação
dos Arcjdcs aos estudos, tiolaiido-os esquecidos
jà das leis da sua eniprc;^a, e obrigações dos
seus estatutos (i).
Amantissimos o sapiciitissinios Senhores,
Se as circumstancias do lugar, e a distincção
dos ouvintes podem assustar alguma vez o animo
do orador, que cobarde, que temeroso não ve-
nho hoje fallar na vossa presença ? Não houve
preceito que me obrigasse : não c a abundância,
que me desculpa : nem o cscrutinio, nem a vossa
eleição me nomearão presidente. Q.uera deixará
(i) Recitada na Conferencia da Arcádia lusi-
tana no dia 30 de junho de I7S9-
«..iijW^ijfetv »
4S8
de accusar a minha afFoiteza, e o meu atrevi-
mento ?
Parece-me, que ainda que a modéstia, que go-
verna as vossas acções, vos obriga a dardes-nie
attenção, não se livrará de estranhar a vossa idéa
que um. homem destituido de todos os talentos,
e tâo pouco versado em matérias de eloquência,
nâo tenha pejo de frequentar uma cadeira, em
que desmaiariâo os Ciceros, e os Demosthenes.
E quanto será mais pezada vossa reprehensâo,
se souberdes, ó Árcades, quem venho substituir ?
Confesso-vos, senhores, que esta reflexão me
envergonha, e me confunde. O profundo conhe-
cimento da arte de orar ; a. pureza e energia
da phrase ; a sublimidade dos pensamentos ; a boa
ordem ; a vasta erudiçáo do nosso sábio pastor
Matalezio Klasmeno, nilo slo estes talentos umas
das mais solidas columnas, em que se apoia, e
em que descansa a gloria, e a honra da Arcá-
dia? E se eu tenho que supprir a falta deste fa-
moso pastor ; se yoluntariamente tomei sobre
meus hombros este formidável pezo, como poderei
consegui-lo ? Quem deixará de estranha-lo ? Ou
489
qual de vós será tão indulgente, que se abstenha
de reprehender-me ? Assim c, ò Árcades.
Mas se a impoitancia da matéria pôde, de al-
gum modo, relevar a baixeza do estylo, a falta
de disposição e do veliemcncia, procurando assim
com minha oração iuteressar-vos no adiantamento
da reputação da Arcádia ; se vos descobrir o ca-
minho, que deveis trilhar para alcançardes maior
nome (se é possivcl) e mais honrada fama, por-
que me não ouvireis? Quantas vezes não vemos
nós em inexpertos praticantes governarem com
felicidade o mesmo leme, que tocaria os cacho-
pos na mão dos mais famosos pilotos ?
Logo que fundamos esta nossa sociedade, me
interessei tanto nos seus progressos, como se a
causa fosse só minha. Trabalhei comvosco quanto
o permettir.ão minhas débeis forças, tentamos
aquelles caminhos, que nossos compatriotas ou
desprezavão, ou não conheciio. Fizemo-nos fa-
mosos, conseguimos que o Menalo seja nomeado
com admiração e com respeito : que se leião, que
se busquem, e que se estimem nossas obras.
Assim é, ó Árcades ; mas seja me licito pergun-
490
tar-vos : e está assim satisfeita a nossa obriga-
ção í Não era o nosso projecto restabelecer a boa
poesia e a verdadeira eloquência pelo meio da
mais severa critica "í A invençSo da nossa em-
preza está verificada ? Teve já a sua devida ob-
servância entre nós ? Sujeitamos á critica nossos
escritos sem aborrecermos nossos censores? Reina
entre nòs aquella sinceridade com que reciproca-
mente devemos despir-nos de paixões particulares,
e sacrificarmo-nos e nossos estudos á cansa com-
mnra, á honrada pátria e á gloria da Academia?
Não sou eu, 6 Árcades, tão lisonjeiro, que
me atreva a dizer-vos, que está completo este
grande projecto, que pelejamos, e que vencemos.
Não, senhores, antes sinceramente vos confesso,
que não levantando nunca de semelhante ponto
a minha contemplação, cheguei a persuadir-me,
que um certo espirito de vaidade, uma quasi in-
vencível negligencia, uma certa cobardia, que nos
ata e que nos prende, nos precipita a cahirmos
em reprehensivel lethargo e reiterados absurdos,
Parece-me que temos mas mãos a planta de
uma populosa cidade , que abrimos n'uma parte
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491
um profundo alicerse, que levantamos na outra
uma soberba columna. Está cortada a pedra para
a grande obra : não faltão os obreiros ; e talvez
sobejem os architectos ; mas apezar de todo este
magnifico apparato a cidade não pôde alojar os
habitantes de uma aldeia ! E quem susterá o riso,
vendo este ridiculo painel ? Chamar-me-heis in-
solente, porque vò-lo ponho diante de vossos olhos?
Assim o julgaria a malicia ou a desconfiança, se
eu não apparecesse na scena, se não fosse actor
da tragedia.
Permitti-me, senhores, que discorrendo em tão
importante matéria, possa fallar livremente, possa
dizer o que entendo. O projecto do estabeleci-
mento da Arcádia foi grande, foi magestoso, foi
útil c era necessário. Os estatutos, com que ella
se fundou erão sólidos, apoiados na razão e na
prudência, e concernentes ao glorioso fim, a que
se dirigio o nosso trabalho e a nossa esperança.
Os ânimos estavão dispostos ou ao menos os sem
blantcs : chegou a desejada occasiSo, mudarão-se
os bastidores, desapparcceo a sinceridade, con-
fundio-se a boa ordem, enchemo-nos de nm ter-
492
ror pânico, nJo pudemos soffrer a critica ; apodc-
rou-se de nós a soberba, cresceo o ódio, e se não
se reformasse a lei, já então ficaria despovoada a
Arcádia, o Menalo sem pastores, e nós em vez
de amigos e de companheiros, jurados inimigos
uns dos outros.
Que fatal exemplo da inconstância e da fragi-
lidade dos homens ! Serenou-se a tempestade, fi-
cámos contentes e satisfeitos ; porque ficámos
com liberdade de chamarmos bom ao que era
máo: livres da custosa obrigação de discernirmos
o falso do verdadeiro, senhores absolutos do Par-
naso, com a amplissima faculdade de infringir-
mos, cassarmos, ou derogarmos as mais preciosas
leis da poética e a rhetorica.
E que fizemos? Clamávamos contra os miserá-
veis seiscentistas, contra o mão gosto da nação:
chorávamos pelos bemavcnturados dias de Camões,
de Bernardes e de Ferreira: comprávamos a todo o
custo as suas obras, como que fosse o mesmo tê-
las, que imita-las. Entramos a chamar ode ao que
era idylio, idylio ao que era satyra, satyra ao que
era dithyrambo: n'unia palavra, corria com passos
49}
tão accelerados a nossa decadência, que já pa-
recia inevitável a ultima ruina, ou ao menos se
deveria julgar impossível o remédio destes damnos.
Aquelles pomposos desígnios de domar o gé-
nio da nação, fazendo que a critica fosse reci-
bida como conselho, e nío como offcnsa, aquella
magnifica idóa de banir da poesia portugueza o
inútil adorno de palavras empcUadas; conceitos
estudados ; frequentes antitheses; metaplioras exor-
bitantes, e hyperboles sem modo , introduzindo
em nossos versos o delicioso e apetecido ar da
nobre simplicidade, foião os dois poios que pri-
meiro perdemos de vista. Erguerão a cabeça es-
ses mesmos vicios, que promettiamos e juráva-
mos reformar, ou reprimir, ficando tolerados ou
por inércia, ou por cobardia, ao mesmo passo que
o podão pintado em o nosso escudo ameaçava
ou tazia rir aos estranhos (i).
Não vos pareça, ó Árcades, que debaixo des-
tas palavras em lugar ile um verdadeiro zelo,
(l) Allude as armas da Arcádia, um podão
com a seguinte legend i : Inincal inutilia (Vide
TiiEOi-iiiLO Braga, ViCiin. tia hist. da litl. porl.).
illliilll 1I11.1IIJ .rlliiiill
Illii!" illinlll «niiiíllj
■**■*■ ■■■■'■*■ _._j|ii*--*- . '■'■■^ '■'■'■
494
que me move, e qne me atormenta, se encobre on
o veneno da satyra, ou uma simulada maledi-
cência.
Nâo, senhores, sou eu o primeiro que, apezar
destas desordens, conheço, admiro e divulgo as
rarissimas bellezas poéticas, que brilhâo em nos-
sos escritores ; os sublimes talentos, de que sois
dotados: confesso sem o menor espirito de adula-
ç5o, que muitas de vossas composições podem dar
aos nossos contemporâneos uma clara idéa da boa
poesia e da verdadeira eloquência; mas isto, se-
nhores, nâo b.ista; nós promettemcs mais, nâo nos
ajuntamos para as cousas ficarem no seu antigo
estado. Serdes vós grandes poetas, e grandes ora-
dores, e ser eu medíocre em quelquer destas duas
f.icnldades,cum phenomeno, que appareceria, ainda
que nâo houveste Arcádia; e talvez que menos
injuriosa me seria a minha ignorância, se livre de
funções da Academia, deixasse de expor ao pu-
blico a minha incapacidade.
Desta lastimosa falta, que eu lamento, e de
que talvez se queixar.ío, outra nasce, e é. Árca-
des, da reprehensivel indolência, que reina entre
nós. Entregues a uma vergonhosa íiidiffercnça, dei-
xamos passar os dias como se não tivéssemos
mais que fazer, como se iios não obrigássemos
a mais louvável trabalho, como se não houvésse-
mos de dar conta ao publico do tempo, que con-
sumimos inutilmente, ou como se elle se pagasse
de puerilidades, ou se governasse pelos mesmos
respeitos, que nos arrasiâo e nos constrangem
a commettermos estes abusos.
Se eu clamar, que approvei este, ou aquelle
poema porque era do meu amigo, ficará descul-
pado o .lutor? Haverá homem prudente, que ap-
prove o meu froxo procedimento? Se eu não quiz
sujeitar á censura os meus escriptos, porque cheio
de amor próprio e de soberba, julguei que não
havia na Arcádia quem devesse ter o atrevimento
de censurar-me haverá quem se não ria de mim?
Será b.istante apologia divulgar que ninguém na
Arcádia faz melhores os versos do que cu ? Não
acharei quem me responda, que dahi o que se
segue é que todos somos péssimos poetas ? Cer-
tamente, que estes presagios não é preciso conhe-
cer as estrellas, para poder annuncía-los.
i(jpi«..M|pii,]ili-~'fq]l"lj;;i"""ii;;i'.I|rn™njiji";||F«'^lpii|IP>'-«()j^^^^ Il[r'j;ií 'lúí'
illlri il1ii!:!ti. dii:'!v hJl .il!:::'!li...w-)lltiilllh.,.„.iillhrillii.™-iflii.(!l !l;.t''i \^'vhv,..A'.'^ llli''' !'!li
496
A experiência acaba de mostrar-nos, que se o
uso da critica se tivesse conservado em seu vi-
gor, seriâo dignos de honra e de louvor os pro-
gressos da Arcádia. Quem foi tSo bárbaro, que
deixasse de estimar, que o coUegio censório esti-
vesse potente para rever, e purificar as obras, que
queremos imprimir? XSo ficamos desenganados de
que a censura nâo era o patíbulo; e que em vez
de infâmia, resultava delia maior credito a quem
por este meio dava aos sens escriptos o ultimo
verniz? ReprovAr3o-me a minha composição, e
que injuria me fizerão? Jurárâo-me de ser eter-
namente a fabula do povo, e de ter nos exem-
plares da coUecçao um espectro, que me vexasse,
que me perseguisse e que me atormentasse.
Advertirão-me, como amigos, e entre os estra-
nhos acharia cruéis e innnmeraveis Rhadamantos.
Cahiria sobre mim a formidável chusma de es-
píritos insolentes, e ociosos, que se cevâo e pa-
rece que se nutrem de criticar, ou para melhor
dizer, motejar e detrahir quanto se escreve, que
nJo perdoão uma virgula, e que sabem de cór
as regras da grammatica e da ortographia: aquel-
les, que tem na sua mão a craveira dos juízos,
e que só approvão as obras de seus amigos.
Estareis talvez persuadidos, de que estou sa-
tisfeito de mostrar-vos, que a critica é o único
meio, que temos de conseguir, que cheguem i
posteridade nossos escritos, e que frequentando
mais as censuras, poderemos atalhar estas desor-
dens e avançar a nossa reputação. Mas eu ainda
clho para mais longe ; ainda vos peço maior re-
:'òrma. Não basta criticar o que se faz, é pre-
ciso ensinar o que se ha de fazer.
Sim, sapientissimos Árcades, é preciso que nos
appliquemos com niethodo, e com frequência a
explicar as regras mais difiicultosas da poesia, e
da rhetorica, de sorte, que qualquer de nossos
sócios possa conceber uma clara idéa destas fa-
culdades, e seguir uma uniforme doutrina. De-
vemos empenhar-nos em que brilhe geralmente
nas composições de nossos pastores a mesma pu-
reza da lingLia, e a mesma graça de estylo, a
mesma magnificência de imagens, a mesma perfei-
ç.io d'arte; n'uma palavra, O mesmo gosto, e até,
se possivel fosse, o mesmo génio. EntJo seria útil
498
a Academia, eutão poderíamos jactar-nos de ser-
mos os fundadores de tio sumptuoso edifício, en-
tSo confessarião nossos compatriotas que fazía-
mos o século do nosso adorado e clementíssimo
soberano mais distíncto, e mais famoso do que o
de Augusto, de Pedro Grande e de Luiz XIV.
Para conseguirmos este glorioso fim, nâo será
preciso qne cada um de nós componha uma poé-
tica, ou uma rhetorica : as mesmas dissertações,
que os árbitros repetem nas conferencias, e a ora-
çSo do presidente, havendo a providencia de lhe
ter distribuído a matéria por pontos ou questões,
que tenbâo connexSo umas com as outras, po-
derão condnzir-nos tâo longe sem que cheguemos
cansados, ou que desmaiemos no caminho. O fruto,
que se deve esperar deste trabalho, é certamente
inestimável, e eu vos prometto que chegueis a
colhê-lo, se approvando o meu arbítrio, nos le-
vantarmos do vergonhoso lethargo, em que ja-
zíamos.
Kâo creio que haja entre nos quem me pre-
tenda reclamar a liberdade, com que foi fundada
esta Academia : circumstancia, com que onvi já
®-iíí^!(^>>5.ei
' iii"iiii"iii
.t[lhilllllllllll.,..,m~,lllMlllulllln„
Nllll .i.iiH IIINiIliriillll m niMinimililJII uj.i.KUl Mlllillllt i [
499
quali6car a sua excellencia, ou talvez arrogar-
Ihe a primazia. Quem não vc quanto ê mais útil
e proveitoso tratar com methodo eíta, ou aquella
faculdade, do que hoje disputar sobre a tragedia,
amanha sobre a historia, depois tratar das éclo-
gas, e logo de questões de orador ? Que mais po-
deria fazer quem tivesse o malvado desígnio de
atormentar a memoria, e o juizo dos ouvintes ?
O agrado que traz comsigo a variedade, e que
tem já passado a axioma, é a perniciosa origem
de que nascem estas desordens. E que terríveis
damnos não tem ella csusaJo na republica das
lettras? Com tão cxquisita doutrina se resolverio
poet.is dramáticos a misturar o sòcco com o co-
thurno : foi o berço da tragi-comedia, dos acrós-
ticos e dos labyrinthos, verdadeiros monstros, a
que bem podemos chamar sonhos de um doente.
H que estes vicios reinassem entre o vulgo,
que fossem sustentados por medíocres poetas, ou
para melhor dizer, espúrios trovadores, não me
admirara ; mas que uma companhia de homens
doutos, que SC levantou para restaurar o bom gosta,
haja de adoptar os mesmos dogmas, e que não
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trabalhe quanto pôde, e como deve para conse-
guir o que prometteo, é o mesmo que abrirera-
se os montes, e sahir um ridiculo ratinho. Que
general será são louco, que emprenda tomar uma
praça sem dispor o sitio, formar as linhas, mon-
tar as baterias, avançar os aproches, bater a bre-
cha, e escalar as muralhas ; bastará dizer que vai
render Bergabzum? Haverá quem o creia, vendo
que o exercito á vista dos muros ameaçados, con-
some os dias em jogos e banquetes? Que reina
no campo um profundo socego, como se estives-
sem em segura paz ; e que apenas ha quem se
lembre do projecto?
Nâo adormeçamos, ò Árcades, ao som de uma
aura popular, que hoje nos levanta ás estreitas,
e amanh2 nos ha de precipitar no abysmo, sendo
a primeira, que cruelmente devore a nossa re-
putação. Estes applausos são nuvens, que qual-
quer zephyro as dissipa. Cuidemos estabelecer a
nossa memoria em mais solidas columnas, que
resistindo á força do tempo, possão transmiti-las
á posteridade. Que proveito me resulta de que
ou por ignorância, ou por ceremonia, gabem ílI-
501
giima composição minha, se eu mesmo ftgit.ido de
uma espécie lie recurso, descorfio dos applausos,
e sinto as dores de que anda achacado o papel ?
Evitemos este dissabor com o remédio da cri-
tica; e para que haja tempo, em que nem delia
necessitemos, tratai de formar um systema de
bom gosto pelas mais irrcfiagaveis regras da poe-
sia, e da eloquência. lUustrem-sc os Aristóteles,
os Dcr.osihenes, os Longinos, os Horacios, os
Ciceros e os Quintillianos : seja este nosso tra-
balho e nossa occupaç.io. Ponhamos em mais
socego as musas : deixemo-las restaurar as forças,
que estSo cansadas de tão continuas tarefas. Ap-
pareção depois mais fortes, mais engraçadas, e
mais dignas de assistirem com novo alento á som-
bra dos pinheiros do Mi;nalo.
Kis aqui, ò Árcades, as idéas, que ha muito
revolvo na memoria ; até que instigado do zelo,
com que estimo a vossa reputação soube guardar
em segredo, persuadindo-me que era culpável um
silencio de que resultava tanto prejuízo á gloria
commum desta sociedade. Dar-me-heí por bem pago
do meu desejo, ou por absoluto da minha auda-
I|i"ll;t Ilinilli 'ii|l"l;|( rt|||iiiit "nitHMiii "i[]|i^||i ]j;i)i]n ;iiii|;
..allli.lllli Illnllh lliA...><*.l»».:.. :ll|i,:l! lult HhiH trl
eia, se for tâo feliz, que chegue a ver, que vós,
compadecidos da minha incapacidade, entrais no
projecto de instruir-me, e que o publico reconhe-
cendo que cumpris o que promettestes, vos honre
com os soberbos titulos de bons compatrícias, de
verdadeiros sábios, de restauradores do credito e glo-
ria da nação.
"(Psi^jfej^ffljjpsi"'
i,iiii„iiiiiiiiiii— .miii||||ii|||i,i|||
,.,.llh!h:!llli:..„.. illllnlIÍUlI
ORAÇÃO TERCEIRA
cm que se persuade os bem devidos louvores do nosso
soberano, sempre augusto c fidelíssimo (1).
Confesso-vos, illustrissimos, sapientissimos e
amabilissimos senhores, que eu me vejo confuso,
perplexo, e clieio de temor, todas as vezes, que
tenho que discorrer na vossa presença. Conheço,
que vós me puzestes neste lugar não só para
sondardes a minha insuflíciencia, mas também
para me promoverdes a maiores estudos. Sei qual
c para comigo a vossa indulgência; que descul-
pais os meus erros, e que me haveis acudir com
as vossas lições. Tudo isto sei, tudo vos agra-
deço ; mus nada disto c bastante para vencer o
meu justo receio: nada disto apaga a vehemente
(i) Recitada na Conferencia da Arcádia lusi-
tana no dia 4 de março de 1763.
T ^ !1 ^ 3 > 3 > '3 / .? _>
S04
idéa, que tenho concebido da vossa erudição, dos
vossos raríssimos talentos. Vejo-me na presença
dos melhores oradores, dos melhores philosophos,
dos melhores criticos : n'uma palavra, na vossa
presença.
Que posso eu dizer, que seja digno de uma
assembléa tào conspícua ? Nâo, senhores, recitai
as vossas composições, e contentai-vos de que
eu as escute, que nâo farei pouco se comprehen-
der bem todas as maravilhosas bellezas de vosso
elegante, enérgico e magestoso estylo.
Se o vosso projecto é reformar a poesia, pu-
rificar a língua portugueza, restaurar a arte de
orar ; estabelecer um systema de bom gosto, pelo
meio de uma prudente critica, com que pódc
contribuir para tâo glorioso fim o meu fraco dis-
curso, o meu depravado gosto, e o meu grosseiro
estylo ?
Mas se emfim, senhores, é indispensável que
eu cumpra as obrigações deste lugar; se nâo c
licito subtrahir-me ao cargo de fallar hoje na
vossa presença ; se devo dizer alguma cousa, que
seja digna da vossa attenção, resolvo-me a mi-
«l^iíí^^ííj.® ^
íí,(;ÇT!!I!^iÍjÍiiC!!!!!!!Ímii'iiíí,iiiC!!!!!!!iií^ i\<w:'u\\ i i
505
nistrar-vos matéria para vossas composições. Corra
por vossa conta o revesti-la de sublimidade de pen-
samentos, de energia de dicção, e de boa eco-
nomia da fabula, que exige a grandeza do as-
sumpto.
T;ndo nós a felicidade de vi% ermos debaixo
de um governo o mais benigno, que tem desfru-
tado o reino de Portugal, não seria, amabilissimos
sócios, feia a nossa memoria, se com ella não
passasse á posteridade a noticia, de que não de-
generando da filiação portugueza, tinhamos, para
mostrar-nos agradecidos, trabalhado por fazer
eternas as grandes acções, as heróicas virtudes
de nosso clemenlissimo soberano.
Q.ue dirião os vindouros, se lessem nas nos-
sas décadas, que em Lisboa se tinha fundado
uma academia, que erao Portuguezes os membros
delia, que estava em ditosa paz o reino todo ;
que a justiça brilhava incorrupta ; que não si;
tolerava o vicio ; que se estimava a virtude ;
que florescia o comniercio ; que se conservavão
as conquistas (ou para melhor dizer); que rei-
nava o augusto, o pio, o fidelíssimo Senhor
64
506
D. José I ? E que os Árcades se esquecerão de
cantar estas virtudes ? Que dedicarão as suas
composições, e os seus estudos a objectos menos
dignos, e menos magestosos ? Q.ue horrorosa con-
jectura ! Que infâmia para os nossos nomes, se
os vissemos accusados de tio enorme ingratidJo!
Eu me envergonho só com a primeira idéi :
gcla-se-me o sangue, estremeço, parece-me que
foge o tempo ; que chegão os séculos futuros, e
que ouço detestar tâo abominável tradição. Per-
doai-me, senhores, esta distracção ; se aqui ha
enthusiasmo, é a força da verdade, que me toca
o coração, que me sorprende, que me arrebata.
E bem vulgar o axioma, de que os bens não
são desejados, senão quando se perdem. Vivemos
no centro da paz : nio conhecemos a nossa fe-
licidade. Talvez que os soldados se queixem de
não haver guerra : talvez que o piloto murmure,
de que não saião armadas, Chamão a isto não
sermos conhecidos no mundo. Lembrâo-se das
expedições, que nos ganharão tantas conquistas.
Trazem sempre na memoria o campo de Ourique,
Aljubarrota, as Linhas de Elvas ; mas não com-
«•^ -<«?•"">■)>.; '
^s>.-<í^líõ!fcí>.«;^ ^ ^^^^ ^ _^
"'" ' ' ' ' 's^síií^igjí»*!
507
putâo a despeza de uma longa guerra ; o sangue
qua custa qualquer victoria ; os incommodos de
uma contribuição ; .1 violência das reclutas ; e
as feias consequências da licença militar.
Póde-se interprender com justiça uma guerra:
póde-se avançar o exercito com vantagens: tudo
pende da fatalidade de um dia : pôde ser obri-
gado a retirar-se precipitadamente: podíamos ver
a nossa capita! cercada de tropas inimigas. En-
tão tudo seria espanto, tudo confusão : todos de-
testariJo a guerra, e chorarião pela paz : se fi-
tarmos a consideração em uma scena tão funesta,
se virmos alijar as bombas ; cahir os edifícios ;
atear-se um voracíssimo incêndio ; derraniarem-se
pelas ruas as aíilictas mais com os innocentes
filhos, espavoridos do estrondo da artilheria ; as
donzellas desamp iradas, cobertas de pó e de san-
gue ; os cansados velhos não podendo fugir : fi-
nalmente, os nossos esquadrões atropelando os
seus mesmos compatriotas; os soldados inimigos...
Basta, senhores ; não c preciso mais ; levan-
temos, os olhos para o nosso clementíssimo rei,
para aquelle astro de paz, de abundância, que
nos livra de tantas calamidades. Que odes, que
versos n3o merece ? E se o soffrèra a nossa re-
ligião, que hymnos lhe não cantaríamos? Que
altares lhe não ergueriamos ? Não os merecia
mais Augusto ; nem Horácio tinha mais razão
para jurar pelo seu nome.
Se quem tem um largo conhecimento da ma-
téria, que pretende expor nos seus poemas, lhe
não falta a energia, nem a elegância: quem de-
sejará cantar as reaes virtudes de utn tão grande
rei, que não tenha fertilidade na fantazia, graça
nas palavras, e força nos pensamentos? Que falta
pois, nobilíssimos sócios, senão principiar ? E que
vos demora ?
Talvez com profundo respeito receais que no
augusto coração não sejão bera recebidos os vos-
sos louvores? Dizeis-me, que entre as grandes
virtudes deste bom principe brilha a modéstia :
que é ella a que aparta do throno a infame
adulação. Assim é ; mas a verdade, a verdade é
que domina naquella grande alma.
Se nós para louvarmos o nosso soberano nos
fosse preciso tecer elogios mentirosos, invectivas
coutra os vicios, seria justo o nosso receio. Mas
cantar virtudes verdadeiras, acções notoriamente
grandes ; effeitos da clemência, da justiça, da
generosidade, não pôde deixar de ser uma acção
bem acceita daquelle animo justo, que nâo cos-
tuma deixar a virtude sem premio.
Ha poucos tempos, que a Divina Providencia,
quiz que os Portuguezes sofiVessem os golpes de
um horroroso fl.igello. Cliegou o grande instante :
revolveo-se o pavimento da cidade : cahirão com
feio estampido as torres, os templos e os palácios.
Tudo forâo lagrimas, tudo espanto, tudo confu-
são ! Q.ue memorável dia ! Sahinios das ruinas
das nossas casas, deixando alli tudo quanto é
necessário para a commodidade da subsistência da
vida. Refuginnio-nos no campo e insensivelmente
se nos foi apresentando tudo quanto podia re-
mediar-nos e ajudar o nosso novo estabelecimento.
Que impulsos de compaixão, de clemência não
movèrã) o augusto coração de um bom rei,
quando poz os olhos na calamidade pública ! Que
ordens, que determinações iiâo sahirâo daquella
grande alma em soccorro dos aíHigidos Portu-
,-.tMl».«.ini.l'hw.''IIln:|Il AA- ,.rti;
510
guezes ! Grande rei ! Rei sábio ! Rei pacifico !
Rei clemente !
Q.ue mais heróico assumpto, amabilissimos
sócios ! Certamente que nâo teve Horácio, nem
Virgilio outro tão clieio de verdades maravilho-
sas, nem tio susceptível de bellezas poéticas I
K3o é menos digna de elogios a sabia eleiçSo,
que este monarca faz de seus ministros. Que
excellentes poesias se nSo podem compor, que-
rendo mostrar o augmento do commercio ! A nova
economia das conquistas ! O grande projecto do
estabelecimento das fabricas ! A disciplina das
tropas ! As lei; que quotidian.imente se cstSo
promulgando, dirigidas todas a refrear os vícios
que fomenta o espirito da ambiçSo, ou do liti-
gio ! Elias sói farSo novo codi[;o, que será o
fasto da historia portugueza, em que melhor se
veja, nâo sem admiraçio, « felicidade que tive-
mos os que vivemos debaixo de um tSo feliz
governo, e sábio ministério.
Sim, senhores, eu estou já vendo que nos
vossos corações faz uma notável impressão este
discurso, já estais resolutos a sacrificar todas as
511
vossas forças a tio honroso trabalho. Parece-
nie que j.í estou ouvindo as singulares compo-
sições, com que mostrais bem recebido o meu
arhitrio.
Se a soberba dos Romanos edificou o Capi-
tólio : se fez deste edifício o sacrário da heroici-
dule só para ser agradecido aos valorosos capi-
tães, que conservarão por longo tempo a feli-
cidade da republici, c a gloria de nação; nós
que podemos levantar estatuas mais Juráveis aos
nossos heróos, isto c, que podemos fazer eternas
as grandes acções transmittindo-as á posteri-
dade nos nossos escritos, com que inércia os
deixaremos sepultados em um ingrato esqueci-
mento ? Se de justiça devemos este obsequio, se
c acrédor delle ura rei o mais amável, o mais
clemente, que nos ata ? que nos demora ?
Tem tanta força a justiça desta causa, que a
mim me parece que já nos vossos semblantes
descubro algum gesto, que me repreheiíde.
A verdade não precisa de defensores. Vós,
melhor do que eu, conheceis, e observais este
magnifico assumpto. Ha muito que premeditais
-WWT
»»¥ ^
(S^í^i^Va'
5Í2
expõ-lo ao mundo nos vossos elegantes poemas.
Não foi ingratidão, nSo foi descuido, se tardastes
em intentar a grande obra. Quizestes delinea-la
com prudência, fundando-a nas solidas bases da
verdade, mas a modéstia vos deteve os passos,
não pensando que a Divina Providencia nnnca
tira dos thesouros da sua bondade as grandes
almas, que fazem felices os povos, que são as
delicias da sua nação ; sem formar espíritos ca-
pazes de serem panegyristas de suas illnstres
acções, não devíamos conhecer um príncipe tão
benemérito, sem tão excellentes poetas.
Não houve Achilles sem Homero, nem Augusto
sem Virgílio.
ORAÇÃ.O QUARTA
ti)! que Imta ãc conciliar a seu javor as vonla.ics
dos Árcades contra falsas apreciações que se
haiiào levantado (1).
. . . IMimntst lia.c ultio,.,uod «o jiidiro nomo norcns abeolvitur....
Kx JuvcsiL, Satir. 13.
Não creio, 6 Árcades, que em vossos corações
s.' pervertesse a antiga sinceridade de costumes
com tio violenta metamorphose, que para recon-
ciliar-me comvosco me seja preciso cantar a p.i-
Hnodia. Vós estais offendidos ? Eu ultrajei-vos ?
Haverá entre nós algum espirito tSo escravo d.i
(i) Kstn oração não vem numerada, nem traz
a sumnia do assumpto e tão pouco a data em
que foi recitada, na edição de 1778. Impressa de-
pois da terceira, dci-lhe naturalmente a nuniera-
ção seguinte, adoptando o sumraario de Innocen-
cio. (Vid. 'Dicc. hihl., artigo Garção, pag. 591.)
*^^ ^^^ ww^ ^^w ' www "yr^ w^
*^- AAA ^ ^*A^*^T^*^'^*^^T*. Vt*.^^^**.*.V^^*^^'.
S«4
vangloria, que não possa, nem se atreva a sof-
f rer a verdade í Chamar-me-heis atrevido, porque
son zeloso da honra, e do credito da Arcádia }
Porque nâo sei lisonjear-vos cora fantásticas es-
peranças; porque vos nâo attribuo, se possivel
é, maior merecimento do que o vosso ? Ou final-
mente porque nâo me atrevo a divulgar com
soberba jactância, que restaurámos a boa poesia
e a verdadeira eloquência ? Que peleijamos, e
que vencemos?
Nâo, Árcades, nâo sou tâo ingrato, que vos
julgue destituidos de piedade, e de benevolência.
Tenho reiteradas provas de que sois indulgentes
para comigo ; e se em minhas obras ha algum
sólido merecimento, a quem devo esta vantagem
senão a vós, ás vossas lições, e ao vosso exemplo ?
Mas, como aáo ha juiz mais recto, do que a
própria consciência ; como nâo ha mais intolera-
rel castigo, do que o remorso, eu sou o mesmo
que me accuso, e me condemno.
Confesso-vos, ò Árcades, que foi indiscreto o
zelo, com que me atrevi a imputar-vos um crime,
que vós nâo tínheis commettido , um tâo ver-
51 5
gonhoso, como seria faltardes á vossa palavra ;
csquecer-vos da gloria da na^âo, e desprezar os
interesses da pátria. Estas erâo as funestas con-
sequências, que traria consigo qualquer desunião,
que se levantasse entre nós. Ou se possuidos de
mais atrevidos desejos, desamparássemos o Me-
nalo, porque o julgávamos pequeno theatro para
nossos accelerados progressos.
K quando eu via que os Árcades desejavão,
que se não demorassem as sessões, que se não
negasse ao público o gosto de ler os nossos
esiíritos ; quando via crescer o numero dos
pastores do Menalo ; quando achava de cada
vez maiores, e mais extraordinárias bellezas
poéticas cm vossos versos; quando ouvia orar
com eloquência, com força e com energia, como
me atreveria a proferir, que a Arcádia estava
exposta á menor decadência ? Porventura devia
julgar-vos tão cobardes, que se pudesse espe-
rar de vós, que cedêsseis aos prognósticos da
inveja ?
Havia quem dissesse, que não havia Arcádia ;
mas havia Arcádia : havia quem dissesse, que
«.-íff^JV^íV®
£•—
— *!
516
os Árcades emraudecêrâo ; mas os Árcades nâo
emraudeccrâo : havia quem dissesse, qne os Ár-
cades já não se ajuntav.io 110 Menalo ; mas
os Árcades ajuntavão-se no Menalo. Finalmente
havia quem dissesse, que nâo podiamos tornar
a ajuntar-nos ; mas nós quizemos aj.uitar-nos,
ajuiitarao-nos; quizemos que houvesse uma sessão,
houve uma sessão.
Devíamos dar ouvidos a quem desejava a nosssa
ruina, porque não podia ouvir a nossa fama ;
a quem queria que nos calássemos, porque não
pode fallar como nós falíamos ; a quem desap-
provava os nossos versos, porque nâo tinhâo con-
soantes, ou porque imitávamos Horácio, Pindaro,
Theocrito e Bion ? A quem estranhava a nossa
dicção, porque adoptávamos a de Camões, de
Bernardes e de Ferreira ; a quem desapprovava
a nobre simplicidade de nossos pensamentos,
porque é escravo de Gongora ; a quem final-
mente nâo soffre nossas orações e dissertações,
porque nâo discutimos nellas frivolos problemas,
ou porque guardamos austeramente os regras da
arte de persuadir ? E certo que nâo. É certo
nSo Iki entre nós um espirito tão humilde, que-
pudesse sujeitar-se a tão pânicos terrores. E eu
temi que acabasse a Arcádia ?
Que importa, que importa que alguns animo?
malévolos procurassem desatar os estreitos la-
ços de felicíssima união e de nossa inalterável
tranq\iillidade, attribuindo sinistras intenções a
nossas criticas e apologias, se nós as recebemos
com sereno rosto, se as suscitamos e as quere-
mos. E eu temi que acabasse a Arcádia ?
Que imjortaque nos apontem para as Scj-llas,
cm que naufragarão tantas Academias, se a nossa
dura e durará á sombra da gloriosa paz, em que
nos conserva o nosso clementíssimo soberano.
E cu temi que acabasse a Arcádia ?
Que importa que digão, que sacrificamos a
particulares interesses e domesticas paixões o
estudo de tão divinas artes, se nós de cada vez
nos engolfamos com mais ardor na liçào dos
Gregos, dos Latinos e dos Portuguezes ; se os
imitamos, se talvez os igualamos, e se algum
de vós chega a excedê-los. V. cu temi que se
acabasse a Arcádia ?
5.8
Q.ue importa que houvesse quem chorasse com
simuladas lagrimas nossa desunião e nosso esque-
cimento, se nós continuamos as sessões. E eu
temi que acabasse a Arcádia ?
Q.ue importa que haja quem se atreva cora
descoberta insolência a zombar das nossas pro-
messas e de nossas esperanças, se vossos escritos
desempenhâo com honrada gloria quanto promet-
testes ; e se vosso distincto illustre merecimento
vos fazem dignos da real protecção. E temi que
acabasse a Arcádia ?
E preciso. Árcades, que sejais nimiamente in-
dulgentes, se ainda soffreis que falle em vossa
presença quem proferio tSo estranho absurdo, è
preciso que me risqueis do catalogo des Árcades
e que nos troncos destes pinheiros se apague o
nome de Corydon. Porém, senhores, se vós antes
de proferir a sentença, examinardes a justiça da
causa, achareis que no excessivo zelo da honra
da Arcádia consiste todo o meu delicto: achareis
um Árcade, que estima a reputação da Arcádia,
e que teme que se arruine, porque a estima.
Tal é a fragilidade de nossos corações !
I ,i;,,^ „'^:!S!^^^^Z , ,.,,,, ^ ,
' "' (9-=ií^,^í>^lS ' ' "'"'""
(^unr.do houve avarento, qiie não fosse covar-
de ? dualquer niiJo llie congela o sangue; a
leve folha de um álamo meneado pelo fresco zc-
pliiro. lhe parece um trovão ; e acostumado a
temer, facilmente se persuade que ha quem lhe
rouba os thesouros, que guarda com ambição e
disvelo.
Se eu me não interessasse pela vossa glo-
ria e pelas vantagens da Academia, ouviria mur-
murar publicamente, murmuraria com clle. Aca-
baria a Arcádia, ficaria mais descançado; quebra-
ria as pezadas algemas, que vós me puzestts;
■-■ reclamaria minha antiga liberdade, isto é, zom-
baria das regras de Aristóteles, de Cícero c de
Quintiliano ; faria uma tragedia com a mesma
facilidade, cora que vós compondes uma estrophe ;
inculcar-me-hia por poeta, por critico e por ora-
dor ; a toda a hora leria os meus versos aos
riesmos, a quem mil vezes os tinha repetido ;
nio cuidaria na pureza da dicção, da harmonia
do verso, da magnificência da fabula, da igual-
dade dos costumes, da constância dos caracte-
res ; finalmente faria versos sem poesia, orações
520
sem eloquência, ou, para melhor dizer, faria
quanto vós reprovais e reprovaria quanto vós
fazeis.
Se, por exemplo, me encarregasse de compor
uma comedia, sem ler Aristophanes, Plauto e
Terêncio, sem examinar no que consiste o ver-
dadeiro ridiculo ; poria no theatro Jasoii, desem-
barcando em Colchos com os valorosos Argonau-
tas, namorado de Medéa, roubar o Velocino e
depois de atravessar os mares nunca de antes na-
vegados, depois de ter quebrantado todos os en-
cantos, de vencer dragões, e conseguir tâo pre-
cioso triumpho entregar a um simples lacaio um
thesouro tSo inestimável, só para que o bufão
podesse dizer um ridiculo equivoco ; nâo cuidaria
qxxe o protogonista fosse um zeloso, ou um ava-
rento ; e isto guardaria eu para uma tragedia ;
seria um rei, um capitão ; os amores ainda que
fossem attribuidos a um velho, ou a um Catáo»
serião o sal attico das minhas scenas ; arderia
Troya; appareceriào exércitos, ainda que os ca-
vallos deitassem por terra os bastidores, e se
pudesse introduzir no theatro o apparato de uma
_ ^ ^^^^ ®íiS!ÍÍ^^*ír-,f „. .,
I' !i|i llk,.illr.illi 1UI1.11II Gi.iíliiili i!Ui.;ll :-!''UI '!m
S2I
trincheira, que lançasse bomb:is e disparasse ar-
tilheria. EntSo ganharia uma nova fama, a que
nâo aspirou Sophocles, nem Euripedes.
Eis-aqui a ruina, que eu temia, quando temia
que acabasse a Arcádia ; eis-aqui o perigo, a que
me parecia que estava exposta a poesia portu-
gueza.
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f*-:Í(W^^'^
<ítS/i^*^ -=-
'"is^ífejg^Jíí*®'"
p.n||iiij|ii>
Ii!>iiliy||i.„
ORAÇÃO QUINTA (i)
para se rccilar no acto ão jnramenlo de hatnleiras do
Regimento de lufa iílcria, sendo Coronel delle o
Illustrissimo c Excellcnlissimo Marque^, das
Mi tias.
Nobilíssimos senhores officiaes ; nobres e hon-
rado? camaradas.
Sempre a gloriosa reputação das armas depen-
deo da disciplina militar. Os povos, que mais
religiosamente observavSo as leis da guerra, fun-
darão reinos, conquistarSo impérios e chegarão
,1 ser senhores de quasi todo o mundo. Assyrios,
Gregos e Romanos, em cujas décadas lemos ainda
hoje os mais illiístres exemplos de valor, nâo
(i) Dei-lhe esta numeração segundo a ordem
que guarda na ediçJo de 177S, onde occupa o
ultimo lugar das orações nella impressas. Nâo se
menciona comtudo a data em que teria sido re-
citada.
524
commetterâo facções pasmosas fiados na força e
numero de phalanges e lc|'iões ; mas sim no
estudo, com que a sombra da mais profunda
paz aprendiâo os vastíssimos preceitos da arte da
guerra.
Que nâo fizerâo poucos Portuguezes em Afri-
ca, Ásia e America ! Se tallárâo campos, arraza-
râo cidades e subjugarão ferocíssimas nações, foi
sempre a disciplina quem pizou e submetteo a
desordenada multidão dos bárbaros. Fsta incon-
testável tradição vos põe diante dos olhos a
mais clara idéa das honradas obrigações de um
soldado ; e nSo seri muito que em corações por-
tuguezes inspire um ardentíssimo desejo de so-
leranemente ligar-vos com tâo santo juramento ;
juramento, de que depende toda a fortuna da
guerra.
Neste público e solemne acto, em que jura-
mos as bandeiras, se obriga o regimento, e nos
obrigamos todos a servir como leaes vassallos
ao nosso legitimo rei e senhor ; a guardar suas
reaes ordens ; a obedecer cegamente aos comman-
dantes ; a defender as bandeiras ; a iiSo evitar a
ri^i^^ ^^, r^
morte; a sustentar o terreno; a ganha-lo; a não
desertar, a arrostar-nos sem susto com o mais
formidável inimigo ; finalmente a derramar glo-
riosamente o sangue pela defensão da pátria,
pela honra e gloria de nosso clementissimo so-
berano.
Q.ue Portuguez, ou que vnssallo de tão bom
rei deixará de abraçar com gosto e de observar
religiosamente tão honrados preceitos? Q.uem ha-
verá tão cobarde, que na rtferta das armas e
no ardor dos conllictos, alçando os olhos e pon-
do-os nas bandeiras de sen regimento, não haja
de abalançar-se ao mais vivo fogo, não obre pro-
dígios de valor e de fidelidade, se lembrado de
tão santo juramento, vir que Deos, que o rei,
que a pátria e que seus majores lhe estão na-
quellas bandeiras brad.mdo pelo desempenho da
sua palavra ; pela obrig.ição de seu ofTicio e pela
honra de toda a nação ?
Não fora estranha exageração dizer, que nas
bandeiras se representa o soberano. Quem levar
em seu coração bem gravada tão magnifica idé',
commetterá com sereno rosto as mais árduas
lIBip» ilinip iinil
...it')iiii(rt< ilioilii». ilii>iliitu.rt,
..,|P--— g^
emprezas. Quem haverá, que figurando um breve
instante em sua imaginação ; que vê cercado de
inimigos um rei, delicias de seus vassallos, pai
da pátria, pio e magnifico que observa recrescer
os esquadrões ; que ouve o tropel dos cavallos,
o fragor da artilheria ; que vê brilhar as armas;
e, finalmente, que vê travar a peleija, não sinta
inflammar-se em um generoso e indómito furor ;
não arranque a espada e não tema que algum
se lhe adiante e lhe roube a gloria de vencer,
ou de morrer primeiro ? Quem haverá, que pe-
netrado da mais nobre fidelidade, tema as sibi-
lantes rociadas de mosquetaria, ou não rompa os
mais cerrados batalliões ? Um soldado portuguez
deve olhar para as bandeiras de seu regimento
como para um painel, que a toda hora e a todo
o instante lhe apresenta aos olhos esta pintura.
A este glorioso juramento, o qual abrange
todas as obrigações da vida militar, deveo a re-
publica romana o respeitado poder de suas armar. ;
o pasmoso progresso de suas victorias ; e a in-
crível vastidão de seus dominios. Poucas legiões
forâo o instrumento de tão avantajados successos.
®.^í^l^fe^«>
Tanto pòJe a boa disciplina ! Na guerra nunca
a multidão desordenada atropelou o pequeno nu-
mero bem disciplinado. Q.ue farião, ou que po-
dião tentar os Romanos contra a espantosa
multidão dos Gallos sem disciplina ? Quem lhes
daria forças contra os agigantados corpos dos
Germanos? Quem os aconselharia a desprezar o
poder, c arrogância dos Hispanos ? Quem os
levaria a contrastar os estratagemas e a riqueza
da Africa? Quem finalmente lhes infundiria animo
para vencer a arte e prudência dos Gregos, se-
não a boa disciplina, alcançada pelo continuo
exercício, pelo incansável estudo da arte da guerra
c pela religiosa observância do juramento ?
T.ão honrado era o nome de soldado, e tão
santas as obrigações militares nos bemaventurados
dias daqnella famosa gente, que era quasi sacri-
légio pegar nas armas, e servir na guerra quem
antes com solemne juramento não houvesse sido
installado na ordem da milícia ! De Catão se conta,
que licenciando Pompilio uma legião, na qual
militava o filho d'aquelle grande patrício ; e
querendo o generoso mancebo ficar no exercito,
99W »yy wwm www
mékm **•
528
o velho e sizudo pai, zeloso dos antigos costumes
das leis militares e da severidade da disciplina,
foi o primeiro, que protestou pela observância,
escrevendo a Pompilio, que nâo consentisse stu
filho na tropa, sem tomar-lhe segundo juramento,
pois sem esta solemnidade lhe nâo era licito
peleijar com o inimigo.
Eis-aqui o pezo, que tâo grandes homens da-
vâo ao juramento das bandeiras. A estes religio-
sos costumes e santas máximas de guerra deveo
Roma a antonomásia de cidade e a gloria de ca-
pital de todo o mundo. A. disciplina lhes infun-
dio valor ; e o valor de seus grandes capitães e
de seus obedientes e intrépidos soldados levou as
águias romanas ás mais remotas províncias do
mundo.
Os soldados portuguezes, ainda mais que os
romanos, estão obrigados a defender com valor,
constância e fidelidade as bandeiras de seu corpo
e o guiáo do exercito. Quasi todas estas insí-
gnias aprescntlo aos olhos as sagradas quinas
de Portugal ; ou ao menos as cores tiradas de
um brazâo dado pelo mesmo Deos, quando para
529
si fundou tão glorioso império. Que soldado
liaverA tio inf.imc e tão perjuro, que antes não
quizesse derramar o sangue e perder a vida, que
ver na mão dos inimigos abatidas e arrastadas
tão sagcadas bandeiras? Quem escolheria antes
um captiveiro nffrontoso, que uma morte hon-
rada } Quem teria valor para tornar a ver
os seus amigos e parentes, infamado de tão
horrenda cobardia V Como se atreveria a alçar
o collo trilhado do jugo, ou que pretendiria
obrar com as mãos calejadas da soga?
Nobres e muito honrados camaradas, em vossos
semblantes estou vendo a feroz indignaçSo, com
que detestais tão abominável e feio procedimento ;
e talvez me reprehendeis de lembrar-vos o que
não ignorais. Assim c ; mas o zelo de serviço
de Sua Magestade, o amor da pátria, me fizerào
esquecer de que fallava com Portuguezes e coin
soldados disciplinados por um coronel, em cujas
illustres acções e generosas virtudes tendes a
mais própria doutrina da honra, do zelo e áo
fervor, com que deveis cumprir com as obriga-
ções de soldado.
«7
a-gj^V^txg'
530
Continuai pois com incansável animo no exer-
cicio das armas. Deste trabalho depende o bon'
successo das batalhas. Dcos, El-Rei e Portugal
vos entregâo hoje aquellas sagradas bandeiras
limpas da menor mancha de cobardia e infiile-
lidaJe ; e vede que ante tão grandes juizes haveis
de dar conta da gloria, com que vô-las entregâo.
Aprendei a pelejar e a nào temer o perigo ; quem
deseja a paz, prepara-se para a guerra. K.io vos
esqueçais de qual é a obrigação, a que vos liga
a«te juramento, e se trouxerdes presente sempre
na memoria e gravado em vossos corações o so-
lemne acto deste prospero dia, sereis verdadeiros
soldados, vassallos de tão bom rei e filhos de
tão honrada pátria.
Disse.
,.. IlUlbiill '" -vi :IMIl'<l9
ORAÇÃO SEXTA (i).
mimosus „t>iuo forti^ apliant..
HoK., Od. 7, I.il.. U.
Ainda que a experiência mo tenha repetidas
vezes mostrado, que a vossa benignidade desculpa
o; meus erros, confesso, ò Árcades, que nunca
recebi a incomparável honra de fallar em vossa
presença, que me não achasse trespassado de
susto e possuído de uma confusio invencível; mns,
este susto e esta confusão é certo que devia des-
amparar-me quando chegasse o promettido e fe-
liz tempo de conseguir a Arcádia a reforma da
poesia e da rhetorica, isto é, quando vós íre-
Ci) Esta oração é a primeira que se encontra
no Ms. do Cónego Manoel de Figueiredo. Pôde
ser considerada inédita, pois só uma limitada parte
de acha trasladada no Curso de lilleratura por-
tui^ueia do Snr Visconde de Correia Botelho, do
qual aproveitamos as varias notas illustrativ.is
do texto.
532
quentando esta assembléa completásseis a grande
obra que emprehendestes fundando esta Academia
para adiantamento e utilidade dos vossos compa-
triotas; quando eu aproveitando-me das vossas li-
ções e vencendo a minha natural rudeza colhesse
comvosco o fruto de tão magnificas experiências e
me julgasse tão perfeitamente instruído nestas di-
vinas artes, que me atrevesse sera pejo a combi-
nar as suas solidas regras e a desempenhar a sua
admirável theorica com uma felicíssima pratica,
como fazem os bons poetas, os verdadeiros ora-
dores, ou para melhor dizer como vós fazeis.
Mas todo o apparato desta magestosa scena su-
bitamente desappareceo. Vós não conseguistes o
que intentastes, nâo cumpristes o que promettestes :
e eu fiquei como estava envolto em grossas nu-
vens de ignorância, mais cheio de temor e de es-
panto. Dantes só temia a vossa critica, agora
não ha individuo no nnmdo literário, que me não
pareça um Encelado ou um Thifeo. Assim como
o incauto piloto qne vendo-se repentinamente
acommettido por uma negra tempestade, entre o
alarido dos trovões, os sibilantes brados dos \en-
S35
tes, os espantosos echos do mar e rasgados re-
flexos dos relâmpagos, perdendo o rumo e per-
dendo o animo, espera que sobre o desamparado
navio caia a macliina celeste.
Mas esta súbita mudança de onde nasceo, ó Ár-
cades ? Houve alguma força superior que fizesse
tão violenta metamorphose ? O publico zombou
dos nossos escritos? O generoso pastor Albano,
fechou-nos a porta desta cabana (i) ? Tinhanios
quando ílorescia a Arcadi.i maior abundância de
cabedaes, que facilitasse a subsistência de tão
numerosa companliin, e houve uma mão tão avara,
que veio a saquear as choupanas do Menalo? E se
lieide seguir esta metaphora, que inundação de lo-
bos degoUou os nossos rebanhos? Ou que pasto-
res mais valentes, nos lançarão fora destes bera-
aventurados montes?
Parece-me que todos me respondeis, que estas
conjecturas são verdadeiros sonhos de um doente,
(i) D. losé 1 havia adoptado o nome acadé-
mico de 1). João V na Academia romana dos Ár-
cades. (Camillo Castello Branco, Ciirs. litt.
fort., vol. 11, pag. 176).
•S» líííl^l^íií.®
J34
são chimeras destituídas não só de realidade mas
até de verosimilhança. Mas os efFeitos correspon-
dem a uma destas causas, a Arcádia eramudeceo ;
nossas flautas nâo se ouvem ; o Menalo está in-
teiramente desamparado, e até me parece que
nós mesmos nâo conhecemos uns aos outros;
aquella inestimável e boa harmonia que reinava
não só em nossas opiniões e doutrinas, mas até
em nossas almas e em nossos corações, aquella
sagrada alliança de uma pura e sincera amizade
estabelecida em não menos honroso fundamento
do que no commercio das sciencias, dos livros e das
mais perfeitas composições da eloquência, desva-
neceo-se. Nós mesmos (com quanta vergonha o
confesso) nós mesmos a alteramos, a prostituímos
e finalmente a relegamos do Menalo : e porque
causa? Que insana allucinação nos possuía, quando
nos atrevemos a desmantelar tâo soberbo edifí-
cio ? Éramos tâo fátuos que esperássemos dever
a nossa fama A ruína da Academia ?
Nâo, Árcades, ainda que esta appareça, não
foi esta a causa, outro foi o motivo, e senão
menos desculpável, certamente mais vergonhoso;
53 S
íoi n nossa cobardia e a nossa ambição; soflrci
que vôl-o diga. Vjja o mundo que nem só fic-
ções tem entrada na Arcádia ; se até fundamos
r.i verdade nossos poemas e nossos jiensamentos,
i;ão vos deve escandalisar, que sem lisonja e
sem prevenção vos exponha a verd.uie tal qual
cu a comprehendo ; e prouvera a Deos que vós
podesseis reconvir-me nesta occasiio, expulsar-
r.ie de tão illustre companhia, por haver adop-
tado imposturas.
A nossa ambiçJo (não vos assusteis) a grande
ambição de gloria com que nos sacrificamos ao
trabalho de tão profundos estudos, foi quem nos
rtduzio a tão extrema penúria, foi quem execu-
tou tão vergonhosa catastrophe : julgamo» que
entre montes não cabia a nossa fama e quizemos
cxpôl-a a maior theatro, e Deos que não podia
deixar de proteger nossos desejos, emquanto fo-
rão sinceros, nSo tardou em levantar-nos a maior
altura de honra e de estimação. Apparecemos aos
olhos do publico, agradamos, fomos ouvidos ;
conhecião-se os nomes e respeitava-se a Arcádia.
Kntão namorados de tão alta fortuna, nos pare:eo
536
mal tornar para um monte e viver em cabanas.
Presidir n'uma grande sala magnificamente deco-
rada, rodeado de ouvintes illnstres, sábios e vir-
tuosos, que talvez conversavâo nos successos da
campanha, eraquanto nós fallavamos como se nos
ouvissem : ou estavão com o lapis notando pa-
lavras que lhe parecerão novas, porque não le-
rão Ferreira nem as toparão nos sermões do
padre Vieira ?
Cantarmos nossos versos ao som de vima or-
chestra numerosa, e talvez imprópria, isto é que
julgamos hor.ra : e uns homens que trajarão estas
galas e fizerâo tão respeitável figura, não devem
concorrer mais em uma simples sala a que cha-
mamos cabana, não devem contentarse de que
os ouça com attenção e louve sinceramente quem
os conhece. Isto é pouco. Se eo sei, se eu sou
poeta, se eu sou orador, quero que me apontem
com o dedo, quero que todos me conheçâo, e
isto se é fruto que pode colher-se em uma Aca-
demia chega tão tarde, que já nâo merece esti-
mação.
Eis-aqni, senhores, a desatinada soberba que
Í37
se apoderou da nossa fantasia ; até que fatiga-
das nossas esperanças, desmaiarão : .juebrárão-
se nossas forças e concluindo uma perfeita peri-
pécia. Passamos do fausto para a humildade do
Estado, para a maior miséria, e cheios de um
abatimento de que sò nós éramos autores, cruza-
mos os braços e offerocemos os pescoços, para
nos atar au jugo uma mão, que não se atrevia
a erguer-se contra a Arcádia : quero dizer derra-
mou a inveja, a preguiça e a ociosidade sobre
nós todo o seu intolerável veneno.
Estes vicios com mais ou menos força tomarão
posse de nossos discursos; uns dizião que a Arcádia
não podia subsistir sem patrocínio, como se fosse
pouca a tutela de quem é senhora de todo o mundo,
dos astros e dos céos (i); outros julgavão que sem
rendas cffectivas, não podia conservar-se uma
companhia de homens sábios, porque sem um
escrutínio de prata, se não devião elegtr Árca-
des; outros que era indispensável fazer mais ses-
(i) Tomarão os Árcades como protectora a Vir-
gem Maria. (Castello Branco, Ohracil., pag. i 7S).
_^ -^ -^ . — , ^-<^i5(^i^®^ _ ^
558
soes publicas, porque este foi o único objecto da
fundação dl Arcádia, ainda que tal não lembrovi
aos fundadores ; outros finalmente, que não po-
dia subsistir uma sociedade, sem se effeituar .1
impressão de suas obras, pois sem este pennacho
ninguém podia fazer bem versos, nem exercitar-
se na arte de persuadir, e que o publico queria
ver com vagar e com seus próprios olhos os
nossos defeitos, que para satisfazermos tão sin-
cera vontade, devíamos á custa da nossa repu-
tação, fazer-lhe este gosto. Para isto é que se
fundarão Academias, e sem isto depressa acabão
ou se arruinão.
Se estes ridículos pensamentos não achassem
acceitação e talvez applauso entre dòs, porque
passaria tanto tempo sem nos ajuntarmos, por-
que não haverião sessões ? Para que desprezaría-
mos tão honrado exercício e nos esqueceríamos
do que promettemos á pátria?
Envergonhemo-nos, senhores, da reprehensivel
cobardia, de tão culpável indolência. Contente-
mo-nos com o que cabe era nossas forças, que
não é pouco vermo-nos livres de credores, e de
l!li>l(!li»...illh.>lhtii....illlhitllt>i»-.4lfl)nlllh ifl:arllH»..,n()titlllii..««lhi/s..->'ll
5 39
credores, que talvez imaginassem, que não sò
lhes deveríamos a fama mas até os eutendimeu-
tof:. Não é pequena a gloria de merecermos grande
applauso e sabermo-lo desprezar.
Tempo, tempo virá em que cheguem os echos
do nosso merecimento aos ouvidos de quem o
estima, de quem o conhece e de quom o proteje (i),
ainda quando o descobre desvalido, pobre e despre-
zado. Já nós ouvimos da sua bocca promessas qua
não hão de faltar, e foi a nossa cobardia quem
deixou fugir a occasião. Cuidemos era merecer
o premio, que é mais fácil consegui-lo, do que
merecc-lo : e ordinariamente o deseja quem o
não merece. A .\rcadia fundou-se para adianta-
mento d.is bellas lettras, e não para fazer osten-
tação de talentos, para divertir o pubblico, ou
para dar que fazer aos prelos.
Porém, Árcades, que força do enthusiasmo me
obrigou a fazer uma declaração, estando obrigado
a discutir hoje nesta assembléa algum ponto d*
(i) AUude ao conde de Oeiras. ("Castello Bran-
co, obra cit., pag. 179).
.li'- " a>
J40
rhetorica ou de poesia? Quem faz caso dos meus
clamores, ou quem não conhece que eu sou cúm-
plice dos mesmos delictos, de que me faço ac-
cusador, e talvez juiz ? Assim é, senhores, mas
se não houver quem advirta estes abusos, quem
advogue pela causa commum, ficará a Arcádia
eternamente sepultada em tão feio lethargo. Eu
não vos crimino, nãc vos accuso, choro e quero
lamentar-me convosco, quero comvosco prantear
a nossa desgraça, quero lembrar-vos que promet-
testes ensinar-me, quando me chamastes para
esta sociedade. Não posso, não sei, não me atrevo
a concorrer para a ultima ruina da boa fama e
solida reputação que tínhamos adquirido entre
os nossos compatriotas. E que matéria mais di-
gna de ser tratada por um Árcade não só zeloso
da honra da Academia, mas até da gloria da na-
ção ? E se devo com effeito tratar de alguma
regra de poesia, farei uma pequena reflexão sobre
as qualidades e natureza da peripécia, alma da
tragedia.
A peripécia é uma súbita mudança do estado
prospero para ura abj-smo de misérias e de hor-
*- "^ '*^^-^^t^**' ^ ^
54'
rores. Assim Qidipo, rei de Thebas, marido de Jo-
casta, venerado por sábio e Iionrado cora o itlus-
tre nome de libertador e pai de seus vassallos,
possuido de uma vehemente ambição de conser-
var este inestimável titulo, vendo devastar aquella
populosa cidade uma voraz e inexorável peste,
tanto examina, tanto se obstina e a tanto se
atreve, que o mesmo ardor da sua curiosidade
o precipita em um pélago de angustias, de mal-
dições e de remorsos : acha-se marido de sua
mãe, filho de sua esposa e irmão de seus mes-
mos filhos. Autor da ruina da pátria, objecto
da ira divina, réo de suas mesmas imprecações,
execrando, abominável, impio e prófugo, arranca
oí próprios olhos e foge de Thebas.
Eis-aqui a mais perfeita peripécia que vio o
theatro de Athcnas, e que talvez veriio os de
todo o mundo. Quereis outro exemplo ?...
Mas, senhores, que matéria escolhi para a
minha oração ? Que estranha força torna a pôr-
me a Arcádia diante dos olhos ? E que fatal
exemplo da inconstância da fortuna me nSo re-
presenta o torpe esquecimento com que temos
';■•". "M ',l»''-.,/ ■ liiii-lll wm'-
542
tratado os progressos e vantagens da Arcádia ?
Quem nâo esperaria que uma companhia tâo nu-
merosa, composta de sujeitos tâo dignos da pu-
blica estimação, havia de ser durável a havia .
conservar-se apezar do génio da nação ? App.i-
receo em triumpho : louvou o maior dos reis e
o maior dos ministros : e foi louvado pelo maior
dos reis e pelo maior dos ministros e guiada por
sua mesma vaidade, cahio no estado da miséria.
Os seus próprios filhos, os seus maiores amigos,
todos fugirão, todos a desampararão, quebrando-
ihe as forças e esquecendo-lhe o nome os mes-
mos, que o receberão d'ella.
Ha espectáculo mais digno da nossa commisera-
ção, ou painel mais capaz de provocar o nosso
pranto, ou finalmente mais trágico exemplo e mo-
delo de uma perfeita peripécia ?
Contemplai, ó Árcades, o apparato desta scena
e se sois Portuguezes, se amais as sciencias, se
desejais adquirir um nome honrado, não desam-
pareis a Arcádia ; continuai as vossas sessões, nâo
desanimeis, que nos perigos é que se conhecem
as almas grandes; na força da tormenta é que o
543
coração illustre deve mostrar-se forte. Se com
tUeito ha alguma força que nos opprima, o que
iKio devemos crer, agora é qne estamos obriga-
dos a desempenhar nossa palavra, a mostrar-nos
íonstantes, fortes e animosos. Zombaremos da
inveja, pisaremos a ambição, triumpharemos da
cobardia, renascerá a Arcádia, renascerá a vossa
fama.
Jk.
r)l]llll1[ri.„..ill]lirill
— »*p
I*!*!*!
*<i'*
W^^^y^
ORAÇÃO SÉTIMA (i).
Se a primeira vez, ó Árcades, que vós me obri-
gastes a orar em publico neste solemne dia, não
tivesse exposto em forma de dissertação, os tex-
tos, os decretos pontifícios as autoridades dos
Santos Padres, e as resoluções des concílios, que
alem da devoção, e pode-se dizer instincto portu-
uuez, nos obrigSo a jurar e defender o altíssimo m y-
sterio da Immaculada Conceição da Puríssima Pa-
droeira da Arcádia, pôde ser que ainda hoje não
escolhesse a melhor parte da matéria que deve
fazer minha oração digna de vossos ouvidos, ca-
paz de persuadir, bastante para mover o animo
(i) Esta segunda Oração, inserta no Ms. de
Figueiredo, diz o Snr Visconde de Correia Bo-
telho, que a trasladou em parte, haver sido re-
citada em 1758, terceiro anuo da tundaçâo da
Arcádia. (Castello Branco, Curs. litl. port.,
tomo II, pag. 166).
69
546
do3 circurnstantes, cheia de energia, de grandeza,
de magnificência e de respeito. Muitos dos quc
primeiro do que eu fallárâo neste lugar, com pro-
funda erudição, com solida doutrina e com viril
estylo, sustentarão a justiça da causa e defendêrSo
a l'.onra da Senhora.
Faltava quem tomasse sobre seus hombros o hon-
rado peso de render as graças pelos recebidos
beneficies era norr*; de toda a Arcádia, a inefável
protectora de nossos estudos, cujo santo patrocí-
nio visivelmente brilha nas gloriosas acções du
Academia, no adiantamento da poesia portugueza,
na acceitaçlo do publico, no amparo de um mi-
nistro, prudente e sábio, e no favor dfo melhor
dos príncipes, de nosso augusto e clementisso so-
berano. Faltava quem confessasse o que devemos,
faltava quem rompesse um silencio que poderia
accusar-nos de ingratos, ainda que produzissemos
em nossa defeza ou a impossibilidade do agrade-
cimento, ou a grandeza do beneficio.
Tínhamos fundado uma sociedade debaixo do aus-
picio e da tutela da Senhora, víamo-la triumphar
da inveja, e o que mais é, rebatendo iníquas ac-
547
cusações dissipar o estranho systema, com que o
máo gesto tinha envilecido a nobreza das bellas
arícs. Resuscitou a poesia verdadeira ; restaurou-
se a boa eloquência e ainda não havia entre nós
qacni publicamente tivesse erguido as mãos ao
còo e renicsse as devidas graças a nossa Immacu-
lada Padroeira, quem confessasse ingenuamente,
e na face de todo o mundo, que os Árcades ní»)
■onfião em suas força^, mas sim no celestial pa-
irrcinio que escolherão, que os guarda e que os
anima.
A importância desta causa pedia melhor advo-
gado, mas a grandeza da matéria falia por si
mesma, não depende dos auxílios da rhetorica :
successos tão incontestáveis, como maravilhosos,
ainda narrados sem artificio, persuadem, interessão
e arrebatão.
Parece-me, ó Árcades, que não pôde haver mais
BNCcUente ideia do reconhecimento, do que a sim
pies, mas fiel narração dos benefícios. Esta má-
xima que ainda nos lugares cm que entra a li-
sonja seria agradcvtlmente recebida; quando ?'e
trata de agradecer favores que recehen-.os do cén.
548
é o único e o mais elegante modo de publica e
solemnemente nos confessarmos e de nos mos-
trarmos obrigados. E, com effeito, quem será tão
bárbaro, que olhando para os progressos da Arcá-
dia, não reconheça que só a força de tão alta
protecção podia adianta-los, ou para melhor dizer,
corôa-los com tanta honra e com tanta gloria.
Se fitarmos nossas reflexões no estabelecimento
desta sociedade e ponderarmos os terriveis em-
baraços que foi preciso vencer, ficaremos persua-
didos, que não houve circumstancia que deixasse
de parecer milagre. O tempo, o lugar, a diffi-
culdade da empreza, a magnificência da ideia,
tudo pedia un braço mais forte de que os nos-
sos e uma constância invencível e extraordinária ;
e quando parecia que a planta ainda estava na
mão, vimos levantadas as soberbas columnas e
sobre ellas fechadas as vastíssimas abobadas deste
maravilhoso edifício.
Sofifrei, 6 Árcades, que para melhor mostrar a
nossa felicidade me lembrem antigas calamida-
des, á semelhança do experimentado piloto que
para bem calcular a sua derrota, se não esquece
IS^ÍÍ^^,'
^^^J^ ^
S49
Jl- marc.ir o porto donde levantando o ferro c
desfrald;snJo as velas, principiou a viagem.
Perdidas e derrotadas em Atrica, com a gloria
das armas portuguezas nossas altivas esperanças,
principiou a quebrantar-se o génio forte da nação :
apagou-se a honra da ambição de :;Ioria que até
aquella desastrada época nos tinha feito trium-
phadores e invencíveis. Caliirão os ânimos, enfra-
quecerão-se as mãos, como de quem já as desti-
nava para as algemas. Ainda entre as cinzas bri-
l!;avao de quando em quando algumas relíquias
da perdida grandeza daquelles bemaventurados
dias, até que finalmente cahindo sobre nós a força
d.i tyrannia nos vimos sujeitos a um rei estranho,
ou para melhor dizer, a um usurpador, sem fa-
zenda, sem honra e sem liberdade.
Estas successivas desgraças ao mesmo passo
que embotarão as armas e opprimirão as forças
da monarchia, afugentando as boas artes até ali esti-
madas e conhecidas em Portugal, introduzirão
tão estranha desordem nas escolas, que em pou-
cos annos perdeo a poesia portugueza seu antigo
génio. A nobre simplicidade, a pureza da phrase,
r ^> * 1B» * O *
*"^ífâ»âÍ^^
^-íí^!^5í>^
a verosimilhança dos pensamentos, o raaravilhoso
das ideias e energia das figuras, tudo foi tratado
com desprezo. Jactava-se a barbaridade daquelles
tempos que assim sacudio o jugo das regras ni-
miamente austeras, e que só serviâo de opprimir
a força do espirito. Tão prolixos erio em pontos
de liberdades uns homens que arrastavâo grilhões !
Correo o tempo e chegou o grande instante
de quebrarem os Portuguezes os cepos em que
gemiâo. Subio ao throno um legitimo herdeiro
do sceptro e das virtudes de D. Affonso Henri-
ques ; mas o que era até entio effeito da misé-
ria e do captiveiro, veio a ser consequência da
alegria. A teimosa guerra com que nos vimos
obrigados a rebater a fúria dos Hespanhoes ainda
nâo permittia que entre o rnido das armas e
motim dos tambores se desse ouvidos .á harmonia
das musas : continuava a decadência. Ajustou-se
a paz, socegarilo-se os ânimos, mas estava tão
inveterado o contagio que se houve quem o in-
tentou, náo houve quem nâo desesperasse da res-
tiuraçito das bellas letras, das artes e das sciencias
em Portugal.
o negocio eru tão iir.port.uue c Je tão difficil
cxito, que nem ainda o grande espirito e pró-
diga mão do magnifico U. João o V poude con-
.-eguir mais do que lançar os primeiros funda-
n.entos; estimou os sábios, premiou os mestres
e enriqueceo as livrarias do reino e fundou a
real Academia da Historia. Roubou-lhe a morte
esta gloria, quando principiava a amanhecer em
Portugal as primeiras luzes do bom gosto, da
verdadeira erudição e da prudente critica.
Devemos alegrar-nos de ser incontestável que
o primeiro documento cm que podemos fixar a
cpoca desta restauração, c o papel critico que
compoz e imprimio o Krcade Sincero JerahriciiscÇi').
K verdade que alguns espirites mais fortes, ten-
tarão esta emprcza ainda hoje árdua, e então im-
possível ; mas como nas primeiras escolas rei-
(i) José Xavier de Valladares e Souza. Gar-
ção reporta-se ao opúsculo d'aquelle escriptor :
Exame critico de uma Svlva poctica fiiía A morlc
(Li Screnissima Senhora Infanta 'D. Francisca, IJ)').
Era autor da Sylva Caetano |osc da ^alva Souto
Maior, antonomasticamente o Camões do lipcio.
(Obra cit., nota a pag. 169).
\^^r\^7~\^ — \^ \> \r \/ \x N/ v/ v/,
Ty\ 'yx» r\^y\ ^\ f\ /\ xy. ^\ /\
552
nava um certo espirito de opinião, que soberbamente
sustentava o partido do máo gosto, o verdadeiro
methodo, ou se nSo conhecia, ou se desprezava.
Fundarão-se Academias, algumas permanecerão,
mac sem mais fruto do qne o de propagarem o
contagio. Mos últimos annos do prospero reinado
de D. João o V apparecèrào os primeiros crepúscu-
los do bom gosto. Já então a Sociedade dos
Occultos estabelecida em um palácio em que
sempre habitarão as musas e fundada por um
génio extraordinário, herdeiro nâo só do sangue,
mas também dos raros talentos e virtudes de seu?
eruditos progenitores (i), trabalhava neste tempo
na restauração da lingua portugueza, do est\'lo
e da boa poesia. Poderia ser qne a ella se devesse
toda a gloria se a publica desgraça nâo sep.i-
rasse tâo útil e tâo sabia companhia (2).
Em um tempo de calamidades e de afflicções
quando parecia que os Portuguezes só tratavâo
de reedificar Lisboa e de restabelecer os seus
(i) AUude a D. Francisco Xavier de Mene-
res, quarto Conde da Ericeira. (Idem, ibidem).
(2) Refere-se ao terremoto de 175 S- (Idem,
ibidem).
553
particulares interesses, quando seria JesculpavL-l
que as musas fugissem do nosso continente,
quando se julgaria que as artes jazião sepultadas
nas ruinas da cidade, n'iima palavra, quando era
impossível tratar da restauração das sciencias,
então, ó Árcades, chegou o feliz instante de nos
ajuntarmos, entío fundamos esta sociedade, ju-
rando padroeira delia a Immaculad.i Rainha dos
céos e da terra, debaixo do inefável titulo da
sua puríssima Conceição. Cada um de nós jurou
o sagrado mystcrio e embraçado este impenetrá-
vel escudo nos apresentamos no campo, confia-
dos entramos na peleja, e nâo tardou muito a
victoria.
É bem natural, ò Árcades, e bem digno de co-
rações portuguezes, a publica confissJo de que
esta vantagem a devemos toda ao sagrado patro-
cínio da Sv-nhora. Olhemos para os successos que
forão consequências desta nossa venturosa escra-
vidão: adoptamos o systema da critica pheno-
meno litterario, se lhe posso assim chamar, que
era em Portugal espantoso prognóstico de desas-
tres, e que não era visto entre nós com menos
70
^^^»
554
susto do que um eclipse entre os Godos, veio a
ser recebido com sereno rosto, veio a ser de-
sejado. Conheceo-se que esta era a estrella
q<ie nos devia guiar, e que sem as luzes da cri-
tica nâo podia descobrir-se o verdadeiro gosto.
Persuadimo-nos de que era amizade e não ódio
a reciproca correcção de nossas obras; e quem
txpunha ao publico os seus escriptos, sem lhes
dar com esta lima o ultimo polimento sujeitava
o seu nome ao desprezo do mundo. Conhecemos
que sem imitar os antigos era impossível enrique-
cer nossas composições das infinitas bellezas poé-
ticas que descobre a cada passo qnem frequenta
a lição dos Gregos e dos Latinos: e que neste
dictame de Horácio consistia o maior segredo do
bom gosto. Principiamos a familiarisar-nos com
Homero, com Sophocles, com Virgílio e com Te-
rêncio; e estes nomes que entre nós erão estra-
nhos, e unicamente serviáo nas dedicatórias, pas-
sarão a ser os Ídolos de nossos estudos.
E que devíamos, ò Árcades, esperar de tão sú-
bita e feliz mudança? Ganharão as nossas obras
uma nova reputação. Conciliou respeito o nome
■» -<íís!'31»>-
ii»,,...,*.*'.
^I]lyl„lll,ll— l^lllçlpllill
..Aiillliiiin Ilhillbiilllii
ii''i!r "■"■ií|I"ii||h;í|I'
:li;% ...ft «AmiIIiA...
de Árcade e desejou o publico assistir ás nos-
sas conferencias : atrevemo-nos a louvar um prín-
cipe, a quem Plinio podia sem lisonja recitar o
famoso panegyrico, que fez a Trajano. O mesmo
foi ouvirem-nos, que estimarera-nos, os homens
mais sábios e mais prudentes. OlhárSo para o
fruto do nosso trabalho como para uma vanta-
gem da na;ão, e a grande alma daquelle vigi-
lante ministro que nâo tira as olhos do adian-
tamento da pátria com publicas demonstrações
nos honrou, e nos animou para nJo desistir-
mos da diííicultosa, mas illustre empreza, a que
sacrificávamos os nossos estudos. Segunda vez nos
ouvio, segunda vez nos honrou : de sua mesma
bocca ouvimos nós expressões com que em Por-
tugal nSo costumSo fallar os ministros.
Podemos asseverar que vimos aquelle grande CO-
raçJo cque nelie estava vivamente impresso o incan-
sável zelo com que trabalha pelo bem de seus com-
patriotas, com que honra e com que estima os Por-
tuguezes beneméritos. Nâo tardar.V muito que o pu-
blico coiihfça, que este género de letras lhe merece
uma seria protecçSo, que as estima porque as conhece.
®í:SSÍS^S5í>S
Entre tSo consideráveis benefícios, nâo é justo,
ó Árcades, que eu me esqueça de recordar um
que devemos reputar entre os maiores e que p6de
ser seja elle a alma, digamo-lo assim, de todos
os distinctos progressos desta sociedade.
Bemdita sejais, Immaculada Senhora, que vos
dignastes de inspirar-nos uma constante uniSo.
Esta virtude, ò Árcades, é uma das maiores
graças que devemos as patrocinio da Senhora.
As discórdias, o rancor, a inveja, vicios que or-
dinariamente nasciâo no berço das Academias e
sociedades portuguezas, estes vicios, digoeu, nunca
apparecêrâo na nossa Arcádia. A sinceridade dos
costumes, de que nos revestimos, repugnava a
tSo feio e pernicioso génio : a modéstia, a sin-
ceridade, a boa fé, sâo os rudimentos de fa-
culdades tâo nobres, como a poesia e como a
rhetorica ; sJo os primeiros talentos que devem
brilhar nos sujeitos que ou se ajuntâo, ou se es-
colhem para ser os membros de uma sociedade :
a prudência, a civilidade, a tolerância, são as
estimáveis partes de que se compõe o caracter
de um bomem académico.
557
O amor e veneração de seus companheiros ó
a distincção dos sábios: estas virtudes, estes ra-
ros talentos, é verdade, que pela mesma lição
dos livros se aprendem, e se conservão ; mas
.itrevo-me a asseverar, que vós estais, 6 Árcades,
seriamente persuadidos, que vè-Ios tão geralmente
praticados, e tão honradamente estimados, é um
milagre que tão visivelmente deveis á protecção
santíssima da Immaculada Padroeira da Arcádia.
His aqui, ó Árcades, os preciosíssimos favores
c inestimáveis mercês que devemos ao pattoci-
nio da Senhora : eis aqui a origem de todas nos-
sas felicidades; astro que anima nossas espe-
ranças. Tomamos sobre nossos hombros debaixo
de tão santo auspicio o formidável peso de res-
t.uirar a boa poesia e a grande eloquência:
conseguimos o que desejávamos. Estudão-se c
praticão-se nesta sociedade as verdadeiras leis
la tragedia e da comedia : a poesia melica,
t:into Ivrica como dithyrambica, está restituída
\ sua natural magnificência ; a nobre simplici-
dade da bucólica, da écloga, e dos id^-Uios, tem
bastantes exemplas em vossas composições ; a sa-
S-«5gJ^»-s
""q]J"i|]i"l|)l'"'""" ""ym-";: ■ '" ■j)pni|iiiai'~ «"ty^
Illi*«lllt.,„. Illmllhil!!;: ■ '"■* _ Jlu»
tyra, nJto aquella satyra grosseira e infame que
expõe ao riso do povo os defeitos de nossos
compatriotas, mas sim a satyra urbana, aquella
que ataca os vícios, que os reforma, e que com
a sua casta alegria ensina as máximas da boa
ethica, é bem familiar aos nossos ouvidos.
A rlietorica em todos os trez géneros, se vè
felizmente exercitada nesta Academia. Bem evi-
dente ficou esta verdade depois que o nosso de-
mentissimo soberano, querendo reformar as esco-
las do reino, tirou de entre nòs para mestres
de eloquência alguns Árcades; a lingua está res-
tituída á sua natural enérgica pureza, abundân-
cia e magnificência : n' uma palavra, a Arcádia
chegou ao cume da sua felicidade, venceo o gé-
nio da nação e triumphou da inveja.
Soberana Rainha dos céos e da terra. Padro-
eira da Arcádia, pura e immaculada ; a Arcádia
publica e solemnemente vos rende as devidas
acções de graças pelos benefícios recebidos, e se
podesse também vô-los agradeceria : jura e pro-
raette de sempre defender a justiça da vossa
causa, da vossa honra e da vossa gloria, confi.1
©"««ÍJg^íS^íS
559
cm o vosso patrocínio, espera ii3o dosraerecc-lo ,
sacrificando todas as suas forças ao bem publico,
ao credito da nação e á honra do principe.
Acceitai, Senhora, os nossos votos, ampanai
o nosso trabalho, fazei nossas composições di-
gnas de vosso patrocínio, capazes de louvar-vos
e de defender-vos.
',.lSiiX.Siil»iSiíI.Si.ii!iiiS.,l»'
«««
ORAÇÃO OITAVA (i).
A protecção Je Deus, que tantas vozes experi-
mentou o reiuo de Portuga!, nunca foi mais vi-
sível do que agora que evidentemente nos mos-
trou que erguia para guardar as reaes virtudes
de V. M. o mesmo omnipotente braço com que
fundou para si este glorioso Império, salvou-nos
a necessária e preciosa vida de V. M. rebatendo
os golpes do mais execrando e abominável par-
ricidio; dissipou a feia tempestade que esteve im-
(i) Terceira e ultima do Ms. esta oraçío foi
a que soííreo as emendas e mutilações, a que se
referio Figueiredo no prefacio da cuidadosa coUec-
vão, attribuindo ao facto a esquivança do poeta
em dar publicidade ás suas producções. (Vide lu-
trodncção deste livro). Q.uaes fossem as arguidas
alterações elle mesmo as indicou e nós as con-
signamos nos lugares próprios, aqui transcrevendo
a nota com que as encerrou:
n Estas forão as i^mendas que se pozerâo e
'^^^^^^^ - - - - - ■ ~ • -
56*
minente a Portugal e o raio que vimos acceso so-
bre nossas cabeças apagoii-se, desfez se em fumo,
desappareceo ! Arrancou das mãos dos traidores
o ferro e o fogo com que se armavâo para as-
solar a pátria (i), queimar as cidades, demolir os
templos, profanar os altares, abolir as leis mais
santas e sacrificar a seus perniciosos interesses
o sangue de innocentes compatriotas.
Este e nâo outro era o plano de tão horrenda
conjuração; este foi o projecto que forjarão (2) as
com as quaes só se dava a licença para impri-
mir-se por despacho de 29 de julho de 1759.
Cala-se por respeito o tribunal e os juizes, a
A esta oração parece-se referir-se Innocencio
dando-a como recitada em uma das salas do
Real Hospício de N. Senhora das Necessidades,
em obsequio ás melhoras de S. M. F. o senhor
D. José I experimentadas depois do attentado
de 3 do setembro de i"$7. Digo parece porque
as expressões iniciaes nâo sào as mesmas, o
assumpto porém é aquelle próprio facto, (Vide In-
nocencio, 'Dicc. bibl. art. Garção).
(l) Em lugar das palavras — com que se ar-
mavâo para assolar a pátria — se emendou,
que podia não soinenle assolar... mas chegar a de-
molir,
(j) Em lugar das palavras — este foi o plano
de »ío horrenda conjuração ; este foi o projecto
^^__^ ^^^ ■ "■ ■ " ■■ 1
sacrílegas máximas do ódio, da liypocrisia, da
ambiçSo e da soberba. Mas amparou-nos o céo,
escaparão (i) as nossas vidas, as nossas honras e
as nossas fazendas; ainda ha Lisboa; ainda te-
mos rei; ainda temos pai.
Eis aqiii, senhor, o inestimável bem e o evi-
dente (2) milagre, que os Portuguezes, como fieis
e legitimes vassallos de V. M. celcbrão com in-
cessantes votos em todas as igrejas : alli humi-
lhados á roda dos altares na presença do Altís-
simo, com as mSos erguidas, com os olhos cheios
de lagrimas e os rostos de alegria, jurando sua
antiga fidelidade, agradecem em repetidos cânti-
cos de jubilo e soleranes acções de graças a mi-
lagrosa conservaçjo da sacratíssima pessoa de
V. M. Nas casas, nas ruas e nas praças, em toda
parte sòa o grande nome de V. M., repetido com
que formárjo — corrigio-se : estes os tristes sue-
ccssos que poderião produzir.
(\) A' palavra — escíipar'io — substituiráo,
livramos.
(2) A' palavra — evidente — substi tu ir.ío,
visivcl.
> »Att í>** >•>
564
inexplicável prazer entre reiterados vivas e altas
acclamações.
listes echos da publica alegria, estas protesta-
ções de amor e vassallagem, nâo devia escuta-
las com indifferença uma sociedade composta de
honrados e leaes vassallos. A Arcádia, que to-
mou sobre seus hombros o illustre peso de trans-
mittir á posteridade acções de Portuguezes be-
neméritos, havia de ser muda testemunha do
jubilo de todo o reino? Q.ue século passaria em
que os vindouros nâo accusassem tão detestável
silencio? Que vergonhosa nSo fora a tradição
dos seus progressos, se cotejadas nossas memo-
rias com a chronica de V. M. nSo se descobrisse
nella dignamente assignalado o zelo, a prudên-
cia e a justiça com que V. M. desaggravou a
honra e a gloria de nação?
Soffra pois a modéstia de V. M. que repe-
tindo a Arcádia algumas das heróicas virtudes que
adornão sua grande alma, exponha aos olhos de
todo o mundo, quanto devem os Portuguezes
estimar a preciosissima vida de V. M. e a jus-
tiça com que lhe dío os grandes nomes de pai
565
da p.uria e delicias de seus vassallos, pio, ma-
gnânimo e justo.
Mas, seulior, em que passo Jo glorioso e fe-
licissimo reinado de V. M. poderemos fitar a con-
templação, que não encontremos circumstancias
de maior espanto? Que acção Je V. M. não ac-
cusa e não afeia mais a ingratidão e atrocidade
de tão sacrilego attentado? Se é axioma da po-
litica que os povos devem pedir a Deus um
príncipe justo, e obedecer ao que por cUc lhe
fôr dado, que fanatismo se atreveo a contestar
o direito que tem á coroa as reaes virtudes de
V. M. ? Que Portuguez desejou melhor rei ? Que
bárbaro foi tSo ousado que podesse negar que,
ainda que o throno não fosse liereditario, devia
\'. M. ser levantado rei e jurado senhor dos Por-
tugiiezes? Os Titos, os Trajanos e os Antoninos,
não merecerão com tanta justiça os votos do
povo e do senado. Se investigarmos os annaes
de Roma, descobriremos que o seu merecimento
sempre se apoiou em simulados artifícios.
V. M. antes de tomar o sceptro, já o merecia, já
era desejado e já reinava nos nossos corações ; su-
$66
bio ao throno e nelle tomou posse deste glorioso
dominio, sem que a lisonja nem o medo nos dictas-
sem a sujeição. Nâo duvidou d; que o araaria-
raos, porque nos amava e conservou em seu au-
gusto coração este raro systema de reinar, por-
que não queria mais do que fazer-nos venturo-
sos. Q.ue maior prova desta verdade do que a be-
nigna paz, que desfructamos, de que foi precio-
síssimo refém a sagrada pessoa de V. M. e que
sô conhecemos quanto nos era útil, quando vi-
mos, que V. M. introduzia á sombra delia uma
felicissima harmonia em todo o reino!
O inalterável socego, em que se mantinháo
quietos e seguros os estados e dorainios de Por-
tugal, ainda que fazia inútil a defeza das armas,
nâo soffreo o real animo de V. M. que ou no
ócio, ou no desprezo se abatesse o brio das tro-
pas. Faltavão-lhe cabos, faltava-lhe disciplina,
faltava-lhe talvez o premio, e ainda que V. M.
nào quizesse soldados, nSo queria queixosos, que-
ria honrar os beneméritos : examinou o mere-
cimento e logo na primeira promoção, subirão
accelerados aos últimos postos muitos daqueltes
tjue tinhJo envelhecido, e esperavão morrer nos
primeiros.
Acordou o génio portuguez do ocioso le-
thargo cm que jazia: entrou a mocidade a as-
sentar praça uns levados da gloiia, outros da
emulação. Apparecer,ío, ou, para melhor dizer,
resuscitár.ío officiaes de préstimo e de valor, le-
r.io-se os Vegecios, os Polj-bios e os Césares,
exercitou-se o maneio das armas, demonstr,irâo-se
evoluções militares: proverão-se os governos: re-
forçárilo-se os presídios ; n'uma palavra, parecia
i]Ue tínhamos o inimigo na fronteira, estávamos
no centro da paz. Kio era o medo, nâo era a
violência, que opprimindo o povo levantava tio
numerosas reclutas, era a prudência, era a ma-
gnanimidade do príncipe, que restabelecia o lu-
zimento e o valor do exercito.
O augmento das boas artes e das sciencias (ins-
pirado fructo de uma durável e venturosa paz)
n.ío deixou de gozar logo as benignas influen-
cias do real agrado e protecção de V. M. E que
methodo mais seguro de adianta-las? Póde-se di-
zer que as Odes de Horácio, a EneiJ.i de Vir-
l/X-Av r\ /x /> ^^>k^/\_ rV x>?_/xL_^/v_ ^
gilio, devèrJo a sua inimitável perfeição, mais á
amizade de Augusto e de Mecenas, do que ao
génio d'aquelles grandes homens: e os Pindaros
nascerão nos bemaventurados séculos em que as
mais florentes republicas e os maiores príncipes
do mundo contendiâo pela naturalidade de um
cidadão; trazião comsigo as Iliaias e mandavâo
preservar do incêndio de uma cidade a casa de
um poeta. V. M. não só imita, roas excede ao<
Augustos e aos Alexandres.
Quem deixará de sacrificar-se ao trabalhoso es-
tudo das bellas artes e sciencias, vendo que V. M.
desce a examinar o methodo e o progresso das
primeiras escolas? Parece-me, senhor, que ainda
vejo no âmbito deste real hospicio aquella ma-
gestosa scena, que nâo poderia ideiar, nem a phan-
tasia dos Sophocles, nem a architectura dos V'i-
truvios, nem a emulação dos Archontes, nem a
magnificência dos Césares! Parece-me que ainda
vejo os nossos clementissimos soberanos, toda a
família real, toda a Corte, assistindo a um cer-
tame de gramraatíca I Parece-me que ainda vejo
um menino com um ponteiro na fraca mâo estar
■x^x-r^r-ror r r r^ríí*
569
mostrando no mappa aonJe é Lisboíi, aonde está
Roma, aonde foi Carthago ! Parcce-me que ainJ.i
observo no real semblante de V. M. aquelles gra-
ciosos signacs de prazer, que s.io difficeis ie
explicar, e que njo sabem esconder nem os pais,
nem os mestres, quando vêem adiantados os fi-
lhos e discípulos !
Sabíamos, é verdade, que este real hospício era
gr ande entre os sumptuosos monumentos que fa-
zem eterna a memoria do senhor rei D. Joio o \
augusto pai de V. M. Sabiamos, que seu magtii-
lico fundador estabeleceo nelle novas e melhores
escolas, mandando que a sagrada Congrega^-Ao do
(3ratorio dirigisse os estudos ; sabiamos que as
^asas da Congregação do Oratório forSo da sua
fundação até o presente santuários da virtude e
das sciencias ; sabiamos que apezar de orgulho-
sas opposições, fizerjo estes grandes homens ama-
nhecer cm Portugal a primeira luz da boa phi-
losophia, que nos ensinarão os nomes de llal-
lev, de P.avle, de Locke e de Carthesio ; sabia-
mos que já entre nós havia um Newton portu-
guez ; sabiamos, finalmente, que varões tão dov.ios
«i.^^i^^h^o
570
e apostólicos trabalhavâo por restaurar a grande
eloquência e viril estylo, com que nos púlpitos,
se deve explicar o Evangelho aos catholicos ; mr.s
como as raizes da inveterada prevenção, ainda
nâo estavão totalmente arrancadas, foi preciso q"e
V. M. com tào raro exemplo da humanidade ncs
declarasse, que só nestas escolas devia aprender
a mocidade portugueza.
Para que só (i) devêssemos a nossa felicidade ás
inestimáveis fadigas de V. M. vimos, com ex-
tranha admiração empregar-se a real economia
do soberano em restabelecer os perdidos inte-
resses dos vassallos. As mesmas revoluções de
tempos e de costumes, que promettiáo grandes
vantagens, tinhão lastimosamente concorrido para
a decadência. A paz, a opulência, o luxo, o
grande trafico, novos descobrimentos e novas
minas, erão os tyrannos algozes que apertavão
o garrote ao commercio de Portugal ao mesmo
passo que sem ellas fora impossivel beneficia-lo.
(i) Para que só, emendou-se, para que em
tuão.
is-^ií^í^y^
„a<vj^(^fcaf;,„.„,„,.|,,,„
571
O génio da nação, a chimerica esterilidade do
paiz, a dependência de estrangeiros, nossas dis-
t.intcs e dilatadas conquistas, erão os Encelados
e Typheos, com que ninguém se atrevia a com-
bater. Se a providencia offcreceo arbítrios, que
podião ser úteis, não faltarão pretextos para sa-
crifica-los a interesses particulares. Corria o tem-
po, arruinava-se o credito da praça, barateavão-
sc nossas drogas, sobejavão géneros alheios; que-
bravão os negociantes e parecia ja inevitável a
ultima e universal fallencia.
Tão lastimoso espectáculo não podia deixar
de abalar o augusto coração de V. M. que re-
conhecendo os raros talentos de um ministro,
que parece que pelo céo llie foi dado para V. M.
ter uma espada, com que corte os nós gordianos
destes pretendidos impossíveis, fiou V. M. do seu
relo e actividade a reforma de tão perniciosas
desordens. Foi então que os Portugnezes ouvirão
dizer, que o commercio era o maior apoio do
est.ido, que também delle havia uma theorica ;
que esta theorica não consistia no dolo, na am-
bição e na malícia; mas que tinha regras deter-
S72
minadas e infalível geometria ; que era sua pra-
tica a verdade, a boa fé e a diligencia ; que
vender nSo era enganar ; e que o corpo do com-
mercio era um corpo nobre e respeitável entre
as nações mais polidas e republicas mais pode-
rosas.
Então conhecemos as nossas forças, entào
olharmos para V. M. como para nosso redemp-
tor ; envergonhados de nos nâo lembrar o que
Portugal tinha sido, nem olharmos para o que
podia ser. Fatal era o nosso esquecimento, nâo
menos fatal a inércia ! Esqiieciamonos de que
fôramos os primeiros descobridores das riquezas
de todo o mundo, e que nossos galeões forSo
os que primeiro surgirão em portos da Ásia, da
Africa e da America. N.ío liamos a historia do
nosso paiz ; tapávamos os ouvidos ; nâo quería-
mos saber que Portugal tinha sido em séculos
mais remotos o empório do coraraercio ; que
subsistio poderoso e opulento, independente de
outras nações, e até de suas conquistas ; que
nossos antigos reis socorriâo com grandes subsi-
dies e formidáveis exércitos seus alliados e visi-
573
r.hos. l''emos este elogio as illustres cinzas de um
Dionisio, de um JoSo 11, de um Afionsc IV e
de um afortunado Manoel. Confesse o Império,
X.ipoles, Veneza, Flandres, Aragão e Castella
OjUantas vezes implorarão nosso auxilio, e quan-
tas vezes colherão os louros da victoria á som-
bra das respeitadas bandeiras lusitanas.
Parecerá inverosiniil aos vindouros que para
V. M. atalhar a nossa ruína, se vio obrigado a
servir-se da autoridade real, do rigor das leis
e do poder da justiça. Houve vassallos (não o
ouça o mundo, nem o saiba a posteridade) quc
para serem venturosos foi preciso serem castiga-
dos. Tanto podia a fatal cegueira qiio nos al-
lucinava 1 I-'oi preciso que V. M. erigisse um
tribunal do commercio, que lhe desse estatutos
c que o ministério com attenta circumspecç.io
elegesse para membro deste novo corpo os sujei-
tos mais intelligentes c de mais reconhecida pro-
bidade. Assim acabamos de conhecer, que os in-
teresses dos commcrciantes erào os interesses d.i
uação, que delles resultavão o bem comnuim e
que sem clles se abatiâo as forças da monar-
S74
chia, Atalhárão-se os contrabandos e extravios ;
promulgáráo-se leis sumptuárias, tratou-se de le-
vantar fabricas, de estabelecer companhias e de
abrir uma escola para aprendizes do commercio.
Eis aqui as venturososas resoluções que Deus
não manda aos estados, sem crear para instru-
mento uma alma extraordinária, como a de
Luiz XIV, como a de Pedro Grande, como a
de V. M,
Incansável a real ideia de V. M. em investi-
gar novos caminhos para o augmento da nossa
felicidade, olhou benignamente para o commercio
do Douro, e não soffrendo que a decadência ca-
minhasse com passos tâo accelerados, se resol-
ve© a pôr um freio á tyranna cobiça que tinha
reduzido a monopólio o contracto daquelle paiz.
EUa arbitrava o preço, ella qualificava os géne-
ros, ella estipulava os pagamentos. \áo era nosso
mais do que o trabalho da cultura e despeza
da fabrica e o limitado interesse de algum avanço,
sempre sujeito a illegitimos lucros e duras con-
dições, Introduzio-se com o luxo o cambio de
alheias manufacturas, e em pouco tempo chegou
a parecer tributo a extracção dos nossos geni.--
ros. Atalhou V. M. este damno quasi irrepará-
vel, promulgando o estabelecimento da compa-
nhia do Alto Douro, privilegiada e protegida com
a autoridade real e com o incansável zelo do
ministério, e pôde tanto a indolência natural que
a desatinada plebe....
Mas, senhor, não c justo que a ingratidão dos
vassallos profane a narração das rcacs virtudes
do monarcha; entreguemos á fama o adorável
nome de V. M. sem descobrirmos vestígios de
infames e detestáveis memorias.
Mão bastava para soccgar o amor e o desvelo
de V. M. que os milagrosos effeitos da sua
grande beneficência inundassem só os limites do
nosso continente. Olhou para as conquistas e
para as colónias, vio também ali vassallos, não
quiz deixar de trata-los como filhos: apparcceo-
Ihe deserto e inculto o paiz mais fértil do mundo;
vio abandonado um dos ramos do nosso com-
mercio, que podia incontestavelmente ser dos
primeiros, se a negligencia, se a inércia ou ava-
reza daquelles que o maneav.ío, lhe nâo tivesse
■•"] 'i;i"i)i«""«i|i"ii ,
- - - - - f yy XX \X V/^
576
subnegada a reputação. Uma longa guerra, gran-
des desastres, grandes calamidades, talvez que
nào redusissem a tâo miserável estado o nego-
cio do Maranháo e do Pará: faltava industria
que o remisse do clandestino e pesado captiveiro
que o opprimia. Chegou a época da sua felici-
dade, e apezar de ânimos rebeldes, se estabeleceo
uma companhia para aqnelle estado. Approvou-
Ihe V. M. os estatutos, privilegiou-lhe as acções,
autorisou-lhe o credito, deo-lhe navios e fran-
queou-lhe os meios de se completar o necessário
e importante fundo.
Persuadido V. M. da grande máxima de estado,
que um rei deve ser senhor de vassallos opu-
lentos, e nâo de províncias e sertões desertos e
intratáveis, mandou também cobrir de habitações
aquelle fértil paiz, que sò era poder de bárbaros
deixaria de ser povoado. Convidou os novos
moradores com honras, com terras, com privilé-
gios, e para ficar inimitável a piedade de V. M.
muitos rios condemnados a vergonhosos desti-
nos, nio soffrèrio maior castigo do que irem ser
fundadores d'aquellas colónias.
^
<í^«í>i
■^l?
'•
^^
_^^
,<<í^);g^v
577
Mas quem dicéra, senhor, que '.er.Jo os Por-
tugu.zes levado áquelles remotos clim.i^ a lu/,
d.i verdadeira religião, depois de lhe ler Deus
pago este glorioso trjbaiho cora o honrado nome
e r'qiii?slmos thcsouros, se atrevcriào os mes-
mos Portiigiiezes, abusando da cro.ii.liJaJe dos
proselytos, a s.icrificar o zelo d.i fé aos teios
interesses e abomináveis ideias da cobiça? Quem
dicéra que a promulgação do Evnuíelho e do
baptismo havia de ser o sacrílego jul;o com qiie
a hypocrisia chegou a tyrnnnisar a liberdade do
inumeráveis povos? Como gemerão tanios aiiiios
noste injusto captiveiro nquelles 'nfeli.Cí, sem
que os brados da sua miséria chegassem ao throno
de nossos graciosíssimos soberatioí? Como ha-
vião prelados, que com frouxa conr.ivencia, tc-
lerárSo esta escandalosa contravenção da lei di-
vina, dos decretos synodaes c das bulias ponti-
fícias? Como houve niagistr:idos, que solTrião
tão nrtoria infracção do direito natural, do lii-
reito da hvispitalidade e do direito da conquista ?
Parece q'ae guardava o céo para V. M. a flo-
ria de ser o libertador d'aquc!les povos. Co-ro
'a-<í<^^Sfe»i.»
já rio valiáo dissimulações, como já se nâo
aava creJito a chimeras, como já se nio te ■
miâo ameaças, como já reinava V. M. como já
tinha ministros desinteressados, completou-se o
resgate de tantos milhões de almas. Chegou o
tempo de V. M. reivindicar aquelles afligidos
vassallos que a avareza e a crueldade dos usur-
padores, tratava como escravos e como brutos.
Nascerão livres, viviâo captivos, abraçarão a
verdadeira religião, acharão perversos dogmas ;
occupavão-se no trabalho, negava-se-lhes a recom-
pensa; sujeit.ivão-se a um rei, acharão mil tyran-
nos ! Em que estatua, e.-n que monumento po-
deremos dignamente gravar a memoria deste glo-
rioso triumpho de V. M. ? (i)
(i) Este paragrapho e o precedente, que o col-
lector com justa razão considera dos mais bellos
da oração, forão suppriraidos pela censura.
Comprchende-se facilmente que os prelados e
magistrados, cuja connivencia no captiveiro dos
Índios verberara o orador, se revoltassem con-
tra mereciJas censuras e tratassem de suffoca-las.
Essas duas importantes classes não tolerariio ^quo
animo tão certeiras pedradas nos seus telhados.
O eloquente rasgo de Garção em favor dos
' ■■" ter^íqtoj^^íi^
5 79
Julgava eu, senhor^ que poderia acabar a nar-
ração das admiráveis virtudes de V. M. sem
que a lembrança da fatal ruina de Lisboa, per-
turbasse o jubilo, que boje o ccupa a ideia dos
Portuguezcs ; mas como n'aquelles calamitosos
tempos, foi quando esteve mais patente o grande
coração de V. M., nâo me atrevo a suffocar
as vozes do publico agradecimento. Parece-nos, que
pelo céo foi mandada esta geral consternação para
conhecermos que V. M. não só era rei, mas também
era pae, parece que Deos nâo quiz tocar-nos com
sua poderosa mão, senão quando tivéssemos um
principe digno de sua misericórdia, capaz de soc-
correr-nose capaz de conservar-nos. São inexcruta-
veis seus altissimos juizos ; mas c qtmsi sempre
visivel a sua providencia!
Como todas as maravilhosas acções de V. M.
se regulão por um inalterável systema de justiça,
princípios de liberdade, ao mesmo passo que re-
vela a elevação de seus sentimentos, descansa
o espirito das lisonjarias, de que inundou a maior
p?rte do seu discurso. Vc-se que não era só cor-
tesão, mas amante da justiça, e defensor do di-
reito.
depois de render a Deos as dividas acções de
graças, tratou logo de restabelecer o culto di
religião e exhort.indo aos prelados a que promp-
tamente fizessem continuar os officios divinos,
acudio com igual providencia as communidade^
dispersas ou necessitadas.
Eis aqui as grandes máximas, com que V. M.
sabe conciliar a protecção divina. Esta é a ver-
dadeira politica e a forte alliança, que em tan-
tos séculos e em tantos climas fizerão conheci-
das, respeitadas e invenciveis as sagradas quinas.
A honra de Deos foi sempre a causa, porque
advogarão nossas armas. Se a religião é a base
dos impérios, que reino, ou que estado mais se-
guro que a monarchia portuguez.» ? Se é esta vir-
tude a font: de que manSo as heróicas acções
do príncipe, a equidade dos magistrados, a fé
das allianças, a observância das leis, a obediência
doe vass lUos e a tranquilliJade publica, ainda ape-
zar ái tão fataes calamidades, será sempre feliz
o glorioso reinado de V. M. A exaltação da fé,
a promulgaç.^0 do Evangelho, a extirpação das
heresias, são os mundos, que deseja o grande co-
»vw I
5S1
laçJo de V. M. e que lhe tleverião lagrinias
se fosse possível faltar entre tantas virtudes a da
constância. Estes são os costumes, que nos fas-
tos da historia hão de fazer distincto e lesfei-
tado o século de V. M.
Cercado V. M. de attouitos vassallos sentia
o publico desastre, como se n.io podesse rer.ie-
di i-lo e rcsolveo-se a remedia-lo como se não
podesse senti-lo; temeroso, mas resignado; resi-
gnado, mas constante. Mostrou V. M. que como
homem receava o flagcllo, como catholico sujei-
tava-se ao golpe, como príncipe acudia aos vns-
saUos. Q.ue impulsos de piedade, de amor e de
compaixão não atormentavão com inexplicável
tumulto o forte animo de V. M.! Ainda era ge-
ral o desacordo, já se dava sepultura aos mortos;
ainda lançavão fumo as cinzas das nossas casas,
já linliamos reparo contra o rigor da esta^-ão ;
lembrou-nos temer a fome, quando já reinava a
abundância. Que viuva, que familia consternada,
não achou abrigo na real clemência de V. .M. ?
Choravão os filhos sobre as cinzas do defunto pae
e sobre as ruinas de sua casa, orpliãos, pobres
~ /.,:!- _j
582
e desamparados ; a triste tnJe, nâo sabia nem po-
dia consola-los, chorava com elles, aiignientava
o pranto. Ouvi-os V. M. ; acudio-lhes. Houve bár-
baros, que aproveitando-se do geral espanto d'a-
quelles terriveis dias, se atreverão a saquear a
cidade, mas logo conhecemos, que nem enire as
desgraças nos desamparava a inalterável justiça
de V. >I. ; expostos em patíbulos promulgarão a
lei como exemplo, fizerâo cessar o crime e o
castigo. Nem a constância, nem a clemência de
Tito, pòJe reparar com tio efficazes providencias
o lastimoso estrago, que a conflagração do Ve-
súvio causou na miserável provincia de Camp.inia.
Que bem fundadas esperanças do publico res-
tabelecimento nào vimos brilhar logo no acerto
das primeiras ordens ? Parecia que o ministério
travalhava no ordinário expediente e não em
meios de atalhar tão extraordinárias desordens.
Sabíamos as perigosas consequências, a que es-
távamos expostos, quando víamos prevenidas as
cautelas : igualmente nos espantava o damno,
qne o reparo, não podendo comprehender, como
saccessos tão repentinos, achavão prompta a ac-
583
tiva providencia de V. M. que não scri:x menos
admirável, ainda quindo fossem esperados.
Káo tardou muito que nSo víssemos medir os
destroçados bairros da cidade para se dar prin-
cipio A execução de sua magnifica planta. Vi-
mos com sabias e justíssimas leis vencidos o-
embaraços que podí.io ob.^t.ir .í grande obra :
vimos lançar os primeiros fundamentos da nova
Lisboa e vimos crescer sumptuosos edifícios, os
quaes scni auxilio de soberbas inscripções, mos-
trarão nas futuras idades que foi V. M. quem
reedificou a cidade ; e os que entUo lerem nos-
sas décadas, oliiando para a chronologla, não
poderão comprehender, como medeia tão curto
espaço entre a ruina e a restauração.
E verdade, senhor, que as nações estranhas
não ouvem com terror o nome de V. M. ; nào
o divulga no mundo o estrépito das armas; mas
nem por isso o elle menos grande ou menos
illustre, adorado entre os vassallos, invejado
pelos estrangeiros, respeitado por todos, faz que
os povos olhem para V. M. como para um as-
tro de felicidade, de paz e abundância. Kão bri-
$84
lha menos a coroa real guarnecida com ramos
de oliveira, do que ornada com os louros da
victoria tintos com o sangae dos vassallos. A
lisonja e a politica inventarão a pompa dos
triumphos : o amor, cora que é estimado um rei
justo e pacifico nasce comnosco em nossos co-
rações ; nao o podemos fingir ; não chega a
tanto nem o medo, nem a adulaçio.
Quantos miseráveis pisados por seus próprios ca-
vallos no furioso tropel dos conflictos, mordendo
a dura terra, não estarão amaldiçoando agora os
interesses dos monarchas? Em vão chamâo pela
paz, era vão detestão a cruel guerra, ninguera os
ouve, ninguém lhes acode; morrem, acabio des-
esperados ! Ciuantas cidades, depois de soffrer
constantemente as misérias e os sustos de um
longo sitio, não chorarão pela paz quando vi-
rera avançarem-se as tropas inimigas para o as-
salto geral ? Abala os montes o pavoroso es-
trondo da artilharia ; cruzão pelos ares sibilan-
tes balas ; estalão horríveis bombas ; descoradas
e espavoridas as miseráveis donzellas, correra
pelas ruas ; attonitas as m'ães, deixSo cahir dos
^
<ífS"i*^,
fí-
'▼
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-^A^k^
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braços os iniiocciítes filhos ; querem mas iiAo
podem fugir os cansados velhos; sahcm dos tem-
plos os sacerdotes abraçados com as sagradas
relíquias, mas não tem para onde fujio. Em
toda a parte se apresenta o mesmo perigo e o
mesmo aspecto da morte : desmoronados os al-
tos edificios, tremem, cahem, espantão, ferem,
iiiatâo e sepultão os desgraçados habitantes !
Se compararmos o horror de tão feia perspe-
ctiva com a deliciosa paz de que gozamos á som-
bra do real throno de V. M. só então conhe-
ceremos nossas venturas e a infelicidade d'aquel-
las nações, que sacrificadas mais ás idéas do ga-
binete do que á defensa da pátria ou decoro do
rei, pagão com suas vidas a m.i interpretação do:>
tratados. Sem nos insultar a liberdade das tro-
pas, sem nos vexar o peso dos tributos, sem nos
opprimirem exorbitantes contribuções, venturosos,
opulentos, livres e seguros vivemos, unicamente
sujeitos ás santas e justissimas leis que promulga
V. M. não para nos opprimir, mas para arrancar
de entre nós os vicios e abusos que á semelhança
de uma inveterada enfermidade arruinavão a cons-
;86
tituição civil da monarchia. Q.ue grandeza de alma.
que espirito de clemência, de religião e de jus-
tiça, que extraordinárias virtudes, nSo admira
quem lè a coUeçâo das leis, alvarás e decretos,
que no feliz reinado de V. M. lhe tem digna-
mente merecido a antonomásia de legislador ?
Muito ha que os Portuguezes dariJo este nome
a V. M. se guiados mais pelo amor, que pela vas-
sallagem, não escolhessem antes chamar-lhe pai.
Com eíTeito, senhor, se ás reaes virtudes de
V. M. devemos o inestimável bem de sermos tra-
tados como filhos e não como vassallos, se é o
principal objecto das acções de V. M fazer-nos
venturosos, porque lhe nâo chamaremos pai d.i
pátria? Nem a modéstia de V. M. deve prohi-
bir-nos a repetição de tao agradável nome, se
nâo pôde negar-nos que o merece; nem o nosso
reconhecimento dictar-nos outra iiiscripçâo mais
digna de ser deixada aos vindouros no pedestal
da estatua de V. M. pio, magnânimo, justo e
amado, que nos conservou em uma venturosa e
inalterável paz em quanto devastava grande parte
da Europa a mais obstinada e sanguinolenta
5S7
guerra: mo trará que V. M, restabeleceo a dis-
ciplina militar e o Uiziniento Jas tropas, que
o desprezo ainda mais do que o ócio, tinha sub-
mergido em ignominioso lethargo : que protegeo
e que animou as artes, as musas e as scienciasr
que amparando os interesses de seus vassallos,
fez V. M. que o nosso commercio tyrannizado
pela cobiça alhèa e pela inércia natural quebrasse
as grossas algemas que o manietavio : mostrará
que foi V. M. quem resgatou tantas almas do
clandestino e tyranno captivciro com que as op-
primia a cobiça, a avareza e a hypocrisia : que
V. M. nos acudio com prompto remédio em cons-
ternação, que parecia que o nào podia ter: mos-
trará que V. M. restaurando o culto divino, tra-
balhando na propagaçSo da fé, respeitando os
ministros da igreja, foi em tudo legitimo her-
deiro do throno de D. AlTonso Henriques: mos-
trara finalmente, senhor, que V. M. inexorável
inilinííO dos vicios, promulgou innumeraveis leis
todas justas, todas necessárias, todas santas,
não só dirigidas a manter a publica tranquilli-
dule, mas ainda a conservar nos futuros tempos
J»>»» ••• ••• •••
■■■»■ '^^■^
5S8
leliz, opulenta e segura a monarcliia portu-
gueza.
Mas, Omnipotente Deus, que paiz é este que
liabitamos, em que cidade vivemos ? Aonde está
o reino fundado pela vossa mâo ? Aonde está a
forte gente que morria pela honra do vosso nome
e pela gloria de seu rei ? Também em Portugal,
famosa pátria dos Monizes, dos Pachecos, dos
Freitas e dos Farias, nascerão traidores ? Tam-
bém em Lisboa, cujos muros estão fundados so-
bre os ossos de tantos honrados Portuguezes, se
criarão parricidas ? Também havia entre nòs Pe-
renios, Plauteanos e Catilinas ? ViviJo ? Falla-
vâo comvosco ? Viarao-los ? Nâo lhes descobría-
mos nos pérfidos semblantes os remorsos que lhes
trespass.ivâo os corações ? Que sacrilegas espe-
ranças lhes davâo forças para supportarem o peso
das suas consciências e soffrerem diante dos seus
olhos o aspecto de um vassallo fiel ? Esperavâo,
revolvendo as ruinas da pátria, achar debaixo das
nossas cinzas honras, riquezas, a coroa ou scep-
tro, sem que houvesse uma rnSo, que primeiro o
levantasse? Que acções allegariio para disputa-
5S9
lo, ainda a um homem abjecto, a um banido, a
um facinoroso ? Atrever-se-hião a lançar em rosto
ao roubador que tinha tirado o alheio, elles que
intentavão saquear a pátria ? Accusariâo ao as-
sassino, elIes que conspiravão contra a vid,a do
seu rei e legitimo senhor ? Culparião a um fal-
sario, elles que forão perjuros ? A um herege,
elles que seguirão tâo perniciosas doutrinas ?
Aqui em Lisboa, grande Deus ! aqui no cen-
tro da paz ; aqui aonde as leis mais justas e
mais santas, nJo soíFrem que os vicios ultrajem
as virtudes; aqui se traçou o plano de tSo in-
fame conspiração. Aqui se ajuntarão os traido-
res ; aqui jurarão nossa ruina, nossa orphandadc e
nossa vergonha; aqui se vendco a pátria; aqui se
blasphemou de vossa irrevogável promessa; aqui se
desprezarão os raios com que vossa mão omnipo-
tente costuma destruir os Ímpios.
Houve, senhor, houve ingratos que pudéráo es-
quecer-se do muito que devemos a V. M. houve
barbares que machinárão atalhar o progresso das
gloriosas acções com que V. M. nos mostra de
cada vez mais que nos ama e que se faz de cada
1,1. ■"■« 'i' <i|f'i «WV Ip -.li ■ .1
ii:i"lllr llli.*h. f^'* '■ . -* '
vez mais digno de ser amado. Houve quem pôde in-
famar a nossa vassallagem, publicando com eterno
escândalo, que também entre Portuguezes ha-
via traidores, havia parricidas e havia ingratos.
Mas soube a constante e inalterável justiça de
V. M. lavar a nossa infâmia no sangue dos cul-
pados, vingar a pátria, satisfazer as leis, desag-
gravar a coroa (i).
(i) Conclue aqui a Oração no Ms. sem que
a feche declaração alguma, seguindose logo as
poesias.
•NOTAS E1ARIANTES
-sV>^>'
"^,
^í^'^^4^5>;>"C
"'•í-V^y^,Çf*>^
s» 't^'%
XOTAS E VARIANTES
1 1 1 1 1 ■ 1 1 ■ I
_A primeira pagina do manuscrito do
•:;; Cónego Manoel de Figueiredo, que fez
j^\' ■■---■ ; outr'ora parte da bibliotheca do cxi-
^ v^ W Z "'"'o litterato portuguez Camillo Cas-
Q— Q- ; tello Branco (visconde de Correia
01 Botellio) leem-se estas linhas de pro-
#
• prio punho e com a sua assignatura:
''■ « As alterações que Garção fizera
- g,>'7® /' - nos seus poemas, e aqui se encon-
It,§^§Civ>I trão, não se achão nas suas poesias
" "" publicadas posthumamente. Estes tras-
'" ~Y~ •*' 1 " "lados forão feitos sobre os originaes
dados pela viuva do poeta ao collector. Se um dia
se fizer edição nova dos versos de Garção (tarde
será) deverão adoptar-se estas emendas e publica-
rem-se as poesias inéditas constantes dcste volume
manuscrito. »
As duvidas que a rcspaito das alhuiidas emen-
das me assaltarão o espirito e de que tratei na hi-
trodiicçuo, forão objecto de carta minha áquelle no-
• ^r?^^|<^^ fr';^:^"*
75
tabilissimo escritor a que cortezmente deo a se-
guinte resposta :
« Não precisava V. interpor medianeiro para
me communicar a honra de sua carta. Recebi as
duas quasi simultaneamente, por isso não respondi
i primeira.
« Tenho um grande dissabor em não poder ca-
balmente ser arbitro n'um processo que V. mo-
destamente declina de sua alçada. Não tenho li-
vros, nem apontamentos, nem reminiscência que
me lembre o que em tempo de mais folga li e
ajuisei a tal respeito. Entrelembro-me, porém, que
o Cónego Figueiredo colleccionou um códice com
as correções de Garção e os editores da edição de
Lisboa, primeira e única, servirão-se de outro có-
dice em que hivia parte das correcções. Ou talvez
o Figueiredo quando colligia os poemas emendados,
e se referia aos incorrectos, alludisse aos que cor-
rião manuscritos.
« É provável que V. já haja formado esta e ou-
tras hypotheses mais luminosas.
« S. Miguel de Seide, jy-j-S6.
1 De V. criado e respeitador
« Camillo Castello Branxo. »
A' vista do exposto tive por acertado, como já
declarei, não affastar-me do texto das edições an-
teriores, e oflferecer como variantes as divergên-
cias do Ms. de Figueiredo.
Nas annotações o manuscrito hoje propriedade
do Instituto histórico será designado pela data, 1767,
e o do Cónego Manoel de Figueiredo pelo nome
do paciente collector.
•-ío^:
SONETOS.
Soneto V, pag. 5. — A mesma senhora a quem foi JoJicado
parece ser a mencionada no Soneto II. Assim a dedicatória abran-
geria os dons precedentes^ nos quaes igualmente o poeta se dirigs
a Marilia.
Soneto VI, pag. 6, Hn. 6. — A errata da edl^io de 1778 cor-
rige pedragosos. A lição mais seguida actualmente conservaria a or-
thographia do texio, sem attender á etymologia.
Soneto XIV, pag. 14. — A cpigraphe que traz o índice do
Ms. de 1767 é: Soneto a um frade para que lhe levasse utn re-
cado a uma moça, a quem o poela namorava e onde o frade ia.
Soneto XVI, pag. 16. — No texto da ediçSo de 1778 o
terceto final que a errata corrigio era :
Se vens, ou caia chuva ou herre o vento
Nilo pode a longa noite enfastiar-nos
Antes tudo será diverllmenlo.
Soneto XXVI, pag. 26. — Outra correcção ao texto da edi-
ção de 177S da mesma errata. O terceiro verso dizia:
O esfaimado nariz o coice atura
Com um rodeiro malho atocha o taco.
Soneto XXVII, pag. 27. — No .Ms. do Cone -o Figueiredo
vem encimado com esta epigraphe: Estando pre\o no Limoeiro, hs-
tas palavras, porèni, se ach.lo traçadas por outra pcnna que não
a do coUector. Ha toda a verosimilhança que o fossem pelo
Snr. Visconde de Correia Botelho, que as substituio pela nota
duvidoso.
Soneto XXXVII, pag. 37, — No Ms. do Figueiredo é dedicado
^■io Padre 'Dclphim, capetlão do Lourcto.
596 —
Ainda a errata da edição de 1778 corrige do modo, como ora
se lê, a nona linha do verso :
Silvada vaga assim de rua em rua.
Soneto LVII, pag. 57. — É o ultimo que trazem as edições
e apresenta uma feliz imitação do bem conhecido de Camões :
Alma minha gentil que te partiste.
Soneto LVIII, pag. 58. — Este soneto nâo se acha em ne-
nhuma das edições anteriores. Fui encontra-lo por indicação de
Innocenclo da Silva na OiCiscellanea poética ou CollecçSo de "Poesias
diversas de autores escolhidos. Rio de Janeiro, 1853. (Vide Obra cit.,
pag. 168).
Soneto LIX, pag. 59. — Igualmente náo faz parte das pre-
cedentes edições. No Ms. de 1767 está incompleto com a epigra-
phe que conservei, e não vem no Curso de litleratura portuguesa
de Camillo C.istello Branco, donJe o trasladei na integra. Aqui
se dá copiada dessa obra a seguinte chave p.ira os nomes citados
no soneto :
Pinto. — Luiz Pinto de Souza Coutinho, 1° Visconde de Bal-
semão.
Monteiro. — Domingos Pires Monteiro Bandeira.
Padre Niceno. — Padre Francisco Manoel do Nascimento.
Manoel de Souza. — Manoel de Souza, capitão de infinteria.
Manoel Mendes. — Antes de António Xavier Ferreira de Aze-
vedo escrever a farça Ma^ioel Mendes, já este nome
e appellido erão proverbiaes.
Ulpiano venal. — D''. Jeronymo Estcquette.
Sonetos LX, LXI, LXII, LXIll, pag. 60 a 63. - Sdo in-
teira:nente inéditos : e\trahi-os do Ms. do Cónego Figueiredo.
Soneto LXIV, pag. 64. — Também eftá fora da collecção das
poesias imp-essas. TrasUdei-o do Dicciomrio bibliographico, preten-
dendo o seu erudito autor que esta foi a ultima composição de
Garção. No exemplar do 'Diccionario que possue o Gabinete por-
tuguês de leitura do Rio de Janeiro, e pertenceo á bibliotheca do
senhor Camillo Castello Branco, Ic-se á r.i.irgem do artigo sobre
o poeta, onde se emitte aquclla opinião, a nota — «.10 foi.
ODES.
Ode I, pag. 67. — A' nohreia c grauíUs de Torlugal é a de-
dicatória com que vem no Ms. de 1767. Conservei, porém, a da
edição de 1778, que particularisa a razão delia.
Ode II, pag. 77. — Escapou á collecção impressa. Trá-la o
Curso de littcratura portuguesa já citado, que a tomou do Ms. de
l''igueiredo.
Ode IV, pag 83. — Adoptei de preferencia a epigraphe do
'Parnaso lusitano por mais concisa e adequada. A das edições an-
teriores rezava assim: Sendo convidado o autor p*ra assistir a um
ponche, que se havia de fa^er no outro dia, elle guando veio trouxe
csla Ode. A Lydia com que falia c a do Sonelo XII e a DiCarilia
a do Soneto II.
Pag. 83, lin. 14. — Comamos, bebamos, murmuramos.
(.Ms. de Figueiredo).
Neste manuscrito a Ode não vae alem da nona quadra.
Ode
Eis
Pas
pag. 86. — No Ms. de 1767 c dedicada á Constância.
ariantes á esta Ode no Ms. de Figueiredo:
24
8S, lin,
I5-If-
(. — Ligado com aspérrimas cadeias
Ao hórrido penedo;
.). — Innocente se julga; á força iniqua.
2. — Deve immovel solTrer uma alma nobre,
O' Silvio esclarecido.
6. — Como no tecto rico,
5. — Com dourados bezerros long.i terra.
7, — .\o negro mar que freme,
O procelloso Arcturo;
— A pérfida mentira
— Com os titubantcs braços o crimine.
— Sò de delicto pôde o vil remorso.
— K a consciência pura, a fé intacti,
— Não fantásticas honras tanto ensiiião.
— Os Uticenses, Régulos c Camillos
— As lethargicas ondas
Do Letlies somiiolento.
— 598 —
Pag. 89, lin. I. — Peça a gineta o tímido guerreiro,
Que com a espada limpa
» » » í. — Descubra o desvalido
» » » 17. — Estende os tibios raios pelas ondas;
» » » 34. — Na comprada balança
>) 90, lin. 5. — Da memoria immortal da fama illustra.
>i 11 » 8. — Náo roga, nâo se abala.
Ode VI, pag. 91. — No Ms. d: 1767 é como a precedente
também dedicada á Conslancia.
Nella imitou Garção com muita felicidade a Ode lII de Ho-
rácio, liv. III, que começa por estes bellissimos versos:
Justum ac lenaceiíi proposiíi viruiii,
Non civium ardor prava juhcniium,
Non vullus inslantis tyranni
Mente guiilií solida iteque Auster.
Pag. o T, lin. 2. — O constante varSo que firme e justo
» .. )i 5. — NSo teme, nâo receia.
» » » 8. — No potro soffra aspérrima tortura
>> 92, lin. 6. — Foi infiel a Galba?
'■■ t, » 14-15. — as aras jurem que me virão
Sempre a seu lado.
» )) » 20. — D'amad.a pátria o nome repetindo.
» 93, lin. 3. — De Galba foi amigo. Adonde! adonde !
Ode VII, pag. 9^, lin. I 2. — Dobra os ulmeiros, os curraes destelha ;
Pag. 94, lin. 16. — A roxa face no pelico esconde;
» 95, lin. I. — Alli ajunta as podadas vides
)i nu 5. — Pulâo nos olUos lagrimas que enxugâo
n ). n 7. — Insanas dores reflexões pesadas
» » » 11-12. — Corre assustado, d'um fuzil o cega
A luz vermelha!
u >i 1) 17. — Ficou partida do voraz corisco,
» 96, lin. 5 6. — Agora, dize, quem seguro vive?
Amado Silvio da infiel fortuna,
(Ms. de Figueiredo.)
Ode VIII, pag. 97. — Innocencio diz que esta ode ou hymno,
bem como as seguintts a S. Norberto, a S. Thomaz de Aquino e a
St" Ubaldo forílo as únicas, que sabe terem sido impress.is em vida
de G.jrçlr). Acli.io-se, segundo elle, bem como outras de diversos au-
tores no volumiiiho, que Francisco Jo>é Freire deo á luz com o titulo
Siiulos Tatronos contra as tempestades e raios e accresceuta: « não
será inopportuno observar que cssis odes Uie renderão em retri-
buição umas cinco empanadas, cora que foi presenteado pelo F. Frei-
re, as quaes elle altamente elogia e agradece em uma chistosa carta
missiva, cujo facsiniile conservo em meu poder. » (Vide Dicc. bibl.
artigo Garção).
Fiz as maiores diligencias pira obter essa carta, afim de com
ella enriquecer a presente edição, mas nada consegui. O digno
continuador de Innocencio, o Siir Brito Aranha, arrematante de
grande parte de seus papeis, não a encontrou entre elles. Assim o
affirmou ao amigo e compatriota, o d stinct") poeta Dr Luiz Gui-
marães, que com a maior gentileza se prestou ás minhas importu-
nações na lida Je descobrir manuscritos e autographos de Garção.
Pag. 97. lin. 3. — Teu nome Santo no escalvado monte.
» n )i 5. — Da árida penha.
): '. 8. — Sonoros ventos rapidjs chuveiros.
n n H 11-12. — Vermelho raio súbito rasgando.
Nos negros ave vio cruzar silvanJo.
)i 7S, )i 8. — Pallidos tremem
(Ms. de Figueiredo).
Ode IX, pig. 09, lin. 2-7. — Espíritos rebaldes, que as intensas
Aljavas scintillantes
As feias legiões de nuvens deusas
Armaes de roxas farpas crepitantes
Fugi para as distantes
Incultas brenhas de árido deserto,
Pag. 99, liii. II. — Do leão de Judá; do escudo alçado
» » 1; i;. — Settas que dentro d'alma lhe atroarão
.> 100, ' •)• — Astros brilhando o carro luminoso
)i .. „ 6. — A mão potente que se toca os montes
>i n )i 9- ~ Indómito e valente
)) .1 ., I 3 — Que o bruto do trovão espavorido
), ; n 21. — Nas azas dos coriscos espantosos.
11 10 1, ). 2. — K ao puro firmamento
» ,. n 5. — Que ouvio o claro accento
>i ), » 8. — Movido pois a) nosso rogo ardente
» ), 11 10. — Dissipa em teu nome tanto fogo,
(Idem).
'^^'^^'^^^0^"^y^'-'
'.■^'iv'^')
— 6oo —
Ode X, pag. 102, liii. IO. — Attente a nossos damncs
Pag. 102, lin. 14. — Que desatâo em raios as estrellas.
» 103, » 7. — Ampara-nos, Thoraaz; lembre-te quando
» » » 18. — E com fraterno sangue rociava.
» 104, >i I. — De fumo ardente um mar caliginoso.
(^Is. de Figueiredo).
Ode XII, pag. 107, lin. 54. — Se já ouviste Conde magnânimo
A minha pobre ciihara rústica '
Pag. 107. lin. 7. — Ouve, que aos versos honrados titu^os
» 108, » 4. — Seguirão outra bússola:
» 109, " 9. — Com lentos passos calcando os túmulos.
» » •> II. — Larga as confusas cinzas.
(Idem).
Ode XIII, pag. 112. — No Índice do Ms. de 1767 está dedi-
cada esta Ode aos annos de uma irmi do poeta. E, porém, evi-
dente de seu mesmo contexto o equivoco.
Também é do mcsmo Ms. a seguinte variante :
Pag. 114, lin. 24, — A meu tyranno império ver curvado
O teu rispido collo.
Ode XV, pag. 121, lin. 4. — As estridentes settas empinando;
Pag. i2i,liri. 8. — As crespas azas sera cessar batendo,
1) » » 12. — Os domados farpões muitos provarão,
1) » » 4. — Em bandos se espalharão.
)i 122, » I. — Com um doce riso cor\ um celeste agrado
» » » 7. — Nunca tâo bella aurora ou ',5.n brilhante
» » » 10. — As virtudes gentis do céo baixarão;
» » )) II. — E cantando as acções dos seus maiores,
» » )) 17. — As castas Musas vestidas de gloria
» 123, » 3. — Apezar dos defeitos anhelautes, •
» » » 18. — Pretende assignalar cora faustas glorias,
» 124, » 13-14. — O veloz tempo rompa a fouce dura;
E o sol gyrando seus frisões ufanos
» » i> 16. — O dia de seus annos.
(Ms. de Figueiredo).
Ode XVI, — Tomei do Parnaso lusitano a epigraphe desta
Ode, que nenhuma traz nas edições anteriores. No Ms. de 1767
iuscreve-se simplemente — <i Riqueza. Do próprio contexto, porém,
verifica-se a ausência de toda a generalidade e a applicaçâo espe-
cial á situação de um favorito das Musas.
^^■^^,^>
— 6o I —
Pag. 125, lin. 4. — A passagem não vejo do Granico
)) 126, » 7-8. — Q.ue os pastores do Menalo me recebão
Do Menalo nos jogos !
(Ms. de Figueiredo).
Estes dons versos forJo omittidos nas referidas edições.
Pag. 126, lin. 9. — O mineiro na lavra a.llicto cave
11 >i I) 15. — Soffra na linlia a podre calmaria
» » n 25. — Para a vermelha cruz luzir no peito
(Idem).
Ode XVII, pag. i 50, lin. 17. — Não é preciso ^ju; venal propheta
Aponte como dedo para a cinza.
.Allnde o poeta a certo individuo, que em tr^ijos de propheta
vae apontando para uma salva cheia de cinza na procissão deste
nome. (JParnaso lus., tomo III, pag. 299).
Ode XVin, pag. 135 linh. 4. — Na solitária praia
Pag. 135, lin. 9. — Em que vermelho sol detrúz da serra
)i !) » 24. — Os ares destes campos?
» 156, )j 15. — Contra o céo conmetterão teus pastores V
n » > 22. — Q.ue em doce paz descansão?
■> 137, » 2. — jamais a ver não torriSo
» 138, » 1-2. — H soberbas columnas levantamos
Palácios magestosos:
» ') ). 6-7. — Cobrir na fatal hora!
Escondem frias campas igualmente
>j no 9. — Tudo deve acabar. O' caro Fido!
(.Ms. de Figueiredo).
Ode \IX, pag. 150. — A epigraphe no Ms. de 1767 a esta
Ode é: Ode no Coronel MãL-bían convidanJo-o para ir jantar com
clU c o Conde de S. Vicenle, coronel do mar, elle se cxciísou por
andar em casa f<>;^ei:do uma escada. A do Ms. do Cónego Figuei-
redo pouco differe : ^4o intendente d'artilharia ViCacbean, que dam
um jantar ao Conde de S. Vicente e aos dous JVcinholti, convidando
o .^4. desta Ode, que se desculpa.
Por demasiado longas deixei de empregar qualquer delias.
Pag. 139, lin. 10. — A postiça gadelha afaga e puxa
» » n 13. — Q,ue Sylla mais cruel o sol daria
» 140,» 1. — Furibundo petardo d'outra parte
■r'^m^ ■':\:-^^^^ir'^H^
— 602
Pag. 140,
» »
i. 141,
lin.
4-
7-
'9-
3-
15.
» 142,
»
6.
Ode XX,
10 Ms. de
Pag- 14?,
P^g-
1767
lin.
143.
a det
2.
145.
146,
Que siflâo pelos ares
Nas ondas inda mostra o grande Carlos
Os domados rabões esporeando
Se quireres vencer os Alexandres
Tu, que escadas não fazes, passas alegre
Namorado de seu valor
Da curva porçolona que retine
(M. de Figueiredo).
g. 143. — Tanto esta Ode como a seguinte trazem
a dedicatória: ao 'Pinheiro, capitão de mar e guerra.
— Quantos caro Pinheiro toda a vida.
4-5. — A triste vida passão para verem
Cobrir-lhe as sobrancelhas
Uma borla encarnada? Quantos buscâo
A chimerica palma?
11-14. — Na canicula treme
Com frio susto á vista da trincheira
O bárbaro soldado
Que a musica mistura dos batidos
16-17. — Cos últimos suspiros; pelos ares
Pelouros assobiâo
1-2. — Como tropel dos cavallos grossas nuvens
De escuro pó levanta
7. — Em débil lenho entregue a longos mares
11-14. — Entre a grossa saraiva o retorcido
Fulminante corisco
Estala a fraca verga a solta vela
Ondeando sussurra!
16. — Do que a dura pobreza.
21. — Vai perder-se n'um dia porque gosta
7-1 1. — Este pela empinada serra açula
O javali hirsuto
Britânicos sabujos: o alarido
No fundo valle assusta
A inquieta pastora que espantada
2. — D'hera verdes c'roas
6--. — Escute ao novo canto
Com a verde cabeça fora d'agua
10. — Negar-me e um nome eterno.
(Ms. de Figueiredo_).
ij^-
- ío; -
Ode XXI, p.ig. I 4~, lin. 4. — Com fossos e com muros guarneciJa
Pag. 147, li:'.. 6. — Executar, ponim, o grande pI.)iio
» » Ji t). — Dido, Rómulo ou Remo
» » » II. — Pela breada enxárcia Africo ou Noto
» 1 11 13-16. — Impávido e previsto
Se de lotiga experiência acautelado
Te não visses então, que te valcr.i
» 148, >) 5. — .\ssim é ou devia ser, mas vemos
a » M 9-10. — Com perversa malícia uns aos outros
Hnganar-nos queremos
)j » n 12. — Hvpocritas tyrannos
í » ij 17. — .\lternao as reciprocas saúdes
» 149, " 4-5. — Q.ue ni.-xis faria o bárbaro Argelino
Se c"o estreito chaveco te abordara
n » » 12-15. — A r.ipid.i soberba.
Ou fera pois ]X vio a antiga Roma
n 149, lin. i:. — Um faminto leão lamber as plantas
11 <> >i ig-2o. — Abriste as brancas azas que agitadas
Nos ares te equilibrão
)) i 50, ') 5 6. — Cobrisse a luz do sol, vacilia tudo
A luz do dia foge, foge a terra
Ao seu primeiro cahos reduzido
') 'I » B. — nis surge o fingimento
') 1 .; II. — No sopliistico ornato disfarçando
)) )) •> 17-19. — H nesta férrea idade fracas almas
Almas de feios vicios opprimldas
Da prófuga amizade ?
•> 151, » 8. — Te insulta ou te infama
)) » 1 III 5. — Os olhos scintillar do cerval lobo
A casa dcsamparSo.
j.i não vemos Euryalos e Kisos
E para renascer a extensa casa
Esperas nova Pyrrha ?
(.M.s. de Figueiredo).
Ode XXII, pag. 152. — Esta Ode é uma bellissima imitação
da XXXI de IIor.,cio, l;v. I, que assim começa:
Q:thl, âedicalJiii J^cscií Jfoíliium
rales ? Quid ora de palera novum
Fuitílcns liquorem ?
Pag. 155, lin. 6. — Do fulvo Tejo araras fortes margens
)i ,1) 9. — Os rufos touros as castanhas vaccas
iA\.-.
— 6o4
Pag. I54,lin. 12. — Nem pérolas luzentes.
» » >i i6. — Parece que domina.
» 153, )i II. — Nâo quero mais que ver na frágil meza
)i M i> 15-14. — Um limpo copo com que neste grande
Neste sò para mim prospero dia.
» » >i I 7. — Com mui pouco se mata a crua fome
>i » » 19. — Ou pobre ou rico viva tenho a lyra
» 154,-) 5. — Tempos depois virão que desferindo
>i « )' 7. — Arrazadas as ondas de turbantes
» » » 9. — Do negro sangue as armas rodeadas
>> » » 12. — As roxas màos torcidas.
)i )i )> 16. — De gloria e de fortuna.
(Ms. de Figueiredo).
Ode XXIV, pag. 159. — No Ms. de 1767 esta Ode vem
dedicada ao Coronel Walnot. O equivoco é palpavtl. No Ms.
do Cónego Figueiredo ella se inscreve aos annos da Senhora D...
Arminda, provavelmente, se esse nome que se encontra no final,
nâo é propriamente poético. No mesmo Ms. é a primeira que O
coUector classificou Odes profanas.
Ode XXVI, pag. 166. — N.10 lhe pude conseguir o original
inglez, nem tão pouco saber qual o Sertório que nella se canta.
Percorrendo a lista dos pintores inglezes notáveis nenhum deparei
com esse nome. (Vide La peinlure anglaise, par Ernest Chesneau).
Ode XXVII, pag. 168. — Esta Ode bem como as seguintes
até pag. 180 encontrâo-se estramalhadas no fira do volume da
edição de 1778 e sem numeração. A mesma desordem foi escru-
pulosamente observada nas subsequentes. Reuni-as e numerei-as,
segundo o lugar em que nellas se achâo.
Ode XXVIIl, pag. 170. — A epigraphe pertence á ediçio
de 1825. O Parmso lusitano a adoptou na selecção das poesias
de Garção. (Vide tomo III, pag. 519).
Pag. 170, lin. 10. — Emquanto sobre a relva se reclina.
)i ), 1) 14-15. — O nâo vAo perturbar no brando somno
A sórdida ambição.
» 171, I) 12. — E aos malliados tigres
» 172, 1 3-4. — De estéril murta de cheirosas plantas
E o campo que ondeava
D » » 9. — No seio das delicias e regalos...
(Ms. de Figueiredo).
— 6o5 —
Ode XXXI, pag. 178. — Vários pensamentos e imagens desta
composição ver-se-hão adiante reproduzidos na ode XXXIV ao
Síintissinw Naíal, inédita. O autor por qualquer motivo abandonou
a metrificação alli adoptada, e fundio aquelles versos nest'outros.
Dirão os entendidos se teria razão, e qual a preferencia entre as
duas.
Ode XXXII, pag. 181. — Kâo está em nenhuma das edições
precedentes. Fui encontra-la, como já declarei, por inJicação de
Innocencio no tomo III do Parnaso lusitano a p.ig. 327.
Ode XXXIII, pag. 184. — Inédita; pertence ao Ms. de 1767.
Ode XXXIV, pag. 187. — Inédita; acha-se no Ms. de 1767 com
.1 nota incompleta.
Ode XXXV, pag. 192. — Ir.eJita. 'No Ms. de 1767.
Ode XXXVl, pag. 194. — Inédita; delia apenas archivou no
seu Ms. o Cónego Figueiredo as linhas que vão impressas. Jul-
guei não dever omitti-las apezar de formarem um verdadeiro troço
de Ode. Pôde ser que esteja alhures coroada de fuste e capitel,
se realmente o autor a concUiio.
EPISTOLAS.
Epistola II, pag. 201. — H do Ms. de 1767 esta epigra-
phe : El'islolã a um ministro seu amigo, que eslava em a Provín-
cia lio Minho e lhe pedia fosse para lá, porque linha um tio que
lhe queria deixar uns prados.
Epistola III, pag. 207. — A numeração é minh.i. Na edi-
ção de 1778, onde se acha desgarrada no fim do volume, depois
da p.irte em prosa, não a tem.
O seu melhor elogio, diz Innocencio, traçou elle (Garção) a
si próprio nesta epistola. (Vide Di:c. 'Bihl., art. Garção).
Epistola IV, pag. 210. — Inédita, porém com a nota incom-
pleta no Ms. de 1767.
Falia do Infante D. Pedro, pag. 220. Este poemeto como
o denomina o Snr Visconde de Correia Botelho vem co Ms. de
Figueiredo com a seguinte nota : Tara a academia dos Occul-
'^X^'^'\
— éo6 —
tos, J7S4. Pretende aquelle escritor ter servido pari estreia de Gar»
(io na dita Academia. N,1o podia na verdade estreiar com mais
brilhantismo.
No appendice da obra Brasil and Bra^ilians, por Kidder e
Fletcher, os autores vertendo pari o inglez esta poesia a attribuem
ao Snr D. Pedro II, Imperador do Brazil. Dizem elles : The
follovjing Unes were composcd by "D, Pedro II and turitlen hy htm
in the albittn of one of lhe maids of honor. They vjere djiblless
luver intended for the public eye, hut were oblaiued ihrough a mem-
b.r of the diphmalic corps at 'Rio Janeiro.
O faro do inculcado diplomata foi singularmente extraviado;
d.- certo teri.i melhor conhecimento de Wattel e de Martens do
que de poetas portuguezes. Mais segura informação comtudo le-
vou aquelles escriptores a eliminar da seguiid.i edição do livro
essa parte do appendice.
O Imperador trasladaria para o albam de alguma dama (ouvi
fallar na Condessa de Sarapuhy) assignando-a, uma poesia de
sua predilecção, sem jamais cuidar lhe attribuissem por isso »
autoria, pretensão que ninguém de boa fé lhe poderia emprestar
tão conhecida é ella de quem possuir a mais leve tintura da
litteratura portuguezi. Q.uaJrão, porém, tão bem os sentimentos
expressos no poema com os do Monarcha brazileiro, que facilmente
se desculpa o equivoco do diplomata.
Como o Infante de Portugal, o Imperador D. Pedro II também
nobremerte recusou a estatua que a gratidão nacional pretendia
erigir-lhe. Fè-lo na conhecida carta dirigida ao illustre estadista
brazileiro, Cons." Paulino de Souza, então Ministro do Império,
adiante reproduzida em fac-simile. Nesse documento de mór valia
para a historia de seu reinado destacão se era brilhante relevo as
eminentes qualidades do soberano ; admira-se a um tempo a mo-
déstia da recusa e a generosidade dos intuitos na applicaçSo re-
commendada.
A abnegação não ó aliás o único traço distinctivo do caracter
do Imperador. Iria, porém, alem do meu propósito invadindo
assumpto propriamente biographico, se me detivesse na enumera-
ção de vários outros factos, que espelhío uma alma coroada de
muitas e grandes virtudes, como diria o famoso dominicano por-
tuguez. No emtanto corria-me o dever de assignalar a munificên-
cia, que permittio fosse enriquecido este volume com o alludido
fac-simile, e ante a qual me inclino profunda e respeitosamente
reconhecido.
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6oS
O original desta carta foi incluído nos alicerces da Escola de
S. Sebastião na cidade do Rio de Janeiro por occasiâo do assen-
tamento da primeira pidra.
SATYRAS.
Satyra I, pag. 231. — A epigraphe t do Parnaso lusitano.
Alii se Ic o seguinte conceito :
« Nesta satyra onde se nota toda a correcção épica, que se
admira nas de Boileau, mofa o autor de certos zoilos, que (inca-
pazes de reflectir que nenhuma palavra é rasteira quando é bera
collocada e congruente ao assumpto) tinhão censurado alguns
termos ao poeta, taxando-o de baixos. K pena que Garção fosse
tão parco neste género de poesia, pois só estas duas satyras nos
deixou. Mas elle retocava muito as suas obras, e nâo as avaliava
pelo numero. (Obra cit., tomo III, pag. 55).
Innocencio menciona a existência de uma Satyra inédita accu-
sada por Luiz Raphael Soyé no prologo do seu poema o Sonho,
onde transcreve delia este único verso:
« Ao rábido furor do pedantismo »
Kão pudi dcscobri-Ia. Sei, entretanto, que o Snr Theophilo
Braga encontrou uma também inédita em um leilão de livros á rua
larga de S. Roque em Lisboa. O Ms. porém foi-se, com grande la-
mento seu e meu.
Satyra II, p-ig. 258. — Tomei igualmente do 'Parnaso lu-
sitano a epigraplie desta Satyra, que nas outras edições é dedi-
cada ao Conde de S. Lourenço. A respeito delia assim se ex-
prime o compilador :
<t Com as armas do ridículo combate o Garção nesta segunda
satyra alguns cegos admiradores das phrases e termos antiquados ;
porque sem discernimento e escolha introduzião em assumptos
sérios as palavras mais rasteiras só porque erão antigas » . (Obra
cit., pag. 62).
— é09
DITHYRAMBOS.
Dith. I, pag. 248, lin. 3. — Nos lindos ollios vivo rutilando
Pag. 248, lin. 3. — Paixão, tristezas, magoas, temores.
» 249, » 19-20. — Das Tercygedes Pliyadas raivosas
Coricei escutando
» 250, » I. — No prado ameno
» u i> 16. — Dourado este dia
(Ms. de Figueiredo).
Dith. II, pag. 253, linh. 5. — Crepitantes lanças te não prendem,
(Idem).
CANTIGAS. '
Cantiga I, pag. 267. — Inserta no Ms. de 1767 com esta epi-
graphe : Cantiga de Pedro ^nlotiio Garson ao acaiiipaineiito que fe<^
no "Rio frio em ij68.
Cantiga I, pag. 269, lin, 16. — Da feia gente estrondosa.
» » 271, » 15. — O teu nome annunciarei.
(Ms. de Figueir.'do).
Cantiga III, » 277, » 5. — AUudeaopellicano deouro,
que a família dos Alencastros tem por timbre de suas armas.
(Nota da edição de 1768).
ENDECHAS.
Endecha II, pag. 284 lin. 5. — Depois que os teus olhos.
(Ms. de Figueiredo).
THEATRO.
II (Garção) s'est aussi efforcé de reformer le théàtre et de
donner á sa patrie quelques poésies dans la maniére de Térence.
l.a première qu'il a intitule Theatro 'Njovo, est plntôt un cadre
pour exposer ses príncipes sur l'art dramatique et faire la cri-
— éio —
tique de ce qui existait dèjà, qu'uiie coméJie faite pour devoir
ses succès à elle méme. Une autre piéce de lui intitulée As-
senihUa ou Partida, est une satyre du beau monde, à peu prés
dans le genre du Cercle de Poinsinet. (Simonde de Sismondi, De
la litt. du iiiidi de VEurope, tome, IV pag. 542).
Theatro Novo, pag. 285. — No Ms. de 1767 se diz haver
sido esta comedia representada no theatro do Bairro Alto em 1766,
O Snr Theophilo Braga em carta que tenho á vista, referindo-se a
nma CoUecçào das ohms poelicas de P. A. Corria Garção copiadas
por António Lourenço Caminha, escreve que no fim da Comedia
depara-se com a seguinte curiosa nota: « Este finaUsado drama se
representou no theatro do líairro Alto em 22 de Janeiro de ij6&
e o povo espectador o não deixou acabar com paleadas e assobios. »
(/.. IS4).
Cantata, pag. 381.— Esta obra prima da poesia portugueza,
era a qual no dizer de um critico a situação e os sentimentos in-
times da heroina se desenhão em accordo t.io harmonioso, mereceo
ser agora vertida pela primeira vez para a lingua de Byron. A.
Mr. CoUard Stock, illustrado cavalheiro inglez e distincto cultor
das Musas, devo a fortuna de poder offerecer esse mimo aos ami-
gos das boas lettras. A traducção é como se segue:
CANTATA.
Mafdlda.
Now in the red East afar yet faintly gleaming
The proudly swelling sails of the swift Trojan fleet
Amidst the azure billows of the sun-gilt ocean
Flying on the wings of the winds are hid from sight.
The wretched, hapless Dido
Doth wander through the royal palace loud lamenting.
And still with tear-swolTn eyes in vain she seeks
The fugitive Eneas.
Nought but deserted solitary streets and squares
The new-built Carthage to her gaze reveals :
Upon the naked shore \vith awful tumult breaking
Rage through the livelong night the waves in solitude :
u^.- '^p<-^Pi^^'-'^<m'
And on the gilded piíinacles of lofty domes and temples
Nocturnal birds do screech with liarsh foreboding voice.
And from the marble sepnlchre ^vith terror she imagines
That from the cold ashes of the dead Sicheus
A thousand times she hears a feeble voice arise,
Crying with deep drawn sighs, Elissa, Elissi.
Then to the awful deities of Orcus she
The sacrifices due makes ready ;
But suddenly she sees, affrighted,
Around the altars smoliing with fragrant incense
A black scum boiling in the rich sculptured vessels :
And the wine poured in libations
Scems to her eyes transformed to crimson seas of blood.
She raves in wildest frenzy ;
Pallid is grown her lovely face,
Her silkeii tresses flow down ali dishevelled ;
Unconscious and with trembling foot slie enters
The once delightful chamber
Where from the now faithless lover
She heard with deep emotion
-Sighs so heartbroken mingled with soft complaints.
But there the cruel Fates did show to her
The Ilian garments, that still hanging
From the gilded couch with dazzling gleam revealed
The glittering shield and the bright Teucrian sword.
With a convnlsive hand she snatchís suddenly
From ont its sheath the blade refulgent,
And on the adamantine piercing steel
Her tender breast snow-white and crystalline she hurls :
And in bubbles of foam plashing and murrauring
Leaps the hot life-blood forth from the deadly wound :
With the red spouting gore bedewed and sprinkled
Tremble the Doric columns of the hall.
Thrice does she strive in vain to rise
And three times fainting back upon the couch again
Her body falis, while unto Heaven she raises
Her tortured dying eyes.
Then gazing at the lustrous armour
Of the fled Dardan chief,
These her last utterances did she repeat,
'f^f^
— 6l2 —
And the most pitiful and mounifiil accents
Still floating tlirough lhe golden arches of the roof
Long afterwards were hcard iii plaintive saJ lameiít.
O ye sweet treasures
Source of deep pleasures
To my glad eyne,
\Vhile Fate beguiled
And the Gods smiled
Consent beiíign:
Of Dido mouriifiil
The soul receive,
Froni ali these troiibles
My heart relieve.
DiJo unhappv
Has lived oiit her d.ivs:
Of lofty Cartliage
The walls she did raise :
Now naked and bare
Her shade alone
In Charon's bark there,
The hideous one,
Góes ploughiiig the stream
Bl.ick as night wiiliout gleam
Of Phlegethon.
Assembléa, pag. 374, lin. 16-17:
Quando a aurora apparece sempre ■'; C'.'Jo.
Eu aqui venho já co' a minha dama.
Nas edições anteriores este segundo verso c posto na bocca
de Branca a meu ver erradamente. Taes expres';òes c.iberiío antes
na de Jofre, que descera a buscar D. Mafalda e entrando na sa 1»
faria a sua apresentaçilo á companhia ahi reunida.
Assembléa, pag. 390, lin. 13 :
Victor serio, senhores, versi s, versos:
A primeira parte deste verso é incompreirensivel. Talvez indi-
casse alguma express.lo da época, parecida com o nosso « leva
rumor », ou o favete linguis dos Romanos.
- éi3 -
Assembléã, pag. 410, lin. 4 :
Deixará permear pelos seus vasos (edição de 181 2)
em vez de
Deixará premiar pelos seus vasos,
como se lè na edição di 1778. Preferi aquella lição que tenho por
•mais correcta.
Assembléã, Pag. 421, lin. 21 :
És tu TuUio, meu Braz? Eu não sou néscio,
Em todas as edições esta falia é proferida por Florestão. Nada
mais absurdo. Florestão é escudeiro de Braz Carril e no correr
da comedia nada se vè que possa autorisar linguagem tão fami-
liar para com seu amo. Também nâo consta que em tempo al-
gum lhe houvesse emprestado dinheiro. Q.uem o fazia, segundo
lè-se na Scena 1, era o amigo Gil. A este, portanto, e não ao
■escudeiro melhor pertencem as censuras dirigidas ao araphytriâo.
Assembléã, pag. 393, lin. 5 :
Os cabellos subtis de Amor um dia
P*g'393i''"' '• — Outras andâo mil gemmas preparando
» » » II. — Porque Aglaia lhe está as cãs atando.
(Ms. de Figueiredo).
<^^\
índice.
índice
Dedicatória Pag- vii
Introducção xit
PARTE I. — POESIA.
So\"i;tos.
I I
II. A Siir.i D. Maria Joaquina de Gusmio
e Vnscoiicello5 J
lII 3
IV. 4
V. \ mesma fenliora S
VI. A mesma seiíliora C>
VII 7
VIII. ... - N
IX 9
\ IO
\1. Á Snra I). Maria Caetana de Souza Sey.lo ii
\1I. Á Snra D. Helena Felippa Xavier Na-
varro lí
XIII 15
XIV M
XV. Aos annos do Coronel de Aitilluria I-re-
derico Weinholtz i {
XVI "6
- 6i7 -
^\K
x-
.■Y-.
XVII Pag. 17
XVIII ig
XIX 19
XX 20
XXI. Ao Snr Theotonio Gomes de Car-
valho, sócio da Arcádia 21
XXII. Aos annos do Snr Theotonio Gomes
de Carvalho 21
XXIII. Aos aunos do mesmo senhor ... 2}
XXIV. Ao mesmo senhor 24
XXV 2$
XXVI. Ao Padre Francisco José Freire, da
Congregação do Oratório e sócio
da Arcádia, mandando-lhe pedir ta-
baco hespanhol 26
XXVII 27
XXVIII. A calva do Padre António Delfim,
amigo do autor 28
XXIX. Ao Padre Delfim 29
XXX. A calva do mesmo 30
XXXI. Ao Padre Delfim ji
XXXII. Ao fogo que houve em Alcântara
n'um grande monte de tojo, al-
ludindo á calva do Padre Delfim }2
XXXIII. Ao Padre Delfim jj
XXXIV. A calva do mesmo J4
XXXV. Ao Padre Delfim 35
XXXVI. Ao mesmo 56
XXXVIl. Á calva do Padre Delfim 37
XXXVIII. Ao Padre Delfim 38
XXXIX. Ao mesmo 39
XL. Ao mesmo 40
XLI. Ao mesmo 41
XLII. Ao mesmo 42
XLIII 43
XLIV. Aos annos da Snra D. Marta Eu-
phrasia 44
— CiS —
XLV l>ag. 4;
\LVI. Aos niiiios da Siira D. Cimilla . . . (í
XLVII. A uma senhora, a quem o autor cha-
mava sua mãe 4-
XI.VIII. A [ernnvmo Henriques de Sequeira 4S
X1'I^- .•'...' 49
L 50
'^' 5-
l.H S2
LHI 5i
I-IV, Ao terremoto Jo pj imeiro de novem-
bro de 1755 5,
LV. A sua mulher a Siira D. Maria Anna
Xavier de Sande e Salema ... 55
I.VI 56
I.VII. A morte de Félix Contiulio .... ;;
I.VIII. Contra |osé Basílio da Gama .... 58
Ll.\. Contra um rancho satyrico $■;
LX 60
LXI 61
LXII. .\o I'adre António de S. Jeronymo
Justiniano, Capellâo do coro de
N. Snra do Loreto. da NaçAo ita-
liana (2
LXll! 63
LXIV. A .«Xntonio Diniz da Cruz 64
Odi:s.
1. .'\os fi.ialgos qnc protcgi.io o thc.Uro do
Rairro Alto 67
11. Ao Kxmo Conde de Oeir.is 7i
III. .\ Sura 1). Maria |oaqn'na de Ciusni.l»
e Vasconcello^ 81
IV. O ponche S -,
V. k Virtude 81-
6i9 —
•f.
VI. Á mesma Psg. 9 i
VII. Ao Snr Manoel Pereira de Faria, so-
JV cio da Arcádia 94
VIII. Ao beato Bernardo, Marquez de Badeii 97
IX. A S. Norberto, Bispo e Confessor . 99
X. A S. Thomaz de Aquino doutor e
jl Confessor 102
i'' XI. A S. Ubaldo, protector da cidcde de
f Eugnbio, Bispo e Confessor ... 105
f XII. Ao Snr Manoel Pereira de Faria, so-
ii cio da Arcádia 107
XIII, Aos annos do Coronel d' artilheria
Frederico Weinholtz 112
XIV. A. restauração da Arcádia 116
XV. Aos annos da Illma e Exn-a Snra
D. Leonor de Almeida 121
XVI. A riqueza de um poeta 125
XVII. Ao Padre António Delfim ..., . 128
XVllI. A morte de José Gonsalves de Mo-
raes, sócio da Arcádia 134
XIX ,39
XX. Ao Snr Gaspar Pinheiro da Caniera
Manoel 145
XXI. Ao mesmo 147
XXII .... IS2
XXIII. Aos annos do Snr José Carlos Mardel . 155
XXIV ■ . . 1J9
XXV 163
XXVI. Traducçâo de uns versos ingle/es fei-
tos a um seu grande pintor ... 166
XXVII 16S
I XXVIII. Á vida rústica 170
I XXIX 173
\ XXX. A Horácio 175
XXXI 178
XXXII. o suicidio 181
•-^■- XXXIII, A uns annos ds uma senhora ingleza 184
— 620 —
XXXIV. Ao SS. Natal Pag. 187
XXXV 192
Epistolas.
1 197
II. Ao Senhor Dr. João Kvangeiista 201
111 207
IV. Ao Exmo Senlior Conde de Oeiras, secre-
tario do Estado 210
— Falia do infante D. Pedro, duque de Coim-
bra, aos Portuguezes, querendo-lhe le-
vantar uma estatua pelo seu bom go-
verno, o que elle nâo consentio . . . 220
— k. feliz acclamaçSo do Snr Rei D. José I
de gloriosa memoria. — Romance hen-
decassyllabo - 224
Satyras.
I. O poeta 251
II. Sobre a imitaçSo dos antigos 238
DfTHYRAMBOS.
1 247
II. Ao Snr António Dinz da Cruz e Silva,
sócio da Arc.idia 252
Motes h Glosas.
1 257
II ■ 360
III. Tudo faz o Padre António 265
- éíl -
Cantigas.
I Pag. 267
II 272
— Ao Divino Espirito Santo no anno em que
sérvio de Imperador um filho do Itlm° e
Exm» Snr D. José de Alencastro .... 275
Endechas.
1 281
II 284
PARTE II. — THEATRO.
Theatro Novo (drama) • . . . 289
Assembléa ou partida (drama) 339
PART^ III. — PROSA.
Dissertações.
I. Sobre o caracter da tragedia propondo ser
inalterável regra delia não se dever en-
sanguentar o theatro e no desempenho
de cujo drama devem reinar o terror e
a compaixão, para que assim com esta
representação se purguem os espectado-
res destas e outras semelhantes paixões 431
II. Sobre o mesmo caracter da tragedia e uti-
lidades resultantes na sua perfeita com-
posição 44$
III. Sobre ser o principal preceito para for-
■ mar um bom poeta procurar e seguir a
imitação dos melhores autores da anti-
guidade 463
622 —
Orações.
I. Em que SC intima e persuade aos Árcades
se interessem em cumprir as leis da Ar-
cádia que erão enipenliar-se com todo
o esforço na restauração da eloquência
e antiga poesia portugueza . . Pag. 477
II. Em que se declama contra a falta de ap-
plicaçâo dos Árcades aos estudos, no-
t3ndo-os esquecidos já das leis da sua
empreza, e obrigações dos seus esta-
tutos 4S7
III. Hm que se persuade os bem devidos lou-
vores do nosso soberano, sempre augus-
to e fidelíssimo 505
IV. Km que trata de conciliar a seu favor as
vontades des Árcades contra falsas apre-
ciações que se liaíião levantado ... 513
V. Para se recitar no acto do juramento de
bandeiras do Regimento de Infanteria,
sendo Coronel delle o lUustrissimo e
Excellentissimo Marquez das Minas. . $23
VI S5>
VII 54 >
VIII 561
Notas e variantes )'i;
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1888.-
UNIVERSITY OF CALIFÓRNIA LIBRARY
Los Alceies
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